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MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS

 

 

Todos por Um

A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza

Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de
recorrer à vala comum

 

Calçada do Cordeal

Pequeno tambor orgia modesta
o lago tranquilo a descoloração
tintura de brancos e verdes floresta
o lago tranquilo a prostituição
candura doçura nos olhos em festa
mão no coração

A bola de vidro rola vis-a-vis
com as flores que altas são no jardim.
Há justos e réprobos porque o Senhor quis
vingar-se de nós porque sim

 

Rua do Ouro

Ai dele que tanto lutou e afinal
está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

 

A um rato morto encontrado num parque

Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como [não soube)
o milagre das patas - tão junto ao focinho! -
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário
Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo - com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa - e aos médicos -
ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos - vítima e carrasco
Não tinha amigos? Enganava os pais?
Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.
Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?
Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?

Fidelidade

Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o
livro do não trabalho
e diz cor de rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor de rosa em segredo
a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta
porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que
tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho
a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore

Tantos pintores...

A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.
Titânia e a cidade queimada

O Jovem Mágico

 

O jovem mágico das mãos de ouro

que a remar não se cansa muito

e olha muito depressa (como se fosse de moto)

veio hoje ficar a minha casa

 

Vivia longe já se sabia

tão longe que era absurdo querer determinar

Metade campo metade luz

aí era a sua casa o sítio onde era longe

 

mesmo de olhos fechados (como ele estava)

e de braços cruzados (como parecia dormir)

o jovem mágico das mãos de ouro

que era todo de empréstimo à minha noite

 

que falou por acaso que nem se chamava assim

(segundo também contou) tinha vivido há muito

ele, que estava ali, era um falsário

um fugido de outro basta ver os meus olhos

 

nada sabemos de nós a não ser que chegámos

sem uma luz a esconder-nos o rosto

belos e apavorados de estranhos casacos vestidos

altos de meter medo às aves de longo curso

 

nem há noites assim não há encontros

ao longo das enseadas

não há corpos de amantes não há luzeiros de astros

sob tanto silêncio tão duradouro treva

 

 

e não me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço

eu vou nascer feliz numa cidade futura

eu sei atravessar as fronteiras das coisas

olha para as minhas mãos que te pareço agora?

 

No entanto surgiu como simples criança

conseguia sorrir sentar-se verter águas

com as mãos na cintura livre natural

ele que era um fantasma um fugido de outro

 

um que nem mesmo se chamava assim

o jovem mágico das mãos de ouro

desaparecido nu de todos os sítios da Terra

 

Rua do Ouro

 

Ai dele que tanto lutou e afinal

está tão só. Tão sòzinho. Chora.

Direcção da Companhia Tantos de Tal.

Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.

 

Chora, porquê? Ora, chora.

Uma crise de nervos, coisa passageira.

É, talvez, pela mulher que o adora?

(A êle ou à carteira?)

 

Seis horas. Foi-se o pessoal.

O homem que venceu está sòzinho.

Mas reage:que diabo. Afinal... 

E olha para o cofre cheínho.

 

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz

batengo com os punhos na mesa.

Lutei e venci. Sou feliz

E bate com os punhos na mesa.

 

Seis e meia. Ó neurastenia

o homem que venceu está de borco

e sente uma grande agonia

que afinal é da carne de porco

que comeu no outro dia.

 

É da carne de porco ele diz

vendo a chuva que cai num saguão.

É da carne de porco. Sou feliz.

E ampara a cabeça com as mãos.

 

Durante toda a vida explorou o semelhante.

Por causa dele arruinaram-se uns cem.

Agora, tem medo. E o farsante

diz que é feliz diz que está muito bem.

 

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?

E vê as horas no relógio vizinho.

Mas, ai, não é tarde nem cedo.

Ele, que venceu, está sòzinho.

 

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros

Os outros, os que o queriam vencer!

Arruinou-os, matou-os aos poucos.

Então não o queriam lá ver?

 

Sim, reage: Esta noite a Leonor

amanhã de manhã o Sàlemos

e depois? Ah o novo motor

veremos veremos veremos

 

Mas pouco do que diz tem sentido.

Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.

O homem que venceu está vencido.

O dinheiro tapou-lhe o caminho.

 

Os filhos? esperam que êle morra.

A mulher? espera que êle morra.

O sóciuo? Pede a Deus que êle morra!

Só a Anita não quer que êle morra!

 

Ai, maldita carne, murmura

vendo a água que há no saguão.

Tinha demasiada gordura!

E veste o casaco e o gabão.

 

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.

Vai sair. Talvez vá jantar?

É inverno. Lá fora, faz frio.

 

O homem que venceu matou-se

na margem mais escura do rio

ao volante dum belo Packard