ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Fernando Pessoa - MENSAGEM

 

PRIMEIRA PARTE - BRASÃO
  Bellum sine bello.

          I. OS CAMPOS 

          PRIMEIRO / O DOS CASTELOS 

          A Europa jaz, posta nos cotovelos:
          De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
          E toldam-lhe românticos cabelos
          Olhos gregos, lembrando.

          O cotovelo esquerdo é recuado;
          O direito é em ângulo disposto.
          Aquele diz Itália onde é pousado;
          Este diz Inglaterra onde, afastado,

          A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
          Fita, com olhar sphyngico e fatal,
          O Ocidente, futuro do passado.

          O rosto com que fita é Portugal.
 

          SEGUNDO / O DAS QUINAS
 

          Os Deuses vendem quando dão.
          Comprase a glória com desgraça.
          Ai dos felizes, porque são
          Só o que passa!

          Baste a quem baste o que Ihe basta
          O bastante de Ihe bastar!
          A vida é breve, a alma é vasta:
          Ter é tardar.

          Foi com desgraça e com vileza
          Que Deus ao Cristo definiu:
          Assim o opôs à Natureza
          E Filho o ungiu.
 

          II. OS CASTELOS 
 

          PRIMEIRO / ULISSES 

          O mytho é o nada que é tudo.
          O mesmo sol que abre os céus
          É um mytho brilhante e mudo —-
          O corpo morto de Deus,
          Vivo e desnudo.

          Este, que aqui aportou,
          Foi por não ser existindo.
          Sem existir nos bastou.
          Por não ter vindo foi vindo
          E nos criou.

          Assim a lenda se escorre
          A entrar na realidade,
          E a fecundá-la decorre.
          Em baixo, a vida, metade
          De nada, morre.
 

          SEGUNDO / VIRIATO 

          Se a alma que sente e faz conhece
          Só porque lembra o que esqueceu,
          Vivemos, raça, porque houvesse
          Memória em nós do instinto teu.

          Nação porque reencarnaste,
          Povo porque ressuscitou
          Ou tu, ou o de que eras a haste —
          Assim se Portugal formou.

          Teu ser é como aquela fria
          Luz que precede a madrugada,
          E é ja o ir a haver o dia
          Na antemanhã, confuso nada.
 

          TERCEIRO / O CONDE D. HENRIOUE

          Todo começo é involuntário.
          Deus é o agente.
          O herói a si assiste, vário
          E inconsciente.

          À espada em tuas mãos achada
          Teu olhar desce.
          «Que farei eu com esta espada?»
          Ergueste-a, e fez-se.
 

          QUARTO / D. TAREJA

          As naçôes todas são mystérios.
          Cada uma é todo o mundo a sós.
          Ó mãe de reis e avó de impérios,
          Vela por nós!

          Teu seio augusto amamentou
          Com bruta e natural certeza
          O que, imprevisto, Deus fadou.
          Por ele reza!

          Dê tua prece outro destino
          A quem fadou o instinto teu!
          O homem que foi o teu menino
          Envelheceu.

          Mas todo vivo é eterno infante
          Onde estás e não há o dia.
          No antigo seio, vigilante,
          De novo o cria!
 

          QUINTO / D. AFONSO HENRIQUES

          Pai, foste cavaleiro.
          Hoje a vigília é nossa.
          Dá-nos o exemplo inteiro
          E a tua inteira força!

          Dá, contra a hora em que, errada,
          Novos infiéis vençam,
          A bênção como espada,
          A espada como benção!
 

          SEXTO / D. DINIS

          Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
          O plantador de naus a haver,
          E ouve um silêncio múrmuro consigo:
          É o rumor dos pinhais que, como um trigo
          De Império, ondulam sem se poder ver.

          Arroio, esse cantar, jovem e puro,
          Busca o oceano por achar;
          E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
          É o som presente desse mar futuro,
          É a voz da terra ansiando pelo mar.
 

          SÉTIMO (I) / D. JOÃO O PRIMEIRO

          O homem e a hora são um só
          Quando Deus faz e a história é feita.
          O mais é carne, cujo pó
          A terra espreita.

          Mestre, sem o saber, do Templo
          Que Portugal foi feito ser,
          Que houveste a glória e deste o exemplo
          De o defender.

          Teu nome, eleito em sua fama,
          É, na ara da nossa alma interna,
          A que repele, eterna chama,
          A sombra eterna.
 

          SÉTIMO (II) / D. FILIPA DE LENCASTRE

          Que enigma havia em teu seio
          Que só gênios concebia?
          Que arcanjo teus sonhos veio
          Velar, maternos, um dia?

          Volve a nós teu rosto sério,
          Princesa do Santo Graal,
          Humano ventre do Império,
          Madrinha de Portugal!
 

          III. AS QUINAS 

          PRIMEIRA / D. DUARTE, REI DE PORTUGAL

          Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
          A regra de ser Rei almou meu ser,
          Em dia e letra escrupuloso e fundo.

          Firme em minha tristeza, tal vivi.
          Cumpri contra o Destino o meu dever.
          Inutilmente? Não, porque o cumpri.
 

SEGUNDA / D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL

          Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
          A sua santa guerra.
          Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
          Às horas em que um frio vento passa
          Por sobre a fria terra.

          Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
          A fronte com o olhar;
          E esta febre de Além, que me consome,
          E este querer grandeza são seu nome
          Dentro em mim a vibrar.

          E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
          Em minha face calma.
          Cheio de Deus, não temo o que virá,
          Pois venha o que vier, nunca será
          Maior do que a minha alma.
 

          TERCEIRA / D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL

          Claro em pensar, e claro no sentir,
          É claro no querer;
          Indiferente ao que há em conseguir
          Que seja só obter;
          Dúplice dono, sem me dividir,
          De dever e de ser —

          Não me podia a Sorte dar guarida
          Por não ser eu dos seus.
          Assim vivi, assim morri, a vida,
          Calmo sob mudos céus,
          Fiel à palavra dada e à idéia tida.
          Tudo o mais é com Deus!
 

          QUARTA / D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL

          Não fui alguém. Minha alma estava estreita
          Entre tão grandes almas minhas pares,
          Inutilmente eleita,
          Virgemmente parada;

          Porque é do português, pai de amplos mares,
          Querer, poder só isto:
          O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
          O todo, ou o seu nada.
 

          QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

          Louco, sim, louco, porque quis grandeza
          Qual a Sorte a não dá.
          Não coube em mim minha certeza;
          Por isso onde o areal está
          Ficou meu ser que houve, não o que há.

          Minha loucura, outros que me a tomem
          Com o que nela ia.
          Sem a loucura que é o homem
          Mais que a besta sadia,
          Cadáver adiado que procria?

          IV. A COROA

          NUN'ÁLVARES PEREIRA

          Que auréola te cerca?
          É a espada que, volteando.
          Faz que o ar alto perca
          Seu azul negro e brando.

          Mas que espada é que, erguida,
          Faz esse halo no céu?
          É Excalibur, a ungida,
          Que o Rei Artur te deu.

          'Sperança consumada,
          S. Portugal em ser,
          Ergue a luz da tua espada
          Para a estrada se ver!
 

          V. O TIMBRE

          A CABEÇA DO GRIFO / O INFANTE D. HENRIOUE

          Em seu trono entre o brilho das esferas,
          Com seu manto de noite e solidão,
          Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
          O único imperador que tem, deveras,
          O globo mundo em sua mão.
 

          UMA ASA DO GRIFO / D. JOÃO O SEGUNDO 

          Braços cruzados, fita além do mar.
          Parece em promontório uma alta serra —
          O limite da terra a dominar
          O mar que possa haver além da terra. 

          Seu formidavel vulto solitário
          Enche de estar presente o mar e o céu
          E parece temer o mundo vário
          Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

          A OUTRA ASA DO GRIFO / AFONSO DE ALBUQUEROUE

          De pé, sobre os países conquistados
          Desce os olhos cansados
          De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
          Não pensa em vida ou morte
          Tão poderoso que não quer o quanto
          Pode, que o querer tanto
          Calcara mais do que o submisso mundo
          Sob o seu passo fundo.
          Três impérios do chão lhe a Sorte apanha. 
          Criou-os como quem desdenha.

SEGUNDA PARTE - MAR PORTUGUEZ

Possessio Maris  

     I. O INFANTE  

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Deus quis que a terra fosse toda uma, 
Que o mar unisse, já não separasse. 
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, 

E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo. 

Quem te sagrou criou-te portuguez.. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. 
Senhor, falta cumprir-se Portugal! 
  

II. HORIZONTE  

O mar anterior a nós, teus medos 
Tinham coral e praias e arvoredos. 
Desvendadas a noite e a cerração, 
As tormentas passadas e o mistério, 
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério 
'Splendia sobre as naus da iniciação. 

Linha severa da longínqua costa — 
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta 
Em árvores onde o Longe nada tinha; 
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: 
E, no desembarcar, há aves, flores, 
Onde era só, de longe a abstrata linha 

 

O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esp'rança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — 
Os beijos merecidos da Verdade. 
  

III. PADRÃO  

O esforço é grande e o homem é pequeno. 
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei 
Este padrão ao pé do areal moreno 
E para diante naveguei. 
A alma é divina e a obra é imperfeita. 
Este padrão sinala ao vento e aos céus 
Que, da obra ousada, é minha a parte feita: 
O por-fazer é só com Deus. 

E ao imenso e possível oceano 
Ensinam estas Quinas, que aqui vês, 
Que o mar com fim será grego ou romano: 
O mar sem fim é português. 

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma 
E faz a febre em mim de navegar 
Só encontrará de Deus na eterna calma 
O porto sempre por achar. 
  

IV. O MOSTRENGO  

 mostrengo que está no fim do mar 
Na noite de breu ergueu-se a voar; 
A roda da nau voou três vezes, 
Voou três vezes a chiar, 
E disse: «Quem é que ousou entrar 
Nas minhas cavernas que não desvendo, 
Meus tetos negros do fim do mundo?» 
E o homem do leme disse, tremendo: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

«De quem são as velas onde me roço? 
De quem as quilhas que vejo e ouço?» 
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, 
Três vezes rodou imundo e grosso. 
«Quem vem poder o que só eu posso, 
Que moro onde nunca ninguém me visse 
E escorro os medos do mar sem fundo?» 
E o homem do leme tremeu, e disse: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

Três vezes do leme as mãos ergueu, 
Três vezes ao leme as reprendeu, 
E disse no fim de tremer três vezes: 
«Aqui ao leme sou mais do que eu: 
Sou um povo que quer o mar que é teu; 
E mais que o mostrengo, que me a alma teme 
E roda nas trevas do fim do mundo, 
Manda a vontade, que me ata ao leme, 
De El-Rei D. João Segundo!» 
 

 

V. EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS  

Jaz aqui, na pequena praia extrema, 
O Capitão do Fim.  Dobrado o Assombro, 
O mar é o mesmo:  já ninguém o tema! 
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro. 
  

Vl. OS COLOMBOS  

Outros haverão de ter 
O que houvermos de perder. 
Outros poderão achar 
O que, no nosso encontrar, 
Foi achado, ou não achado, 
Segundo o destino dado. 

Mas o que a eles não toca 
É a Magia que evoca 
O Longe e faz dele história. 
E por isso a sua glória 
É justa auréola dada 
Por uma luz emprestada. 
  

VII. OCIDENTE  

Com duas mãos — o Ato e o Destino — 
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu 
Uma ergue o fecho trêmulo e divino 
E a outra afasta o véu. 

Fosse a hora que haver ou a que havia 
A mão que ao Ocidente o véu rasgou, 
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia 
Da mão que desvendou. 

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal 
A mão que ergueu o facho que luziu, 
Foi Deus a alma e o corpo Portugal 
Da mão que o conduziu. 
  

VIII. FERNÃO DE MAGALHÃES  

No vale clareia uma fogueira. 
Uma dança sacode a terra inteira. 
E sombras desformes e descompostas 
Em clarões negros do vale vão 
Subitamente pelas encostas, 
Indo perder-se na escuridão. 

De quem é a dança que a noite aterra? 
São os Titãs, os filhos da Terra, 
Que dançam na morte do marinheiro 
Que quis cingir o materno vulto 
— Cingiu-o, dos homens, o primeiro —, 
Na praia ao longe por fim sepulto. 

Dançam, nem sabem que a alma ousada 
Do morto ainda comanda a armada, 
Pulso sem corpo ao leme a guiar 
As naus no resto do fim do espaço: 
Que até ausente soube cercar 
A terra inteira com seu abraço. 

Violou a Terra. Mas eles não 
O sabem, e dançam na solidão; 
E sombras disformes e descompostas, 
Indo perder-se nos horizontes, 
Galgam do vale pelas encostas 
Dos mudos montes. 
  

IX. ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA  

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra 
Suspendem de repente o ódio da sua guerra 
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus 
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,  
Primeiro um movimento e depois um assombro. 
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro, 
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões. 

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta 
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovôes,  
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta. 
  

X. MAR PORTUGUÊS  

Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar! 

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu. 
  

XI. A ÚLTIMA NAU  

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, 
E erguendo, como um nome, alto o pendão 
Do Império, 
Foi-se a última nau, ao sol azíago 
Erma, e entre choros de ânsia e de presago 
Mistério. 

Não voltou mais. A que ilha indescoberta 
Aportou? Voltará da sorte incerta 
Que teve? 
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, 
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro 
E breve. 

Ah, quanto mais ao povo a alma falta, 
Mais a minha alma atlântica se exalta 
E entorna, 
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço, 
Vejo entre a cerração teu vulto baço 
Que torna. 

Não sei a hora, mas sei que há a hora, 
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora 
Mistério. 
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: 
A mesma, e trazes o pendão ainda 
Do Império. 
  

XII. PRECE  

Senhor, a noite veio e a alma é vil. 
Tanta foi a tormenta e a vontade! 
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade. 

Mas a chama, que a vida em nós criou, 
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou: 
A mão do vento pode erguê-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —  
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância — 
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

 

 

TERCEIRA PARTE - O ENCOBERTO

Pax in excelsis.

I. OS SÍMBOLOS 
 

PRIMEIRO / D. SEBASTIÃO 

'Sperai! Cai no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura
É Esse que regressarei.
 

SEGUNDO / O QUINTO IMPÉRIO 

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar! 

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura. 

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! 

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
 

TERCEIRO / O DESEJADO

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!
 

QUARTO / AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
E a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando
Cala a voz. e há só o mar.
 

QUINTO / O ENCOBERTO

Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.
 

II. OS AVISOS 
 

PRIMEIRO / O BANDARRA 

Sonhava, anônimo e disperso,
O Império por Deus mesmo visto,
Confuso como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.

Não foi nem santo nem herói,
Mas Deus sagrou com Seu sinal
Este, cujo coração foi
Não português, mas Portugal.
 

SEGUNDO / ANTÓNIO VIEIRA 

O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo. 
É um dia, e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
 

TERCEIRO

'Screvo meu livro à beiramágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
 

III. OS TEMPOS 
 

PRIMEIRO / NOITE 

A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei
Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.

Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo
Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.

Como a um cativo, o ouvem a passar
Os servos do solar.
E, quando o vêem, vêem a figura
Da febre e da amargura,
Com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância.

 

Senhor, os dois irmãos do nosso Nome
— O Poder e o Renome —

Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.
Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,
A Deus as mãos alçamos.
Mas Deus não dá licença que partamos.
 

SEGUNDO / TORMENTA 

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.

Isto, e o mistério de que a noite é o fausto... 
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha e o mar 'scuro 'struge.
 

TERCEIRO / CALMA 

Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

lha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
A praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?

Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?
 

QUARTO / ANTEMANHÃ

O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia
Do novo dia sem acabar
E disse: Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo
Nem o Terceiro quere desvendar?

E o som na treva de ele rodar
Faz mau o sono, triste o sonhar,
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar —
Chamar Aquele que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.
 

QUINTO / NEVOEIRO 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
 

É a Hora! 

 Valete, Frates.

Fim

de "Mensagem"