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Edmundo Bettencourt


Edmundo Bettencourt nasceu no Funchal em 1889. Fundador da "Presença - Folha de arte e crítica", em 1927, Bettencourt abre espaço ao movimento que toma o nome da revista e que até 1940 haveria de marcar a literatura nacional.

A par de Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, José Régio, Fausto José e Saúl Dias, entre outros, Bettencourt partilhou nos primeiros anos da revista o espírito do movimento e os valores fundamentais do "presencismo".

Em 1930, publica "O Momento e a Legenda", a sua primeira e solitária obra em mais de trinta anos. O ano da primeira criação é também o ano da derradeira dissidência. Bettencourt, Branquinho da Fonseca e Miguel Torga - os três da "cisão de 1930" - abandonam a revista em divergência com o resto do grupo e, em particular, com João Gaspar Simões.

Só em 1963, Bettencourt volta a evidenciar-se com a publicação de toda a sua obra. "Os Poemas de Edmundo Bettencourt" - integram além da "Memória e Legenda", "Rede Invisível", de 1930/31, "Poemas Surdos", de 1934/40 (Ed. Assírio e Alvim) e "Ligação" escrito entre 1936 e 1962 - são prefaciados por Herberto Helder.

Durante os anos de abstinência dos escaparates, o poeta trava amizade com Artur Paredes e dedica-se ao Fado de Coimbra, revolucionando-o. Avesso ao folclore das tradições académicas, o poeta "preguiçoso" introduz na temática do Fado temas e letras de origem popular suscitando na altura forte controvérsia. Isso não o impediu de ser hoje uma referência incontornável na memória de Coimbra.

Manuel Alegre, o deputado poeta, reconhece que Bettencourt constitui uma "grande figura do fado de Coimbra ao lado de Artur Paredes"; que "trouxe algumas das mais belas canções populares e um lirismo mais forte". E Alegre acrescenta: "Lembro-me que os cantores da minha geração queriam todos cantar como Bettencourt, uma oitava acima".

Rui Pato, outro dos notáveis do fado de Coimbra, recorda Bettencourt como "o primeiro grande inovador"; "o percusor da linha que foi depois seguida por Zeca Afonso, ao introduzir no fado temas dos Açores, da Beira Baixa, de várias regiões". E "é também um poeta, um progressista que rompeu com a tradição seguida nos anos 20/30"; "aprendi a gostar de Bettencourt com José Afonso, que, aliás, lhe dedicou um dos seus discos de fado de Coimbra".

Edmundo Bettencourt, que faleceu em 1973, tornou-se lendário em Coimbra. José Afonso considerou-o o maior cantor de sempre do fado de Coimbra. Cantor e poeta, este funchalense de nascimento, contemporâneo de Menano e de outros "históricos" como José Paradela D'Oliveira, Armando Goes e Artur Paredes, deu ao fado da Lusa Atenas uma colaboração erudita, gravando diversas obras do cancioneiro académico de Coimbra onde fez a "assimilação perfeita entre as expressões musicais rústica e urbana".

Gravou inúmeros fados para a editora alemã Odeon que se mantiveram am catálogo até finais de 1940. Datam deste periodo os oito fados, gravados em Lisboa em 1928, que constam no segundo volume, "Fados de Coimbra, (1926-1930)" da colectânea "Arquivos do Fado", editada pela Tradisom. Em 1993, foi ainda editado um CD em sua homenagem, gravado por antigos estudantes universitários, como ele, naturais do Funchal.

Segundo Herberto Helder, "Cabe a Bettencourt a honra de ser uma das pouquissimas vozes modernas entre o milagre do 'Orfeu' e o breve momento surrealista português".

in "Jornal Público", 4 Abril, 1996

Carlos Picassinos

Fernando Magalhães


Consagração


Tinham desaparecido

as casas da cidade.

E havia agora uma praça,

donde a população olhava o céu, à espera.

 

O avião chegou.

Vinha sobre uma nuvem branca,

que irradiava aromas,

a claridade e a música, pelos ares...

 

O aviador de fora e à frente,

conduzia-o

e andava no ar como no chão!

 

De repente o avião desceu

vertiginosamente!

 

Caía...

 

E embora não se ouvisse explosão,

em baixo

um fumo negro, imenso, com destroços,

e o fogo, começaram subindo

à altura em que o avião pairava antes.

 

A multidão,

rápida,

como as águas duma enchente,

escoou-se...

 

Depois nais nada;

isto é:

somento uma infinita escuridão por sobre

a qual a palavra perdão jamais será escrita!

 

Luar


Apenas o luar chegou,

desfez-se em asas no ar.

E toda a noite levou

a regressar devagar...

 

Em noites alvas, de lua,

não há nudez com vergonha.

À luz do luar, o barro

é o mármore com que sonha.

 

À luz do luar, as aves

nocturnas,breve, enlanguescem

e, ao seu crepúsculo da sombra,

mortas de sonho adormecem...

 

Os silêncios do luar são

aléns de notas agudas,

são gritos paralisados

em rictos de bocas mudas!

 

O luar rouba ao escuro

o que de dia é segredo.

À luz do luar podemos

ver respirar o arvoredo...

 

Canção ouvida ao luar

não terá ritmos perdidos

- é som vivendo no olhar

- luz que fica nos ouvidos.

 

À luz do luar a água

soluça todas as dores,

que à luz do luar a água

tem na cor todas as cores.