ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

OS LUSÍADAS - trechos - Camões

 

Luís Vaz de Camões

As armas e os barões assinalados

(Os Lusíadas, Canto I, 1 a 15) 

 

 As armas e os barões assinalados 
Que, da Ocidental praia Lusitana, 
Por mares nunca de antes navegados 
Passaram ainda além da Taprobana 
E em perigos e guerras esforçados 
Mais do que prometia a força humana, 
E entre gente remota edificaram 
Novo Reino, que tanto sublimaram; 
  

E também as memórias gloriosas 
Daqueles Reis que foram dilatando 
A Fé, o Império, e as terras viciosas 
De África e de Ásia andaram devastando, 
E aqueles que por obras valerosas 
Se vão da lei da Morte libertando: 
Cantando espalharei por toda parte, 
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 
  

Cessem do sábio Grego e do Troiano 
As navegações grandes que fizeram; 
Cale-se de Alexandro e de Trajano 
A fama das vitórias que tiveram; 
Que eu canto o peito ilustre Lusitano, 
A quem Neptuno e Marte obedeceram. 
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, 
Que outro valor mais alto se alevanta. 
  

E vós, Tágides minhas, pois criado 
Tendes em mi um novo engenho ardente 
Se sempre, em verso humilde, celebrado 
Foi de mi vosso rio alegremente, 
Dai-me agora um som alto e sublimado, 
Um estilo grandíloco e corrente, 
Por que de vossas águas Febo ordene 
Que não tenham enveja às de Hipocrene. 
  

Dai-me húa fúria grande e sonorosa, 
E não de agreste avena ou frauta ruda, 
Mas de tuba canora e belicosa, 
Que o peito acende e a cor ao gesto muda; 
Dai-me igual canto aos feitos da famosa 
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; 
Que se espalhe e se cante no Universo, 
Se tão sublime preço cabe em verso. 
  

E vós, ó bem nascida segurança 
Da Lusitana antiga liberdade, 
E não menos certíssima esperança 
De aumento da pequena Cristandade; 
Vós, ó novo temor da Maura lança, 
Maravilha fatal da nossa idade, 
Dada ao mundo por Deus (que todo o mande, 
Pera do mundo a Deus dar parte grande); 
  

Vós, tenro e novo ramo florecente, 
De húa árvore, de Cristo mais amada 
Que nenhúa nascida no Ocidente, 
Cesárea ou Cristianíssima chamada, 
(Vede-o no vosso escudo, que presente  
Vos amostra a vitória já passada, 
Na qual vos deu por armas e deixou  
As que Ele pera Si na Cruz tomou); 
  

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império 
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;  
Vê-o também no meio do Hemisfério, 
E, quando dece, o deixa derradeiro;  
Vós, que esperamos jugo e vitupério 
Do torpe lsmaelita cavaleiro, 
Do Turco Oriental e do Gentio 
Que inda bebe o licor do santo Rio: 
  

Inclinai por um pouco a majestade, 
Que nesse tenro gesto vos contemplo,  
Que já se mostra qual na inteira idade,  
Quando subindo ireis ao eterno Templo;  
Os olhos da real benignidade 
Ponde no chão: vereis um novo exemplo  
De amor dos pátrios feitos valerosos, 
Em versos devulgado numerosos. 
  

Vereis amor da pátria, não movido 
De prêmio vil, mas alto e quase eterno;  
Que não é prêmio vil ser conhecido 
Por um pregão do ninho meu paterno. 
Ouvi: vereis o nome engrandecido 
Daqueles de quem sois senhor superno, 
E julgareis qual é mais excelente, 
Se ser do mundo Rei, se de tal gente. 
  

Ouvi: que não vereis com vãs façanhas,  
Fantásticas, fingidas, mentirosas,  
Louvar os vossos, como nas estranhas Musas,  
de engrandecer-se desejosas: 
As verdadeiras vossas são tamanhas, 
Que excedem as sonhadas, fabulosas, 
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro,  
E Orlando, inda que fora verdadeiro. 
  

Por estes vos darei um Nuno fero, 
Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço, 
Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero  
A cítara para eles só cobiço; 
Pois polos Doze Pares dar-vos quero 
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;  
Dou-vos também aquele ilustre Gama,  
Que para si de Eneias toma a fama. 
  

Pois, se a troco de Carlos, Rei de França,  
Ou de César, quereis igual memória,  
Vede o primeiro Afonso, cuja lança  
Escura faz qualquer estranha glória; 
E aquele que a seu Reino a segurança  
Deixou, co a grande e próspera vitória;  
Outro Joanne, invicto cavaleiro; 
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro. 
  

Nem deixarão meus versos esquecidos  
Aqueles que, nos Reinos lá da Aurora, 
Se fizeram por armas tão subidos, 
Vossa bandeira sempre vencedora: 
Um Pacheeo fortíssimo e os temidos  
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,  
Albuquerque terribil, Castro forte, 
E outros em quem poder não teve a morte. 
  

E, enquanto eu estes canto, e a vós não posso,  
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,  
Tomai as rédeas vós do Reino vosso: 
Dareis matéria a nunca ouvido canto.  
Comecem a sentir o peso grosso 
(Que polo mundo todo faça espanto) 
De exércitos e feitos singulares 
De África as terras e do Oriente os mares. 

 

 

Concílio dos Deuses no Olimpo 

 

 20 

Quando os Deuses no Olimpo luminoso, 
Onde o governo está da humana gente, 
Se ajuntam em concílio glorioso 
Sobre as cousas futuras do Oriente. 
Pisando o cristalino Céu formoso, 
Vêm pela Via-Láctea juntamente, 
Convocados da parte do Tonante, 
Pelo neto gentil do velho Atlante. 
  

21 

Deixam dos sete Céus o regimento, 
Que do poder mais alto lhe foi dado, 
Alto poder, que só co'o pensamento 
Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. 
Ali se acharam juntos num momento 
Os que habitam o Arcturo congelado, 
E os que o Austro tem, e as partes onde 
A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 
  

22 -    Júpiter 

Estava o Padre ali sublime e dino, 
Que vibra os feros raios de Vulcano, 
Num assento de estrelas cristalino, 
Com gesto alto, severo e soberano. 
Do rosto respirava um ar divino, 
Que divino tornara um corpo humano; 
Com uma coroa e ceptro rutilante, 
  

23 -    De outra pedra mais clara que diamante. 

Em luzentes assentos, marchetados 
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam 
Os outros Deuses todos assentados, 
Como a razão e a ordem concertavam: 
Precedem os antíguos mais honrados; 
Mais abaixo os menores se assentavam; 
Quando Júpiter alto, assim dizendo, 
C'um tom de voz começa, grave e horrendo: 
  

24 -    Fala de Júpiter 

"Eternos moradores do luzente 
Estelífero pólo, e claro assento, 
Se do grande valor da forte gente 
De Luso não perdeis o pensamento, 
Deveis de ter sabido claramente, 
Como é dos fados grandes certo intento, 
Que por ela se esqueçam os humanos 
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 
  

25 -    Mouros e Castelhanos 

"Já lhe foi (bem o vistes) concedido 
C’um poder tão singelo e tão pequeno, 
Tomar ao Mouro forte e guarnecido 
Toda a terra, que rega o Tejo ameno: 
Pois contra o Castelhano tão temido, 
Sempre alcançou favor do Céu sereno. 
Assim que sempre, enfim, com fama e glória, 
Teve os troféus pendentes da vitória. 
  

26 -    Viriato e Sertório 
''Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, 
Que coa gente de Rómulo alcançaram, 
Quando com Viriato, na inimiga 
Guerra romana tanto se afamaram; 
Também deixo a memória, que os obriga 
A grande nome, quando alevantaram 
Um por seu capitão, que peregrino 
Fingiu na cerva espírito divino. 
  

27 -    Fala de Júpiter 

"Agora vedes bem que, cometendo 
O duvidoso mar num lenho leve, 
Por vias nunca usadas, não temendo 
De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:  
Que havendo tanto já que as partes vendo  
Onde o dia é comprido e onde breve,  
Inclinam seu propósito e porfia 
A ver os berços onde nasce o dia. 
  

28 
"Prometido lhe está do Fado eterno, 
Cuja alta Lei não pode ser quebrada, 
Que tenham longos tempos o governo 
Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. 
Nas águas têm passado o duro inverno; 
A gente vem perdida e trabalhada; 
Já parece bem feito que lhe seja 
Mostrada a nova terra, que deseja. 
  

29 
"E porque, como vistes, têm passados 
Na viagem tão ásperos perigos, 
Tantos climas e céus experimentados, 
Tanto furor de ventos inimigos, 
Que sejam, determino, agasalhados 
Nesta costa africana, como amigos. 
E tendo guarnecida a lassa frota, 
Tornarão a seguir sua longa rota." 
  

30 -    Oposição de Baco 

Estas palavras Júpiter dizia, 
Quando os Deuses por ordem respondendo,    
Na sentença um do outro diferia, 
Razões diversas dando e recebendo. 
O padre Baco ali não consentia 
No que Júpiter disse, conhecendo 
Que esquecerão seus feitos no Oriente, 
Se lá passar a Lusitana gente. 
  

31 -    Despeito e Inveja de Baco 

Ouvido tinha aos Fados que viria 
Uma gente fortíssima de Espanha 
Pelo mar alto, a qual sujeitaria 
Da índia tudo quanto Dóris banha, 
E com novas vitórias venceria 
A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. 
Altamente lhe dói perder a glória, 
De que Nisa celebra inda a memória. 
  

32 
Vê que já teve o Indo sojugado, 
E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, 
Por vencedor da Índia ser cantado 
De quantos bebem a água de Parnaso. 
Teme agora que seja sepultado 
Seu tão célebre nome em negro vaso 
D'água do esquecimento, se lá chegam 
Os fortes Portugueses, que navegam. 
  

33 -    Vênus, Favorável aos Portugueses 

Sustentava contra ele Vênus bela, 
Afeiçoada à gente Lusitana, 
Por quantas qualidades via nela 
Da antiga tão amada sua Romana; 
Nos fortes corações, na grande estrela, 
Que mostraram na terra Tingitana, 
E na língua, na qual quando imagina, 
Com pouca corrupção crê que é a Latina. 
  

34 
Estas causas moviam Citereia, 
E mais, porque das Parcas claro entende 
Que há de ser celebrada a clara Deia, 
Onde a gente belígera se estende. 
Assim que, um pela infâmia, que arreceia, 
E o outro pelas honras, que pretende, 
Debatem, e na porfia permanecem; 
A qualquer seus amigos favorecem. 
  

35 
Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura 
De silvestre arvoredo abastecida, 
Rompendo os ramos vão da mata escura, 
Com ímpeto e braveza desmedida; 
Brama toda a montanha, o som murmura, 
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: 
Tal andava o tumulto levantado, 
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 
  

36 -    Marte 

Mas Marte, que da Deusa sustentava 
Entre todos as partes em porfia, 
Ou porque o amor antigo o obrigava, 
Ou porque a gente forte o merecia, 
De entre os Deuses em pé se levantava: 
Merencório no gesto parecia; 
O forte escudo ao colo pendurado 
Deitando para trás, medonho e irado, 
  

 

37 
A viseira do elmo de diamante 
Alevantando um pouco, mui seguro, 
Por dar seu parecer, se pôs diante 
De Júpiter, armado, forte e duro: 
E dando uma pancada penetrante, 
Com o conto do bastão no sólio puro, 
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, 
Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 
  

38 -    Fala de Marte 

E disse assim: "Ó Padre, a cujo império 
Tudo aquilo obedece, que criaste, 
Se esta gente, que busca outro hemisfério, 
Cuja valia, e obras tanto amaste, 
Não queres que padeçam vitupério, 
Como há já tanto tempo que ordenaste, 
Não onças mais, pois és juiz direito, 
Razões de quem parece que é suspeito. 
  

39 -    Fala de Marte 

"Que, se aqui a razão se não mostrasse 
Vencida do temor demasiado, 
Bem fora que aqui Baco os sustentasse,  
Pois que de Luso vem, seu tão privado;  
Mas esta tenção sua agora passe, 
Porque enfim vem de estâmago danado;  
Que nunca tirará alheia inveja 
O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 
  

40 
"E tu, Padre de grande fortaleza,  
Da determinação, que tens tomada,  
Não tornes por detrás, pois é fraqueza 
Desistir-se da cousa começada. 
Mercúrio, pois excede em ligeireza 
Ao vento leve, e à seta bem talhada, 
Lhe vá mostrar a terra, onde se informe 
Da índia, e onde a gente se reforme." 
                 

41 -    Decide Júpiter a favor dos Portugueses 

Como isto disse, o Padre poderoso, 
A cabeça inclinando, consentiu 
No que disse Mavorte valeroso, 
E néctar sobre todos esparziu. 
Pelo caminho Lácteo glorioso 
Logo cada um dos Deuses se partiu, 
Fazendo seus reais acatamentos, 
Para os determinados aposentos.

 

Episódio de Dona Inês de Castro

(Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135)  

 

 Passada esta tão próspera vitória, 
Tornado Afonso à Lusitana Terra, 
A se lograr da paz com tanta glória 
Quanta soube ganhar na dura guerra, 
O caso triste e dino da memória, 
Que do sepulcro os homens desenterra, 
Aconteceu da mísera e mesquinha 
Que despois de ser morta foi Rainha. 
  

Tu, só tu, puro amor, com força crua, 
Que os corações humanos tanto obriga, 
Deste causa à molesta morte sua, 
Como se fora pérfida inimiga. 
Se dizem, fero Amor, que a sede tua 
Nem com lágrimas tristes se mitiga, 
É porque queres, áspero e tirano, 
Tuas aras banhar em sangue humano. 
  

Estavas, linda Inês, posta em sossego,   
De teus anos colhendo doce fruito, 
Naquele engano da alma, ledo e cego, 
Que a fortuna não deixa durar muito, 
Nos saudosos campos do Mondego, 
De teus fermosos olhos nunca enxuito, 
Aos montes insinando e às ervinhas 
O nome que no peito escrito tinhas. 
  

Do teu Príncipe ali te respondiam 
As lembranças que na alma lhe moravam, 
Que sempre ante seus olhos te traziam, 
Quando dos teus fernosos se apartavam; 
De noite, em doces sonhos que mentiam, 
De dia, em pensamentos que voavam; 
E quanto, enfim, cuidava e quanto via 
Eram tudo memórias de alegria. 
  

De outras belas senhoras e Princesas 
Os desejados tálamos enjeita, 
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas, 
Quando um gesto suave te sujeita. 
Vendo estas namoradas estranhezas, 
O velho pai sesudo, que respeita 
O murmurar do povo e a fantasia 
Do filho, que casar-se não queria, 
  

Tirar Inês ao mundo determina, 
Por lhe tirar o filho que tem preso, 
Crendo co sangue só da morte ladina 
Matar do firme amor o fogo aceso. 
Que furor consentiu que a espada fina, 
Que pôde sustentar o grande peso 
Do furor Mauro, fosse alevantada 
Contra hûa fraca dama delicada? 
  

Traziam-na os horríficos algozes 
Ante o Rei, já movido a piedade; 
Mas o povo, com falsas e ferozes 
Razões, à morte crua o persuade. 
Ela, com tristes e piedosas vozes, 
Saídas só da mágoa e saudade 
Do seu Príncipe e filhos, que deixava, 
Que mais que a própria morte a magoava, 
  

Pera o céu cristalino alevantando,  
Com lágrimas, os olhos piedosos  
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando   
Um dos duros ministros rigorosos);  
E despois, nos mininos atentando,  
Que tão queridos tinha e tão mimosos,  
Cuja orfindade como mãe temia, 
Pera o avô cruel assi dizia: 
  

(Se já nas brutas feras, cuja mente 
Natura fez cruel de nascimento, 
E nas aves agrestes, que somente  
Nas rapinas aéreas tem o intento,  
Com pequenas crianças viu a gente  
Terem tão piedoso sentimento  
Como co a mãe de Nino já mostraram,  
E cos irmãos que Roma edificaram: 
  

ó tu, que tens de humano o gesto e o peito  
(Se de humano é matar hûa donzela,  
Fraca e sem força, só por ter sujeito  
O coração a quem soube vencê-la),  
A estas criancinhas tem respeito,  
Pois o não tens à morte escura dela;  
Mova-te a piedade sua e minha,  
Pois te não move a culpa que não tinha. 
  

E se, vencendo a Maura resistência, 
A morte sabes dar com fogo e ferro, 
Sabe também dar vida, com clemência, 
A quem peja perdê-la não fez erro. 
Mas, se to assi merece esta inocência, 
Põe-me em perpétuo e mísero desterro, 
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente, 
Onde em lágrimas viva eternamente. 
  

Põe-me onde se use toda a feridade, 
Entre leões e tigres, e verei 
Se neles achar posso a piedade 
Que entre peitos humanos não achei. 
Ali, co amor intrínseco e vontade 
Naquele por quem mouro, criarei 
Estas relíquias suas que aqui viste, 
Que refrigério sejam da mãe triste.) 
  

Queria perdoar-lhe o Rei benino,  
Movido das palavras que o magoam;  
Mas o pertinaz povo e seu destino  
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.   
Arrancam das espadas de aço fino  
Os que por bom tal feito ali apregoam.   
Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,  
Feros vos amostrais e cavaleiros? 
         

Qual contra a linda moça Polycena,  
Consolação extrema da mãe velha,  
Porque a sombra de Aquiles a condena,  
Co ferro o duro Pirro se aparelha;  
Mas ela, os olhos, com que o ar serena  
(Bem como paciente e mansa ovelha),  
Na mísera mãe postos, que endoudece,  
Ao duro sacrifício se oferece: 
  

Tais contra Inês os brutos matadores, 
No colo de alabastro, que sustinha 
As obras com que Amor matou de amores 
Aquele que despois a fez Rainha, 
As espadas banhando e as brancas flores, 
Que ela dos olhos seus regadas tinha, 
Se encarniçavam, fervidos e irosos, 
No futuro castigo não cuidosos. 
  

Bem puderas, ó Sol, da vista destes, 
Teus raios apartar aquele dia, 
Como da seva mesa de Tiestes, 
Quando os filhos por mão de Atreu comia ! 
Vós, ó côncavos vales, que pudestes 
A voz extrema ouvir da boca fria, 
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes, 
Por muito grande espaço repetistes. 
  

Assi como a bonina, que cortada 
Antes do tempo foi, cândida e bela, 
Sendo das mãos lacivas maltratada 
Da minina que a trouxe na capela, 
O cheiro traz perdido e a cor murchada: 
Tal está, morta, a pálida donzela, 
Secas do rosto as rosas e perdida 
A branca e viva cor, co a doce vida. 
  

As filhas do Mondego a morte escura 
Longo tempo chorando memoraram, 
E, por memória eterna, em fonte pura 
As lágrimas choradas transformaram. 
O nome lhe puseram, que inda dura, 
Dos amores de Inês, que ali passaram. 
Vede que fresca fonte rega as flores, 
Que lágrimas são a água e o nome Amores.

 

 

Epsiódio do Gigante Adamastor

 

37 - Continua a navegação

"Porém já cinco Sóis eram passados 
Que dali nos partíramos, cortando 
Os mares nunca doutrem navegados, 
Prósperamente os ventos assoprando, 
Quando uma noite estando descuidados, 
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem que os ares escurece 
Sobre nossas cabeças aparece.
 

38 - O Adamastor

        "Tão temerosa vinha e carregada,
        Que pôs nos corações um grande medo;
        Bramindo o negro mar, de longe brada
        Como se desse em vão nalgum rochedo.
        — "Ó Potestade, disse, sublimada!
        Que ameaço divino, ou que segredo
        Este clima e este mar nos apresenta,
        Que mor cousa parece que tormenta?" —
 

39

        "Não acabava, quando uma figura
        Se nos mostra no ar, robusta e válida,
        De disforme e grandíssima estatura,
        O rosto carregado, a barba esquálida,
        Os olhos encovados, e a postura
        Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
        Cheios de terra e crespos os cabelos,
        A boca negra, os dentes amarelos.
 

40

        "Tão grande era de membros, que bem posso
        Certificar-te, que este era o segundo
        De Rodes estranhíssimo Colosso,
        Que um dos sete milagres foi do mundo:
        Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
        Que pareceu sair do mar profundo:
        Arrepiam-se as carnes e o cabelo
        A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.
 

41 - Fala de Adamastor aos portugueses

        "E disse: — "Ó gente ousada, mais que quantas
        No mundo cometeram grandes cousas,
        Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
        E por trabalhos vãos nunca repousas,
        Pois os vedados términos quebrantas,
        E navegar meus longos mares ousas,
        Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
        Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:
 

42 - Fala do Adamastor

        — "Pois vens ver os segredos escondidos
        Da natureza e do úmido elemento,
        A nenhum grande humano concedidos
        De nobre ou de imortal merecimento,
        Ouve os danos de mim, que apercebidos
        Estão a teu sobejo atrevimento,
        Por todo o largo mar e pela terra,
        Que ainda hás de sojugar com dura guerra.
 

43 - Profecias do Adamastor

        — "Sabe que quantas naus esta viagem 
        Que tu fazes, fizerem de atrevidas, 
        Inimiga terão esta paragem
        Com ventos e tormentas desmedidas.
        E da primeira armada que passagem
        Fizer por estas ondas insofridas,
        Eu farei d'improviso tal castigo,
        Que seja mor o dano que o perigo.
 

44 - Bartolomeu Dias. Naufrágios.

        — "Aqui espero tomar, se não me engano, 
        De quem me descobriu, suma vingança.  
        E não se acabará só nisto o dano 
        Da vossa pertinace confiança;
        Antes em vossas naus vereis cada ano,
        Se é verdade o que meu juízo alcança,
        Naufrágios, perdições de toda sorte,
        Que o menor mal de todos seja a morte.
 

 

45 - Dom Francisco de Almeida

        — "É do primeiro Ilustre, que a ventura
        Com fama alta fizer tocar os Céus,
        Serei eterna e nova sepultura,
        Por juízos incógnitos de Deus.
        Aqui porá da Turca armada dura
        Os soberbos e prósperos troféus;
        Comigo de seus danos o ameaça
        A destruída Quíloa com Mombaça.
 

46 - Manoel de Sousa de Sepúlveda
                         e sua mulher dona Leonor

        — "Outro também virá de honrada fama,
        Liberal, cavaleiro, enamorado,
        E consigo trará a formosa dama
        Que Amor por grã mercê lhe terá dado.
        Triste ventura e negro fado os chama
        Neste terreno meu, que duro e irado
        Os deixará dum cru naufrágio vivos
        Para verem trabalhos excessivos.
 

47

        — "Verão morrer com fome os filhos caros,
        Em tanto amor gerados e nascidos;
        Verão os Cafres ásperos e avaros
        Tirar à linda dama seus vestidos;
        Os cristalinos membros e perclaros
        A calma, ao frio, ao ar verão despidos,
        Depois de ter pisada longamente
        Co'os delicados pés a areia ardente.
 

48

        — "E verão mais os olhos que escaparem
        De tanto mal, de tanta desventura,
        Os dois amantes míseros ficarem
        Na férvida e implacável espessura.
        Ali, depois que as pedras abrandarem
        Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
        Abraçados as almas soltarão
        Da formosa e misérrima prisão." —
 

49 - Adamastor narra ao Gama sua vida

        "Mais ia por diante o monstro horrendo
        Dizendo nossos fados, quando alçado
        Lhe disse eu: — Quem és tu? que esse estupendo
        Corpo certo me tem maravilhado.—
        A boca e os olhos negros retorcendo,
        E dando um espantoso e grande brado,
        Me respondeu, com voz pesada e amara,
        Como quem da pergunta lhe pesara:
 

50

        — "Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
        A quem chamais vós outros Tormentório,
        Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,
        Plínio, e quantos passaram, fui notório.
        Aqui toda a Africana costa acabo
        Neste meu nunca visto Promontório,
        Que para o Pólo Antarctico se estende,
        A quem vossa ousadia tanto ofende.
 

51 - Guerra dos Gigantes contra Júpiter 

        — "Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
        Qual Encélado, Egeu e o Centimano;
        Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
        Contra o que vibra os raios de Vulcano;
        Não que pusesse serra sobre serra,
        Mas conquistando as ondas do Oceano,
        Fui capitão do mar, por onde andava
        A armada de Netuno, que eu buscava.
 

52 - Amor de Adamastor por Tétis

        — "Amores da alta esposa de Peleu
        Me fizeram tomar tamanha empresa.
        Todas as Deusas desprezei do céu,
        Só por amar das águas a princesa.
        Um dia a vi coas filhas de Nereu
        Sair nua na praia, e logo presa
        A vontade senti de tal maneira
        Que ainda não sinto coisa que mais queira.
 

53

        — "Como fosse impossível alcançá-la 
        Pela grandeza feia de meu gesto, 
        Determinei por armas de tomá-la, 
        E a Doris este caso manifesto.
        De medo a Deusa então por mim lhe fala;
        Mas ela, com um formoso riso honesto,
        Respondeu: — "Qual será o amor bastante
        De Ninfa que sustente o dum Gigante?
 

54 - Adamastor e Tétis

        — "Contudo, por livrarmos o Oceano 
        De tanta guerra, eu buscarei maneira, 
        Com que, com minha honra, escuse o dano."
        Tal resposta me torna a mensageira.  
        Eu, que cair não pude neste engano, 
        (Que é grande dos amantes a cegueira) 
        Encheram-me com grandes abondanças 
        O peito de desejos e esperanças.
 

55

        — "Já néscio, já da guerra desistindo,
        Uma noite de Dóris prometida,
        Me aparece de longe o gesto lindo
        Da branca Tétis única despida:
        Como doido corri de longe, abrindo
        Os braços, para aquela que era vida
        Deste corpo, e começo os olhos belos
        A lhe beijar, as faces e os cabelos.
 

56

        — "Ó que não sei de nojo como o conte!  
        Que, crendo ter nos braços quem amava, 
        Abraçado me achei com um duro monte 
        De áspero mato e de espessura brava.  
        Estando com um penedo fronte a fronte, 
        Que eu pelo rosto angélico apertava 
        Não fiquei homem não, mas mudo e quedo, 
        E junto dum penedo outro penedo.
 

57 - Adamastor e Tétis

        — "Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
        Já que minha presença não te agrada,
        Que te custava ter-me neste engano,
        Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
        Daqui me parto irado, e quase insano
        Da mágoa e da desonra ali passada,
        A buscar outro inundo, onde não visse
        Quem de meu pranto e de meu mal se risse,
 

58 - Castigo de Adamastor

        — "Eram já neste tempo meus irmãos
        Vencidos e em miséria extrema postos;
        E por mais segurar-se os Deuses vãos,
        Alguns a vários montes sotopostos:
        E como contra o Céu não valem mãos,
        Eu, que chorando andava meus desgostos,
        Comecei a sentir do fado inimigo
        Por meus atrevimentos o castigo.
 

59 - Transformação de Adamastor no 
                            Cabo das Tormentas

        — "Converte-se-me a carne em terra dura, 
        Em penedos os ossos se  fizeram,
        Estes membros que vês e esta figura
        Por estas longas águas se estenderam; 
        Enfim, minha grandíssima estatura
        Neste remoto cabo converteram
        Os Deuses, e por mais dobradas mágoas,
        Me anda Tétis cercando destas águas." —
 

60

        "Assim contava, e com um medonho choro
        Súbito diante os olhos se apartou;
        Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro
        Bramido muito longe o mar soou.
        Eu, levantando as mãos ao santo coro
        Dos anjos, que tão longe nos guiou,
        A Deus pedi que removesse os duros
        Casos, que Adamastor contou futuros.

 

(Apostila 6 de Humanismo - Classicismo - Literatura Portuguesa)