ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

O Bosco Deleitoso, ou Bosque Deleitoso, é uma das obras místicas escritas no Mosteiro de Alcobaça entre os finais do século XIV e o início do século XV. Cerca de setenta capítulos transcrevem a tradução da obra de Petrarca De Vita Solitaria. Os últimos quarenta e seis capítulos são originais. O Bosco Deleitoso foi impresso em Lisboa em 1515.


 

 

O Bosco Deleitoso Solitário é uma das obras mais marcantes da espiritualidade portuguesa medieval, profundamente marcada pelo pensamento de Petrarca e sobretudo de S. Bernardo
Escrita provavelmente no final do século XIV ou no início do século XV por um autor anónimo, mas certamente um monge, revela uma grande afinidade temática com o Horto do Esposo, tendo já sido aventada a hipótese de serem de obras de um mesmo autor. Bosco é aqui assumido no sentido de ermo, lugar de recolha, de retiro, de solidão, onde o homem, voltando-se para si mesmo, intenta conhecer-se, na linha do interiorismo agostiniano e do socratismo cristão. Conhece-te a ti próprio como condição para amar a Deus e ao próximo, tal é a primeira condição do rigorismo ascético a que esta obra nos conduz, em conselho significativamente expresso pela personagem que neste diálogo representa a sabedoria, na qual ecoa idêntico preceito expresso por S. Bernardo, para quem o «conhece-te a ti próprio» é também princípio de verdadeira sabedoria, por ser essa a via que conduz o homem a reconhecer a sua miséria, crescendo em humildade perante a grandiosidade divina.
Este livro é escrito como uma confissão autobiográfica de um pecador que é conduzido por um anjo aos caminhos da contemplação e da união com Deus, sendo nesse percurso aconselhado pela justiça, pela misericórdia, pela memória e pela sabedoria ao desprezo dos bens mundanais, que se desfazem «assi como fumo», a que se antepõe a afirmação do verdadeiro caminho do mais autêntico conhecimento, que consiste na ascese mística e na união com Deus.
Torna-se pois fundamental tomar consciência de que ao homem cumpre tomar vida solitária, apartada das cidades e dos negociadores do mundo, razão por que o pecador é conduzido a um «bosco nervoso», como antecâmara de um alto monte onde o aguardarão os prazeres da contemplação. É esta a oportunidade escolhida pelo monge para nos expor o tema das relações entre a vida activa e a vida contemplativa, a que se segue o enunciado dos graus da contemplação e das três espécies de visão.
A vida activa usa bem e com justiça as coisas do mundo, mas a vida contemplativa renuncia ao mundo, voltando-se somente para Deus. Sendo «vaga de todo o negócio», é capaz de sentir o sabor do paraíso dentro da alma. No entanto, a vida activa é boa, sendo justamente considerada como degrau pelo qual se ascende, com a graça divina, à vida contemplativa.
Mas, propriamente falando, os graus da contemplação, pelos quais atingirá o homem a união mística com Deus são a obediência fundada em perfeita humildade, o fazer da carne a servidora do espírito, o bem obrar com descrição, o conhecimento dos conteúdos da fé, o guardar a limpeza da alma, a que se seguem os três graus finais: «o sexto é trespassares-te de juizo de razom em na afeiçom da mente, ca nom has-de julgar aquelas cousas que vires, que te forem reveladas e dadas por Deus, segundo a razom humanal. O setimo graao é sguardar e oolhar a groria de Deus com face descuberta. O oitavo é seres tresformmado de craridade em craridade»
Começa aqui o interesse maior desta obra, sobretudo com os momentos em que descreve pormenorizadamente a experiência mística da visão e da união com Deus, saboreando fervorosamente o amor místico. Cabem aqui as suas inúmeras referências à «avondança de prazer» e à alegria da mente, à folgança espiritual «que me fazia todo ledo», estendendo-se essa alegria aos membros do corpo, «de tal guiza que me fazia andar assi: como bêvedo entrepeçando. E nom podia assessegar e abraçava as criaturas que achava com grandeza do amor do seu Criador», ficando a alma e a mente «esbarafida e de todo fora do seu estado e arrevatada sobre si mesma, trespassando e sobrepojando todolos razoamentos humanais».
Entrega-se pois o anónimo monge à descrição destes altos vôos da alma, subindo muito para além da turvação das nuvens: «a minha alma ouvia então a voz do senhor Deus seu esposo e seu amado, quando se lembrava d'Ele e entom havia grande desejo de O ver e entom O viia, quando se maravilhava de sua majestade, e beijava-O polo grande amor que lhe havia, e abraçava-O pela grande deleitaçom que em Ele havia».
Mais adiante, este entusiasmo atinge o erotismo, quando acentua a intensidade dessa experiência: «E depois que o taamo mais de dentro da minha alma era perfeitamente apostado e ordenado e o amado era dentro metido, crecia a fiuza aa minha alma e tomava grande atrevimento e com grande atrevimento e com grande desejo que a costrangia, nom se podia mais conter: e lançava-se subitamente aos beijos do seu amado e com os beiços apegados enele aficava-lhe beijos de devaçoom mui de dentro do coraçom».
Neste calor místico e neste lume da divindade era como se a alma se derretesse, regressando ao seu estado de primitiva pureza, levantando-se em alheamento, porque posta fora de si pela excessus ou êxtase. Na linha da mística de S. Bernardo, que o autor aqui acompanha, se a contemplação só será plenamente possível na vida eterna, na vida terrena resta ao homem a sua antecipação através do êxtase, separando-se virtualmente a alma do corpo - embora a ele continue susbtancialmente ligada -- para entrar em comunhão amorosa.
O Bosco Deleitoso é certamente um dos textos mais ricos e expressivos da espiritualidade portuguesa sobre a experiência do amor místico.

Obras
Boosco Deleytoso Solitario
, por Hermão de Campos, 1515 (microfilme da BNL F-7007)

Bibliografia
Mário Martins, «Petrarca no Bosco Deleitoso», em Estudos de Literatura Medieval, Braga, 1956, cap. XI; Aida Fernanda Dias «Boosco Deleytoso», em Antologia de Espirituais Portugueses, org. de Maria de Lurdes Belchior, José Adriano de Carvalho e Fernando Cristóvão, Lisboa, 1994, págs. 25-36.

Pedro Calafate


 

 

BOSCO DELEITOSO

TERCEIRA PARTE

Defesa da vida solitária

Capítulo XXX

Quando o nobre solitário ermitam acabou estas razões suso ditas levantou-se logo üu velho honrado que i estava, vestido em maneira de doutor sagral mui honestamente, e em sua cabeça tiinha üa grilanda de louro seca e sem verdura; e começou sua razom mui apostamente contra aquelo que o nobre ermitam católico havia dito.

E disse enesta guisa:

– Maior cousa é segundo natura receber e padecer mui grandes trabalhos e grandes nojos e tribulações por conservar e ajudar todas as gentes, se poder seer, que viver em o ermo vida apartada, posto que nom haja o homem nenhüus nojos nem tribulações em o ermo e que haja avondança de todos os viços e haja fremosura e forças do corpo. E por em qualquer homem de bõo entendimento e de bõo engenho grande avantagem dá a esta tal vida sobre a vida apartada.

Quando eu, pecador e fraco de coraçom, ouvi esto, contorvei-me já quanto, e preguntei quem era este doutor que assi falava ousadamente, e foi-me dito que era üu poeta filósofo que havia nome Ciceram, e porque fora gentil e nom fora católico, por em a grilanda que trazia, que perteence aos poetas, era seca.

E tanto que ele disse sua razom, logo o nobre solitário Dom Francisco respondeu e disse:

– Dom Cicerom, eu outorgo o que vós dizes quando as causas assi som como havedes dito. Mas eu falo daqueles ocupados que nós veemos, dos quaes é chea a vida do poboo; mas dos outros taes como vós dizedes, nom há i nenhüus em o mundo; ou som tam poucos, que nom Parecem em nenhüu lugar.

E eu bem sei que foram já em o mundo e per ventura som agora alguns barões mui ocupados e mui santos, que aduserom pera Jesu Cristo si meesmos e consigo as almas que andavam desviadas da carreira da salvaçom. E quando esto assi é, eu confesso que é mui grande bem que nom pode seer extimado nem apreçado, e é dobrada bem aventurança em contrairo daquela dobrez daquela mizquindade dos ocupados que vivem com outrem.

Qual é a cousa mais bem aventurada e mais dina em o homem ou mais semelhávil a Deus, que guardar ou ajudar muitos? E aquele que esto pode fazer e nom o faz, parece-me que enjeita e lança de si ofício mui nobre de humanidade. E quando tal poder é dado ao homem, deve sojugar o seu próprio desejo aa prol comunal e pera seu falante deve desamparar o ermo, em que aproveita e serve a si soo, e torna-se ao lugar u seja proveitoso ao mundo.

Mas destas cousas todas o meu juízo é este: certamente a doutrina e a ensinança geeral, que é verdadeira, nom se abala nem é movida nem quebrantada per mui poucas razões contrairas. Muitos som que prometem e razoam as ocupações proveitosas do comum e mais santas que qualquer vida apartada do ermo. Mas rogo-te que me digas quantos som aqueles que comprem aquelo que prometerom e razoavam. Som er ventura alguns ou som muitos? Mostra-me üu, e calar-m'-ei.

Eu nom nego que há em o mundo algüus barões ensinados e bem falantes e que desputam muito contra estas cousas; mas nom é a nossa questom sobre o engenho e a sotileza, mas sobre os costumes. Eles andam pelas cidades e pregam e razoam em as praças e falam muitas cousas das virtudes e dos pecados; e aadur pode achar üu que per obra cumprisse o que razoava.

E per ventura dirás tu: «Eu ouvi alguns falar muitas cousas proveitosamente, que muitas vezes aproveitarom aos outros.» Digo-te que eu creo que assi é. Mas nom é logo são o físico que com seu conselho ajuda o enfermo, mas muitas vezes morre o físico daquela enfirmidade da qual livrou muitos. Eu nom enjeito as palavras fremosas per estudo e bem compostas per arte pera saúde e salvaçom de muitos. E qualquer que seja o mesteiral, a mi praz muito da sua obra proveitoso.

Mas nom é o ermo ao solitário escola de reitórica pera bem falar, mas escola de vida pera bem viver; nem teemos mentes nem entendemos em a vãa grória da língua, mas em haver folgança frme da mente e da alma. Ca me nom esquece aquelo que disse Séneca filósofo: «Leixa todos os embargos e vaga pera haveres boa mente.» E nom acalça nengüu a boa mente, se for ocupado em negócios. E eu nom contendo nem digo que o ermo dá ao homem boa mente e boa vontade, mas digo e contendo que a vida apartada em o ermo conserva e guarda e ajuda muito a mente e a vontade boa.

Capítulo CXXXVIII

Entom estando eu assi ouvindo as palavras da mui groriosa ifante, foi levantado e levado aa alteza do monte; e em na cabeça do monte estava üa câmara, a mais fremosa que nunca eu vira, lavores, e todas eram cubertas d'ouro, mui esprandecentes, e com muitas pedras priciosas. A cubertura da câmara em que assi entrei era tam crara, que a vista trespassava e vila o ceo mui craramente per ela; arredor da câmara, todo o monte era pomar de üas árvores mui fremosas que pareciam do paraíso. E havia i muitas aves e animálias mui fremosas; as froles e os fruitos nunca faleciam; a fremosura e o odor e o sabor dos fruitos nom saberia eu dizer nem ensinar senom aquele que os gostasse. Os campos de sô as árvores todos eram cubertos de ervas e de froles de mil naturas; o odor delas trespassava todalas causas de bõo odor; a câmara era toda chea de mui pricioso odor e de grande consolaçom.

E depois que eu foi em aquele lugar, disse ao meu guiador que se nom partia de mi:

– Esta é a casa do Senhor Deus, firmemente edificada. Boa cousa é que moremos aqui!

E disse aa groriosa ifante:

– Senhora, eu amo muito a fremosura desta vossa casa e este monte, que é lugar da morada do Senhor Mais me praz seer enjeitado e despreçado enesta casa e eneste lugar, e viver enele, que morar honrado em nos paaços dos mundanaes e dos pecadores.

Entom fquei em aquele lugar e, aas vezes, morava dentro em na casa e, aas vezes, andava pelo pomar e pelos prados e comia do fruito das árvores do pomar, em que havia muitas fontes lavradas mui ricamente, e as águas delas eram mui craras e corriam per canos d'ouro fino. E em meo daquela tam rica câmara, estava um leito muito bem guarnido de taes guarnimentos, como conviinham a tam nobre pousada e a tam alta senhora, como era aquela groriosa ifante, que enele folgava e dormia; e em redor outros muitos leitos, mui ricamente feitos e guarnidos, em que eu dormia, quando me era mester.

Capítulo CLIII

Estando a minha alma mui alegre razoando-se com o seu muito amado e seu esposo Jesu Cristo e Deus verdadeiro, saiu-se do meu corpo, e o meu confortoso companheiro e guardador mui previsto e guiador mui dereito, que nunca se de mi partia, tomou a minha alma e levou-a mui alegre pera a terra perdurávil e ia cantando com ela mui docemente. Passámos per üu mui grande fogo e eu senti que, em passando per ele, ficou a minha alma toda apurada e limpa, em tal guisa que nom ficou enela mágoa nem üa. E a minha alma sentiu o fogo, mais foi mui pouco o sentimento, porque tam tostemente passou per aquel fogo como a seeta que lança o beesteiro polo ar; e chegámos a üa mui fremosa cidade, que havia todolos muros de pedras priciosas quadradas, e as portas dela eram de mui alvo aljofar e entrámos polas portas, e todalas praças eram estradas de mui puro ouro.

E logo ouvi cantar mui doces cantares e de grande prazer e, depois que entrei pola cidade, vi muitas moradas todas feitas de pedras safiras em canto talhadas e cubertas de abóvedas douradas. E tanto que a minha alma viu a cidade, logo disse alta voz:

– Groriosas cousas som ditas de ti, cidade de Deus, mas muito mais é que o que de ti é dito, ó cidade santa celistrial Jerusalém, visom de paz perdurávil. Como és fremosa em teus deleitos e em teus prazeres! Nom há em ti nem üa causa tal como aquelo que padecia em no mundo.

Ca nom havia enela nem üa cousa daquelas que há em na vida mizquinha deste mundo. Ali nom havia treevas nem noite nem nem üu mudamento de tempo. Ali nom luze a luz da lua nem de candea, nem de estrelas nem sol, mas o Senhor Deus, que é luz, e o Filho de Deus, que é verdadeiro e luz de luz e sol de justiça. Sempre alomea a cidade o Cordeiro branco e sem mágoa Jesu Cristo, luzente e mui fremoso; e o lume dela ele é, ó sol dela e a craridade dela, ele é todo seu bem. A cidade é mui grande, em na qual cada üu daqueles que enela moram a sua morada e seu lugar assinaado, próprio e espicial. Todos contempram craramente, face por face, o Senhor Deus, Rei da cidade, continuadamente sem quedar. E ele está em meo da cidade, e todos os seus santos arredor dele.

Ali estam os coros dos angeos, cantando louvores ao Senhor; ali é a companha dos cidadãos celistriaes; ali é sempre mui doce solenidade de todos aqueles que se partem do esterro do mundo e se vão pera ela. Ali é o coro das profetas; ali som os Apóstolos e a hoste sem conto dos márteres e o santo convento dos confessores. Ali som os santos monges e as santas molheres, que vencerom as deleitações do segre. Ali som todalas ovelhas do Cordeiro Jesu Cristo, que escaparom dos laços do mundo. E todas ham mui grande prazer e grória, que se nom pode extimar em suas própias moradas. E como quer que nom seja igual aa grória de todos, pero o prazer é comum a todos em tal guisa que cada üu há abastança sem nem üa mingua e sem nem üu desejo de mais haver.

Ca ali reina a caridade perfeita, porque Deus é todalas cousas em todos, o qual todos veem sem fim, e veendo-o sempre ardem em seu amor, louvam-no e amam-no, e toda a obra deles é louvor sem desfalicimento e sem trabalho. Que direi mais? Digo que olho nom viu nem orelha ouviu nem subiu em coraçom de homem aquelas cousas que Deus tem prestes pera aqueles que o amam. Qual é a língua que pode dizer ou qual é outrossi o entendimento que é avondoso pera receber quantos som os prazeres daquela cidade celistrial? Estar entre os coros dos angeos e com os beatíssimos espritos em na grória do Criador, e olhar e veer o vulto e a face presente do Senhor Deus e a luz e lume infindo, e nunca haver nem üu temor de morte nem de corruçom, mas pera sempre viver em prazer! Ali nom há nem üa door nem tristeza depois do prazer ali nom é nem üu mal nem nem üa door e todo bem nom falece. Ali é luz sem desfalecimento, prazer sem gimido, desejo sem pena, amor sem tristeza, fartura sem fastidio, saúde sem vício, vida sem morte, saúde sem fraqueza. Ali todos ham üu prazer e üa caridade.

Todas estas cousas forom dadas aa minha alma depois que entrei em na cidade celistrial, ca eu foi levantado ante a cadeira real do Senhor Deus, e ali foi feito rei e recebi reino de fremosura e coroa de grande apostura da mão do Senhor; e logo foi mudada toda a minha mizquindade em grória; e pola proveza que padeci em no mundo por Deus, me foi dada alteza de riqueza, e por trabalho me foi dada folgança perdurávil por trabalho que durou mui pouco; e por vileza e desonra, me foi dada honra sem comparaçom, e por a morte me foi dada a vida; e foi dada aa minha alma visom crara e amor e seguramento de Deus. E eu comecei cantar ao Senhor Deus, dizendo assi:

– Ó Senhor Deus, mui piadoso, certamente nom pode nem üu cuidar nem falar tam grande liberdade como esta que me tu dás, e tal honra, que se nom pode comparar esta bem aventurança sem midida. Ó Senhor, que grorioso galardom me deste! Ó que pricioso dom! Ó que fremoso dom! Ó que confusom dos nom fees, que tal e tanta honra perdem! Confusom seja a Lucifel e aos seus companheiros, que caírom de tanta honra! Ai de vós, maus, que nunca viinredes a atal honra! Ai dos néicios, que tam grande honra como esta mudastes em honra temporal! Ó Senhor mui doce, quanto é bem aventurado aquele que tu escolheste e tomaste pera morar em esta cidade e em estes teus paaços!

Quanto som nobres os que moram enesta tua casa e te louvam pera todo sempre! Ó, quanto som groriosos os barões que sempre estam ante ti e te veem face por face! Ó bõo Jesu, nom é comparaçom do esterco ao ouro, nem da door ao prazer; nem é comparaçom da pena aa grória nem da morte aa vida. Eu, Senhor, foi em no cárcer das treevas do mundo. envolto em muitos perigos, dado em muitas vaidades e em muitas carnalidades. Cego foi em muitas mizquindades; e a tua misericórdia me tirou do lago da mizquindade e do lodo das fezes. e me fezeste parceiro e quinhoeiro dos teus confiados em na casa do teu Padre, enesta cidade celistrial u se alegram os anjos e os arcangeos e todos os Santos que correm em odor dos teus ingoentos, e andarom de virtude em virtude ataa que viiram e veem o Senhor Deus enesta groriosa cidade.

E o Senhor me disse assi:

– Eu desponho e ordeno a ti e aos que me seguirom o meu reino, que vos alegredes ante mi em toda perfeiçom; quando for a ressurreiçom dos corpos, entom darei ao teu corpo quatro dotes mui priciosas: ligeirice e sotileza, em tal guisa que, em üu ponto, será em qualquer lugar e poderá passar per qualquer causa sem embargo, e dar-lh'-ei que nunca já possa morrer, e craridade em tal guisa, que resprandecerá assi como o sol ante mi. Entom viirá toda carne pera adorar ante a minha face, e entom todolos santos veeróm os corpos fedorentos daqueles que forom treedores contra mi, e o vermen deles nom morrerá, e o fogo que queimará nom será apagado.

 

Boosco Deleitoso, ed. Augusto Magne, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1950.

 

(Apostila 8 de Idade Média - Literatura Portuguesa)