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A Demanda do Santo Graal é a adaptação e a tradução das novelas francesas que tinham como tema as aventuras do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda. Entre esses cavaleiros, sobressaem Lançarote do Lago, Boors de Gaunes, Galvão, Perceval e Galaaz. Este último era filho de Lançarote e tinha por missão encontrar o Santo Graal, isto é, o vaso onde fora recolhido o sangue de Cristo na cruz e que estava escondido no castelo de Corbenic, na Britânia. O manuscrito português encontra-se na Biblioteca Nacional de Viena (catalogado com o número 2594) e contém várias redacções feitas entre os séculos XIII e XV. É considerado o mais fiel e o mais completo de todos os que contêm as novelas do chamado Ciclo Bretão.

Edições da obra: Augusto Magne, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1944; Augusto Magne, Rio de Janeiro, 1955-1970, 2 vols.; Joseph Maria Piel, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1988; Irene Freire Nunes, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1995.

 

DEMANDA DO SANTO GRAAL

(extracto)

Véspera de Pinticoste foi grande gente assüada em Camaalot, assi que podera homem i veer mui gram gente, muitos cavaleiros e muitas donas mui bem guisadas. El-rei, que era ende mui ledo, honrou-os muito e feze-os mui bem servir; e toda rem que entendeo per que aquela corte seeria mais viçosa e mais leda, todo o fez fazer.

Aquel dia que vos eu digo, direitamente quando queriam poer as mesas – esto era ora de noa – aveeo que üa donzela chegou i, mui fremosa e mui bem vestida. E entrou no paaço a pee, como mandadeira. Ela começou a catar de üa parte e da outra, pelo paaço; e perguntavam-na que demandava.

– Eu demando – disse ela – por Dom Lançarot do Lago. É aqui?

– Si, donzela – disse üu cavaleiro. Veede-lo: stá aaquela freesta, falando com Dom Gualvam.

Ela foi logo pera el e salvô-o. Ele, tanto que a vio, recebeo-a mui bem e abraçou-a, ca aquela era üa das donzelas que moravam na Insoa da Lediça, que a filha Amida del-rei Peles amava mais que donzela da sua companha i.

– Ai, donzela! – disse Lançalot –que ventura vos adusse aqui, que bem sei que sem razom nom veestes vós?

– Senhor, verdade é; mais rogo-vos, se vos aprouguer, que vaades comigo aaquela foresta de Camaalot; e sabede que manhãa, ora de comer, seeredes aqui.

– Certas, donzela – disse el – muito me praz; ca teúdo e soom de vos fazer serviço em tôdalas cousas que eu poder.

Entam pedio suas armas. E quando el-rei vio que se fazia armar a tam gram coita, foi a el com a raïa e disse-lhe:

– Como leixar-nos queredes a atal festa, u cavaleiros de todo o mundo veem aa corte, e mui mais ainda por vos veerem ca por al – deles por vos veerem e deles por averem vossa companha?

– Senhor, – disse el – nom vou senam a esta foresta com esta donzela que me rogou; mais cras, ora de terça, seerei aqui.

Entom se saío Lançarot do Lago e sobio em seu cavalo, e a donzela em seu palafrem; e forom com a donzela dous cavaleiros e duas donzelas. E quando ela tornou a eles, disse-lhes:

– Sabede que adubei o por que viim: Dom Lançarot do Lago se irá comnosco.

Entam se filharom andar e entrarom na foresta; e nom andarom muito per ela que chegarom a casa do ermitam que soía a falar com Gualaz. E quando el vio Lançarot ir é a donzela, logo soube que ia pera fazer Gualaaz cavaleiro, e leixou sua irmida por ir ao mosteiro das donas, ca nom queria que se fosse Gualaaz ante que o el visse, ca bem sabia que, pois se el partia dali, que nom tornaria i, ca lhe convenria e, tanto que fosse cavaleiro, entrar aas venturas do reino de Logres. E por esto lhe semelhava que o avia perdudo e que o nom veeria a meude, e temia, ca avia em ele mui grande sabor, porque era santa cousa e santa creatura.

Quando eles cheguarom aa abadia, levarom Lançarot pera üa camara, e desarmarom-no. E vëo a ele a abadessa com quatro donas, e adusse consigo Gualaaz: tam fremosa cousa era, que maravilha era; e andava tam bem vesådo, que nom podia milhor. E a abadessa chorava muito com prazer. Tanto que vio Lançarot, disse-lhe:

– Senhor, por Deos, fazede vós nosso novel cavaleiro, ca nom queriamos que seja cavaleiro por mão doutro; ca milhor cavaleiro ca vós nom no pode fazer cavaleiro; ca bem crcemos que ainda seja tam bõo que vos acharedes ende bem, e que será vossa honra de o fazerdes; e se vos el ende nom rogasse, vó-lo devíades de fazer, ca bem sabedes que é vosso filho.

– Gualaaz – disse Lançalot – queredes vós seer cavaleiro?

El respondeo baldosamente:

– Senhor, se prouvesse a vós, bem no queria seer, ca nom há cousa no mundo que tanto deseje como honra de cavalaria, e seer da vossa mão, ca doutra nom. no: queria seer, que tanto vos auço louvar e preçar de cavalaria, que nenhüu, a meu cuidar, nom podia seer covardo nem mao que vós fezéssedes cavaleiro. E esto é üa das cousas do mundo que me dá maior esperança de seer homem bõo e bõo cavaleiro.

– Filho Gualaaz – disse Lançalot – stranhamente vos fez Deos fremosa creatura. Par Deos, se vós nom cuidades seer bõo homem ou bõo cavaleiro, assi Deos me conselhe, sobejo seria gram dapno e gram malaventura de nom seerdes bõo cavaleiro, ca sobejo sedes fremoso.

E ele disse:

– Se me Deos fez assi fremoso, dar-mi-á bondade, se lhe prouver; ca, em outra guisa, valeria pouco. E ele querrá que serei bõo e cousa que semelhe minha linhagem e aaqueles onde eu venho; e metuda ei minha sperança em Nosso Senhor. E por esto vos rogo que me façades cavaleiro.

E Lançalot respondeo:

– Filho, pois vos praz, eu vos farei cavaleiro. E Nosso Senhor, assi como a el aprouver e o poderá fazer, vos faça tam bõo cavaleiro como sodes fremoso.

E o irmitam respondeo a esto:

– Dom Lançalot, nom ajades dulda de Galaaz, ca eu vos digo que de bondade de cavalaria os milhores cavaleiros do mundo passará.

E Lançalot respondeo:

– Deos o faça assi como eu queria.

Entam começarom todos a chorar com prazer quantos no lugar stavam.

 

Demanda do Santo Graal, fl. I, ed. de Augusto Magne, 1955-1970.

 

(Apostila 3 de Idade Média - Literatura Portuguesa)

 


Resenha de Livro: MEGIANI, Ana Paula Torres. O Jovem Rei Encantado. Expectativas do Messianismo Régio em Portugal, séculos XIII-XVI. São Paulo: Hucitec, 2003.

Por Adriana Zierer (UEMA)

O livro de Megiani é fruto de sua dissertação de Mestrado, defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 1995 e incorpora também leitura de outras obras após o término da pesquisa da autora, como a de Delumeau (Mil Anos de Felicidade, Companhia das Letras, 1997). A autora é atualmente professora do Departamento de História da USP.

Interessada no fenômeno do sebastianismo, isto é a crença de que o rei D. Sebastião, desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir (1578) iria retornar para estabelecer um império de felicidade em Portugal, dominado pela Espanha durante a União Ibérica (1580-1640), a autora preocupou-se em analisar aquele fenômeno na longa duração. Ao elaborar o trabalho, sua questão principal era: que fatores possibilitaram o surgimento do sebastianismo em Portugal no século XVI?

Para compreender este processo, a historiadora buscou as origens do sebastianismo em três elementos formadores da cultura portuguesa desde a Baixa Idade Média: a tradição joaquimita, a literatura (através da Matéria da Bretanha) e as crônicas régias.

Como fontes, Megiani elegeu na literatura os romances A Demanda do Santo Graal (anônimo, século XIII) e a Crônica do Imperador Clarimundo (1520), de João de Barros e as Profecias do Sapateiro Bandarra, do século XVI. Nos relatos cronísticos utilizou principalmente a Crônica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão e relatos sobre o rei D. Sebastião, como por exemplo, Jornada de D. Sebastião à África.

O livro é dividido em duas partes e quatro capítulos. O capítulo 1 “O Imaginário Bíblico” mostra os elementos apocalípticos na cultura portuguesa por via das matrizes judaica e cristã.  Através do Apocalipse de São João ficava muito presente a idéia de que o Messias, isto é Cristo, volta ao mundo para realizar uma segunda época de felicidade antes do Juízo Final. Esta idéia deu origem a crenças milenaristas sobre a possibilidade de um período de felicidade de mil anos na terra, que teve uma grande importância no período medieval. Também através do imaginário bíblico desenvolveu-se a idéia de um rei salvador terrestre que vem estabelecer uma época de felicidade, o Imperador dos Últimos Dias. Vários monarcas medievais foram associados a esta figura, como Carlos Magno, Frederico II, o rei Artur, Balduíno de Flandres e na Idade Moderna, D. Sebastião.    

Joaquim de Fiore, abade calabrês, recuperou as idéias milenaristas no século XII ao dividir o mundo em três idades, a do Pai a do Filho e a do Espírito Santo, após a qual haveria uma renovação do mundo, que seria conduzido por monges, os responsáveis pela preparação da Idade do Espírito Santo.

A autora mostra que as idéias joaquimitas estiveram presentes em Portugal divulgadas principalmente por franciscanos espirituais e também em obras literárias, como por exemplo, o romance de cavalaria A Demanda do Santo Graal, que teria, segundo a autora, inspiração joaquimita.

Megiani também apresenta neste capítulo o messianismo na matriz judaica, divulgado nos meios populares através das trovas de um sapateiro chamado Bandarra, no século XVI. Esta literatura de crítica social previa uma nova sociedade governada por um imperador português, o Encoberto, tendo sido composta num período de conversão forçada dos judeus na Península Ibérica. Propagava a idéia de que o Império português seria universal, favorecendo a identidade lusa.

O capítulo 2 trata do “Imaginário Cavaleiresco”, isto é, do seu importante papel na sociedade portuguesa numa época marcada pela Expansão Marítima. Segundo a autora, as novelas de cavalaria não apenas apresentam traços messiânicos, como também “modelos de comportamento e de atitudes típicas da cavalaria medieval” (p. 53). Dentre os romances, o primeiro a circular em Portugal foi A Demanda do Santo Graal que influenciou todos os outros produzidos posteriormente.

A autora sublinha como principal aspecto messiânico da obra o fato de Galaaz, personagem principal, imbuído de grande sentimento religioso, representar o “Desejado, o escolhido e protegido de Deus” (p. 62). Ele é o eleito para dar cabo às aventuras da narrativa, dentre as quais a mais importante é achar o Graal, o cálice com o sangue de Cristo que só poderia ser encontrado pelo cavaleiro puro e sem pecados.

Outra obra com aspectos messiânicos, a Crônica do Imperador Clarimundo (1520), de João de Barros, reconta a história da realeza portuguesa através das aventuras do predestinado herói do título, que ao final, consegue a vitória contra os exércitos do Turco, uma alusão à possibilidade de vitória portuguesa contra os mouros e o estabelecimento de um Império Português no mundo.

O capítulo 3 “O Retorno de Afonso Henriques” busca mostrar a importância das crônicas no século XVI e seu papel para reforçar o mito do rei fundador, Afonso Henriques. Desde a Crônica de 1419 foi criada uma versão de que o primeiro rei de Portugal havia sido escolhido por Deus para governar, uma vez que antes de uma importante batalha contra um exército muçulmano muito mais numeroso, D. Afonso teria tido uma visão de Cristo crucificado, o que ficou conhecido como o “Milagre de Ourique”. Este acontecimento e outros, como a cura milagrosa de um aleijão de Afonso Henriques quando era bebê através do intermédio da Virgem Maria, estão associados à predestinação de Afonso I e são recontados por Duarte Galvão no século XVI, enfatizando a idéia de povo eleito (os portugueses) e do rei-desejado, que por uma série de motivos será associado posteriormente a D. Sebastião.  Até mesmo as armas utilizadas por Afonso I e guardadas no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra eram consideradas portadoras de qualidades do maravilhoso cristão.

O último capítulo, “D. Sebastião e a Personificação do Salvador”, mostra a influência tanto da literatura cavaleiresca quanto da Crônica de Afonso Henriques sobre a personalidade de D. Sebastião. A autora visa provar que a educação do monarca e as expectativas geradas em torno do último herdeiro da dinastia de Avis levaram-no a tentar ser um elo de ligação com o rei Afonso Henriques. Desta maneira, buscando imitar as crônicas e romances que havia lido e vivendo numa época repleta de influências messiânicas, o monarca Sebastião teria buscado adequar-se àquele modelo. Assim, arriscou-se contra os mouros no Marrocos, acreditando que Deus lhe daria a vitória, tal como havia acontecido com Afonso Henriques, cujas armas o rei Sebastião teria levado consigo para a batalha de Alcácer-Quibir.

Assim, a morte dos herdeiros de D. João III e o desejo de reunificar o império na África, associados ao anseio de personificar o rei salvador, levaram D. Sebastião, imitador das atitudes do casto herói da Demanda do Santo Graal, Galaaz, a tentar na vida copiar os feitos heróicos e imaginários de seus antepassados.

Megiani possui linguagem fluente e conduz o leitor a um tema complexo e abrangente de forma agradável. Na parte sobre o nascimento de D. Sebastião quase nos consegue transportar para a época, mostrando a dramaticidade de um herdeiro esperado: “Estando a princesa, prestes a dar à luz, vinte dias antes do nascimento, morre o pai, o único herdeiro do trono. (...) Na tentativa de favorecer o final da gravidez de D. Joana e a sobrevivência do Desejado, os avós ocultaram da princesa o falecimento do marido, enquanto toda a população se desdobrava em promessas e rezas aos céus.” (p. 115)

A autora também reforça que o nome Sebastião provinha de um santo que na devoção medieval havia sido mutilado pelos muçulmanos na Cruzada, cabendo assim ao futuro D. Sebastião a incumbência de derrotá-los.

Para os medievalistas, o livro é particularmente interessante por mostrar a importância dos escritos legitimadores do poder político através da literatura, com o uso da Crônica do Imperador Clarimundo para recontar as origens da monarquia portuguesa. A legitimação política também fica clara nos relatos cronísticos, como a Crônica de Afonso Henriques, de Duarte Galvão, que mantinha o propósito da Dinastia de Avis em se apresentar como uma dinastia predestinada, com reis eleitos por Deus ou salvadores, tais como Afonso Henriques, cujos feitos D. Sebastião procurou imitar.

Outro aspecto importante da obra é a abordagem do romance A Demanda do Santo Graal na longa duração e seu relevante papel ao apresentar modelos de comportamento ideais à sociedade portuguesa valorizados da Idade Média à Moderna.

O estudo de Megiani aponta que o tema do messianismo em Portugal e do sebastianismo vem chamando a atenção dos historiadores, com várias publicações atuais no Brasil. O sebastianismo, cujas origens foram pesquisadas pela autora, pode ser pesquisado sob vários aspectos. Se quisermos continuar a nos aprofundar no assunto, outras obras foram publicadas recentemente, como o livro de Jaqueline Herman, No Reino do Desejado (Cia das Letras, 1998) e o de Yves Marie Bércé, O Rei Oculto (USC, 2003) citados também por Megiani como importantes para o seu estudo.

Na Universidade Federal Fluminense (UFF) através do Laboratório de Estudos Medievais e Ibéricos – Scriptorium foram desenvolvidos trabalhos sobre o papel do messianismo na legitimação política da Dinastia de Avis, relacionando o primeiro monarca português Afonso Henriques ao primeiro soberano da Dinastia de Avis, D. João I. Estes estudos aprofundam as pesquisas sobre a Crônica de 1419, de autoria atribuída a Fernão Lopes e sobre a Crônica de D. João I, do mesmo autor, contribuindo também para a compreensão das origens do sebastianismo.

Ainda sobre as publicações referentes ao tema, o assunto tem sido relacionado às suas influências no Brasil. Sobre as suas manifestações no Maranhão até hoje, há o estudo do estudioso português Pedro Braga, O Touro Encantado na Ilha dos Lençóis: o Sebastianismo no Maranhão (Vozes, 2001). E o sebastianismo em Pernambuco num movimento do século XIX é o cerne da obra Paraíso Terreal, a Rebelião Sebastianista na Serra do Rodeador – Pernambuco, 1820 (Annablume, 2004), de José Gomes Cabral.

Portanto, o livro de Megiani nos permite conhecer um pouco mais as origens do sebastianismo e se desejarmos continuar trilhando este tema fascinante, há vários caminhos a serem seguidos.

(Fonte: Revista Mirabilia 4: http://www.revistamirabilia.com/Numeros/Num4/resenhas/res3.htm)