ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

A Descoberta do Brasil

     Era domingo, e Lisboa, a capital ultramarina da Europa, estava em festa. Os 13 navios da frota mais poderosa já armada por Portugal balouçavam nas águas do rio Tejo. "E muitos batéis rodeavam as naus e ferviam todos com suas librés de cores diversas, que não parecia mar, mas um campo de flores e o que mais elevava o espírito eram as trombetas, atabaques, tambores e gaitas", registrou uma testemunha do dia memorável.
    Oito meses antes, chegara àquele mesmo porto a diminuta frota de Vasco da Gama. Trazia a notícia que durante quase um século fora a obsessão portuguesa: desvendara, enfim, a rota marítima que conduzia à Índia. Agora, o rei D. Manuel queria que todos, especialmente os espiões espanhóis, italianos e franceses, vislumbrassem a gloriosa partida de sua nova missão (comercial e guerreira) ao reino das especiarias.
     Celebrava-se a missa. No altar estava D. Diogo Ortiz, um dos três homens que, uma década antes, vetara financiamento português ao projeto de Colombo de chegar à Índia pelo rumo do Oeste. Junto a ele, Pedro Álvares Cabral, filho, neto e bisneto de conquistadores, mais militar do que navegador, rezava, silente. Aos 32 anos, estava pronto para sua primeira missão em além-mar.
     Os navios partiram na segunda-feira, 9 de março de 1500. Cabral e Gama haviam conversado longamente. Dois anos antes, ao fazer um grande arco no rumo do oeste, para aproveitar as correntes do Atlântico, Gama passara tão perto do Brasil que talvez tenha mesmo pressentido a presença de terra. Cabral se aventurou ainda mais em direção ao poente (tanto que, segundo seus cálculos, julgava estar no local onde hoje é Brasília). Descobriu a Terra dos Papagaios - a escala ideal para as Índias.
     Dez dias depois, ao zarpar de Porto Seguro, Cabral parece ter deixado ali, além de dois degredados e dois grumetes desertores, a porção que lhe restava de sorte. Na terceira semana de maio, nas proximidades do Cabo das Tormentas, depois de um cometa ter luzido no céu por dez noites, uma gigantesca tempestade se abateu sobre a frota. Quatro naus, entre as quais a de Bartolomeu Dias, foram tragadas pelo mar. Não houve sobreviventes. Reduzida a sete embarcações (uma havia naufragado logo após a partida e o navio de mantimentos seguira de volta a Portugal com a notícia da descoberta), a armada chegou à Índia em fins de agosto. Obteve permissão para fundar uma feitoria, mas, em 16 de dezembro, o estabelecimento foi atacado. Cabral reagiu e bombardeou Calicute por dois dias, provocando grandes estragos. Com seis navios repletos de especiarias, iniciou a viagem de volta. foi bem recebido pelo rei. A seguir, porém, caiu em desgraça na corte. Retirou-se para Santarém. Lá morreu em 1520, quase na obscuridade - virtualmente sem saber que revelara ao mundo um país que era quase um continente.

(Apostila 5 da História de Portugal)