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A Costa dos Murmúrios - de Lídia Jorge

Por: João de Mancelos

Sempre adivinhei a leitura como uma espécie de cinema mental. Por qualquer insondável alquimia, aquele que lê deixa de, a partir das primeiras paginas, ver os rebanhos de letras e frases impressos no papel. Passa antes a ter projectadas nas folhas do livro florestas de imagens, sons, tonalidades, acções. Abstrai-se dos caracteres negros e encontra dentro de si o que o escritor ousou apenas rabiscar. Dois universos– o do autor e o do leitor – volvem-se assim íntimos. Apesar de apertados. E tanto mais quanto for o talento do escritor para evocar, transformar uma singela palavra num fotograma de imaginação.

Reside aqui a arte de Lídia Jorge. Profeta no manejo da prosa, puxa-nos pela gravata do real e arrasta-nos ao hemisfério da Ficcionalidade. A Costa dos Murmúrios é pródiga nesta florescência de evocações. Dir-se-ia que um sótão de memórias, ao despegar cores, sons e aromas, cria atmosferas susceptíveis de desenroscar a capacidade que o leitor tem de, segundo Barthes, re-escrever o texto.

A narradora da maior parte de A Costa dos Murmúrios, Eva Lopo, nota esse fluido de sensações no comentário a Os Gafanhotos (a primeira parte do romance ) :

"Esse um relato encantador. Li-o com cuidado e concluí que tudo nele é exacto e verdadeiro, sobretudo em matéria de cheiro e som." Esquece, a meu ver, o mais relevante – a pauta de cores, tonalidades e cambiantes com que, quer em Os Gafanhotos quer no restante do romance, se colorem cenários, personagens e até ideias. Como se Lídia Jorge fosse senhora de uma paleta que a falta de aquarelas se cumprisse pelas palavras.

Qualquer estudo exaustivo a lápis e sublinhador detectaria que dentre as cores, uma preside sobre a tela de A Costa dos Murmúrios: o Verde. É apresentado em todo o seu fulgor aguando da chuva de gafanhotos:

"Estão a ficar verdes. Completamente Verdes." (p. 32).

Fala-se no 'esverdinhar da atmosfera " (p. 32). Distingue-se "o suspiro Verde como as asas dos gafanhotos " (p. 33). Projecta-se a cor, até se diluir com outras :"as fogueiras também elas verdes " (p. 34), "o escuro verde" (p. 34, 35), o "verde em torno das lâmpadas" (p. 35) e até clareiras de luz verde" (p. 37).

E como o bom e proverbial pintor, Lídia Jorge colhe com a ponta da esferográfica tonalidades intra-cromáticas – "e agora se via a luz das lâmpadas e as fogueiras passarem de verde-musgo a verde-coqueiro e a verde-esmeralda (p. 36).

Os mais cépticos contra-argumentariam acerca da minha breve recolha. Provavelmente invocariam a supra-citada cor como sendo a mais natural para uma chuva de ortópteros. Acordaria, se não se repetissem estes factos / indícios ao longo de todo o romance, como é o caso. Exemplos esparsos: "a penumbra esverdeada das arvores " (p. 64), "as saladas esverdinhavam (p. 108), "olhos castanhos, quase verdes (p. 127), "o verde dessa noite" (p. 137), "prisioneiro da luminosidade verde " (p. 142), "chuva verde " (p. 144) e outras infindas referencias cromáticas

É o general quem decide aventurar-se, nas paginas derradeiras de A costa dos Murmúrios; aventurar-se a uma interpretação algo árida e sufocante a semiótica do leitor. Para ele o verde traça-se como sinónimo de "alia-se o mar, pela cor, a nossa esperanca". O próprio cego sinistrado dizia "lindo, lindo, como é verde" (p. 214), numa alusão as festas vitoriosas no Stella. Investiguemos: esta cor tem diferentes plurissignificações, no enredo. O verde é a frescura iniciática de Eva Lopo, a premonição do amadurecimento a distender na obra.

Oposto ao vermelho, que surgira a simbolizar a atmosfera de guerra perdida e de 'aftermath', o verde é, segundo a cromologia, uma chave que abre os cofres da memória. Ora, todo a costa dos Murmúrios se constrói como uma lembrança (o fim), de uma iniciação (o principio). É um rits-de-passage de Eva Lopo. Um circulo perfeito cujos términos se fundem quando ela devolve e anula o conto os gafanhotos, obtendo a paz de quem se reconcilia com o passado.

A uma consciência de cor na obra, de facto. E o AMARELO, o parente mais descorado do verde também tinge algumas paginas.

"África é amarela, minha senhora – disse o comandante (...). Amarela clara, da cor do whisky !" (pp. 11 e 12)." "Entornava-se de facto uma atmosfera amarela – clara, da cor do whisky" (p. 14). "Evita ficou a ver como de facto tudo era laranja e amarelo, mesmo o noivo " (p. 15). "A cidade da beira, prostrada pelo calor a borda dos cais, era tão amarela como o ananás e a papaia.

Curioso é reparar que as personagens mais alusivas a própria África parecem ser retocadas a limão. O major dos "dentes amarelos, um deles sustido por uma anilha de oiro" (pp. 10, 21, 22, 27, 30, 32...) é praticamente definido por essa cor física que se mescla com ideias de decadência. Debilidade. Corrosão psicossomática: " O doente. Estava amarelo" ou "A imagem amarela do tenente gois". (p. 110)

Precipitemo-nos para a antonímia do verde e do amarelo. A cor mais fulva do espectro de tons quentes – VERMELHO.

Uma das primeiras referencias significativas liga-se ao inicio da tragédia. Um presságio que emerge no rasto" não propriamente vermelho, mas da cor da ferrugem, a cor que o sangue toma diluído na agua do sabão" (p. 19). Trata-se do afogamento dos negros, vestíbulo a indiciar o conflito. A noite que sucede é "vermelha e negra como um tapete que cai de uma janela sideral" (p. 31), apesar da relativa estultícia em que "o verde limo da luz conseguia "anular os objectos vermelhos do terraço" (p. 31). "Rosas", "Fio de sangue", "vergões", "tudo isso era vermelho", reparara o leitor.

Também as personagens, tal como no caso da cor amarelo, emergem como reflexos personificados de tons e cambiantes. "a mulher de cabelo ruivo" (p. 23), "a ruiva" (p. 28), "o cabelo encharcado de cor vermelha" (p. 121)... O próprio noivo, por contagio se afigura fulvo, ao surgir diante das aves cor de fogo" (p. 52), num intimismo com o cenário. De tal forma as cores se consorciam que Eva Lopo repara, a propósito de duas figuras relevantes no romance que "talvez o cabelo vermelho, talvez a pele leitosa (...) a união deles era um triunfo".

Interessante reparar que os interpretes mais antipáticos deste drama são definidos pelo colorido. E em tons fortes, a pedir inveja a um pintor "fauve". E não raras vezes associadas a tons de espectros diferentes. Helena é um exemplo franco – "ruivo-branco-cinzento" (p. 128). O vermelho é em suma uma cor ligada a cicatrizes, guerra, violência pelo acto e pela presença. A "cadeira vermelha" (p. 258), um símbolo que na antepenúltima pagina acaba por se ligar a imagem da capa, é a materialização certa. A variegada ilustração afirma-se até como prova de tudo que aqui se dilucidou Verde, amarelo, vermelho. Cores idênticas a bandeira nacional. Referencia a um pais fora do seu pais? Não importa. Os recônditos do detalhe são do domínio do autor. O que interessa são os tons que as palavras de humanidade, anti-militarismo e reflexão cumprem em Lídia Jorge.

Ao virar de cada página.

João de Mancelos