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ALMADA NEGREIROS - poesia

 

 

A Flor

  

Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção , outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

 

HISTÓRIA DAS PALAVRAS

 

 

As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam maravilhados, outros tinham-se cansado. Os que estavam maravilhados abriam a boca, os que se tinham cansado também abriam a boca. Ambos abriam a boca.

Houve um homem sozinho que se pôs a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que estavam cansadas.

Depois ainda espreitou melhor: Todas as pessoas estavam maravilhadas, depois não sabiam agüentar-se maravilhadas e ficavam cansadas.

As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um - mais luz, alegres - menos luz, tristes.

O homem sozinho ficou a pensar nesta diferença. Para não esquecer, fez uns sinais numa pedra.

Este homem sozinho era da minha raça - era um Egípcio!

Os sinais que ele gravou na pedra para medir a luz por dentro das pessoas, chamaram-se hieróglifos.

Mais tarde veio outro homem sozinho que tornou estes sinais ainda mais fáceis. Fez vinte e dois sinais que bastavam para todas as combinações que há ao Sol.

Este homem sozinho era da minha raça - era um Fenício.

Cada um dos vinte e dois sinais era uma letra. Cada combinação de letras uma palavra.

Todos dias faz anos que foram inventadas as palavras.

É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.

 

 

A VARINA

 

Lá na Ribeira Nova

onde nasce Lisboa inteira

na manhã de cada dia

há uma varina

e se não fosse ela

ai não sei

não sei que seria de mim!

Por ela

fiz dois versos a todas as varinas:

E vós varinas que sabeis a sal

e trazeis o mar no vosso avental!

Acho parecidos estes versos

com as varinas de Portugal.

 

 

Uma vez falei-lhe

para ouvi-la

e vê-la

ao pé.

A voz saborosa

os olhos de variar

castanhos de variar

castanhos-escuros de variar

com reflexos de variar

desde o rosa

até o verde

desde o verde

até o mar.

 

 

Num reflexo refleti:

não dar aquele destino

ao meu destino daqui.

 

 

DE 1 A 65

N’ahérez jamais

Georges Bracque

 

 

Nasci d’asas

Com asas

Cortaram-me as guias

De pé no chão

Vieram os filhos

Cortaram-me os pés

Cresceram as asas

Sei só voar

Sem pé em terra

Sem pé no ar

Tenho pé no ar

Filho d’asas

Sabe voar

 

 

DESCRIÇÃO COITADA DE REPRODUÇÃO COLORIDA DE PAISAGEM SEM FIGURA

 

 

Sol-posto

de mau gosto

mal reproduzido

de postal infeliz

Pior fora o dia

dia de não contar

como tantos!

Existir tanto

pra viver tão pouco!

Minha mágoa incolor

vadiava em redor

e via com desdém

a terra daqui

e o mar além.

Cai névoa no meu sentir

névoa morna

como hálito do quarto

do convalescente.

O herói do meu sonho

quer estar só

que o não vejam

a descansar.

Está a estudar o papel

da minha loucura.

Toda loucura é assim:

negra como a peçonha

e cheia de luz por dentro.

 

 

“HOMEM TRANSPORTANDO O CADÁVER DE UMA MULHER”

 

 

Quis-te tanto que gostei de mim!

Tu eras a que não serás sem mim!

Vivias de eu viver em ti

e mataste a vida que eu te dei

por não seres como eu te queria.

Eu vivia em ti o que em ti eu via.

E aquela que não será sem mim

tu viste-a como eu

e talvez para ti também

a única mulher que eu vi!

 

 

A SOMBRA SOU EU

 

 

A minha sombra sou eu,

ela não me segue,

eu estou na minha sombra

e não vou em mim.

Sombra de mim que recebo luz,

sombra atrelada ao que eu nasci,

distância imutável de minha sombra a mim,

toco-me e não me atinjo,

só sei dó que seria

se de minha sombra chegasse a mim.

Passa-se tudo em seguir-me

e finjo que sou eu que sigo,

finjo que sou eu que vou

e que não me persigo.

Faço por confundir a minha sombra comigo:

estou sempre às portas da vida,

sempre lá, sempre às portas de mim!

 

A FLOR TEM LINGUAGEM DE QUE A SUA SEMENTE NÃO FALA

 

 

A flor tem linguagem de que a sua semente não fala

A raiz não parece dar aquele fruto

Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem

Retirada a linguagem

A semente é igual a flor

A flor igual a fruto

Fruto igual a semente

Destino igual a devir.

E era o que se pedia: igual.

 

 

ODE A FERNANDO PESSOA

 

Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal

tu foste de verdade a voz de Portugal

e não foste tu!

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.

De verdade e de feito só não foste tu.

A Portugal, a voz vem-lhe sempre

depois da idade

e tu quiseste aceitar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje.

Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz

de Portugal

o teu sonho de ti

o teu sonho dos portugueses

só sonhado por ti.

Tu sonhaste a continuação do sonho português

somados todos os séculos de Portugal

somados todos os vários sonhos portugueses

tu sonhaste a decifração final

do sonho de Portugal

e a vida que desperta depois do sonho

a vida que o sonho predisse.

Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal

tu foste de verdade a voz de Portugal

e não foste tu!

Tu ficaste para depois

e Portugal também.

Tu levaste empunhada no teu sonho

a bandeira de Portugal

vertical

sem perder pra nenhum lado

o que não é dado aos portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa.

Nesta nossa querida terra onde ninguém

a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo

que é a maneira de acabar com os partidos

e de ficar talvez partido de Portugal!

mas não ainda talvez Portugal!

 

Portugal fica para depois

e os portugueses também

como tu.

 

25+1 PANFLETO SOCIAL

 

Eh comunistas! Eh fascitas!

Eu sei, eu sei:

“Não há esconderijo senão nas massas”!

Assim mesmo necessitais de inimigos

Chamais construir: eliminar inimigos.

 

 

AQUI PORTUGAL

 

Aqui Portugal

Bicesse

O Fim-do-Mundo mais perto de

Lisboa a da boa flordelis

e

Entre a Serra da Lua (Sintra)

As grutas e necrópole daqueles

Que nascidos em Creta

Passaram em Homero

Em Cristo

E a vista de Roma

Saíram do Mediterrâneo

E aqui ficaram e passaram

Trazendo consigo para toda a parte

A civilização da Liberdade individual

Do Homem.

 

Rondel do Alentejo

 

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.

 

Meia-noite

do Segredo

no penedo

duma noite

de luar.

 

Olhos caros

de Morgada

enfeitada

com preparos

de luar.

 

Rompem fogo

pandeiretas

morenitas,

bailam tetas

e bonitas,

bailam chitas

e jaquetas,

são as fitas

desafogo

de luar.

 

Voa o xaile

andorinha

pelo baile,

e a vida

doentinha

e a ermida

ao luar.

 

Laçarote

escarlate

de cocote

alegria

de Maria

la-ri-rate

em filia

de luar.

 

Giram pés

giram passos

girassóis

e os bonés,

e os braços

destes dois

giram laços

ao luar.

 

O colete

desta Virgem

endoidece

como o S

do foguete

em vertigem

de luar.

 

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.