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O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago

Partindo de um heterônimo de Fernando Pessoa, cuja biografia escrita por Pessoa informa apenas a data de nascimento (1887) e que desde 1919 viveria no Brasil por discordar do movimento republicano instalado em Portugal (1911) e por ser monarquista.

Ricardo Reis, médico e helenista, torna-se, pois, o personagem principal desse romance de José Saramago. O autor supõe que após a morte de Fernando Pessoa, ocorrida em 30 de novembro de 1935, Ricardo Reis sentiu um desejo de prestar uma homenagem ao seu criador, retornou a Portugal para fazer as homenagens no túmulo do amigo. Convém notar que Reis ficou sabendo da morte do “amigo” Pessoa por meio de um telegrama enviado por Álvaro de Campos.

Ricardo Reis hospeda-se no Hotel Bragança, quarto 201, de frente para o rio Tejo. Depois de uma ida ao cemitério em que ficara com remorso por ter ficado tanto tempo longe do amigo, sente que poderia ter desenvolvido mais essa amizade.

Uma noite, quando o médico e helenista retorna de um passeio, nota uma luz acesa em seu quarto, ao entrar encontra a figura do “fantasma” de Pessoa. Momento fantástico da obra em que o criador transformado em fantasma encontra a personagem transformada em ser real.

Diante do insólito encontro, Ricardo Reis age com relativa naturalidade ao encontro, bem como Pessoa, que ainda explica ao amigo vivo que tem permissão para ficar penando pelo mundo nove meses (oito para ser exato, pois já havia se passado um) e que nesse tempo tem que resolver um negócio pendente para poder finalmente seguir para o além.

Assim, o romance compreende o período de dezembro de 1935 até agosto de 1936. Período de agitação política na Europa com o surgimento dos regimes totalitários na Itália e na Alemanha e fortalecimento da ditadura salazarista em Portugal e o desenrolar dos antecedentes dos conflitos da guerra civil espanhola.Ao passo que esses acontecimentos históricos são citados na obra, Ricardo Reis se envolve mais diretamente em questões amorosas, conhece no hotel duas moças com quem tem casos amorosos: Lídia, uma arrumadeira e Marcenda, uma hóspede. Aqui os aspectos intertextuais com a obra de Pessoa tornam-se mais fortes, uma vez que Lídia e Marcenda são musas dos poemas de Ricardo Reis. Várias falas de Reis estão fundamentas em recriações de versos do heterônimo pessoano. As musas são rebaixadas no plano literário, de figuras idealizadas e sublimes transformam-se em personagens humanas com virtudes, mas também com defeitos.

Lídia chega a engravidar, Reis sugere que ela faça um aborto. Porém, apesar da indiferença de Reis, ela opta por enfrentar sozinha a gravidez e a criação do filho.

Marcenda, por sua vez, a mulher bem educada, rica, que tem a mão esquerda paralisada, evoca sentimentos mais líricos por parte de Reis. O poeta chega a lhe propor casamento, mas ela já não mais se hospedando em Lisboa, manda uma carta rompendo o relacionamento.

Ao final do romance, Lídia, que também deixar a companhia de Reis, volta para informar desconsolada a morte do irmão Daniel, marinheiro, que se envolvera em questões revolucionárias.

Fernando Pessoa conhecendo os amores mundanos de Reis ironiza o fato de que os amores reais de Reis pouco ou quase nada tem a ver com as suas musas idealizadas.

Na cena final, Pessoa aparece para dizer a Reis que chegou a hora de partir. Ricardo Reis insatisfeito com seus amores e com sua vida diz que deseja acompanhar o poeta: “Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis.O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.”