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Nome de Guerra - Almada Negreiros

Obra narrativa de 1938 que explora a psicologia de um jovem provinciano - Antunes, que tem pais "abastados" e que o mandam para a capital. Aí, Antunes vai conhecer Judite, mulher de clubes e recomendada pelo seu Tio, que o inicia no Amor. O jovem vai descobrir a autodeterminação do seu íntimo pessoal, encontrando-se com a humanidade, que não se procura, encontra-se.

O romance evidencia, portanto, "o imperativo das decisões vitais, na improbabilidade de uma ciência racional e experimental que as informe a cada passo (...) apresentando características de ficção psicologística burguesa ao gosto dos anos 30, com a vantagem, no entanto, de a motivação das personagens ou de cada atitude ser dada de um modo metafórico, ou pelo menos imaginoso, e não abstracto" (in História Ilustrada das Grandes Literaturas - Literatura Portuguesa VIII, 1ª edição, 2º Volume, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1973, p. 698).

Obra na qual Almada recolhe e recria uma série de retratos que definiam as personagens literárias de Lisboa e a própria cidade mediante uma extraordinária capacidade de descrição física, um traço de desenho magistral:

"Tinha um pescoço horrível, sem ligação da nuca com as costas. Uma cova em triângulo entre as omoplatas e a falha do pescoço. E aqui a cor era ordinária. Porém, a nuca perfeita de redondeza, nem saliente, nem retraída. O tronco era uma verdadeira maravilha. Era todo o segredo da sua formosura. Os seios hediondos, partidos, duas excrecências inutilizadas. O busto curto mas sólido. Os ombros grandes e largos, levemente subidos. Os braços apertavam, desde o ombro até ao pulso, por uma forma ridícula e sem distância. As ancas cerradas, entre menina e mulher. A linha dos ombros mais larga que a das ancas, conforme a robustez do tronco. O ventre, bem posto, era contudo mais admirável do que formoso, mais escultural do que atraente. O umbigo, o sexo, as virilhas era tudo infantil, inocente..."

(Almada Negreiros, 1971, p.33)

Mais alguns excertos da grande obra literária de Almada:

" Das duas uma: ou as pessoas se fazem ao nome que lhes deram no baptismo, ou ele tem de seu o bastante para marcar a cada um. Será imprudente deduzir o nome próprio através de fisionomias ou dos caracteres; no entanto, uma vez conhecido o nome próprio de uma pessoa, ficamos logo convencidos de que este lhe assenta muito bem. Jules Renard tirou um esplêndido retrato da vaca em tamanho natural: «On l'appelle la vache et c'est le nom qui lui va le mieux.». Como vedes, este corpo-inteiro está extraordinariamente parecido, é vaca por todos os lados.

 Por sorte, a vaca não tem apelidos de família para lhe complicarem a existência. Mas, como é animal doméstico, vem a dar-lhe na mesma que tenha ou que não tenha apelidos. O ser animal doméstico faz com que fique dentro da circunscrição dos apelidos da família em casa de quem serve. A vaca é «Pomba», «Estrela», «Aurora» ou «Vitória» como uma pessoa podia ser apenas José, Maria, Luís ou Judite. É a domesticidade que leva a estas designações e para evitar o opróbrio da fria enumeração. São feitos da gentileza com facilidades para distinguir. Mas a verdade é que o facto de alguém ser Joana ou Manuel já é mais do que ser apenas homem ou mulher. Ser homem ou mulher é apenas a natureza; chamar-se João ou Manuela já é a natureza mais a vida inteira: é o problema. E se o João é Sousa e  a Manuela é Pereira, então, à natureza e à vida junte-se-lhes ainda por cima a existência e complicou-se o problema.

(...) O infinito era-lhe acessível. Via ao longe. O Antunes perguntou-se se seria o mesmo: ver ao longe e ver o longe.

 Ver ao longe é um dom especial de certas pessoas, sobretudo daquelas que não é pelas realidades alheias que caminham. Não pode por conseguinte ver ao longe aquele que põe a sua vontade ao serviço de qualquer acto imediato que caiba dentro do espaço de tempo da sua própria existência. A nossa existência pessoal fica abrangida pelo campo de acção das vontades que nos precederam. O nosso verdadeiro campo de acção está para além da nossa existência, no futuro. Pôr a nossa vontade ao serviço do imediato servirá apenas para que nos tire ainda mais tempo do pouco que já dispomos para atendermos ao nosso caso pessoal. A realidade, sendo de facto o que já existe feito, não deixa por isso de ser quase sempre um empecilho. Em vez de passagem é muro, não se pode transpor sem agilidade. E quando o facto real é um resultado da nossa vontade, que a tanto se empenhou, de empecilho pode facilmente transformar-se em muralha opaca que não nos deixe ver a nós mesmos do lado em que ficámos. Chama-se a isto não saber ver ao longe. Quem não sabe ver ao longe levanta muros em redor de si e muralhas que lhe tapem o horizonte. Se não sabe ver ao longe, tanto lhe faz como não que exista o longe, por isso tapa-o. Isto é, inventa-se um buraco para si, por cobardia de não ter ido a passo acertar-se com a sua própria estatura. Apressa-se para que a sua autobiografia não fique desmerecida aos olhos dos presentes, fabrica coerência para todos os seus actos e esquece só que tudo partiu afinal de não ter podido prosseguir na lealdade que se devia a si mesmo.

 Todos quantos intervêm na vida dos outros, quer seja a seu favor ou contra, são afinal de uma cobardia que escapa à observação dos melhor atentos. Cobardes por duas razões: primeira, por serem incapazes de se reconhecerem e darem a conhecer o seu próprio caso pessoal para a aceitação geral; segunda, porque, ao intervirem na vida dos outros, quer seja a seu favor ou contra, são incapazes também de abnegar da sua própria pessoa. Se alguém decide da sua vida para servir os outros e não renuncia a si mesmo, em que poderá ser equânime e admirável, justo e elucidativo? Respeitemos os que a tanto se afoitaram e se decidiram, mas desprezemos os que o fingem.

 A condição para saber ver ao longe é estarmos dentro de nós se se trata do próprio, ou de ter renunciado a si se se trata dos outros.

MORALIDADE DESTE ROMANCE:

Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar.

FIM"

(Almada Negreiros, 1971, p.15-17,223-225)

 

 

Genealogia de um Nome de Guerra

João Domingues Maia

O leitor há-de ver já a seguir que o autor não é forte em ciência, de modo que tudo quanto ficar escrito não terá absolutamente nada de científico. Será exactamente nem científico nem falso, ao mesmo tempo.

1. CADA UM VAI ATRÁS DA SUA IDEIA OU É A SUA IDEIA QUE VAI ATRÁS DE CADA UM?

As leituras que conhecemos do romance Nome de guerra, de Almada Negreiros, têm as suas atenções voltadas sobretudo para Antunes e para questões que lhes são pertinentes, centralizadas basicamente "na conquista da autonomia pessoal em confronto com a sociedade que constantemente se intromete", conforme o elucidativo estudo de António Alçada Baptista, que também destaca a questão da relação amorosa e seus desdobramentos; ou na situação do romance na série literária, em relação ao Neo-realismo, à ficção dos presencistas e nas questões de identidade/diferença em relação aos seus contemporâneos, mas ainda assim destacando, como o faz Fernando Guimarães, a aprendizagem, "um desejo de conhecimento, uma atitude iniciática onde o próprio Eu irrompe".

Ainda que não fujamos a estas questões, nosso objectivo é deslocar uma óptica de leitura, centralizando em Judite o nosso olhar, o que, é óbvio, não nos cega de modo algum em relação a Luís Antunes. E, com esse deslocamento, procurar o avesso do nome de guerra, Judite. Quem por trás dele se esconde? Que fantasmas da sociedade portuguesa e ocidental estão ocultos no avesso do nome? Fantasmas que podem se tornar evidentes para quem levantar a pele da palavra, pois o fazer de Almada é brincar com nomes, brincar no nome, nomear - hábito de quem lida com o verbo opaco, secreto, - porque o nome traz, quando não o lírico, o drama do nome, o épico do nome, o mito do nome ou o nome que se quer... Ao leitor de Almada (e de tantos outros) cabe procurar saber, no dizer do nome, o desconhecido; no avesso do nome, o provável. É correr o risco, já que não se sabe o que se esconde atrás do nome, ouvido ao acaso, ou dito, dado. Mas, ou se arrisca o risco ou se risca o nome, ou se escreve o nome por tudo o que um nome possibilita: de se achar no nome, no que nomeia o nome, no ser do nome, o que se procura através dos nomes.

Nome de guerra. O título destaca Judite, ou melhor, o avesso. Daí não centralizarmos em Antunes a nossa leitura. Por que razão Almada teria destacado logo no título a personagem e o seu avesso? Que fantasmas, que mitos perpassavam o seu tempo e escrita?

2. UMA JUDITE QUE NÃO SE CHAMA ASSIM

Era uma vez uma rapariga chamada Judite. Mas o seu nome verdadeiro não era Judite. Só às vezes, em ocasiões muito íntimas, é que ela esteve quase para dizer tudo:

– Eu não me chamo Judite. Mas não digas nada a ninguém. O meu nome verdadeiro é...

E calou-se.

Judite é um nome a quem a Bíblia faz cortar a cabeça de Holofernes. E é o narrador quem primeiro nos dá indicação dos possíveis conteúdos míticos de um nome ou nomes que se ocultam atrás do Nome de guerra. Sigamos esta pista, para logo depois abandoná-la, observando de antemão que ela não nos conduz ao verdadeiro (ou verdadeiros) nome de Judite.

A Judite bíblica venceu para os habitantes de Betúlia uma guerra que se travou apenas no acampamento de Holofernes, o qual fora enviado por Nabucodonosor, rei dos assírios, para castigar aqueles países do ocidente que se recusaram a tomar parte na sua campanha contra Medéia. Segundo o Livro de Judite, o sumo sacerdote de Betúlia (cidade próxima a Jerusalém) manda os habitantes ocuparem os desfiladeiros, enquanto Aquior chamava a atenção de Holofernes sobre a proteção divina de que gozavam os judeus, ouvindo em contrapartida a réplica de Holofernes que se ufanava da divindade de Nabucodosor. Aquior é expulso do acampamento assírio e os habitantes de Betúlia, assediados e com suas provisões de água bloqueadas, entram em desespero. Ozias, o governante da cidade, decide que, ao se passarem cinco dias, caso não haja nenhuma intervenção divina, render-se-á, entregando a cidade a Holofernes. Neste momento intervém Judite, sugerindo que, ao invés da rendição, ela vá ao encontro de Holofernes, a quem oferecerá seus préstimos. Depois de muitas orações, Judite vai ao encontro do general e se apresenta como cúmplice deste. Elogiada e aceita, Judite fica no acampamento, degolando o general no quarto dia, quando ele se encontrava embriagado pelo vinho.

Na manhã do quinto dia, os assediados passam ao ataque, cheios de entusiasmo pelo feito de Judite, espalhando pânico entre os inimigos, os quais, vendo-se sem chefe, fogem espavorecidos. Judite é então levada em triunfo pelo sumo sacerdote a Jerusalém, onde é homenageada, testemunhando até avançada velhice a tranqüilidade dos habitantes de Betúlia.

A relação entre as Judite é distante, as semelhantes são poucas, mas não devem ser inteiramente desprezadas. Ambas se relacionam com um momento de passagem, com a resolução de um conflito, e se unem pelo laço de guerras distintas. A travada por Judite, a judia (na forma hebraica yehudit), termina com a morte do amante e trava-se apenas como tentativa de retorno a uma normalidade quebrada. Judite, a portuguesa, usa os seus dotes em outra guerra, que trava com a vida e com os homens, lutando pela própria sobrevivência, sem nenhum outro mérito a não ser o de fazer Antunes defrontar-se com a sua própria realidade, encontrando o seu momento de epifania para depois deixá-la, dando continuidade às sucessivas perdas de Judite, testemunhas das diferenças sociais, do conservadorismo português e da impotência feminina numa sociedade governada pelos homens. A morte, aqui, também assinala um momento de ruptura, mas trata-se da morte de outra mulher, Maria, porque sempre fora em suas atitudes o oposto de Judite, alienando-se da guerra. Uma Judite que não é a outra, mas que nos aponta significações que começam a deitar sombras entre o nosso olhar e o texto de Almada: varinas que se compõem aos poucos num conflito entre os sexos. Ser homem ou mulher é apenas a natureza; chamar-se João ou Manuela já é a natureza mais a vida inteira: é o problema. E aconteceu-nos antes ainda de termos nascido. É a árvore genealógica. Nós somos hoje o último fruto dessa árvore secular, secularmente secular! O fruto! Mas, por mais genuíno que seja o fruto da sua árvore, esta nasce tão incomparavelmente anterior à Bíblia, e é talvez, em tão remotas origens que devemos procurar o nome que se esconde sob o nome de guerra. É o que a narrativa nos pede em inúmeras passagens: que retornemos. Um retorno à criação, num percurso que nos indique alguns porquês: o do título Nome de guerra, o do nome Judite por sobre um nome, o prenome de Antunes, Luís, cujo significado grego é "famoso na guerra", e os sentidos de alguns conflitos.

A árvore genealógica não funciona como ciência. É mesmo o contrário de ciência: mistério! Um mistério que se espelha só em cada um de nós! Um verdadeiro mistério humano, que ultrapassa a sociedade e a ciência, que respira ar de Arte e Religião! Ares que devem ser inspirados pelo arqueólogo que busca a genealogia de Judite.

A história verídica é a única que vale e pode-se contar: o primeiro homem que elas conheceram era um pulha! E cada uma teve o seu para virem juntar-se todas ali na sala de distracções, dos estranhos e do esquecimento... Homens, mulheres, esquecimentos, o primeiro pulha... Adão. Antunes. Judite. Mulher e narrativa que nos aponta para o nome Lilith. Não vem tudo isto de longe, de tão longe que a memória viva não atinge, mas que apesar disso vem dirigindo-se para cada um de nós através de séculos, desencontrados, de altos e baixos, como se quis ou como pôde ser?

Lilith também foi relegada ao esquecimento. A primeira companheira de Adão foi perdida ou removida durante a transposição da versão jeovística para aquela sacerdotal, e quase desaparece sem deixar vestígios na versão da Bíblia redigida pelos Pais da Igreja. De certa forma, Judite é Lilith, como transfiguração do mito, ou espaço projectivo do mito; permanência que se desdobra em outras Judites, constelação de Circes, Cibeles, Reas, Maias, Dianas, Isís, Ceres, Anus, Deméteres, Ishtares, Perséfones, Hécates, Eumênides, Empusas, Lâmias, Équidinas, Erínies, Amazonas, Sereias...

A árvore genealógica de Judite nos leva a Lilith, a Lua Negra, a primeira mulher de Adão. A Judite de Antunes tem características tais que nos permite a aproximação com as representações do mito. A narrativa nos apontou esse caminho. Sigamos...

3. CADA QUAL VÊ EVA PELA PRIMEIRA VEZ

James Hilman diz que toda a história psicológica da relação homem-mulher é um série de notas de rodapé à história de Adão e Eva. Mas a primeira companheira de Adão, foi Lilith, concebida sem o concurso de uma costela, como no caso de Eva, mas, segundo a tradição, cheia de sangue e saliva, instigando em Adão uma insustentável perturbação que o levou a rejeitá-la. O sangue de Lilith é o sangue mestrual, metáfora alegórica para fazer perceber o caráter carnal, fisiológico, vital, instintivo da mulher. A saliva associa-se à secreção erótica. Lilith é então apontada não como mulher, mas como demônio, desde o início da relação com Adão. Lilith, como assinala Roberto Sicuteri em seu trabalho Lilith: a lua negra, "entra no mito já como demônio, uma figura de saliva e sangue, um verdadeiro espírito deixado em estado informe por Deus; é uma companheira que apresenta fortes traços de fatalidade".

O mito de Lilith, representando certamente o arquétipo da relação homem-mulher, pode ser o início da árvore genealógica que facilitaria, portanto, a compreensão da relação Judite-Antunes e o nome que se oculta sob o nome de guerra:

"o que nos guia não é o interesse teológico, mas o psicológico, pela redescoberta da lenda de Lilith, para agregá-la, como energia psíquica formadora do mito e do arquétipo, ao núcleo concernente à história da relação entre Anima e Animus e para entender as origens endopsíquicas da cisão entre "instinto" e "pensamento", para esclarecer finalmente o grande equívoco do primado masculino sobre a mulher sentida como inferior" (Sicuteri, 1987, p. 24).

Tornando nossas as palavras de Sicuteri, cremos ser possível compreender a relação Judite-Antunes e deitarmos mais um pouco de luz sobre a condição da mulher na sociedade portuguesa, sem esquecer contudo que o modelo português repete-se em inúmeras outras sociedades. Mas, antes, vejamos outras características de Lilith.

Enquanto a Lua Negra é descrita de forma negativa, Eva, ao contrário, é apresentada em suas belezas e ornamentos. Adão, que não a recusa por vê-la como ossos dos seus ossos, põe-nos, segundo Sicuteri, diante de uma só experiência psicológica de aproximação...

"onde poderíamos ver uma condenasação de duas experiências: a primeira – o conhecimento carnal – é censurada e removida; a segunda, ao contrário, exprime a aceitação da imagem "boa" externa, da companheira, aquela que é mais agradável ao Pai e à lei, mas que será também esta, inexorável fonte de pecado. Tratar-se-ia, pois, de uma experiência libídica profundamente distinta em duas fases, com um princípio implícito de ambivalência" (Sicuteri. 1987, p. 31).

Judite seria, para Antunes o "conhecimento carnal", a transgressão à Lei; Maria a aceitação da imagem boa, mais agradável ao Pai e à Lei. Mas, o vivido com Lilith é também vivido com Eva. "Na similaridade dos dois mitos pode-se descobrir a contradição dos comportamentos de Adão, como também a complexidade das relações emotivas e sexuais diante da mulher ao Deus pai" (p. 31).

A sua ligação com a Judite tinha sido uma compensação, uma desforra, um contrabalanço... de quê? A sua vida esteve toda inclinada para o lado oposto ao da Judite. Para onde? Houve um desequilíbrio para responder a outro desequilíbrio, necessário para pôr o fiel a zero, como um pêndulo vai obrigatoriamente de um a outro lado da vertical a distâncias iguais, para cumprir a semetria, a gravidade e a oscilação. O desequilíbrio era para os dois lados: a Maria e a Judite eram ambas ainda o mesmo erro!

Lilith desobedece à supremacia de Adão, Eva desobedecia à proibição. Criada ao pôr do sol, Lilith é noturna, assim como Judite, e não faltam exemplos na narrativa de Almada. Mesmo em casa, Judite cerra as janelas para que a claridade do dia não entre nos aposentos. D. Jorge poderia bem fazer o papel de intermediário entre o Deus-pai, o tio Alves, apresentando Judite a Luís Antunes Judite, ao cair da noite. Alves, reforça a sua característica geradora ao ser apresentado como aquele que arranja o casamento dos pais de Antunes, o filho do tio, a quem caberá dar continuidade a semente dos Alves. Antunes deve, portanto, deixar a tranqüilidade da cidade natal, o paraíso, ir a Lisboa onde sentiria saudades dos pais, do namoro e do seu quarto de dormir, sossegado, na província. Deus escreve por linhas tortas. Cria Adão, Eva e a serpente. A árvore e o fruto. Deus nos permite ler de trás para frente os mitos.

Esse Antunes-Adão rejeita inicialmente a primeira criação do tio-pai e inicia-se o conflito com Judite. Ele tinha cometido a mais grave ofensa que pode ser feita à mulher: tinha sido indiferente para com a sua nudez! Projeta-se a rejeição de Adão, Judite é vista como indiferença. Lilith e Eva se confundem por similaridade: Entre ele e a mulher nua a sua educação punha uma distância que não era destruída pelo desejo da carne... até que mordesse a maçã.

Mas Antunes sente-se como o ancestral bíblico: decidia fazer convergir todos os seus passos num único fito: a escolha da companheira. O motivo desta resolução estava na lembrança do que era a sua vida ultimamente, sem progresso, sem explicação, parada, inútil, nula. A causa desta estagnação era a falta de uma companheira; "mas não se achava para Adão um adjutório semelhante a ele" (Gênesis, II, 20). Ou melhor, Antunes não encontrara em Maria sua igual, conheceria "Judith", a mulher da noite, antes que estivesse pronto para outra companheira, nem a primeira nem a segunda, nem a primeira nem a segunda.

Se Judite é projeção do mito de Lilith, abramos parênteses para algumas observações sob a condição de inferioridade da mulher na sociedade portuguesa descrita por Almada. As mulheres são lançadas na prostituição por uma rejeição de um "desgraçador" que as desvirginam e as abandonam depois da sedução. Poucas conseguem encontrar um homem que as aceitem por não terem sido "o primeiro", e todo um capítulo é dedicado ao tema do "desgraçador". A atitude de D. Jorge em relação às mulheres também é significativa, tratando-as reificadamente: Tudo isto é gado meu conhecido. Ou chamando-as apenas para compor a mesa: tanto podia ser aquela como qualquer rapariga que enchesse o quarto lugar. Estava ali só para não desequilibrar a mesa, para fazer quatro parecer dois pares. E portanto seria natural que esbofeteasse qualquer uma que quisesse parecer homem.

 Antunes não procederá de maneira diferente, pois o conflito de sua educação é a base para deixar Judite, para não se permitir amá-la verdadeiramente, assim como o eterno conflito e os inúmeros "nãos" ancestrais não permitiram também a Judite entregar-se totalmente a Antunes. "Judith" serve como um veículo de passagem, de aprendizagem e, posteriormente, descartável. Por conseguinte, a sua intimidade para com ela era desumana: aprendia com ela a ser homem, a ter força, a saber o que queria, para ir escolher outra mulher!

Fechemos o parênteses com algumas observações outras sobre a inferioridade da mulher na sociedade portuguesa de Almada, conforme aparecem na narrativa.

D. Jorge serve de modelo típico na relação homem-mulher, submete-se a uma condição subalterna. Ao pegar um táxi, o D. Jorge aceitou discutir. Explicava que dois homens e quatro mulheres é inferior a quatro homens. Objectos que eram, D. Jorge espetava-as com um alfinete para verificar, na confusão do automóvel, a quem pertencia cada uma das pernas, ou afirmava com segurança: Cá só vão dois passageiros, o resto é palha. Na "seleção natural" das espécies, as mulheres ficavam à margem, desclassificadas, alvos de experiências, como a de fazê-las correr atrás do automóvel para selecionar, entre elas próprias, quais ficariam a pé na estrada.

4. UM POUCO MAIS DA RAPARIGA QUE O PROTAGONISTA TRAZ NA IDEIA

Répteis, demônios e Lilith foram as últimas criações de Deus no sexto dia, exatamente nas horas do entardecer da Sexta-feira, ao avançar das trevas. Esta característica do mito está projetada em "Judith", a qual ficava completamente desfigurada à luz do dia, desbotavam-se-lhes as cores, vexavam-se-lhe as formas, ficava apoucada ao sol, com uma palidez de desenterrada, de subterrânea, habitante da sombra e das trevas, com os olhos engelhados por não suportarem a claridade. E o narrador destaca-lhe características demoníacas: palidez de desenterrada, habitante da sombra e das trevas.

Maria, ao contrário, surge sempre associada ao dia, à luz do sol. As notícias que recebe de Maria, através da mãe, Antunes as recebe durante o dia; o amanhecer aparece associado à província: Antunes tinha ocasião para observar que aquele fresquinho tão bom da manhã vinha com certeza da província. Por muito evidente que fosse a realidade, a imaginação do Antunes estava cada vez mais na sua terra, ao pé da casa e da Maria. Tudo o fazia lembrar-se dela: a manhã, os pássaros, o mar, o azul do céu, as flores, os campos, os jardins, a relva, as casas, as fontes, sobretudo as fontes, principalmente as fontes! E nisso, Maria aproxima-se ao mitologema Eva. O lugar de Maria é o paraíso, Maria é a fonte de uma vida plena, é a fonte de uma vida tranqüila, e, mesmo quando associada à noite, tratar-se-á de uma noite de luar, a outra face da lua negra, sem perigos e romântica. No nome Maria, também se projeta a virgindade da Mãe de Jesus, a virgindade que se opõe a "Judith".

Estava escrito que a Judite entrasse um dia, melhor, uma noite...

Na tradição sumério-acadiana se conhece um Deus Lilu e derivações nominais Lilitu, Lillake. Na etimologia hebraica, alguns autores faziam derivar o nome Lilith de "Layl" ou ainda de "Laylah", ou seja, "noite", com o significado de espírito da noite. O nome sumérico Lilu, ao qual alguns autores tendem a ligar o nome Lilith, significa "libertinagem". No Talmud, Lilith seria, pois, um verdadeiro demônio noturno que excita a volúpia, volúpia também excitada em Antunes, por Judite, ou "Judith".

À Lilith também é atribuída a qualidade de vampiro. Aqui, o mitologema pode ser projetado em "Judith", como "sugadora" do dinheiro dos homens e também da força vital de Antunes, força vital não apenas projetada no esperma, mas também na irregularidade da vida que passa a levar. Quase no final da narrativa, Antunes procura um médico. Diagnóstico: normal. Receita: distrair-se, viajar, desportos, ar livre, higiene, evitar a noite, campo, província, ver mundo, muito ar livre... Tudo o que se opõe à convivência com Judith: ar livre, campo, província, evitar a noite, a hora de Lilith. Neste capítulo, curiosamente Antunes visita impulsivamente uma igreja, como se buscasse a reconciliação com o Pai, e o antídoto final para "Judith".

A prostituição, na tradição antiga, esteve muitas vezes ligada ao mito de Lilith ou ao de outras entidades, projeções do mito. Em algumas orações aparece a expressão "serva de Lilith", indicando provavelmente a prostituta, a meretriz. Ainda na tradição da antigüidade, Lilith, ou as projeções do mito eram descritas em suas características eróticas, sensuais, mas quase sempre misturadas com características horrendas, partes animalescas, sobretudo nas extremidades. Sem dúvida, a Judite era achado raríssimo de cor e de forma. Desde o primeiro dia em que virá até hoje, ia uma grande diferença. Eram mesmo duas Judites diferentes. A nova era mais justa do que a primeira. Tinha um pescoço horrível, sem ligação da nuca com as costas. Uma cova em triângulo entre as omoplatas e a falha do pescoço. E aqui a cor era ordinária. Porém a nuca perfeita de redondeza, nem saliente nem retraída. O tronco era uma verdadeira maravilha. Era todo segredo da sua formosura. Os seios hediondos, partidos, duas excrescências inutilizadas. O busto curto mas sólido. Os ombros grandes e largos, levemente subidos. Os braços apertavam, desde o ombro até ao pulso, por uma forma ridícula e sem distância. As ancas cerradas, entre menina e mulher. A linha dos ombros mais larga do que a das ancas, conforme a robustez do tronco. O ventre, bem posto, era contudo mais admirável do que formoso, mais escultural do que atraente. O umbigo, o sexo, as virilhas, era tudo infantil, inocente. As coxas é que rompiam, audaciosas. A cor das coxas era clara e a do ventre incomparavelmente menos clara. Isso tudo apesar do pescoço horrível, falhado, dos seios hediondos, da forma ridícula dos braços. Contudo, como se pode observar, as extremidades parecem descrever um súcubo. As barrigas das pernas, grosseiras, saltimbancanescas. Os joelhos estropiados. Os pés horríveis, o pior de tudo, juntamente com as mãos. Estas davam a impressão de não fecharem, desajeitadas, incompletas, mal terminadas, falhas de paciência. Os dedos não se punham direitos. As unhas roídas até para lá do meio. Enfim, as extremidades péssimas. A cabeça era incompleta. A diferença entre o perfil e a frente era esmagadora. Ela tinha escarrada num focinho animal a triste vida que levava. A fisionomia era canalha e grosseira, e o seu perfil, nobre e puro, não cabia ali. O que nos lembra a descrição de Lilith feita por Sicuteri, baseada em um baixo-relevo da época sumérica:

"O corpo é robusto, muito feminino até a ampla bacia e o púbis. As pernas, que são pouco a pouco se adelgaçam em direção ao joelhos, perdem a plasticidade feminina e se fazem animalescas, potentes; antes que pés, são horrendas e poderosas garras de abutre que despontam dos assustadores dedos rugosos" (p. 42).

A descrição de quase todos os mitos femininos malévolos apresentará como características comum a deformidade das extremidades: a Empusa tem em lugar dos cabelos serpentes retorcidas e sibilantes, as pernas de um asno; os pés, um humano, e o outro uma garra de águia ou casco eqüino. A Lâmia e a Górgona (mencionadas na Odisséia de Homero) também apresentam características horripilantes nas extremidades. Équidina (descrita por Homero na Ilíada) tem uma metade que se assemelha a uma graciosa e jovem virgem, e outra metade de serpente terrível e enorme. Circe também se apresenta como uma deusa grega incluída em uma série de mitos concernentes às deusas lunares. Assim como Lilith, Circe recusa o patronato masculino, seduzindo e destruíndo os homens ou transformando-os em porcos. Isto, contudo, não impede que Odisseu permaneça um ano em sua ilha, amando-a, induzindo-a a deixar a magia e tendo com ela dois filhos; um deles, com certeza, Telégono ou Engamone. Como assinala Sicuteri, o não de Adão é ainda pago pelos companheiros de Odisseu transformados em porcos. "Circe é a Lilith que se vê e se sente aceita" (p.101).

Muitas passagens da narrativa de Almada Negreiros evocam aspectos disformes e monstruosos. A própria Judite descreve-se cheia de tumores por todo o corpo. Apertavam-me aqui no pescoço e saia pus pela cabeça. Assim era na infância. Antunes, algumas vezes cria espaços projetivos do mito de Lilith, ao pensar em monstros ou ver-se como um ser desfigurado. É assim quando está na sala-de-jantar do hotel. Aquela sala fora de horas fazia-o pensar que a vida ainda era um daqueles monstros da Idade Média com imensos tentáculos cheios de ventosas para chupar por uma vez os que andam perdidos do conjunto. Imaginação que se apresenta logo depois de despir e rejeitar Judite.

Mais tarde Antunes viu diante de si uma cara horrível, espectral, parada, que não tirava os olhos de cima dele. Era a sua própria cara que estava no espelho. Ele e a sua imagem eram como duas estátuas de pedra voltadas uma para outra. Nunca o Antunes sentira na sua vida uma impressão mais desagradável do que aquela! A sua própria fisionomia enchia-o de pavor: a cara inerte sofria sem dor, desejava sem prazer, não chorava, não ria, era de pedra como as estátuas, fria como o espelho. O que nos traz de volta ao mito da Górgona que transformava os homens que a fitassem em pedra. Por isso, no final do capítulo XXXVIII, Antunes reconhece que havia de lembrar-se sempre da sua Judite, um despertador para todos os segundos de perigo, um sinal de aviso, em caso de ir cair outra vez no da Judite, com ela ou com outra qualquer...

A tradição de Lilith é a tradição da vingança desde a rejeição de Adão. O não de Adão, como já observamos, deveu-se não só ao caráter demoníaco de Lilith, mas também a exigência de igualdade na relação homem-mulher. Segundo Sicuteri:

"A serpente-demônio, ou o próprio demoníaco que existe em Lilith, impele a mulher a "fazer algo" que o homem não per-mite: em Lilith há o pedido da inversão das posições sexuais equivalentes aos papéis, enquanto em Eva há o ato de transgressão da árvore em obediência à serpente" (p. 37).

E agora o Antunes entendia pela primeira vez a explicação de haver nomes de guerra: esses em que a sociedade quer mais do que os astros e não consegue afinal senão aniquilar ambos.

Lilith jurava vingança. "Judith" jurava vingança, prometera arrancar os olhos de Antunes, ficara cega de raiva pela humilhação que sofrera.

Lilith saíra do paraíso prometendo guerra aos homens. Para "Judith", a vida para ela era uma luta constante, ofensiva e defensiva, sem tréguas, sem repouso mas do que no dormir... tudo lhe gritava à uma, a mesma palavra: Guerra! Guerra, estava palavra sempre no seu íntimo.

5. AQUI SE DIZ O QUE QUER DIZER APROVEITADOR DE MISÉRIAS

"Judith". O pior era a sua vida, a sua desgraça, a sua cabeça, todas três a insistir com ela pela vingança, uma vingança que ela afinal não sabia ter senão contra o mundo inteiro. Isto tudo transformou as suas formas graciosas e masculinizou-a desde a força dos olhos e o encontro das sobrancelhas até aos próprios pensamentos voluntariosos, mas sem direcção possível e impertinentes. E o Antunes concluiu: "Esta mulher não será de ninguém. É uma mulher que se entrega aos seus inimigos para ir mais depressa na sua vingança! Ela nunca terá amigos! Aqueles que ela julga serem os seus amigos são apenas aqueles que ela ou eles ainda não sabem que também são inimigos. Ela é a desgraça transformada em vingança. Não conseguirá talvez vingar-se, mas passa com ódio, com fúria, com desgraça, com traição.

Antunes reconhece em Judite, ou "Judith", definitivamente Lilith, elemento necessário para afastar-se do Pai. Antunes-Adão supera através de "Judith", a sua contigüidade, Eva, ou Maria, a provinciana. Cindido pelo princípio do prazer e da realidade, a verdade de Antunes não se situa no plano do visível, na consciência, mas no inconsciente. Maria foi de fato sua primeira mulher, também não aceita e com a qual devia sublimar sua sexualidade. Judith também apresentou-se como primeira, sensual, erótica, prazerosa. Com esta, Antunes mergulha no prazer, mas continua a manter o seu vínculo com Maria, a escolhida no meio familiar. Havia duas imagens que assomavam à superfície quando ele pensava em amor. Eram duas figuras de mulher, ambas muito nítidas à tona da imensidade... Uma estava vestida e nua a outra. A primeira era suave, tão suave que não apetecia acordá-la no sono branco em que dormia; a segunda tinha as carnes sequiosas e mordia com os dentes, e cuspia com raiva, e beijava com os lábios, e arranhava com as unhas, e acariciava com as mãos, e defendia-se com os músculos, e juntava aos músculos aos nervos para se defender, para conquistar, para abrir caminho, para não deixar nenhum estranho chegar-lhe ao coração.

A primeira era casta, pura, virginalmente branca, de nome Maria, nome de mãe, o protótipo da Mãe de todas as mães. Seria a aproximação com Maria a realização de Antunes-Édipo? Seria a aproximação com Maria evitada pelo medo da castração? Maria surge-lhe em sonhos. Parecia morta, deitada numa relva, atada por cordas que lhe prendiam os pés e as mãos. E a grande angústia do rapaz era não trazer uma faca (ou phallus) consigo. Seria o sonho a evidência de um sentir-se castrado na relação com Maria, a imagem da Mãe?

A segunda era o avesso, a possibilidade do prazer. Com "Judith", Antunes não era Antunes, podia ser Luís. Ele era Antunes para todo mundo e Luís daquela maneira para ninguém. Com Judite, muitas vezes Antunes regredia, torna-se a criança no colo da mãe:

– Não fales assim dessa maneira não! Faz-me muito mal ouvir falar assim! Tu não vês como eu estou aborrecidinha? Anda cá! Deu-lhe espaço na cama e fê-lo obedecer como um petiz. – Deita-te aqui ao lado da tua Judite. Vamos falar muito, sim? Tu gostas de histórias? Mas não vale fazer outra vez como ainda agora. Senão eu zango-me muito com o meu Luís.

O Antunes não podia compreender que aquela voz fosse a mesma da refilona dos outros dias.

– Eu não sabia que tu eras assim! Tens soninho? Estás cansadinho? Eu vou ali para o sofá e tu ficas aqui à tua vontade, sim?

O Antunes fez que não.

– Então ficas aqui ao pé de mim, sim?

Ela ajeitou-se a seu lado e abraçou-se com os braços mortos do Antunes.

– Anda, vá, faz ó-ó.

E embalava-o como as mulheres fazem às crianças. E, muito baixinho, tão baixo que ela própria mal se ouvia, cantava-lhe ao ouvido aquele segredo das mães para adormecerem os filhos:

Tão-ba-la-lão

cabeça de cão

orelha de gato

não tem coração

"Judith". Todas as possibilidades de realização sem culpas. Há cinco dias que a Judite e o Antunes não saíam do quarto. Desde que ela cantara a cantiga da mãezinha para o fazer dormir. A relação amorosa com Judite realiza-se sintomaticamente depois de uma cantiga de ninar, e o narrador inicia o capítulo XXVII com essa observação. Antunes é sempre ambíguo, está sempre dividido entre um sim e um não, entre uma tese e uma antítese; contradições indicadas em quase todos os títulos dos capítulos que compõem a narrativa. Seus conflitos (edipianos?) só se resolvem com a morte de Maria; ou melhor, o destino resolve o seu conflito. Só então, Antunes pôde libertar-se de Judite, a mulher verdadeiramente forte, mais forte que D. Jorge, mais forte que os pais de Antunes, mais forte que Maria. A sua realização com a Judite tinha sido uma compensação, uma desforra, um contrabalanço... No conflito de Antunes um desejo inexplicado: destruir-lhe os seios. Não cortá-los: destruí-los completamente e deixar-lhe os vestígios de terem sido retirados. Por quê? Por que interditar em Judite a possibilidade de amamentar, de compor plenamente a imagem de mãe ou de Maria?

Quando se nasce pela terceira vez há sempre restos das duas primeiras.

Judite. Por sob o nome de guerra, pelo menos um nome de mãe, em cujo ventre Antunes se alimenta para nascer para uma outra vida.

6. UMA MESA PEQUENA PARA UM GRANDE ASSUNTO

BÍBLIA SAGRADA, 4. ed., São Paulo: Pia Sociedade de São Paulo, 1951.

BAPTISTA, António Alçada. "Nome de guerra ou um outro amor em Portugal". IN NEGREIROS, Almada. Nome de guerra. Lisboa: Imprensa Nacional, 1982.

GUIMARÃES, Fernando. "Um romance de Almada Negreiros: Nome de guerra" IN ----. Simbolismo, Modernismo e Vanguardas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1982.

NEGREIROS, Almada. Nome de guerra. Lisboa, Imprensa Nacional, 1986.

SICUTERI, Roberto. Lilith: a lua negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

VAN DER BORN, A. Dicionário enciclopédico da Bíblia, 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 1985.

João Domingues Maia, 1993. Texto publicado na Revista Augustus. Rio de Janeiro: Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Motta. V.01, N. 1, Agosto de 1995.