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CAMÕES

SONETOS

Alma minha gentil, que te partiste

 

Alma minha gentil, que te partiste 
tão cedo desta vida descontente, 
repousa lá no Céu eternamente, 
e viva eu cá na terra sempre triste. 

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste, 
memória desta vida se consente, 
não te esqueças daquele amor ardente 
que já nos olhos meus tão puro viste. 

 

E se vires que pode merecer-te 
alguma cousa a dor que me ficou 
da mágoa, sem remédio, de perder-te, 
  
roga a Deus, que teus anos encurtou, 
que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
quão cedo de meus olhos te levou. 

 

Amor é um fogo que arde sem se ver

 

Amor é um fogo que arde sem se ver, 
é ferida que dói, e não se sente; 
é um contentamento descontente, 
é dor que desatina sem doer. 

 

É um não querer mais que bem querer; 
é um andar solitário entre a gente; 
é nunca contentar-se de contente; 
é um cuidar que ganha em se perder. 

 

É querer estar preso por vontade; 
é servir a quem vence, o vencedor; 
é ter com quem nos mata, lealdade.  

 

Mas como causar pode seu favor 
nos corações humanos amizade, 
se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

 

Aquela triste e leda madrugada

 

Aquela triste e leda madrugada, 
cheia toda de mágoa e de piedade, 
enquanto houver no mundo saudade 
quero que seja sempre celebrada. 

 

Ela só, quando amena e marchetada 
saía, dando ao mundo claridade, 
viu apartar-se d'uma outra vontade, 
que nunca poderá ver-se apartada. 

 

Ela só viu as lágrimas em fio 
que d'uns e d'outros olhos derivadas 
s'acrescentaram em grande e largo rio. 

 

Ela viu as palavras magoadas 
que puderam tornar o fogo frio, 
e dar descanso às almas condenadas. 

 

Busque Amor novas artes, novo engenho

 

Busque Amor novas artes, novo engenho, 
para matar-me, e novas esquivanças; 
que não pode tirar-me as esperanças, 
que mal me tirará o que eu não tenho. 

 

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Que não temo contrastes nem mudanças, 
andando em bravo mar, perdido o lenho. 

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto 
onde esperança falta, lá me esconde 
Amor um mal, que mata e não se vê. 

 

Que dias há que n'alma me tem posto 
um não sei quê, que nasce não sei onde, 
vem não sei como, e dói não sei porquê.

 

Doces águas e claras do Mondego

 

Doces águas e claras do Mondego, 
doce repouso de minha lembrança, 
onde a comprida e pérfida esperança 
longo tempo após si me trouxe cego; 

 

De vós me aparto; mas, porém, não nego 
que inda a memória longa, que me alcança, 
me não deixa de vós fazer mudança, 
mas quanto mais me alongo, mais me achego. 

 

Bem pudera Fortuna este instrumento 
d'alma levar por terra nova e estranha, 
oferecido ao mar remoto e vento; 
  
Mas alma, que de cá vos acompanha, 
nas asas do ligeiro pensamento, 
para vós, águas, voa, e em vós se banha.

 

Enquanto quis Fortuna que tivesse

 

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

 

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Pera que seus enganos não dissesse.

 

Ó vos que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

 

Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

 

Sete anos de pastor Jacó servia 

 

Sete anos de pastor Jacó servia 
Labão, pai de Raquel serrana bela, 
Mas não servia ao pai, servia a ela, 
Que a ela só por prêmio pertendia.

 

Os dias na esperança de um só dia 
Passava, contentando-se com vê-la: 
Porém o pai usando de cautela, 
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos 
Assim lhe era negada a sua pastora, 
Como se a não tivera merecida,

 

Começou a servir outros sete anos, 
Dizendo: Mais servira, se não fora 
Para tão longo amor tão curta a vida.

 

Tanto de meu estado me acho incerto

 

Tanto de meu estado me acho incerto, 
que em vivo ardor tremendo estou de frio; 
sem causa, juntamente choro e rio, 
o mundo todo abarco e nada aperto. 

 

É tudo quanto sinto, um desconcerto; 
da alma um fogo me sai, da vista um rio; 
agora espero, agora desconfio, 
agora desvario, agora acerto. 

 

Estando em terra, chego ao Céu voando, 
numa hora acho mil anos, e é de jeito 
que em mil anos não posso achar uma hora. 

 

Se me pergunta alguém porque assi ando, 
respondo que não sei; porém suspeito 
que só porque vos vi, minha Senhora.

 

Transforma-se o amador na coisa amada

 

Transforma-se o amador na coisa amada, 
Por virtude do muito imaginar; 
Não tenho logo mais que desejar, 
Pois em mim tenho a parte desejada. 

 

Se nela está minha alma transformada, 
Que mais deseja o corpo de alcançar? 
Em si somente pode descansar, 
Pois consigo tal alma está ligada. 

 

Mas esta linda e pura semidéia, 
Que, como o acidente em seu sujeito, 
Assim como a alma minha se conforma, 

 

Está no pensamento como idéia; 
O vivo e puro amor de que sou feito, 
Como a matéria simples busca a forma. 

 

 

 (Apostila 7 de Humanismo - Classicismo - Literatura Portuguesa)