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BOLOR - Augusto Abelaira

Romance da fragmentação da personagem. O livro é construído na forma de um diário, por isso os capítulos são intitulados por datas, começando em 11 de dezembro e terminando em 18 de maio ou pouco depois, já que os dois últimos episódios são rotulados como “Sem data”. No entanto, como não há referência explícita ao ano, mas só aos dias e aos meses, pode-se supor que não se fala de um período de um final de ano (dezembro) para os meses do ano subseqüente até maio. Com efeito, Nely Novaes Coelho identifica na obra uma desconstrução do tempo, uma vez que o tempo seguiria normalmente até 24 de março, mas o capítulo seguinte é datado como 10 de janeiro, e existem outros capítulos em que se pode mostrar esse retorno no tempo.

O narrador do diário é inicialmente Humberto, homem casado com Maria dos Remédios. É seu segundo casamento, anteriormente fora casado com Catarina que morrera, depois de algum tempo viúvo conhece Maria dos Remédios por quem se apaixona, porém as comparações entre as duas mulheres são inevitáveis para Humberto.

O diário é descoberto por Maria dos Remédios que passa a também escrever nele como uma forma de tentar recuperar o diálogo que se estava perdendo na convivência do casal. Maria dos Remédios escreve fazendo confissões de coisas que naturalmente não diria a Humberto. Por meio do diário, discutem seus pontos de vista acerca do casamento, de que como se sentiam presos e sufocados por essa relação, de como o casamento estava matando o amor de ambos.

Num determinado momento, Maria dos Remédios insinua e depois fala claramente que possui um amante, Aleixo (ou Guilherme, existe uma ligeira alteração dos nomes em alguns episódios) colega de trabalho. Explica a Humberto como sentiu necessidade dessa aventura, de como essa aventura veio preencher um vazio, e mais, de como era necessária a presença de Aleixo para que ela compreendesse a real dimensão de seu amor por Humberto.

Humberto explica acerca do sentimento que teve quando da morte da primeira esposa, de que ao morrer Catarina ele sentiu a possibilidade de renascer uma vez que o casamento significava a morte contínua da experiência amorosa.

Mais adiante, na fala de Maria dos Remédios começamos a sentir a presença de Aleixo, e a partir daí o narrador está completamente fragmentado: “Divirto-me: neste momento sou o Humberto que sonha ser o Aleixo ou o Aleixo que sonha ser o Humberto? Ou o Humberto que sonha ser a Maria dos Remédios que por sua vez sonha ser o Humberto que por sua vez sonha... Ou o Aleixo que sonha ser a Maria dos Remédios que por sua vez sonha ser o Humberto que por sua vez...”

Existe na obra uma relação entre tempo interior e tempo exterior, uma vez que muitas vezes quando o narrador escreve, faz referências às ações que a outra personagem está fazendo naquele momento em que o narrador escreve ou pensa.

Assim, em Bolor o tempo labiríntico e o narrador fragmentado criam uma atmosfera em que a escrita se torna personagem: “Que vou escreve - eu, a quem nada no mundo obriga a escrever? Eu, antecipadamente sabedor da inutilidade das linhas que nesse momento ainda não redigi, dentro de alguns minutos (de alguns anos) finalmente redigidas?”

No último capítulo, sem data, Maria dos Remédios pergunta a Humberto: “-Por que casaste comigo em vez de casar com outra? Por que me escolheste a mim como imagem da vida quotidiana, ponto de referência em relação ao qual uma diferente vida é possível - vida, parêntesis, na realidade inútil de todos os dias?”