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Os cus de Judas - Antonio Lobo Antune -Resumo

            Seis anos após o término da guerra colonial, é lançado Os Cus de Judas, de Antonio Lobo Antunes que conta a trajetória de um soldado português que servira o exército colonial em Angola e, a partir desse contacto com a situação em África, vê sua vida, seus valores sendo destruídos.

            Segundo o autor, em entrevista publicada em Lisboa em abril de 1994, o livro é parte de uma trilogia que inclui Memória de Elefante (anterior) e, Conhecimento do Inferno (posterior) a obra em questão. O retrato da guerra colonial é a marca dessa etapa ou ciclo de sua vida, como ele mesmo afirma.

            O texto de Antunes não se enquadra no gênero de narrativa de viagem tal como é concebido pela literatura moderna, entretanto, é possível a leitura de um discurso de viagem apanhado de viés, ou seja; a desconstrução ou a ante-viagem (se é que podemos utilizar esses termos) , visto sob a óptica de uma simbologia atual.

            Discutir o tema da viagem como resgate de uma experiência humana dolorosa, num cenário em que os atores não dialogam amigavelmente, não desejam trocas de experiências culturais e, se sobreviverem, trarão no corpo as marcas de uma guerra fratricida, é o cerne dessa comunicação.

            Os oceanos Índico e Atlântico, palco da aventura marítima lusitana, caminhos líquidos por onde a língua portuguesa navegou, aportando em outras terras, conforme palavras de Carmen Lucia Tindó Ribeiro, remete-nos à Camões, observando que a viagem como aventura em busca do desconhecido era algo assustador, porém, desejável para aqueles intrépidos destemidos navegantes. O poeta maior da Nação lusitana exaltava no Canto Primeiro de sua obra prima:

I
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram

 

II
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
Cantando espalharei por toda parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte

            Os feitos grandiosos, de que nos fala o poeta, dos heróis navegantes portugueses, que realmente fundaram novo reino em África, ao apagar das luzes do século XX, adquiriu outros sabores e outros contornos. A par da história recente dos países africanos colonizados por Portugal e, ao contrário da viagem desejável, temos em Os cus de Judas, a viagem indesejada, de uma personagem que absolutamente odeia a colônia (Angola) e, os colonizadores que ‘inventaram a guerra’, nos territórios ultramarinos.

            Optamos, fazendo um recorte necessário, destacar alguns pontos da viagem histórica a que eram submetidos os soldados portugueses comparando-a com a viagem literária da personagem de Lobo Antunes.

            "A viagem para África começava muito antes do embarque. O processo que levava um jovem até Angola, Guiné ou Moçambique iniciava-se habitualmente logo após o final da instrução da especialidade."Jl

            A personagem não nomeada de Antunes é incitada por membros de sua família, tradicional portuguesa, a acreditar que o exército fabrica homens de verdade. As maiores virtudes tais como; valentia, honestidade, caráter entre outras, são atributos da farda, não do homem.

            "Estás magro (...) . Felizmente que a tropa há de torná-lo homem. ( Os cus de Judas pág.12)

            Numa crescente angústia o soldado mobilizado para combater em terras de além-mar, vai sendo conduzido, como um boi para o abatedor. Imagens do navio se afastando do cais a incerteza da volta, o choro, as lágrimas, talvez a última visão da cidade vão sendo retratadas.

            "...Lisboa principiou a afastar-se de mim num turbilhão cada vez mais atenuado de marchas marciais em cujos acordes rodopiavam os rostos trágicos e imóveis da despedida..." (idem, pág. 16)

            Porém, nem todos os que eram mobilizados deixavam-se levar nessa viagem quase suicida. Registros militares davam conta de um sem números de faltosos por ocasião da chamada para o engajamento final. O procedimento é assim descrito pelo jornal Diário de Notícias.

            "Nos primeiros tempos, o capelão rezava uma missa campal, que depois caiu em desuso; o comandante da unidade mobilizadora, um coronel, proferia umas palavras alusivas à missão e entregava o guião ao comandante do batalhão mobilizado, um tenente-coronel, ou então da companhia, um capitão; (...) era concedida a licença de dez dias antes de embarque e pagas as ajudas de custo.

            Neste momento, o militar era um mobilizado, ia a casa, despedia-se da família, fazia umas asneiras por conta, arranjava umas correspondentes para lhe escreverem, ou umas madrinhas de guerra e voltava à unidade mobilizadora para daí iniciar verdadeiramente a viagem.

            Neste regresso faltavam uns quantos camaradas, que tinham decidido dar o salto para o estrangeiro ou baixado ao hospital com uma doença mesmo a calhar, mas os que restavam formavam de novo na parada do quartel..." (Jornal Diário de Notícias- Fasc. 5 pág. 50)

            Para aqueles que iam sendo embarcados a viagem não é de busca, nem de aventura, tampouco trata da questão de conhecimento ou de experiências novas que se buscam por iniciativas próprias. São seres humanos que não entendem por devem ir matar outros de sua espécie em prol de um poder político que não lhes dizia respeito nem sequer o exerciam.

            "Por volta do meio-dia, o navio recolhia as escadas e os cabos, a sirena apitava e, durante alguns anos, a instalação sonora tocava uma marcha intitulada ‘Angola é nossa’, independentemente do destino – um ritual abandonado nos anos mais próximos do fim da guerra.

            O navio afastava-se lentamente, virava a proa à foz do Tejo, passava por baixo da ponte e deslizava diante da Torre de Belém" (J D.N. pág.5l)

            O mar: estrada líquida pela qual Portugal alcançou a notoriedade em função da rota de suas caravelas, é, neste caso, símbolo de agruras para a soldadesca em cujo destino preferem não pensar. Os pioneiros navegantes contemplaram suas águas salgadas com outros olhos, com espanto e admiração. Estes, que vão rumo aos Cus de Judas, quase não o reparam e, se o fazem, o maldizem.

Por dentro das águas há quadros e sonhos/E coisas que sonham o mundo dos vivos
Peixes milagrosos, insetos nocivos/Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos/Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar/ Daqueles que caçam em mar revoltoso
Outros que devoram com gênio assombroso/As vidas que caem na beira do mar
( Zé Ramalho )

            Na poesia popular brasileira, o mar é via de chegada dos colonizadores, contributo por inserir aqui sua cultura, línguas e religiões, mas também, pode adquirir ‘um valor metafórico absoluto’ como reserva de uma memória intemporal, ‘essências pressentidas’ e guarda ainda ancestralidades e ecos misteriosos no presente.

            Entretanto para o soldado português combatente na guerra colonial na obra de Antunes tanto a cidade como o mar são visto como símbolos negativos.

            Cidade colonial pretensiosa e suja de que nunca gostei, gordura de umidade e calor, detesto as tuas ruas sem destino, o teu Atlântico domesticado de barrela (...) O meu país, Ruy Belo, é o que o mar não quer (Os cus de Judas, pág. 68)

            Para a personagem de Antunes, a água do mar de Luanda ‘assemelhava-se a creme solar turvo’ (pág.19), e eles (soldados), não passavam de ‘peixes mudos em aquários(pág.86), ratificando a simbologia do mar que já constatara na poesia Melo e Castro.

            Após a chegada dos portugueses(...) o mar passa a ser, não só a via da invasão européia portadora da descaracterização cultural, mas também, a via da partida, da ruína e da morte causadas pela captura e venda dos escravos, pela emigração forçada e pelo drama dos contratados. Mar, espaço da morte, de onde se não volta mais.( págs. 11-16)

            À guisa de conclusão, diríamos que Lobo Antunes tece um discurso que nos deixa pistas sobre a desconstrução da viagem no contexto colonial português, que se revelará em outras obras como As Naus. Neste cenário o encontro com a situação de guerra vai expor as feridas que ainda ecoam no contato entre colonizador e colonizado.

 

OS CUS DE JUDAS - resumo - António Lobo Antunes

Extraído de resumo de Célia N. Passoni - Editora Núcleo

Os estilhaços que recompõem os contornos da memória nos romances de Lobo Antunes recolhem informações vividas em espaços de tempo variados, mas contados em breves períodos, de chofre, de um só fôlego. No caso de Os Cus de Judas, o “ato de contar” tem as ações transcorrendo em uma só noite. Se o tempo é breve no presente da narrativa — entre a mesa de um bar, algumas boas doses de uísque, um convite e o anseio para vencer a solidão - o tempo recolhido pela memória é elástico, é um tempo que se volta para a infância remota, as recordações da família, um tempo em que ele se alista nas fileiras da força colonialista portuguesa, um tempo em que ele parte e, finalmente, um tempo em que ele sobrevive na África, numa luta que lhe parece vazia de sentido.

Com vinte e três capítulos curtos, seqüenciados de A a Z, sem interrupções na ordem do alfabeto, desenrolam-se ações em dois planos temporais: um cronológico, período de tempo de uma noite, que vai do encontro do narrador com uma mulher em um bar até o amanhecer deles, depois de uma noite de sexo, sem amor. O tempo cronológico constitui-se no tempo da fala, no tempo de um enorme monólogo em que o narrador expõe a uma mulher não nomeada suas angústias e a mediocridade da vida que o cerca; outro passado, um tempo elástico reconstituído a partir de fragmentos soltos, recolhidos dos escombros das memórias constituem uma coleção de insucessos que o levam a sentir-se um ser espúrio, um pária, um fracassado.

 

Convém lembrar que a sensação de fracasso que domina o narrador está intimamente associada aos insucessos dos tempos em que ele exercia funções no exército português de combate às guerrilhas africanas.

Passamos vinte e sete meses juntos nos cus de Judas, vinte e sete meses de angústia e de morte juntos nos cus de Judas, nas areias do Leste, nas picadas dos Quiocos e nos girassóis do Cassanje, comemos a mesma saudade, a mesma merda, o mesmo medo, e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão, uma palmada nas costas, um vago abraço, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso da bagagem, pela porta de armas, evaporadas no redemoinho civil da cidade.

Durante uma única noite, o narrador tece o enredo da obra, elaborando um relato em que confunde as ações de guerra, a política desenvolvida pelo seu país quanto às colônias na África e as posições assumidas por ele (país) e ele (narrador) após o término do conflito, o passado, o casamento, enfim, misturam-se os fatos todos da vida que afloram pelas doses excessivas de álcool e de solidão.

2. Algumas informações históricas

Para melhor conhecer os pontos de vista que o narrador assumirá no transcorrer da narrativa de Os Cus de Judas, é necessário fazer uma breve explanação sobre a situação histórica da relação entre Portugal e Angola, bem como a relação entre o colonizador que luta para manter seu império ultramarino e o colonizado em sua luta pela independência.

O interesse de Portugal pelas terras angolanas esteve ligado, desde o início da colonização, com a exploração da mão-de-obra escrava para abastecer o mercado brasileiro. A partir do século XVIII teve de disputar com os ingleses, os franceses e os holandeses o rendoso comércio de escravos. Com as tendências abolicionistas, o tráfico de escravos passou a ser feito quase que totalmente pelos portugueses e de forma clandestina. Em 1836, a Coroa portuguesa proibiu qualquer comércio negreiro, fato esse que, associado aos movimentos de libertação dos escravos, veio a diminuir sobremaneira a intensidade do tráfico.

O fato de o Brasil ter se tornado independente levou a Coroa portuguesa a voltar seus olhos para as colônias da África. Somente então começaram a promover melhorias nos seus territórios africanos, construindo estradas e incentivando a criação de núcleos urbanos brancos. A população de portugueses em Angola começou a crescer somente a partir do século XX. Entre 1930 e 1960, o governo salazarista teve a preocupação de mudar a nomenclatura de “colônia” para “província ultramarina”, com a finalidade de evitar o desgaste que a associação “metrópole-colônia” possuía.

A manutenção do colonialismo português em Angola despertou acirrados confrontos, a partir do final da década de 1950, com o desenvolvimento do nacionalismo político no continente africano. Surgem em Angola vários movimentos que reivindicam a independência política de Portugal. Em 1956, forma-se o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), liderado por Agostinho Neto; em 1962, a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola), chefiada por Holden Roberto e, em 1966, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), dissidência da FNLA, comandada por Jonas Savimbi, que contava com a participação de forças sul-africanas. Na década de 1960, os grupos nacionalistas, tanto de tendências socialistas como os não-socialistas, armam-se e começam a enfrentar com tática de guerrilha as forças portuguesas que tinham sido enviadas por Salazar para Angola. O Estado Novo (1933-1974), que instaurou a ditadura salazarista, buscou o estabelecimento da ordem interna nas colônias ultramarinas e criou um sistema de repressão a partir da formação de milícias como a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado).

Diante das pressões tanto da ONU quanto dos grupos de libertação, Portugal, ao invés de ceder, opta por intensificar sua repressão, procurando manter pela força seus domínios além-mar. Em nome dessa soberania, inicia-se uma luta que é conhecida na História como Guerra Colonial ou Guerra de Angola (1961-1975).

As forças portuguesas eram compostas por um exército mal formado, que não conseguia adaptar-se ao território africano, e, principalmente, sem o devido treinamento para enfrentar a guerra de guerrilha. Os homens tinham dificuldade para movimentar-se, utilizavam fardas inadequadas para o verão africano e, principalmente, não possuíam armamento moderno: Portugal enfrentou não somente os guerrilheiros acostumados com a adversidade das terras africanas, como emboscadas armadas pela própria natureza, com florestas virgens e agressivas. Com armamento pesado, fome, selva impenetrável, os portugueses passaram de atacantes a alvos fáceis dos ataques surpresa e das minas terrestres que os guerrilheiros colocavam como empecilhos para o avanço das tropas.

Com a Revolução dos Cravos, que destituiu o regime salazarista (1974) e objetivando o fim das hostilidades, Portugal passou a buscar entendimento com as colônias africanas. Para isso, intensificou o contato com as três forças libertadoras e concordou com a formação de um governo provisório. Os líderes angolanos assinaram o acordo de Alvor (1975), que fixava a independência de suas terras para 11 de novembro de 1975. No entanto, os líderes da FNLA e UNITA aliaram-se contra o presidente Agostinho Neto do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e, quando da independência, o novo país já surgia imerso em grave crise, com dois governos, um sediado em Luanda e outro em Huambo e os angolanos encontravam-se em plena guerra civil. Contando com o apoio de tropas cubanas e abastecido de armas soviéticas, o MPLA forçou a retirada das forças sul-africanas invasoras e obteve a vitória militar sobre seus adversários internos. Em 1976, o governo de Agostinho Neto foi reconhecido como legítimo pela ONU e por grande número de países.

 3. A literatura neo-realista

A trajetória da prosa portuguesa do século XX está inicialmente ligada ao movimento que se costumou chamar de presencismo, uma geração que procurou equilibrar o passado poético que tradicionalmente marcou a Literatura Portuguesa, com a produção romanesca de tendências intuicionistas e/ou memorialistas, em busca do que existe de mais profundo no ser, portanto, isenta de preocupações ideológicas ou sociais.

No final da década de 1930, influenciados principalmente pelo que se fazia nos Estados Unidos e no Brasil, os prosadores voltaram-se para uma literatura engajada, através da qual procuravam denunciar as mazelas e a podridão de uma sociedade que enfrentava (e enfrenta) problemas concretos. O gosto neo-realista é pelo documento vazado em relatos secos, diretos na ânsia de registrar a verdade por meio da propagação de uma doutrina de ideais políticos, numa arte comprometida, a serviço de uma causa. A literatura passa a ser vista como uma possível forma de intervir no real, transformando-se em uma arma de combate e uma forma de propor rumos novos para o destino da sociedade.

Durante a ditadura salazarista, a literatura foi censurada e, dos subterrâneos, passou a metaforizar a realidade de forma a poder expor os pontos de vista pessoais associados a uma nova forma de narrar, mais elíptica e utilizando-se de recursos como o discurso indireto livre e o fluxo da consciência, a multifacetação do narrador, da ambiguidade e da possibilidade de penetração na consciência de personagens. Supera-se assim o neo-realismo tradicional, para se poder conhecer melhor as diferentes faces da sociedade, agora também voltadas para o meio burguês, e o indivíduo. Por meio de uma análise mais profunda de seus circuitos psicológicos, passa-se a analisar o ser humano como um ser complexo e total, tanto indivíduo psicológico como homem inserido em seu contexto social.

4. Um narrador estilhaçado

Em Os Cus de Judas, Lobo Antunes faz uma narrativa em que presta depoimento da situação vivenciada por ele durante os anos em que esteve em Angola, entre 1971 e 1973, exercendo a função de clínico de um batalhão operacional, primeiramente nas por ele denominadas “terras do fim do mundo”, situadas no leste e, depois, na Baixa do Cassanje, junto à fronteira do Congo.

O narrador, em primeira pessoa, apresenta-se ao longo da narrativa como um médico que procura exorcizar seu passado, registrando sua dura experiência na Guerra de Angola. Como enviado das forças de defesa da Metrópole, potencialmente defensor da política portuguesa para a África, ele testemunha as cruezas de uma guerra, cujos sofrimentos e desvarios o marcaram profundamente e o enchem de angústia pela sensação de absurdo da situação: ele, o narrador, um homem culto, conhecedor de História, de Artes e de Ciências, cuja experiência de vida, até a ida para a guerra, era exclusivamente metropolitana e burguesa

Poderíamos envelhecer perto um do outro e da televisão da sala, com a qual constituiríamos os vértices de um triângulo eqüilátero doméstico protegido pela sombra tutelar do abat-jour de folhos e de uma natureza-morta de perdizes e maçãs, melancólica como o sorriso de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador um antídoto açucarado contra a conformação do reumático. Poderíamos friccionar-nos mutuamente os bicos de papagaio com bálsamo Menopausol, pingar em uníssono, no termo das refeições, as mesmas gotas para a tensão, e aos domingos, depois do cinema, graças ao último beijo do filme indiano do Avis, unirmo-nos em abraços espasmódicos de recém-nascidos, a soprar pelas dentaduras postiças bronquites aflitas de chaleira. E eu, deitado de costas no colchão ortopédico reduzido a uma tábua dura de faquir a fim de prevenir as guinadas da ciática, lembrar-me-ia do jovem saudável e ardente que há muitos anos fui, capaz de repetir sem azia o frango na púcara, para quem o horizonte do futuro não era limitado pelo perfil de cordilheiras dos Andes de um electrocardiograma ameaçador, a regressar da guerra de África para conhecer a filha, numa dessas madrugadas de Novembro tristes como a chuva num pátio de colégio, durante a lição de Matemática.

 

...passa alguns anos vivendo em um espaço totalmente desconhecido, engajado em uma luta que se lhe torna particularmente indiferente: afinal, matar e/ou morrer transformam-se no cotidiano vivenciado por ele na África. No retorno a Portugal, a experiência dos anos de guerra continua a amargurá-lo porque deixa profundas marcas no seu presente, marcas que se tornam sua fraqueza e das quais ele não consegue se desvencilhar.

O narrador confessa-se um homem solitário, mergulhado no consolo da bebida servida nas mesas de um bar, em busca de um conforto, de uma companhia para ouvi-lo, para com ele enfrentar a noite, e assim solucionar suas fraquezas físicas e psicológicas. Ele apenas conversa, desabafa por meio de uma fala longa, sem pausas, sem ordem, feita de retalhos justapostos e alineares. No entanto, não há desabafos eficazes para o mal que o acompanha, sente-se cada vez mais inadaptado, encontra-se deslocado no mundo que não parou apesar da guerra. E suas falas vêm marcadas pelo desespero de não poder escapar da experiência do passado que o destruiu psicologicamente.

Quer um uísque? Este banal líquido amarelo constitui, nos tempos de hoje, depois da viagem de circunavegação e da chegada do primeiro escafandro à Lua, a nossa única possibilidade de aventura: ao quinto copo o soalho adquire insensivelmente uma agradável inclinação de convés, ao oitavo, o futuro ganha vitoriosas amplidões de Austerlitz, ao décimo, deslizamos devagar para um coma pastoso, gaguejando as sílabas difíceis da alegria: de forma que, se me dá licença, instalo-me no sofá ao pé de si para ver melhor o rio, e brindo pelo futuro e pelo coma.

O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das camionetas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo, rios que a chuva engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos, o tenente-coronel eternamente aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para os negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo. Quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, explicava eu ao capitão de óculos moles e dedos membranosos colocando delicadamente no tabuleiro, em gestos de ourives, as peças de xadrez, cada um de nós, os vivos, tem várias pernas a menos, vários braços a menos, vários metros de intestino a menos, quando se amputou a coxa gangrenada ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussuma os soldados tiraram o retrato com ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos em bichos, percebe, bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar, não sobrava um centímetro de parede nas casernas sem uma gravura de mulher nua, masturbávamo-nos e disparávamos, o mundo-que-o-português-criou são estes luchazes côncavos de fome que nos não entendem a língua, a doença do sono, o paludismo, a amibíase, a miséria, à chegada ao Luso veio um jeep avisar-nos que o general não consentia que dormíssemos na cidade, que expuséssemos na messe as nossas chagas evidentes. Nós não somos cães raivosos, berrava o tenente de cabeça perdida para o enviado do comando de Zona, diga a esse caralho do catano que nós não somos cães raivosos, um alferes ameaçava baixinho destruir a messe com as bazookas Fodemos aquela porra toda meu tenente, não sobeja um cabrão sequer para nos enconar o juízo, Um ano no cu de Judas não nos dá direito a dormir uma noite numa cama argumentava em sentido o oficial de operações, o tenente espalmou um murro enorme no capot do jeep Diga ao nosso general que vá levar na anilha, Nós não éramos cães raivosos quando chegamos aqui disse eu ao tenente que rodopiava de indignação furiosa, não éramos cães raivosos antes das cartas censuradas, dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta de comida, de tabaco, de refrigerantes, de fósforos, de água, de caixões, antes de uma berliet valer mais do que um homem e antes de um homem valer uma notícia de três linhas no jornal, Faleceu em combate na província de Angola, não éramos cães raivosos mas éramos nada para o Estado de sacristia que se cagava em nós e nos utilizava como ratos de laboratório e agora pelo menos nos tem medo, tem tanto medo da nossa presença, da imprevisibilidade das nossas reacções e do remorso que representamos que muda de passeio se nos vê ao longe, evita-nos, foge de enfrentar um batalhão destroçado em nome de cínicos ideais em que ninguém acredita, um batalhão destroçado para defender o dinheiro das três ou quatro famílias que sustentam o regime, o tenente gigantesco voltou-se para mim, tocou-me no braço e suplicou numa voz súbita de menino Doutor arranje-me a tal doença antes que eu rebente aqui na estrada da merda que tenho dentro.

Seu casamento mal começado - ele se casara quatro meses antes de partir

...depois de breves encontros de fim-de-semana em que fazíamos amor numa raiva de urgência, inventando uma desesperada ternura em que se adivinhava a angústia da separação próxima, e despedimo-nos sob a chuva, no cais, de olhos secos, presos um ao outro num abraço de órfãos.

...estilhaça-se pela distância - ela em Portugal, ele na África - e nem a notícia do nascimento de uma filha pôde auxiliá-lo na recuperação de seu trauma. Um nascimento no meio de mortes deveria ser um brado à vida, mas chega em meio ao ruído da guerra, à interferência de códigos em um lugar distante, isolado e miserável:

Como na tarde de 22 de Junho de 71, no Chiúme, em que me chamaram ao rádio para me anunciar de Gago Coutinho, letra a letra, o nascimento da minha filha, rómio, alfa, papá, alfa, rómio, índia, golf, alfa, paredes forradas de fotografias de mulheres nuas para a masturbação da sesta, mamas enormes que começaram de súbito a avançar e a recuar, segurei com força as costas da cadeira do cabo de transmissões e pensei Vai-me dar qualquer merda e estou fodido.

Ao conversar com sua interlocutora, revela o que de mais profundo atormenta sua consciência. No entanto, a interlocutora não se apresenta como “aquela que responde” ou “aquela que efetivamente o ouve”, “aquela que participa de uma experiência frustrante”, apenas “está lá” e o leitor conhece-a por meio das falas do narrador, o que transforma a narrativa em um imenso monólogo em que ele se volta quase exclusivamente para si mesmo. Não há espaço para o outro, não há outras vozes e os sons que o leitor ouve são aqueles que atormentam o narrador, estão nas vivências passadas, reconstituídas aos tropeços e difíceis de serem superadas.

Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua. Não sei se lhe parece idiota o que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós lá íamos com o meu pai, os bichos eram mais bichos, a solidão de esparguete da girafa assemelhava-se à de um Gulliver triste, e das lápides do cemitério dos cães subiam de tempos a tempos latidos aflitos de caniche. Cheirava aos corredores do Coliseu ao ar livre, cheios de esquisitos pássaros inventados em gaiolas de rede, avestruzes idênticas a professoras de ginástica solteiras, pingüins trôpegos de joanetes de contínuo, catatuas de cabeça à banda como apreciadores de quadros; no tanque dos hipopótamos inchava a lenta tranqüilidade dos gordos, as cobras enrolavam-se em espirais moles de cagalhão, e os crocodilos acomodavam-se sem custo ao seu destino terciário de lagartixas patibulares. (...)

Se fôssemos, por exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar de conversarmos um com o outro neste ângulo de bar, talvez que eu me acomodasse melhor ao seu silêncio, às suas mãos paradas no copo, aos seus olhos de pescada de vidro boiando algures na minha calva ou no meu umbigo, talvez que nos pudéssemos entender numa cumplicidade de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de insectos que não há, talvez que nos uníssemos, a coberto do escuro, em coitos tão tristes como as noites de Lisboa, quando os neptunos dos lagos se despem do lodo do seu musgo e passeiam nas praças vazias ansiosas órbitas ferrugentas.

Na medida em que a longa conversa vai se desenrolando, vão-se equilibrando aspectos de um passado remoto que vêm à tona com imagens tomadas das recordações da infância: a casa dos pais, a casa dos avós, o professor a deslizar no rinque de patinação, a visita ao jardim zoológico. Do passado remoto surgem as únicas imagens menos agressivas, levadas ao leitor por construções da memória e da linguagem que contêm uma certa amargura saudosa, sem contudo ser despojada de uma ironia irreverente. O olhar irônico recai principalmente no bizarro ou ridículo das cenas que a memória seleciona no passado.

O espectro de Salazar pairava sobre as calvas pias labaredazinhas de Espírito Santo corporativo, salvando-nos da idéia tenebrosa e deletéria do socialismo. A PIDE prosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de democracia, primeiro passo para o desaparecimento, nos bolsos ávidos de ardinas e marçanos, do faqueiro de cristofle. O cardeal Cerejeira, emoldurado, garantia, de um canto, a perpetuidade da Conferência de São Vicente de Paula, e, por inerência, dos pobres domesticados. O desenho que representava o povo em uivos de júbilo ateu em torno de uma guilhotina libertária fora definitivamente exilado para o sótão, entre bidés velhos e cadeiras coxas, que uma fresta poeirenta de sol aureolava do mistério que acentua as inutilidades abandonadas. De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de um navio cheio de tropas, para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida ao Governo que me possibilitava, grátis, uma tal metamorfose, compareceu em peso no cais, consentindo, num arroubo de fervor patriótico, ser acotovelada por uma multidão agitada e anônima semelhante à do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir, impotente, à sua própria morte.

 

O passado só pode ser reconstruído por uma seleção voluntária da memória e pela ordem de importância que assume para quem narra. Ao revelar a passagem para a vida adulta, o narrador enfrenta não só o trauma de se conhecer adulto, como a cobrança de uma sociedade que o quer “Homem”, que o quer tomando decisões, que o quer participante e é como ser participante que essa mesma sociedade lhe revela a experiência sangrenta da guerra.

- Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.

Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segregados. Os homens da família, cuja solenidade pomposa me fascinara antes da primeira comunhão, quando eu não entendia ainda que os seus conciliábulos sussurrados, inacessíveis e vitais como as assembléias de deuses, se destinavam simplesmente a discutir os méritos fofos das nádegas da criada, apoiavam gravemente as tias no intuito de afastarem uma futura mão rival em beliscões furtivos durante o levantar dos pratos.

Uma travessia inumana

Mas afinal, para que lhe serviu estar engajado na guerra? Ela se converteu em uma experiência traumática que teve como resultado imediato a desumanização do protagonista, que o transformou em um bicho (humano?) rancoroso. A guerra anulou a poesia que porventura existia nas coisas, impregnou o mundo de prostituição, de corrupção: os homens se vendem por qualquer bagatela, porque através da guerra sempre se contempla o espectro da morte próxima. O que mantém o homem vivo é uma falsa esperança de final e a consciência de fragilidade adquirida no confronto sangrento com o outro. Mas, justamente porque o narrador não partilha totalmente das opiniões da Metrópole, o universo da guerra não lhe diz respeito, lhe é indiferente, ele não tem um motivo plausível para lutar, porque não luta imbuído de uma ideologia, qualquer que seja ela. A única certeza que a guerra lhe traz são as dúvidas.

Mas não podíamos urinar sobre a guerra, sobre a vileza e a corrupção da guerra: era a guerra que urinava sobre nós os seus estilhaços e os seus tiros, nos confinava à estreiteza da angústia e nos tornava em tristes bichos rancorosos, violando mulheres contra o frio branco e luzidio dos azulejos, ou nos fazia masturbar à noite, na cama, à espera do ataque, pesados de resignação e de uísque, encolhidos nos lençóis, à laia de fetos espavoridos, a escutar os dedos gasosos do vento nos eucaliptos, idênticos a falanges muito leves roçando por um piano de folhas emudecidas.

Nessa dura travessia da guerra, a comunicação torna-se cada vez mais escassa, mais frágil. Os laços fraternais desaparecem, cada um pensa somente em si mesmo, isola-se na sua amargura, no seu desespero e o silêncio separa os guerreiros, o diálogo desaparece, não há comunicação entre os homens.

(...) Abril de 71, a dez mil quilômetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até hoje nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.

Nem mesmo o ato de amor é capaz de redimi-lo. É necessário desnudar-se mais e mais, porque ele é um indivíduo sem rumo, marcado pelas reminiscências da guerra, pelo mundo agonizante de que fez parte, cujos espectros retornam a todos os momentos e o fazem sofrer e refletir. Não há escape, não há atos heróicos, não há sonhos e dormir se torna um ato quase impossível.

No momento em que os seus joelhos se afastarem docemente, os cotovelos me apertarem as costelas, e o seu púbis ruivo descerrar as pétalas carnudas numa húmida entrega de valvas quentes e macias, penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento num vão de escada para tentar dormir, procurando um aconchego impossível na madeira dura dos degraus, porque o tipo de Mangando e todos os tipos de Mangando e Marimbanguengo e Cessa e Mussuma e Ninda e Chiúme se erguerão no interior de mim nos seus caixões de chumbo, envoltos em ligaduras sangrentas que esvoaçam, exigindo-me, nos resignados lamentos dos mortos, o que por medo lhes não dei: o grito de revolta que esperavam de mim e a insubmissão contra os senhores da guerra de Lisboa, os que nos quartel do Carmo se cagavam e choravam vergonhosamente, tontos de pânico, no dia da sua miserável derrota, perante o mar em triunfo do povo, que arrastava, no seu impetuoso canto, como o Tejo, as árvores magras do Largo. (...) Não era o rancho que estava em causa, percebe, todos comíamos o mesmo alimento turvo, quase podre, que as crianças da sanzala, munidas de latas ferrugentas, desejavam com grandes órbitas côncavas de fome penduradas suplicantemente do arame, era a guerra, a cabronice da guerra, os calendários imóveis em intermináveis dias, fundos como os tristes e suaves sorrisos das mulheres sozinhas, eram as silhuetas dos camaradas assassinados que rondavam as casernas à noite conversando conosco na pálida voz amarela dos defuntos, fitando-nos com as pupilas magoadas e acusadoras dos esqueléticos cães vadios do quartel. Os soldados acreditavam em mim, viam-me trabalhar na enfermaria os seus corpos esquartejados pelas minas, viam-me à beira dos beliches se tiritavam de paludismo nos lençóis desfeitos, de modo que, sabe como é, me cuidavam um deles, pronto a encabeçar a sua zanga e o seu protesto, assistiram à minha entrada na caserna onde um homem se trancara brandindo uma catana e ameaçando matar toda a gente e a si próprio, e viram-me sair com ele, momentos depois, a soluçar no meu ombro abandonos de bebé disforme, os soldados julgavam-me capaz de os acompanhar e de lutar por eles, de me unir ao seu ingênuo ódio contra os senhores de Lisboa que disparavam sobre nós as balas envenenadas dos seus discursos patrióticos, e assistiram enojados à minha passividade imóvel, aos meus braços pendentes, à minha ausência de combatividade e de coragem, à minha pobre conformação de prisioneiro.

Espere mais um pouco, deixe-me abraçá-la devagar, sentir o latir de suas veias no meu ventre, o crescer de onda do desejo que se nos espalha pela pele e canta (...)

A noite está se findando e o narrador não conseguiu a paz que tanto almejava. Sua busca é contínua e clara, mas ele continua insatisfeito e não satisfez sua companheira. A esperança de um retorno, de uma continuidade no relacionamento fracassa, tanto quanto fracassou com sua esposa, com a guerra, com a profissão. Enfim, o homem não obtém êxito em suas buscas mais simples, não se realiza nem no sexo, no prazer mais primário do homem. Tampouco é incapaz de realizar a mulher que o acompanhou e que o esquecerá com a mesma facilidade com que se esquecem dos encontros casuais. A solidão volta a dominá-lo. Não há esperança. Só existe uma certeza: da reconstituição do inferno resta a imagem sem unidade, incapaz de unir passado e presente.

Gostou? Assim, assim? Desculpe, não estou em forma hoje, sinto-me azelha, alheado, não domino o meu corpo, o uísque inquina-me o hálito de um relento de urina, a dolorosa consciência das minhas insuficiências preocupa-me. Durante muitos anos pensei em inscrever-me num desses cursos de que nos enviam os prospectos desdobráveis pelo correio, e que em quinze dias nos transformam em Hércules eficazes, bem penteados, bem barbeados, nodosos de músculos, cercados por uma nuvem admirativa de raparigas maravilhadas:

EM SUA CASA, SEM APARELHOS, COM DEZ MINUTOS DE EXERCÍCIO APENAS, TORNE-SE UM HOMEM. (...).

Consinta-me que tente outra vez, dê outra oportunidade à minha aflição sem esperança, porque desisti de a seduzir, de a fazer render-se às minhas proezas ou ao meu encanto, de a conceber a procurar o meu nome na lista dos telefones, para me pedir, no sábado, para jantar consigo, e ficar fitando-me, esquecida do rosbife e do tempo, num maravilhamento de descoberta.

A trajetória desse herói problemático de Os Cus de Judas coincide com os destroços em que mergulhou o país. Os grandes momentos de Portugal tornam-se esquecidos nas lições de História. Protagonista e país se identificam no fracasso, pessoal para aquele que viveu a guerra e recolheu os farrapos, e histórico para aquele que não obteve êxito em sua investida política além-mar. Como sempre, o fracasso é propulsor de crises e inadaptações.

Em entrevista concedida ao autor de A Voz Itinerante2, Lobo Antunes afirma:

Essa visão heróica dos portugueses eu nunca tive. Em minha família, os portugueses não foram apresentados como pessoas que desbravaram o mundo. Sempre via meu pai lendo as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, do Antero. Aquela que me foi apresentada desde a infância foi muito mais a decadência do que a grandeza. Os livros de história sempre me fizeram muita confusão com o gesto heróico dos portugueses. (...) Quanto ao uísque, é uma tragédia, porque até nem gosto de uísque. Mas isso de concreto tinha a ver com aquela personagem que fala no livro, que é um homem detestável, sob certos aspectos. O tipo usa de uma série de estratagemas para seduzir a mulher: a guerra, a vida e depois é uma catástrofe na cama...

(2)        Álvaro Cardoso Gomes, A Voz Itinerante, São Paulo, Edusp, 1993.