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HERBERTO HELDER

 

Sobre o Poema

 

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo.

Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as órbitas, a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

 

— Embaixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

 

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

 

O Amor em Visita

 

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra

e seu arbusto de sangue. Com ela

encantarei a noite.

Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.

Seus ombros beijarei, a pedra pequena

do sorriso de um momento.

Mulher quase incriada, mas com a gravidade

de dois seios, com o peso lúbrico e triste

da boca. Seus ombros beijarei.

 

Cantar? Longamente cantar,

Uma mulher com quem beber e morrer.

Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave

o atravessar trespassada por um grito marítimo

e o pão for invadido pelas ondas,

seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes

ele — imagem inacessível e casta de um certo pensamento

de alegria e de impudor.

 

Seu corpo arderá para mim

sobre um lençol mordido por flores com água.

Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;

e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,

os bordões da melodia,

a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,

desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.

— Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob

as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,

mulher de pés no branco, transportadora

da morte e da alegria!

 

AS MUSAS CEGAS II

 

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada

pelas vozes.

E enquanto dorme o leite, a minha casa

pousa no silêncio e arde pouco a pouco.

No círculo de pétalas veementes cai a cabeça -

e as palavras nascem.

                                   - Límpidas e amargas.

 

Eis um tempo que começa: este é o tempo.

E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,

é o pensamento que verga de flores actuais e frias.

A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.

E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado

de seivas, para a noite que estremece

fundamente.

 

Melancolia com sua forma severa e arguta,

com maçãs dobradas à sombra do rubor.

Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando

com a primeira música de água.

Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,

com esta coroa recente de ideias, esta mão

que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa

onde o coração se consome devagar.

 

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras

antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera

de minúsculas folhas eternas como uma árvore.

Degrau a degrau devorei a alegria -

eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas

desvairadas, entre jarros transbordando

húmidos astros.

 

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer

com os olhos queimados pelo poder da lua.

Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe

procuro no meu silêncio uma outra forma

dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é

a casa ligeira colocada num espaço

de profundo fogo.

                              E apagaram-se as luzes.

 

- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente

para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,

espécie de boca recolhida no começo?

E é tão certo o dia que se elabora.

Então eu beijo, de grau a degrau, a escadaria daquele corpo.

E não chames mais por mim,

pensamento agachado nas ogivas da noite.

 

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,

por inúmeras laranjas.

Hoje descubro as grandes razões da loucura,

os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.

Há lugares onde esperar a primavera

como tendo na alma o corpo todo nu.

Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego

que principia. - É preciso cantar como se alguém

soubesse como cantar.

 

AS MUSAS CEGAS VII

 

Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.

Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,

ressoando violentamente pelos corredores

e paredes e pátios desta própria casa

que eu sou. Que eu serei até não sei quando.

É uma doce pancada à porta, alguma coisa

que desfaz e refaz um homem. Uma pancada

breve, breve -

e eu estremeço como um archote. Eu diria

que cantam, depois de baterem, que a noite

se move um pouco para a frente, para a eternidade.

Eu diria que sangra um ponto secreto

do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente

ou se queima como uma face. Escuta:

que a noite vagarosamente se queima

como a minha face. 

 

Essa criança tem boca, há tantas finas raízes

que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,

uma taça situou-se na terra, e há tantas

finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,

uma flor, uma pequena lira,

podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo -

um novo instrumento rodeado de campânulas

inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,

pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo

as grandes cabeças sonhadoras. 

 

Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.

Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me

tantas vezes dos mistérios dessa porta.

Porque então é muito estreita com os seus espelhos

detrás, com o vestíbulo frio.

Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,

uma criança que ascende com uma

grande música

desta rede de ossos, deste espinho de sexo,

da confusa pungência, escuta: da pungente

confusão

de um homem restrito com a sua vida tão lenta. 

 

Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos;

às vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,

e as virilhas em chama.

É a minha vida. Mas essa criança

é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta

o meu coração.

No outono eu olhava as águas lentas,

ou as pistas deixadas na neve

de fevereiro, ou a cor feroz,

ou a arcada do céu com um silêncio completo.

Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se

a ciência da minha carne

atónita. Escuta: cada vez a minha vida

é mais hermética.

Essa criança tem os pés na minha boca

dolorosa. 

 

Se ela um dia adormecer com cerejas junto à respiração

pequena, e sonhar

estes imensos arcos que os séculos vão colocando

sob os astros - e se de tudo

a sua cabeça estremecer como numa loucura,

com altos picos em volta, com enormes faróis

acendendo e apagando - escuta: se essa criança

imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente

para que ela invente o seu próprio rio

sem nome -

será ainda que do meu sangue se erguem finas

raízes, e o tenebroso tumulto das minhas sombras

está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,

da sua terrível vida sem remédio.

Se ela morrer, escuta, será que a minha boca

diz lá em baixo

essas majestosas e violentas palavras

dos poemas. 

 

Essa criança que aperta as veias que iluminam

a minha garganta. Ela dorme. Escuta:

a sua vida estala como uma brasa, a sua vida

deslumbrante estala e aumenta.

Se um dia os archotes incendiarem essa boca,

e as faúlhas cercarem

o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta: 

 

a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.

 

A CARTA DA PAIXÃO

 

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.