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MANHÃ SUBMERSA - Vergílio Ferreira

Resumo (baseado na adaptação que Lauro Antônio fez para o cinema, 1980)

“Manhã Submersa” descreve o despertar para a vida de uma criança, entre a austeridade da casa senhorial de D. Estefânia, a neve e a sensualidade da sua aldeia natal e o silêncio das paredes do seminário.

Um jovem seminarista de doze anos, António Lopes, é pressionado a frequentar o seminário. O romance desenrola-se depois ao redor das vivências e sentimentos que o jovem seminarista vai experimentando. Naquele ambiente negro, triste, ríspido e severo do seminário, o jovem descobre-se e descobre o mundo que o rodeia: a repressão na educação, a pobreza da sua terra, as desigualdades sociais, o desejo do seu corpo em formação, a camaradagem, a amizade, o amor.

É uma obra poderosa oscilando entre a luz e as sombras, uma luta entre o corpo e o espírito em que o corpo acaba por ser mutilado em nome da libertação do espírito.

Manhã Submersa -cenas principais

-Viagem até à estação de comboios do jovem António Lopes numa carroça acompanhado de um senhor com alguma idade. O comboio que o levará ao seminário chega apitando e fumegando.

-Chegada ao seminário, um edifício alto e sombrio, que transmite uma sensação de frieza e austeridade. Os meninos que acabam de chegar ao seminário sobem umas escadas bastante inclinadas, de forma ordenada e silenciosa. São depois encaminhados até ao dormitório: uma camarata com diversas cama com lençóis e um pequeno cobertor para cada um. Os rapazes arrumam os seus pertences sobre o olhar atento dos Prefeitos, sempre em silêncio. António fica numa cama junto à janela.

Na primeira noite António deita-se com a perna de fora do lençol. Um Prefeito que passa por perto dá-lhe uma palmada na perna dizendo-lhe: “Menino seja decente!”. O acordar no dia seguinte é feito muito cedo ao som de um bater vigoroso e de palmas do Padre Tomás. Os meninos levantam-se e, de forma ordenada, dirigem-se para o lavatório que tem apenas o indispensável. De seguida são-lhes entregue as batas (uniformes) que devem usar no seminário.

- a primeira aula: Os alunos alinham-se à entrada da sala em duas filas. Segue-se a chamada. Cada aluno recebe a indicação do lugar fixo que daí em diante deverá sempre ocupar.

- Refeitório: A refeição realiza-se num refeitório, em que todos estão a comer em silêncio. Em simultâneo com a refeição, um Prefeito passeia pelos corredores entre as mesas lendo a bíblia em voz alta.

À noite, no dormitório, António Lopes aproveita o facto do Padre ter terminado a inspecção para comer alguns géneros alimentares que trouxera de casa.

Conversa entre Gaudêncio, António Lopes e Gama que se apresentam uns aos outros. Gaudêncio desabafa que está triste e que gostaria de voltar para casa. O Padre Canelas ouve a conversa, aproxima-se e diz a Gaudêncio que passe mais tarde no seu quarto.

Na sala de aula, António pergunta a Gaudêncio como foi a conversa com o Padre Canelas. O Padre Martins entra de repente na sala de aula e ordena a todos os seminaristas que tenham consigo comestíveis de qualquer espécie, o favor de os irem buscar e entregar imediatamente. António Lopes recusa entregar os seus preciosos figos.

- Missa de recepção aos novos seminaristas: Na missa de boas vindas aos novos seminaristas, algumas frases são proferidas em Latim. O discurso apela à honestidade e à pureza do coração de cada um, pois uma vez puros no coração serão também puros no corpo e alma. É-lhes dito que foi Deus quem os escolheu para estarem ali, que é uma benção o facto de ali estarem, que devem meditar na graça infinita do Senhor que os escolheu para serem mensageiros de Deus na Terra.

- A carta: Numa aula, é concedida a autorização aos alunos para escreverem à família. António escreve dizendo que tem saudades da sua terra, que se sente sozinho naquela “casa tão escura e tão grande”, que está com muitos meninos como ele mas não podem falar uns com os outros. Quer ir-se embora. António termina a redacção e fecha a carta. Ao entregar a carta ao Padre Martins este diz-lhe que toda a correspondência tem de ser entregue aberta. Perante isto, António hesita em entregar a cara que havia escrito mas é obrigado a fazê-lo pelo Padre Martins. Dias depois é chamado ao gabinete do Srº Reitor.

-O Reitor pergunta-lhe se se sente bem no seminário e se é bem tratado. António responde que o têm tratado muito bem e que se dá igualmente bem com todos os padres, mas confessa que tem saudades de casa. O Reitor responde-lhe: “ Nenhum sofrimento pode apagar o benefício de Deus. Saudades e tudo o mais que se quiser são nada ao pé de uma graça divina. Deus baixou sobre o menino a graça do sacerdócio. Deus tirou-o da miséria, da desgraça e da condenação eterna”. Diz-lhe também que o sacerdócio é a única forma de alcançar a salvação eterna. Depois do discurso, o reitor pergunta a António se continua a desejar ir para a sua casa. António responde que não. O reitor termina a conversa com António pedindo-lhe que reze a Deus para o livrar das más tentações. António agradece a bondade do Reitor e a conversa que teve com ele.

António escreve nova carta à sua mãe dizendo-lhe do quanto gosta de ali estar apesar de sentir saudades de casa e de todos. Sabe que têm de as vencer pois são obra do Demónio.

Na aula de latim é proposto um jogo que consiste na formação de dois exércitos. Cada exército tem um chefe máximo que escolhe quais os membros que constituem a sua equipa e qual a posição de cada um dentro do exército. O Padre Lino explica que cada um deve defender a sua posição e que podem desafiar membros superiores do seu exército ou membros do mesmo posto do exército adversário. Cada exército escolhe um santo patrono. António Lopes fica com a posição de segundo soldado.

No decorrer de uma aula, o Padre Tomás entra desenfreado, puxa o Tavares para o estrado e obriga-o a ficar de joelhos durante uma hora como penitência.

Carlos Pereira desafia Florentino, sendo escolhido para juiz o Tavares. Pereira inicia o rol de perguntas a Florentino que não tem uma prestação muito brilhante.

António Lopes rascunha num calendário, apontando e contando os dias que faltam para as férias mais próximas.

Gama desabafa com António perguntando-lhe se gosta de andar no seminário. António, cauteloso, olha para o lado verificando se ninguém está por perto, com receio que os oiçam. Responde negativamente tal como Gama. Este diz que vai tentar outra vez convencer sua mãe que não tem vocação para ser padre.

Numa aula, o Padre Martins dá directivas de como se devem comportar no seminário, lendo todas as normas do regulamento. Algumas das normas citadas são: “proibição de amizades e familiaridades”, “proibição de se tocarem uns aos outros”, “proibição de troca de papéis para estabelecer comunicação”.

Como despedida para férias os seminaristas interpretam uma peça de teatro, simbolizando o Inferno e o Céu. Depois da peça, o Padre Martins faz recomendações aos seminaristas, alertando-os para os

perigos a que ficarão expostos fora das paredes do seminário.

Chegaram as férias. António vai de autocarro com Gaudêncio. Chega a casa de Dª Estefânia. Mariazinha, filha de Dª Estefânia, pergunta-lhe quando é que ele canta na missa. António cumprimenta o Srº Doutor, filho de Dª Estefânia. Recebe ordens para comer na cozinha.

Só no ano seguinte poderá comer na sala com os senhores.

Dª Estefânia veste-se e pede a António que se despache pois vão à missa. Depois da missa, Dª Estefânia fala com o Padre da aldeia dizendo-lhe que António pode ir à missa todos os dias e a todas as cerimónias, “garanto-lhe que enquanto ele estiver em minha casa, não há-de faltar”. Dª Estefânia não permite que António visite a mãe e a família pois alega que esta só dá maus exemplos. António vê a mãe à porta de casa, por escasso segundos.

Durante o percurso para a casa de sua mãe, António é apupado por alguns rapazes da aldeia. Quando chega à casa da mãe, António dá rebuçados aos irmãos e fica sujeito às perguntas do tio Gorra, sobre o latim, sobre quanto ganha um padre, etc. A mãe conforta-o e diz-lhe para não ligar à conversa do Tio. António volta para casa de Dª Estefânia.

António está na cozinha a comer e repara nos seios da Carolina. Mais tarde espreita Carolina no pomar. Em conversa com Dª Estefânia, esta repara que António anda triste e pede-lhe que vá ter com ela à sala. Diz-lhe que é natural a sua tristeza pois vai separar-se da família. Lembra-lhe que muitos são os chamados e poucos os escolhidos e que ele será escolhido se Deus quiser. Dª Estefânia confessa que andou a pensar se, realmente, ele teria vocação para padre e que, inclusivamente, tinha falado disso com o Padre da aldeia. Dª Estefânia acaba por perguntar a António se tem ou não vocação para padre. António aproveita a ocasião e confessa que não tem vocação. Dª Estefânia fica supreendida e chocada, reprende-o severamente, humilha-o e acaba por ameaçar expulsá-lo de casa. Ao fim de algum tempo Dª Estefânia volta à sala e pergunta-lhe se já reflectiu melhor. António diz que sim e que afinal tem vocação. Dª Estefânia fica aliviada

dizendo-lhe que rezará ao Senhor para que Ele o livre das más tentações. Por fim Dª Estefânia avisa-o que de hoje em diante ele comerá na sala com os senhores.

António e Gaudêncio voltam para o seminário.No refeitório, comem completamente em silêncio. Estão constantemente a ser vigiados pelos seus superiores.

O Padre pede-lhes que escrevam uma redacção sobre uma manhã de primavera. Posteriormente, pede a António Lopes que leia a sua redacção. De imediato o interrompe dizendo-lhe que ele ainda não sabe explorar as potencialidades poéticas da escrita. Pede a Amílcar que leia a sua redacção como exemplo.

Todos os alunos são chamados à igreja. O Reitor profere um discurso dizendo que o seminário não é nenhuma prisão e que se preferirem os prazeres do mundo e sujar as mãos com os crimes mundanos são livres para tal. O discurso teve por base a expulsão de dois seminaristas que haviam tentado fugir durante a noite. António conversa depois com Gama que lhe explica o que sucedeu e lhe diz que um dia também ele irá fugir mas sem se deixar apanhar.

O Padre Martins passa todo apressado com um bilhete na mão. Gaudêncio e António ficam curiosos.

Tratava-se de uma ameaça anónima de atear fogo ao seminário. Diz-se que a ameaça tinha sido feita pelo “Mão de Negra”.

Descobrem que Gama é o autor dos bilhetes ameaçadores e que foi ele quem lançou fogo ao seminário. Gama é expulso do seminário. Fazem um inquérito aos amigos de Gama que tenham más notas em comportamento. Gama afirma que fez tudo sozinho. O Padre Alves chama António à sua presença. Tem reparado que o rapaz anda triste e pergunta-lhe a causa da sua tristeza. Pergunta a idade, diz-lhe que é quase um homem e avisa-o dos “perigos” que aí vêm. Manda-o falar com o seu conselheiro espiritual pois aproxima-se a idade do “desejo do sonho”, das “obras do demónio”.

O Padre Fialho conversa com António e pergunta se tem sentido tentações do demónio. António responde-lhe que apenas tem saudades da mãe e dos irmãos e do seu amigo Gama que foi expulso. O Padre Fialho pergunta a António se tinha desejo pelo Gama como se sente desejo por uma mulher. António diz-lhe que não, mas que já sonhou com Carolina e com a Mariazinha. O padre diz-lhe que tem que combater as tentações do demónio: encontrar posições incómodas, por as mãos fora da cama, usar roupas largas, encher a mente e o espírito com pensamentos religiosos.

O Padre interroga Tavares sobre os territórios coloniais de Portugal.

Gaudêncio mostra uma revista com imagens femininas a António. Este tenta resistir à tentação de

olhar e joga a revista para o chão. O Padre que ia a passar apanha a revista. António tenta desculpar-se mas é em vão. Todos os seminaristas são chamados formando uma fila. O Padre Martins arranca a fita de bom comportamento do pescoço de António. António confessa a Gaudêncio que quer sair do seminário.

António é severamente castigado com uma régua de madeira.

António vai de férias. O Tio Gorra é o único que se encontra à sua espera. Depois surge Carolina com Dª Estefânia. À hora do jantar, todos esperam pelo Drº Alberto para começar a comer. Este chega e faz muitas perguntas a António sem no entanto manifestar qualquer espécie de interesse pelas suas respostas.

António tem a infelicidade de lhe saltar um bocado de carne do prato para a mesa. Dª Estefânia pergunta se no seminário não o ensinam como se comportar à mesa. Drº Alberto faz-lhe uma pergunta sobre um verbo em latim e António não é capaz de responder. Este humilha-o impiedosamente.

António vê o Drº Alberto ter relações sexuais com Carolina. Assustado corre para o jardim.

António vai ai a casa da mãe dizendo-lhe que não quer voltar para o seminário. A mãe responde-lhe

agrestamente: “que sabes tu da vida?”. Diz-lhe que tem sido toda a vida uma “cadela” , cheia de fome e de trabalho, e que se ele fosse padre poderia ter uma boa velhice e os irmãos uma boa vida. Que sempre tinha sonhado ter um filho padre para poder conviver com “as beatas ricas”. António torna a dizer que não quer ser padre, que quer ser homem e arranjar mulher.

De regresso ao seminário, António conversa com Gaudêncio. Ambos confessam que as suas mães não os deixaram sair do seminário. Gaudêncio pergunta a António se ele nunca pensou se Deus poderia não existir.António fica escandalizado: como pode ele pensar tal coisa?

Alguns seminaristas queixam-se de frio, têm arrepios e são enviados para a enfermaria. António aproveita para dizer que também que se sente doente. Isso permite-lhe acompanhar Gaudêncio que está realmente doente. A enfermaria está cheia. Os dois amigos têm que ir para as camaratas. Entretanto, os seminaristas que não estão doentes são enviados para casa. António arrepende-se de

ter dito que estava doente. Gaudêncio piora de dia para dia.

Gaudêncio morre. António vai à enfermaria e o Padre Alves diz-lhe que Gaudêncio já está perante Deus. António chora silenciosamente e reza pelo seu falecido amigo. Segue-se o funeral.

No dia de anos do Drº Alberto, António lança foguetes e Mariazinha brinca com ele. Dª Estefânia pede a Mariazinha que não brinque com os foguetes pois são perigosos. Enquanto António lança os foguetes mutila-se de propósito ficando sem uma mão. Deste modo não volta para o seminário.

A mãe lamenta-se e chora à beira da cama do filho. Só agora compreende a sua determinação em não querer ser padre e lamenta que tenha sido necessário tamanho sacrifício.

O Seminário:

O seminário é apresentado como um edifício austero, de linhas direitas, situado no cimo de uma colina. Lá dentro vivem homens de mentalidades muito rígidas que tentam, a todo o custo, formar os pequenos homens ali depositados pelos seus pais.

Os jovens têm de enfrentar uma disciplina rígida e desumana. É proibido pelo regulamento interno, qualquer tipo de diálogo, amizade pessoal ou conversa entre seminaristas.

Há todo um regime de castigos humilhantes em vigor tais como: estar de joelhos, repreensão pública, violação da correspondência.

(...) Tirei do bolso a minha fita verde com uma

medalha verde e deitei-a ao pescoço. Lento, mas a passo firme,

o Padre Tomás avançou então para mim. (...)Vi erguer-se-me

desde baixo, devagar, a mão do Padre Tomás, até à altura da

medalha. Depois vi-a segurar os dois braços da fita e parar um

instante, no extremo limite de execução, como para me

conceder que eu me sentisse ainda vivo pela última vez. E

finalmente, com um puxão brusco, o Padre Tomás arrancou-me

a fita do pescoço.” (in FERREIRA, Vergílio, Manhã Submersa,

Lisboa:Bertrand,2000)

A Camarata:

As camaratas, com as camas todas iguais e dispostas geometricamente, estão também sob constante vigilância. Os jovens despem-se e vestem-se debaixo da roupa da cama, para que não verem o seu próprio corpo. Não podem falar uns com os outros. O Regulamento interno está sempre a ser relembrado e qualquer desrespeito pelo mesmo pode ser sinónimo de humilhação ou expulsão.

O Refeitório:

No refeitório apenas se ouvem as passagens da bíblia lidas por um dos padres e o ruído dos talheres e do relógio de parede. Até enquanto comem, as crianças estão a ser “educadas”.

A sala de aula:

Apesar de serem amplas e cheias de luz, o ambiente é extremamente fechado e escuro, pairando sempre no ar a figura repressiva do professor, em cima do estrado.

A sala está disposta em filas ortogonais, com carteiras individuais. O “diálogo” é apenas unilateral, do professor para o aluno. As estratégias de ensino passam sobretudo pela memorização e são padronizadas.

O episódio de Padre Tomás e do Valério bem como a formação dos exércitos na aula de latim, demonstram o ambiente que se vivia no seminário. O primeiro ilustra o clima de rigidez, de vigilância constante e latente, e é testemunho da agressão moral e física dos adultos sobre osalunos. O segundo sublinha o ambiente de competitividade, conflito e hostilidade que Padre Lino acaba por instaurar entre os rapazes.

“Tratava-se de constituir dois exércitos ou dois partidos

que vão combater entre si (...). Os dois cabeças de partido, os

dois «generais», eram eleitos por escrutínio secreto.(...)

Cada aluno que deseje subir de posto pode desafiar

qualquer outro de um posto superior do mesmo exército. O de

um posto superior não pode desafiar o de posto inferior. Mas

pode desafiar o que tem posto igual no exército adversário.”

Na próxima aula de Latim já haverá desafios. Quem

quiser desafiar alguém, escolhe o seu adversário por

escrito.(...)”

(in FERREIRA, Vergílio, Manhã Submersa, Lisboa:Bertrand,2000)

Manhã Submersa

Nesta atividade, altamente competitiva, são registrados apenas os erros que os alunos cometem e nunca as suas respostas acertadas. O objetivo é a humilhação dos mais fracos pelos mais fortes.

O despertar da sexualidade de António Através da personagem de António, Vergílio Ferreira não

deixa de recordar o despertar da vida sexual na puberdade, as perturbações físicas que assaltam o jovem, o sentimento de desconforto moral e a convicção de viver permanentemente em pecado que o seminário incute através de veladas e maliciosas conversas dos perfeitos.

A Vocação de António:

António não tem vocação sacerdotal. Vai tomando consciência deste fato à medida que começa a pressentir a solidão da vida de um padre e a sentir a recusa total do seu ser perante essas sombrias perspectivas de futuro. Todavia, sempre que manifesta a sua convicção provoca reacções violentas e

mordazes, quer em Dª Estefânia, que não lhe reconhece o direito a uma opinião e que, quando contrariada, o ameaça violentamente, quer na própria mãe que o pressiona, através de chantagem emocional.

Impotente perante as pressões, consciente da certeza da sua falta de vocação, só lhe resta refugiar-se na solidão e instalar-se na angústia, que o atormenta durante o dia e lhe tira o sono durante a noite.

Na monotonia e na estagnação diária da vida de António, dois fatos se destacam. Gaudêncio arrisca uma dúvida sobre a existência de Deus. António tem uma reação violenta que ele próprio não sabe explicar. Por fim, o funeral do amigo.

“Atrás de mim, como um arrastar de correntes, o canto

pesado não cessava. (...) Por cima, na radiação fixa do céu,

petrificava-se a face de todos os terrores da minha infância.”

(in FERREIRA, Vergílio, Manhã Submersa, Lisboa:Bertrand,2000)

Após a hipocrisia da homenagem a Gaudêncio, desperta em António uma vontade inflexível de abandonar o seminário. O lançamento de bombas e foguetes na festa do Dr. Alberto

oferecem-lhe a ocasião. A mutilação voluntária liberta-o para sempre de um destino a que parecia definitivamente condenado.