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O Velho da Horta - Gil Vicente

"O maior risco da vida/e mais perigoso, é amar". Estas foram as declarações mais lúcidas e importantes do discurso do protagonista desta peça vicentina, o Velho, que tinha uma horta, mas de nada lhe valeram os bens, como a seguir vamos verificar.

A farsa "O Velho da Horta", representada para D. Manuel, em 1512, conta a história de um velho que se apaixona por uma rapariga e "por via de uma alcoviteira gastou toda a sua fazenda".

Gil Vicente, profundo conhecedor da alma humana,o crítico irreverente e mordaz, dá vida "aos homens que se enamoram fora da idade porque não souberam aproveitar-se do amor quando eram jovens, ou porque pretendem enganar a morte quando já a trazem às costas" (Alfonso Castelão).

O eterno drama destes velhos constitui, portanto, o tema desta farsa de Mestre Gil. A farsa conta-nos que, "andando um velho, dono de uma horta, a espairecer por ela - sendo o seu hortelão fora - veio uma moça, de muito bom parecer, buscar hortaliça, e o velho dela se enamorou".

Aos seus protestos de amor, a moça responde: "Já perto sois de morrer/donde nasce esta sandice,/que, quanto mais na velhice,/amais os velhos viver?". A jovem afasta-se com as couves e cheiros que buscava e, como paga, o Velho pede-lhe apenas uma rosa "por são/colhidas de vossa mão".

Interrompido nos seus arroubos por um Parvo, seu criado, que traz um recado da mulher do Velho de que "a panela já está cozida", este afirma que não quer comer e manda-o criado trazer a sua viola para cantar os seus amores. A esposa, que chega entretanto, apercebe-se dos devaneios do marido e adverte-o: "Que peçonha/Havei má hora, vergonha/a cabo de sessenta anos,/que sedes já carantonha".

Mas o pobre enamorado é espicaçado pelas intrigas, invocações de amores e esconjuros da hábil alcoviteira Branca Gil. Esta promete-lhe êxito nos amores com uma condição (que não é pequena): "Mas para isto andar direito,/eu já,senhor meu, não posso/vencer uma moça tal/ sem gastardes bem do vosso".

Depois de lhe ter extorquido bastantes cruzados, Branca Gil é presa "da parte de El-Rei", por um alcaide e quatro beleguins, para ser açoitada por alcoviteira. O Velho fica sem a fazenda e sem a Moça (que, entretanto, estava "na rua para ir casar"), e lamenta-se: "Se os jóvenes amores/os mais tem fins desastradas,/que farão as cãs lançadas/no conto dos amadores!".

Texto:

O Velho da Horta

(Gil Vicente )

FIGURAS


 

ARGUMENTO

"Esta seguinte farsa é o seu argumento que um homem honrado e muito rico, já VELHO, tinha uma horta: e andando uma manhã por ela espairecendo, sendo o seu hortelão fora, veio uma moça de muito bom parecer buscar hortaliça, e o VELHO em tanta maneira se enamorou dela que, por via de uma ALCOVITEIRA, gastou toda a sua fazenda. A ALCOVITEIRA foi açoitada, e a moça casou honradamente. Entra logo o VELHO rezando pela horta. Foi representada ao mui sereníssimo rei D. Manuel, o primeiro desse nome. Era do Senhor de 1512."
 

VELHO

Entra a MOÇA na horta e diz o VELHO: Senhora, benza-vos Deus,

MOÇA Deus vos mantenha, senhor.

VELHO Onde se criou tal flor? Eu diria que nos céus.

MOÇA Mas no chão.

VELHO Pois damas se acharão que não são vosso sapato!

MOÇA Ai! Como isso é tão vão, e como as lisonjas são de barato!

VELHO Que buscais vós cá, donzela, senhora, meu coração?

MOÇA Vinha ao vosso hortelão, por cheiros para a panela.

VELHO E a isso vinde vós, meu paraíso. Minha senhora, e não a aí?

MOÇA Vistes vós! Segundo isso, nenhum VELHO não tem siso natural.

VELHO Ó meus olhinhos garridos, mina rosa, meu arminho!

MOÇA Onde é vosso ratinho? Não tem os cheiros colhidos?

VELHO Tão depressa vinde vós, minha condensa, meu amor, meu coração!

MOÇA Jesus! Jesus! Que coisa é essa? E que prática tão avessa da razão!

VELHO Falai, falai doutra maneira! Mandai-me dar a hortaliça. Grão fogo de amor me atiça, ó minha alma verdadeira!

MOÇA E essa tosse? Amores de sobreposse serão os da vossa idade; o tempo vos tirou a posse.

VELHO Mas amo que se moço fosse com a metade.

MOÇA E qual será a desastrada que atende vosso amor?

VELHO Oh minha alma e minha dor, quem vos tivesse furtada!

MOÇA Que prazer! Quem vos isso ouvir dizer cuidará que estais vivo, ou que estai para viver!

VELHO Vivo não no quero ser, mas cativo!

MOÇA Vossa alma não é lembrada que vos despede esta vida?

VELHO Vós sois minha despedida, minha morte antecipada.

MOÇA Que galante! Que rosa! Que diamante! Que preciosa perla fina!

VELHO Oh fortuna triunfante! Quem meteu um VELHO amante com menina! O maior risco da vida e mais perigoso é amar, que morrer é acabar e amor não tem saída, e pois penado, ainda que amado, vive qualquer amador; que fará o desamado, e sendo desesperado de favor?

MOÇA Ora, dá-lhe lá favores! Velhice, como te enganas!

VELHO Essas palavras ufanas acendem mais os amores.

MOÇA Bom homem, estais às escuras! Não vos vedes como estais?

VELHO Vós me cegais com tristuras, mas vejo as desaventuras que me dais.

MOÇA Não vedes que sois já morto e andais contra a natura?

VELHO Oh flor da mor formosura! Quem vos trouxe a este meu horto? Ai de mim! Porque, logo que vos vi, cegou minha alma, e a vida está tão fora de si que, partindo-vos daqui, é partida.

MOÇA Já perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os VELHOs viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a vida que deixais?

VELHO Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d'agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a mocidade os escora. Mas um VELHO, em idade de conselho, de menina namorado... Oh minha alma e meu espelho!

MOÇA Oh miolo de coelho mal assado!

VELHO Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, terá menos siso amando, porque é mais namorado. Em conclusão: que amor não quer razão, nem contrato, nem cautela, nem preito, nem condição, mas penar de coração sem querela.

MOÇA Onde há desses namorados? A terra está livre deles! Olho mau se meteu neles! Namorados de cruzados, isso si!...

VELHO Senhora, eis-me eu aqui, que não sei senão amar. Oh meu rosto de alfeni! Que em hora má eu vos vi.

MOÇA Que VELHO tão sem sossego!

VELHO Que garridice me viste?

MOÇA Mas dizei, que me sentiste, remelado, meio cego?

VELHO Mas de todo, por mui namorado modo, me tendes, minha senhora, já cego de todo em todo.

MOÇA Bem está, quando tal lodo se namora.

VELHO Quanto mais estais avessa, mais certo vos quero bem.

MOÇA O vosso hortelão não vem? Quero-me ir, que estou com pressa.

VELHO Que fermosa! Toda a minha horta é vossa.

MOÇA Não quero tanta franqueza.

VELHO Não pra me serdes piedosa, porque, quanto mais graciosa, sois crueza. Cortai tudo, é permitido, senhora, se sois servida. Seja a horta destruída, pois seu dono é destruído.

MOÇA Mana minha! Julgais que sou a daninha? Porque não posso esperar, colherei alguma coisinha, somente por ir asinha e não tardar.

VELHO Colhei, rosa, dessas rosas! Minhas flores, colhei flores! Quisera que esses amores foram perlas preciosas e de rubis o caminho por onde is, e a horta de ouro tal, com lavores mui sutis, pois que Deus fazer-vos quis angelical. Ditoso é o jardim que está em vosso poder. Podeis, senhora, fazer dele o que fazeis de mim.

MOÇA Que folgura! Que pomar e que verdura! Que fonte tão esmerada!

VELHO N'água olhai vossa figura: vereis minha sepultura ser chegada. Canta a MOÇA "Cual es la niña que coge las flores sino tiene amores? Cogia la niña la rosa florida: El hortelanico prendas le pedia sino tienes amores." Assim cantando, colheu a MOÇA da horta o que vinha buscar e, acabado, diz: Eis aqui o que colhi; vede o que vos hei de dar.

VELHO Que me haveis vós de pagar, pois que me levais a mi? Oh coitado! Que amor me tem entregado e em vosso poder me fino, como pássaro em mão dado de um menino!

MOÇA Senhor, com vossa mercê.

VELHO Por eu não ficar sem a vossa, queria de vós uma rosa.

MOÇA Uma rosa? Para que?

VELHO Porque são colhidas de vossa mão, deixar-me-eis alguma vida, não isente de paixão mas será consolação na partida.

MOÇA Isso é por me deter, Ora tomai, e acabar! Tomou o VELHO a mão: Jesus! E quereis brincar? Que galante e que prazer!

VELHO Já me deixais? Eu não vos esqueço mais e nem fico só comigo. Oh martírios infernais! Não sei por que me matais, nem o que digo. Vem um PARVO, criado do VELHO, e diz: Dono, dizia minha dona que fazeis vós cá té à noite?

VELHO Vai-te! Queres que t'açoite? Oh! Dou ao demo a intrujona sem saber!

PARVO Diz que fosseis vós comer e não demoreis aqui.

VELHO Não quero comer, nem beber.

PARVO Pois que haver cá de fazer?

VELHO Vai-te daí!

PARVO Dono, veio lá meu tio, estava minha dona, então ela, metendo lume à panela o fogo logo subiu.

VELHO Oh Senhora! Como sei que estais agora sem saber minha saudade. Oh! Senhora matadora, meu coração vos adora de vontade!

PARVO Raivou tanto! Resmungou! Oh pesar ora da vida! Está a panela cozida, minha dona não jantou. Não quereis?

VELHO Não hei de comer desta vez, nem quero comer bocado.

PARVO E se vós, dono, morreis? Então depois não falareis senão finado. Então na terra nego jazer, então, finar dono, estendido.

VELHO Antes não fora eu nascido, ou acabasse de viver!

PARVO Assim, por Deus! Então tanta pulga em vós, tanta bichoca nos olhos, ali, cos finado, sós, e comer-vos-ão a vós os piolhos. Comer-vos-ão as cigarras e os sapos! Morrei! Morrei!

VELHO Deus me faz já mercê de me soltar as amaras. Vai saltando! Aqui te fico esperando; traze a viola, e veremos.

PARVO Ah! Corpo de São Fernando! Estão os outros jantando, e cantaremos?!...

VELHO Fora eu do teu teor, por não se sentir esta praga de fogo, que não se apaga, nem abranda tanta dor... Hei de morrer.

PARVO Minha dona quer comer; Vinde, infeliz, que ela brada! Olhai! Eu fui lhe dizer dessa rosa e do tanger, e está raivada!

VELHO Vai tu, filho Joane, e dize que logo vou, que não há tempo que cá estou.

PARVO Ireis vós para o Sanhoane! Pelo céu sagrado, que meu dono está danado! Viu ele o demo no ramo. Se ele fosse namorado, logo eu vou buscar outro amo. Vem a MULHER do VELHO e diz: Hui! Que sina desastrada! Fernandeanes, que é isto?

VELHO Oh pesar do anticristo. Oh velha destemperada! Vistes ora? MULHER E esta dama onde mora? Hui! Infeliz dos meus dias! Vinde jantar em má hora: por que vos meter agora em musiquias?

VELHO Pelo corpo de São Roque, vai para o demo a gulosa! MULHER Quem vos pôs aí essa rosa? Má forca que vos enforque!

VELHO Não maçar! Fareis bem de vos tornar porque estou tão sem sentido; não cureis de me falar, que não se pode evitar ser perdido! MULHER Agora com ervas novas vos tornastes garanhão!...

VELHO Não sei que é, nem que não, que hei de vir a fazer trovas. MULHER Que peçonha! Havei, infeliz, vergonha ao cabo de sessenta anos, que sondes vós carantonha.

VELHO Amores de quem me sonha tantos danos! MULHER Já vós estais em idade de mudardes os costumes.

VELHO Pois que me pedis ciúmes, eu vo-los farei de verdade. MULHER Olhai a peça!

VELHO Que o demo em nada me empeça, senão morrer de namorado. MULHER Está a cair da tripeça e tem rosa na cabeça e embeiçado!...

VELHO Deixar-me ser namorado, porque o sou muito em extremo! MULHER Mas vos tome inda o demo, se vos já não tem tomado!

VELHO Dona torta, acertar por esta porta, Velha mal-aventurada! Saia, infeliz , desta horta! MULHER Hui, meu Deus, que serei morta, ou espancada!

VELHO Estas velhas são pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais homem as afaga, tanto mais são endiabradas! (Canta) "Volvido nos han volvido, volvido nos han: por uma vecina mala meu amor tolheu-lhe a fala volvido nos han." Entra Branca Gil, ALCOVITEIRA, e diz: Mantenha Deus vossa Mercê.

VELHO Olá! Venhais em boa hora! Ah! Santa Maria! Senhora. Como logo Deus provê!

ALCOVITEIRA Certo, oh fadas! Mas venho por misturadas, e muito depressa ainda.

VELHO Misturadas preparadas, que hão de fazer bem guisadas vossa vinda! Justamente nestes dias, em tempo contra a razão, veio amor, sem intenção, e fez de mim outro Macias tão penado, que de muito namorado creio que culpareis porque tomei tal cuidado; e do VELHO destampado zombareis.

ALCOVITEIRA Mas, antes, senhor agora na velhice anda o amor; o de idade de amador por acaso se namora; e na corte nenhum mancebo de sorte não ama como soía. Tudo vai em zombaria! Nunca morrem desta morte nenhum dia. E folgo ora de ver vossa mercê namorado, que o homem bem criado até à morte o há de ser, por direito. Não por modo contrafeito, mas firme, sem ir atrás, que a todo homem perfeito mandou Deus no seu preceito: amarás.

VELHO Isso é o que sempre brado, Branca Gil, e não me vai, que eu não daria um real por homem desnamorado. Porém, amiga, se nesta minha fadiga vós não sois medianeira, não sei que maneira siga, nem que faça, nem que diga, nem que queira.

ALCOVITEIRA Ando agora tão ditosa (louvores a Virgem Maria!), que logro mais do que queria pela minha vida e vossa. De antemão, faço uma esconjuração c'um dente de negra morta antes que entre pela porta qualquer duro coração que a exorta.

VELHO Dizede-me: quem é ela?

ALCOVITEIRA Vive junto com a Sé. Já! Já! Já! Bem sei quem é! É bonita como estrela, uma rosinha de abril, uma frescura de maio, tão manhosa, tão sutil!...

VELHO Acudi-me Branca Gil, que desmaio.

Esmorece o VELHO e a ALCOVITEIRA começa a ladainha:

VELHO Óh! Coitado! Ai triste desatinado! Ainda torno a viver? Cuidei que já era livrado.

ALCOVITEIRA Que esforço de namorado e que prazer! Que hora foi aquela!

VELHO Que remédio me dais vós?

ALCOVITEIRA Vivereis, prazendo a Deus, e casar-vos-ei com ela.

VELHO É vento isso!

ALCOVITEIRA Assim seja o paraíso. Que isso não é tão extremo! Não curedes vós de riso, que eu farei tão de improviso como o demo. E também doutra maneira se eu me quiser trabalhar.

VELHO Ide-lhe, logo, falar e fazei com que me queira, pois pereço; e dizei-lhe que lhe peço se lembre que tal fiquei estimado em pouco preço, e, se tanto mal mereço, não no sei! E, se tenho esta vontade, não deve ela s'agastar; antes deve de folgar ver-nos morto nesta idade. E, se reclama que sendo tão linda dama por ser VELHO me aborrece, dizei-lhe: é um mal quem desama porque minh'alma que a ama não envelhece.

ALCOVITEIRA Sus! Nome de Jesus Cristo! Olhai-me pela cestinha.

VELHO Tornai logo, fada minha, que eu pagarei bem isto. Vai-se a ALCOVITEIRA, e fica o VELHO tangendo e cantando a cantiga seguinte: Pues tengo razón, señora, Razón es que me laa oiga! Vem a ALCOVITEIRA e diz o VELHO Venhais em boa hora, amiga!

ALCOVITEIRA Já ela fica de bom jeito; mas, para isto andar direito, é razão que vo-lo diga: eu já, senhor meu, não posso, sem gastardes bem do vosso, vencer uma moça tal.

VELHO Eu lhe pagarei em grosso.

ALCOVITEIRA Aí está o feito nosso, e não em al. Perca-se toda a fazenda, por salvardes vossa vida!

VELHO Seja ela disso servida, que escusada é mais contenda.

ALCOVITEIRA Deus vos ajude, e vos dê mais saúde, que assim o haveis de fazer, que viola nem alaúde nem quantos amores pude não quer ver. Falou-me lá num brial de seda e uns trocados...

VELHO Eis aqui trinta cruzados, Que lhe façam mui real! Enquanto a ALCOVITEIRA vai, VELHO torna a prosseguir o seu cantar e tanger e, acabado, torna ela e diz: Está tão saudosa de vós que se perde a coitadinha! Há mister uma saiazinha e três onças de retroz.

VELHO Tomai.

ALCOVITEIRA A benção de vosso pai. (Bom namorado é o tal!) pois gastais, descansai. Namorados de al! Ai! Não valem real! Ui! Tal fora, se me fora! Sabeis vós que me esquecia? Uma amiga me vendia um broche de uma senhora. Com um rubi para o colo, de marfi, lavrado de mil lavores, por cem cruzados. Ei-los aí! Isto, má hora, isto si são amores! Vai-se o VELHO torna a prosseguir a sua música e, acabada, torna a ALCOVITEIRA e diz: Dei, má-hora, uma topada. Trago as sapatas rompidas destas vindas, destas idas, e enfim não ganho nada.

VELHO Eis aqui dez cruzados para ti.

ALCOVITEIRA Começo com boa estréia! Vem um ALCAIDE com quatro BELEGUINS, e diz: Dona, levantai-vos daí!

ALCOVITEIRA Que quereis vós assim? ALCAIDE À cadeia!

VELHO Senhores, homens de bem, escutem vossas senhorias. ALCAIDE Deixai essas cortesias!

ALCOVITEIRA Não hei medo de ninguém, viste ora! ALCAIDE Levantai-vos daí, senhora, daí ao demo esse rezar! Quem vos dez tão rezadora?

ALCOVITEIRA Deixar-me ora, na má-hora, aqui acabar. ALCAIDE Vinde da parte de el-Rei!

ALCOVITEIRA Muita vida seja a sua. Não me leveis pela rua; deixar-me vós, que eu me irei. BELEGUINS Sus! Andar!

ALCOVITEIRA Onde me quereis levar, ou quem me manda prender? Nunca havedes de acabar de me prender e soltar? Não há poder! ALCAIDE Nada se pode fazer.

ALCOVITEIRA Está já a carocha aviada?!... Três vezes fui já açoitada, e, enfim, hei de viver. Levam-na presa e fica o VELHO dizendo: Oh! Que má-hora! Ah! Santa Maria! Senhora! Já não posso livrar bem. Cada passo se empiora! Oh! Triste quem se namora de alguém! Vem uma MOCINHA à horta e diz: Vedes aqui o dinheiro? Manda-me cá minha tia, que, assim como no outro dia, lhe mandeis a couve e o cheiro. Está pasmado?

VELHO Mas estou desatinado.

MOCINHA Estais doente, ou que haveis?

VELHO Ai! Não sei! Desconsolado, que nasci desventurado!

MOCINHA Não choreis! Mais mal fadada vai aquela!

VELHO Quem

MOCINHA Branca Gil.

VELHO Como?

MOCINHA Com cem açoites no lombo, uma carocha por capela, e atenção! Leva tão bom coração, como se fosse em folia. Que pancadas que lhe dão! E o triste do pregão - porque dizia: "Por mui grande ALCOVITEIRA e para sempre degredada", vai tão desavergonhada, como ia a feiticeira. E, quando estava, uma moça que passava na rua, para ir casar, e a coitada que chegava a folia começava de cantar: "ua moça tão fermosa que vivia ali à Sé..."

VELHO Oh coitado! A minha é!

MOCINHA Agora, má hora e vossa! Vossa é a treva. Mas ela o noivo leva. Vai tão leda, tão contente, uns cabelos como Eva; por certo que não se atreva toda a gente! O Noivo, moço polido, não tirava os olhos dela, e ela dele. Oh que estrela! É ele um par bem escolhido!

VELHO Ó roubado, da vaidade enganado, da vida e da fazenda! Ó VELHO, siso enleado! Quem te meteu desastrado em tal contenda? Se os jovens amores, os mais têm fins desastrados, que farão as cãs lançadas no conto dos amadores? Que sentias, triste VELHO, em fim dos dias? Se a ti mesmo contemplaras, souberas que não vias, e acertaras. Quero-me ir buscar a morte, pois que tanto mal busquei. Quatro filhas que criei eu as pus em pobre sorte. Vou morrer. Elas hão de padecer, porque não lhe deixo nada; da quantia riqueza e haver fui sem razão despender, mal gastada.
 

Quem tem farelos? - Gil Vicente - resumo

Quem tem Farelos? mostra cenas do processo de popularização. Esse processo, entretanto, cresceu na mesma proporção de uma visão social preconceituosa. 

Em Quem tem farelos?, como em todas as farsas, Gil Vicente faz uma crítica contundente a todas as classes sociais de seu tempo, desde a nobreza até o povo, passando pelo clero. Dessa crítica, que não perdoa nenhum segmento da pirâmide social, só escapa o camponês, que era o sustentáculo de todo o resto. Esse tipo de crítica social já apresenta traços do momento histórico que rompe com a cultura medieval: o Renascimento.

Obra de crítica social, esta farsa – em que Gil Vicente se serve, pela primeira vez, do Português na feitura de um auto – estrutura-se na relação de poder amo/criados, estes últimos normalmente cúmplices dos desvairados amores de seus amos. A ação, recheada de personagens-tipo (escudeiro, criado, velha e filho) estratificadas socialmente – identificáveis pelo vestuário, pela linguagem e pelos gestos – decorre num só dia (manhã, noite, madrugada) e aponta para a sua ocorrência no princípio do Verão, precisamente quando há farelos no mercado.

(Apostila 11 de Humanismo - Classicismo - Literatura Portuguesa)