ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

As Duas Cruzes do Império – Memórias da Inquisição

SERMÃO DO PADRE ANTÓNIO VIEIRA

NA CIDADE DE ANGRA

Qui habet aures audiendi, audiat.

Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

Este aviso é de Cristo Senhor nosso. Mas por que o terá feito o Divino Mestre, que nunca disse uma palavra em vão? Não será que os ouvidos não servem senão para ouvir, e é inútil apelar ao que servem se a outra cousa não servem? Cristo sabia a quem falava, e conhecia os ouvidos de cada um dos Seus ouvintes. E, assim como há olhos que, olhando, não vêem, há ouvidos que, ouvindo, não escutam. (Quia videntes non vident, et audientes non audiente neque intellegunt.) Mas como pode acontecer que, tendo os ouvidos no ouvir a sua função, e havendo quem lhes fale, não ouçam? Ou porque os homens, ouvindo, não queiram ouvir (audientes non audiunt) ou porque não entendem (neque intellegunt). E são estas as piores formas de não ouvir, sendo a segunda sem malícia, por ignorância, e a primeira semelhante à maldade do Demónio, por não atender à verdade.

Se aqui vindes para ouvir sem escutar, melhor fora que não viésseis nem vos falasse eu. Porque nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus. (Non in solo pane vivit homo, sed omni verbo quod procedit de ore Dei.) E a boca de Deus (oh! cristãos, indigníssimo sou eu de falar por ela), não vos é dada outra, agora, senão a minha. Mas, se não há quem fale, não há quem ouça; se não há quem ouça, não há quem escute; se não há quem escute, não há quem aprenda; e, se não há quem aprenda, não haverá quem saiba.

Vários são os passos da Sagrada Escritura em que se lê que a boca tem poder de vida e poder de morte. Ah, que maravilhoso e terrível poder! Pela boca se alimenta o como, mas, desatenta do que come, o matará se engolir peçonha. Assim são as palavras, que podem servir à salvação de muitas almas ou trabalhar na perdição de tantas outras. Com a falsidade das suas bocas perversas, quiseram os velhos luxuriosos perder a fiel Susana; mas com a mentira delas se condenaram ambos, porque um disse que a vira debaixo de um lentisco e, o outro, de um carvalho. De maneira que se salvou o lírio de ser arrancado ao jardim da sua vida, e foram arrancados ao paul, de que era a deles, os dois perversos.

Temos, pois, que servindo a boca a variadas funções, as principais são servir o corpo, alimentando-o, e servir o pensamento, falando. E tomará o gosto do que come, para que o comer mais apeteça, e o gosto do que diz, para que possa convencer quem ouve. Porque, se o que fazemos sem gosto de o fazer não pode ser exemplo de que outros por gosto o façam, falar sem gosto, ou sem acreditar no que se diz, não convence. E quantos de nós não estaríamos mortos já, ou decerto todos, se a boca não nos valesse quando o nariz, que tem de sua natureza própria respirar, não o consegue! Mas nem só a isto ele serve, porque os cheiros bons ou maus no-los dá a perceber, e até o paladar se perde quando ao cheiro ele não serve. Deus, na Sua infinita sabedoria e pela Sua omnipotência, permitiu a cada um destes órgãos distintas funções, para não nos fazer disformes de cara ou monstros de várias cabeças. E até os olhos, que parecem servir só para ver e não mais que isso, são necessários ao sono, fechados quando dormimos, e inúteis, como se estivessem fechados, quando caminhamos na escuridão. Só os ouvidos não servem para mais que uma função, e nunca se fecham nem recusam a vigiar por nós, quando os outros sentidos temos desapercebidos no esquecimento do sono ou na escuridão da noite. De que serve à sentinela ter olhos, quando não vê? Um cego pode estar de vigia em noite negra, e nisso ele até melhor que nós, porque o habituou a necessidade a ver sem olhos. E, se os olhos precisam de claridade e de estar voltados para o que vêem para poderem ver, aos ouvidos não faz falta a luz, e mais ouvem sem ela que com ela, tudo ouvindo sem importar de onde vêm os sons que ouvem.

Pode a boca recusar-se a comer ou a falar, e cabe-lhe escolher, pelo saber e o sabor, o que mais convém à saúde do corpo; e, pela boa razão, dizer só o que mais convém que seja dito. E, se os cheiros nos previnem onde há a podridão ou nos atraem ao perfume, é fácil fugir de uma ou demorar na deleitação do outro, como é fácil também que os olhos se desviem do que não queremos ver. Só aos ouvidos, feitos para sempre ouvir, não há como fugir-lhes a que cumpram tal função. De maneira que, como diz o livro do Eclesiástico, devemos cercar os ouvidos com espinhos. (Sepi aures tuas spinis.) Com espinhos, meus irmãos! Olhai que antes será melhor sofrê-los que atender ao que nos pode perder a alma. Esta a grande lição que daqui havemos de tomar: que se é difícil fugir a que se ouça, grave é a responsabilidade, entre tantos sons e arrazoados, tantas confusas ideias e palavras sábias, tanto soar de ocos címbalos ou mui iluminados pensamentos, de escolher o que mais importa à salvação das nossas almas. Foi isso ao que viestes, e é isso que sempre haveis de buscar mais que tudo em vossas vidas.

Contudo aos ouvidos que não ouvem é inútil falar, ainda que o mesmo Deus o faça. Não se deitam pérolas a porcos, que preferem a lama que os refresca a um tesouro de que não podem tirar proveito. E não importa serem sábios os ouvintes porque, muitas vezes, os ignorantes são mais sábios a ouvir. E nesse mesmo livro de sagrada sabedoria se diz que é melhor um homem com pouca sabedoria e fraco senso que teme o Altíssimo, que outro de abundante senso que não cumpre a Sua lei. (Melior est homo qui minuitur sapientia et deficiens sensu in timore, quam qui abundans sensu, et transgreditur legem Altissimi.) Vede como deu Cristo graças ao Pai por revelar as verdades da salvação aos ignorantes, escondendo-as a sábios e poderosos. E, se aqui nos parece Deus injusto, é porque não O entendemos e, se O não entendemos, é porque O não sabemos escutar. Pois estes são os falsos sábios, que cuidam que o seu saber lhes basta e a nenhum outro dão ouvidos ; e os poderosos são aqueles que cuidam que o poder lhes dá razão, e a outras razões não atendem senão às suas. Sábio era Nicodemos, mas quis ouvir as razões de Cristo, e convenceu- o a verdade; poderoso era o centurião, mas humilhou-se perante o poder de Cristo, e Este lhe curou o servo e exaltou tão admirável fé. E, das almas mortas pelo pecado, só às que se fazem pequenas pode Cristo erguer da morte e ressuscitá-las para a vida eterna, como ordenando a cada uma delas: Talitha kum. (Menina, levanta-te!) Qual dos dois saiu justificado do templo? O fariseu que se proclamava cumpridor da Lei, ou o publicano que se confessava pecador? De nada valeu a um ter proclamado o que não era, e muito foi para o outro ter confessado o que julgava ser.

Mas que é a verdade? Quid est veritas? A esta pergunta de Pilatos calou Cristo, como se não soubesse responder. Se Deus tudo sabe, por forte razão terá calado. E a razão não foi outra senão conhecer os ouvidos que O ouviam, sabendo que nenhuns deles estavam dispostos a aceitar como verdade o que Ele dissesse que era a verdade. Omni qui est ex veritate, audit vocem meam. Quem é da verdade ouve a Minha voz, foi a resposta de Cristo a Pilatos, que não era homem da verdade nem nenhuns outros que com ele estavam. E assim perderam muitos, que Lhe ouviam as palavras mas ouvindo só o que queriam e como queriam, uma oportuna ocasião de se converterem à Verdade que lhes era ali proposta.

Sendo que Deus cala por inútil falar ao auditório (ou porque não mereça, ou não entenda, ou não queira escutar), é semelhante a nós no ouvir, porque os Seus ouvidos, infinitamente mais que os nossos, não se fecham nunca. De maneira que não pode escusar-Se Deus a saber que palavras saem da nossa boca, porque, assim como não cai uma pena a uma ave nem um cabelo às nossas cabeças sem que Ele o perceba, assim a nenhuma palavra pode fugir Deus de a entender. E, o estar em toda a parte, e conhecer todas as cousas e acções e pensamentos e intenções de cada homem, torna Deus testemunha de todos os instantes da nossa vida. Et in omnibus his insensatuns est cor, et omne cor intelligitur ab illo. Pois, cristãos, ainda que seja o coração humano insensato, Deus vê tudo nos nossos corações. Oh! se pensáramos nisto, se tivéssemos a mesma vergonha ou temor de ser vistos por Deus ou por Ele ouvidos como temos de ser por outros homens, quão santa seria a nossa vida, quantos males se evitariam neste mundo, e quantas almas, que se perdem, haveriam de ser salvas! Deus, porém, não nos quer justos pelo temor mas pelas boas intenções, porque se nenhuma acção é má se não é feita com maldade, nenhuma será boa se só por medo evitamos ser maldosos.

Por que não fala Deus no nosso tempo como falou a patriarcas e profetas e muitos santos do povo eleito, no Velho Testamento? Por que só vos envia homens como eu, que sou pecador como vós, que não sou mais que vós e que mais não sei de Deus? Como podereis acreditar que as minhas palavras são as que Cristo haveria de dizer e não outras? Não será porém, cristãos, que o falar de Deus aos homens é o mesmo ainda, como foi no tempo de Abraão, de Moisés, de Elias e de todos os santos varões e santas mulheres que viveram antes da vinda de Cristo? Não será que, sendo Deus o mesmo, o modo de Ele falar aos homens não poderá ter-se mudado nunca? Não será que, se houve mudança (e que desgraçada mudança!), essa foi nossa, que deixámos fechar-se o coração e não somos capazes de escutar Deus? Talvez cuideis que seríeis santos se vísseis o mesmo Cristo, quando, em vez de um Cristo somente, tendes em cada homem, nosso irmão, a presença de outro Cristo. Tratai com todos eles acreditando que o são ( e é isso que são e não menos ) e vivereis como viveríeis acompanhando a Jesus na Galileia ou na Judeia. E sereis santos. Mas vós, que vos conheceis a vós mesmos melhor que aqueles que não vêem mais que as vossas acções e não ouvem mais que as vossas palavras, sabeis que os vossos pecados vos impedem de ser uma sombra da imitação de Cristo, quanto mais um Cristo verdadeiro! Porém Deus não manda que cada um de nós se julgue Cristo, senão que trate com cada um dos outros como se na verdade o fosse. Deus criou o Céu e a Terra para todos os homens. E se há Inferno para os que não merecem o Céu depois da vida na Terra, também aqui pode haver já Céu e já Inferno. E sabeis quem mais faz com que o Inferno seja Inferno e mais almas leva a ele? Não é outro senão o Demónio. Se viveis com todos os homens como se cada um deles fosse Cristo, antecipais o Céu na Terra; mas se, para os vossos irmãos, tornais a Terra um Inferno, fazeis o trabalho do Demónio. Sofremos muitas tentações, e em muitas delas caímos. Olhai que paciente é Deus para connosco, que uma só vez pecou Lúcifer no orgulho de não querer obedecer-Lhe, e foi condenado eternamente. E o Senhor permite-nos pecar muito, sem perdermos a esperança da salvação. Vigilate et orate,ut non intretis in tentationem. Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. Fecharam-se os olhos aos apóstolos pelo sono, não se fechem os vossos ouvidos às palavras de Cristo. Vigiemos, cristãos, que ninguém pode pôr outro de vigia à sua alma enquanto esta dorme, que é o mesmo que dizer enquanto não cuida do bem dela. Podem dormir todos os marinheiros e o capitão do navio, só não há descanso para quem vigia o mar ou vai ao leme. E se a vida é como o mar, e a nossa alma o navio que navega nele, e queremos que chegue a porto seguro, que é o Céu, temos de ser o capitão e o piloto e o vigia e o timoneiro e o grumete. Porque, se não formos cada um tudo isso para a nossa alma, qualquer rochedo, ou baixio, ou vaga de través poderá perder-nos para sempre.

 

A que trabalhos se dão os homens pela fortuna do corpo! Se uma pequena parte desse cuidado, se uns momentos só desse penar, se a intenção ao menos do que põem no sofrer pelas riquezas do Mundo fosse posta na salvação da alma, não lhes fariam falta nem pregadores, nem outras penitências, nem nenhum arrependimento. Olhai no meio de que dor saem os navegantes que em longes terras, entre desconhecidas e temidas gentes, acumulam tesouros neste mundo. Ouvi como nos previne Cristo: Nolite tesaurisare vobis tesauros in terra. Mas que ouvireis e vereis aqui? Quantos choros, quantas lágrimas, quantos gritos, quantos desesperos, quantas incertezas de ver regressar quem parte! Quanto disso tudo e mais o medo de não voltar a ver quem fica, que os perigos do mar (que duas vezes experimentei mais duramente) são tão feios e medonhos e tormentosos que outros não haverá de causas naturais que os superem. E tal desconcerto por riquezas que ninguém está seguro de alcançar, nem estarão elas seguras nunca depois de alcançadas. Podem durar uns poucos dias, podem durar muitos anos, mas, por mais que durem, sempre será pouco o tempo que durarem.

Estote ergo vos perfectis, sicut et pater vester caelestis perfectis est.

Cuidava eu que me bastava a oração e a penitência, a pobreza de nada ter de meu e a obediência que devo a quem devo, que não me pedia Cristo mais que servir os homens e pregar-lhes a verdade, que tinha por certa a virtude só com evitar o pecado. E que ouço da boca do Divino Mestre? Que só serei perfeito quando for igual ao Pai celeste! Que impossível para um homem que, só por ser homem, é imperfeito já! Não sabemos que ninguém é perfeito senão Deus? E como me pede Cristo a mim que o seja? Mas não o pede, só previne; não o exige, só o aconselha; não me põe por condição ser igual a Ele, só avisa que, como eu nunca serei perfeito como o Pai, não poderei descansar nas virtudes da minha alma, por maiores e mais provadas e mais constantes que sejam. Isto me quereis dizer, Senhor, e isto terei eu de fazer, sabendo que à perfeição não se chega nunca. Isto tornou santos os santos, isto fez de homens como eu a Vossa imitação na Terra. Nenhum deles foi perfeito, e ninguém jamais será. Diz Santo Agostinho que o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Deus. Com que admirável verdade nos inquieta o bispo de Hipona! Bem sabia ele, por tanto ter experimentado o pecado e a virtude, a diferença que há entre um e outra, e que nem naquele nem por esta pode ser feliz o homem. A inquietação do pecador nasce do medo da perdição eterna, a inquietação do santo nasce da vontade de ver a Deus; a inquietação do pecador é fruto das suas culpas, a inquietação do santo é fruto das suas virtudes; a inquietação do pecador resulta de não querer desapegar-se dos bens terrenos, a inquietação do santo resulta da ânsia de se libertar dos males deste mundo. Oh! quão longe desta virtude ando eu, que estando em perigo de morte no alto mar, e cuidando-me perto de me encontrar com o Pai que está no Céu, tomou-me um tal temor que parecia esperar-me a mais terrível das condenações e não um tão doce encontro. Vim mandado até vós, meus irmãos, um pouco como Jonas a Nínive. Nunca recusei pregar a palavra do Senhor, e assim se poderia dizer que sou melhor que Jonas. Mas, quando o mar embraveceu, o profeta rebelde quis ser lançado a ele para salvar os que estavam no barco; e eu, pobre pecador, dei à minha vida um valor tamanho qual se outras não houvesse ali senão a minha e não tivessem todas de salvar-se para me eu salvar também. Nem eu sou Jonas, nem vós sois ninivitas. E bem podeis dizer-me que, quem tão pouco está seguro de merecer a divina protecção, não merece ser acreditado no que prega. Que se abram, pois, vossos ouvidos, para que o entendimento da verdade seja coisa mais deles que da boca que a diz, pois esta indigna é, e temerosa, e como que muda, se comparada à perfeição a que Deus nos aconselha.

Nós já conhecemos Cristo e O confessamos por Senhor; nada de novo nos podes dizer, ó padre! Tereis razão, talvez. Mas como O conheceis e como O confessais? Pelo que sabeis dele ou pelas obras que praticais? Ou não é verdade que podeis estar dispostos até a dar a vida por Cristo, e não cumprir a Sua vontade? Ninguém conheceu Cristo melhor que os Seus apóstolos. E quais deles O defenderam no julgamento de Caifás, de Herodes e de Pilatos? Onde estavam Bartolomeu e André e Filipe e outros seis dos que Ele mais amava ? Escondidos com medo dos Judeus. E quem O acompanhou? João, porque era amigo do Sumo Sacerdote, e Pedro, levado por João, mas que O negou três vezes. E nem do mesmo João se ouviu uma palavra a testemunhar em seu favor! Como estaria angustiada a Sua alma, sem amigos, sem justiça, sem piedade à sua volta! Mas houve alguém que o defendeu, e sabeis quem? Aquele que o traiu e aquele que O condenou à morte!

Enlouqueceste, padre! Se nenhum de vós o diz, ao menos alguns certamente o terão pensado. Mas eu vos provarei que a pressa do vosso juízo vos engana. Pois enquanto nove apóstolos se escondiam longe do seu Mestre, um O seguia porque era conhecido do Sumo Sacerdote, mas em silêncio, e o outro que também O seguia negava-O três vezes. Dos doze, somente Judas, vendo que condenavam Jesus à morte, procurou os que queriam condená-lo, e se enfureceu contra eles. Não vendera o Mestre para ser morto, e, tendo-lhes lançado o dinheiro da traição, foi enforcar-se. Morreu por amor a Cristo, e de que lhe terá valido isso? Faltou-lhe nada mais que a esperança na misericórdia de Deus para ouvir de Jesus o que haveria de ouvir, pouco depois, o ladrão bom. E o segundo defensor de Cristo não foi outro senão Pilatos. Não quis ele convencer os sacerdotes de que não encontrava em Cristo culpa alguma? Ergo nullam invenio in eo causam. Não quis trocar por Ele um criminoso, dando à escolha o pior que estava preso, a ver se lhes comovia os corações ou lhes quebrava o ânimo sabendo eles quem seria solto? Quantas vezes nos é posto de um lado Cristo e do outro Barrabás! Quantas vezes nos é dado a escolher entre trinta dinheiros e a nossa alma! E nós, loucos, a ir ao pecado em vez da virtude; e nós, néscios, aos bens que passam em vez da segurança eterna!

Mas quando trocámos Cristo por Barrabás? Quando vendemos Cristo por trinta dinheiros? Muitos de vós, ou talvez todos, o estarão pensando e negando ao mesmo tempo. E eu vos respondo que talvez não todos, mas certamente alguns ou muitos de vós o fizestes já, e pior que isso. Pilatos permitiu que matassem Cristo, o que não quisera que fosse feito, e Judas entregou-O por tão vil preço, mas sem cuidar que O matavam. Nenhum deles, porém, calou as palavras do Mestre, que haviam sido ditas para permanecerem eternamente. Nenhum dos dois anulou uma só das acções com as quais Jesus provou que era Filho de Deus. Nenhum pôde calar a verdade, nem destruir a vida, nem mudar o caminho que, ouvida de Cristo, e sendo Cristo, e indo por Cristo, conduzem à eternidade. Ego sum via, veritas et vita. E que fazeis vós, quando fechais o coração à verdade, quando recusais a vida, quando fugis de andar pelo caminho da salvação? Fazeis mais que vender Cristo e mais até que matá-Lo. O que fazeis, cristãos, ( e aqui vacilo em vos chamar cristãos) é tornar tão inútil a vida de Cristo como se Ele não tivesse vivido nunca. E é infinitamente pior não existir que viver não muito mais que trinta anos e morrer de morte tão injusta e terrível. Pois que, se os algozes que O mataram não puderam evitar a Sua ressurreição, vós o fazeis por não permitir que Cristo viva em vós.

Os atenienses, a quem S. Paulo chamou os mais religiosos dos homens (e isto ainda que adorassem muitos falsos deuses a quem devotamente prestavam culto), tinham num altar vazio uma inscrição somente: Agnosto Teo, o que na língua dos Gregos é o mesmo que dizer na nossa: Deus desconhecido. Davam, assim, por imperfeita ou incompleta a sua fé, e Deus lhes enviou Paulo paro os instruir em Cristo. Eles não sabiam nem o nome, nem o poder, nem a bondade do único Deus verdadeiro, do único Senhor e Criador do Universo, mas bem se dirá se se disser que, no fundo dos seus corações, O adoravam já. E quantos cristãos há que do seu Deus sabem pouco mais que o nome, não lhes importando conhecê-Lo e amá-Lo e adorá-Lo e obedecer-Lhe como convém à salvação das almas e à harmonia do Mundo! Que não seja este o vosso caso, nem que, sabendo que há um só Deus e Cristo é o Seu Verbo feito homem, nada mais vos sirva de sinal como cristãos. Sereis, se assim fordes, muito menos merecedores da salvação que os atenienses. Santo Agostinho nos diz que podemos amar a Deus e fazer o que quisermos. De sorte que parece que temos aqui um santo, e um sábio, a dizer-nos o que basta para agradar a Deus, e servir o Diabo quando for caso que nos convenha. Pois se é possível amar Deus e fazer tudo o que se quer, não mais havemos de vigiar os maus instintos e os ruins impulsos. Mas quem há que, amando veramente alguém, lhe seja adverso? Debalde o procurais se o tentardes. Quem ama não ofende, e quem não ofende não peca. Assim que amar a Deus nos afasta do pecado, pois ninguém que O ame O ofende, na Sua Divina Pessoa ou na humana dos homens nossos irmãos. E aquilo que disse Francisca de Rimini (que o seu amor a tinha posto no Inferno) é impossível repetir se o amor é entre nós e Deus, pois pelo amor a Deus ninguém se perde. Não podem perder-se os que O amam, nem podem perder-se outros por causa desse amor.

Seja que confessais a Cristo por Senhor. E, no mais, que terá a vossa vida de cristã? Se vos é pedido amor, e só vos defendeis com a fé; se vos são pedidas obras, e só respondeis com palavras; se vos é pedida a perfeição, e só vos desculpais com serdes homens. Deus julgará os gentios como gentios, e os cristãos como cristãos. E a todos julgará como justos ou pecadores. Não vos adianteis a ocupar os primeiros lugares, porque o Senhor do banquete pode fechar-vos a porta que não soubestes merecer que se vos abrisse. Porventura não devemos confiar na misericórdia de Deus? Perguntais bem, mas eu vos desengano. E, ainda que vindo a vós um pouco como Jonas a Nínive, não vos anuncio um castigo do Senhor. Sois vós mesmos que vos castigais, se caminhais para a perdição eterna. E tão alegremente o fazeis, tão nesciamente e consentis, que nem vos dais conta do perigo em que estais. Mais vos valera então gozar a vida como vos aprouvesse, porque, perdidos que estais (e falo àqueles que o estão por não quererem emendar-se) de nada vos servem os poucos gozos a que vos não dais e as penitências que fazeis, para simular que sois cristãos. Fora eu como vós (que sou pecador, mas Deus sabe quanto não quisera ser!) e não me preocuparia com rezas e devoções, com jejuns e abstinências nos dias de preceito. Nem viria ouvir um pregador a que não daria ouvidos. Só temos esta vida, que é fugaz, para ganhar a outra, que é eterna. Se duas vidas temos ( a primeira, que tão depressa se acaba, e a outra, que é sem fim), ao menos uma haveria eu de gozar como melhor quisesse. Eu vos desengano, pois. Não confieis demasiado na misericórdia de Deus. Cuidais que sou herege, porque o digo? Cuidais que enlouqueci, porque o afirmo? Cuidais que sou ignorante das Escrituras porque estou seguro de que vos enganais com essa confiança? Ouvi o que está escrito no livro do Eclesiástico, e julgai-me depois. Et ne dicas: Miseratio Domini magna est, multitudinis peccatorum meorum miserebitur. Não digas: A misericórdia do Senhor é grande, Ele terá compaixão da multidão dos meus pecados. Espanta-vos e assusta-vos que assim seja? Se não o sabíeis, deveríeis ao menos tê-lo imaginado. Estais prevenidos pela Sagrada Escritura: Initium sapientiae, timor Domine. E se o temor de Deus é o princípio da mais alta sabedoria, da única e verdadeira e notável entre todas, ouvi ainda outro conselho do filho de Sirac, também ele com o nome santo de Jesus: Ante obitum tuum operare justitiam, quoniam non est apud inferos invenire cibum. É isto, meus irmãos, ou é esta a hora em que deveis praticar a justiça. Não a deixeis para depois da vossa morte, porque à sepultura não chega alimento a vossas almas. Ainda não confiais no que vos digo? Ainda vos não fiais de mim? Ainda cuidais que vos espanto e assusto com o Inferno para vos fazer temerosos, como muitos pregadores gostam de fazer que o auditório seja, e é bom que o façam? Eu, porém, não vos quero temerosos, senão confiantes; não desesperados da eternidade, senão cheios de esperança nela; não desiludidos da vida, senão aborrecidos do pecado.

 

Que justiça haveis de praticar antes da morte? Não sabeis que justiça é essa e o que é ela? Eu vos ensino em um momento. Vedes aquele homem ou mulher que vive junto a vós? Vedes todos os homens, e mulheres, e crianças, e velhos, e enfermos que conheceis? Cuidai que cada um deles sois vós mesmos e tratai com eles como haveríeis de querer que eles, sendo vós e vós sendo eles, tratassem convosco. Omnia ergo quaecumque vultus ut faciant vobis homines, et vos facite illis. Esta é a justiça. Esta é a única via para que Deus possa ser misericordioso convosco e perdoar a multidão dos vossos pecados. E que morte é essa antes da qual havereis de praticar a justiça? Antes da morte do corpo, certamente. Mas eu vos admoesto mui seriamente que estejais alerta: fazei-o antes de outra morte mil vezes mil pior que ela. Muitos deixam para os dias em que estão desenganados da vida, e sabem já que vão morrer, todas as boas obras que deveriam ter feito em outro tempo. E dispõem em testamento tantos mil réis aos pobres, tantos cruzados a uma igreja, tantos moios de terra a um convento, tanto de esmolas para muitas missas por sua alma. Eu vos digo, porém: é tarde já. Se assim fazeis, ou se assim pensais fazer, tereis gozado a vida com tudo o que pudestes, e depois, quando nada vos fizer falta, o dareis para perdão do que pecastes. Sede vós os juizes, e julgai se isto é justiça ou se o camelo pode passar pelo buraco da agulha. Que disse o anjo S. Rafael a Tobias? Bona est oratio cum jejunio. Que é boa a oração com o jejum; e melhor é a esmola que os tesouros que se acumulam. Et eleemosina magis quam tesaurari auri recondere. Sendo Rafael um dos sete anjos que apresentam a Deus as orações dos crentes, sabia do que falava. E mais disse ainda acerca desse assunto: quoniam eleemosina a morte liberat, et ipsa, quae purgat peccata, et facit inam. Que a esmola limpa todos os pecados e livra da morte aquele que a pratica. Estas coisas se hão-de fazer em vida, e quando se a crê ainda longa e a morte longe, e não quando a velhice já anuncia o fim que, sendo sempre incerto quanto ao tempo em que há-de vir, é certo que na velhice em breve chegará. E jovem era Tobias a quem o anjo louvou o espírito de oração e caridade. Mas se ninguém pode livrar-se da morte, de que morte falava Rafael? Não de outra senão a da alma. Temos pois, cristãos, que a morte antes da qual haveis de praticar a justiça é a morte da alma. Mas acaso a alma morre? Para muitos melhor fora que morresse de morte verdadeira, ou que fossem seus corpos desalmados. Morre a alma quando os homens se acostumam tanto ao pecado que não querem ou não podem deixar de pecar. Morre a alma quando os homens pensam: gozarei a vida e deixarei para os últimos dos meus dias arrepender-me e fazer penitência. Essa alma, nem o mesmo cristo, que ressuscitou Lázaro depois de sepultado durante quatro dias, poderá torná-la à vida. Lázaro, por estar morto, não podia opor-se à vontade de Deus, em caso de não querer ser ressuscitado, mas uma alma morta, num corpo vivo, ainda pensa, ainda tem vontade, e a sua vontade é não cumprir a vontade de Deus.

Fiat voluntas tua. Vós orais assim? Melhor vos fora dizer como Acaz: Non petam et non tentabo Dominum. Não pedirei, e não tentarei o Senhor. Pois se o fazeis, e não cumpris a vontade do Senhor, pecais gravemente cada vez que rezais o Pater Noster. Pecar rezando? E de que maneira! Não será escarnecer de Deus pedir-lhe que se faça o que Ele quer, e fazer sempre o que se quer? E se isso que quereis fazer e o fazeis é contrário à vontade do Senhor, não O tornais motivo de mofa em vossos lábios, por O invocardes como testemunha falsa que finja não saber quando pecais? Não haverá modo, pois, de alcançar a misericórdia de Deus? Os que têm a alma no estado de morte que venho dizendo desenganem-se, porque o não há. E se em algum de vós existe ódio no seu coração e se está disposto a sair daqui zeloso no seu ódio, o melhor que faz é que saia já. De nada lhe serve ouvir a palavra de Deus que, se é um remédio para os pecadores arrependidos e uma consolação para os justos, é como o mais terrível dos venenos para os que teimam em persistir no seu pecado. Se ainda vos rege a antiga lei de que por olho é olho e por dente é dente, sois gentios e não cristãos. Atendei a isto muito seriamente: ou estais dispostos a perdoar e ser perdoados, ou vos arriscais à perdição eterna. E tornar-vos-eis ainda (o que é muito menos mas não é pouco) motivo de escárnio para os que conhecem o vosso ódio e sabem que ele não muda, porque, se não estais dispostos a mudar, sois falsos e mentirosos publicamente, fingindo devoção quando pertenceis à pior espécie de gente que há na Terra. Que cuidais que possa prometer-vos como justiça para esse ódio que não muda? Nada menos que a perdição eterna, como disse que era o risco em que vos encontrais.

Assim chegamos a um ponto em que estarei a parecer-me aos pregadores que gostam de tornar temeroso o auditório. E não terei palavras de esperança? Tenho-as, cristãos, mas por bom preço as vendo. Se quereis comprar bem, tereis que pagar bem; se quereis trocar por bom, tereis de dar em troca o que tiverdes de melhor. Esta é a lei com que comprais na Terra, não a cuideis mais branda para comprar no Céu, que é onde a maior e mais segura compra poderá ser feita. Dai-me a vossa alma arrependida, dai-me a vossa vida mudada toda, e eu vos dou em troca o Céu. Diz o Eclesiástico que quem compra coisas por baixo preço acaba por pagá-las com sete vezes o seu valor. Est qui multa redimat modico pretio, et restituens et in septuplum. Eu vos digo que neste negócio dais muito pouco, ainda que eu vos tenha pedido muito. Pois vos pedi que mudeis de vida, o que pode ser penoso e mui difícil; mas o que adquiris em troca não vale sete vezes o que haveis de dar, vale infinitamente mais, porque estareis a dar um tempo, que é tão breve, em troca de outro tempo (que não é tempo porque é eternidade) que durará para sempre. Qual de vós não trocaria um fruto por árvore que muitos como ele produzisse em cada ano e por toda a sua vida? Bom negócio seria esse, mas em nada comparável àquele que vos proponho. Pois será vosso o Céu não pelo preço da vossa vida, mas pelo preço de mudar de vida; não pelo preço do que possuís, mas pelo preço do que vos não faz falta; não pelo preço do que sois, mas pelo preço do que não deveríeis ser. Com tal negócio garantido, tendo-o em conta Midas é mendigo; Salomão é Lázaro; a mais fina seda é parra; a mais bela púrpura é cinza. Mas por que não havemos de confiar demasiado na misericórdia de Deus? Porque, se imploramos a misericórdia do Senhor, pode bem ser que O queiramos tornar injusto. Implorai a misericórdia do Senhor e confiai nela, quando os vossos pecados forem coisa só havida entre vós e Ele. Olhai que tormentos passou Cristo: que pavor o seu até de suar sangue; que solidão entre as injustíssimas justiças deste mundo ( de Anás para Caifás, de Caifás para Pilatos, de Pilatos para Herodes, de Herodes para Pilatos outra vez); que opróbrio ser trocado por um criminoso, que martírio o dos flagelos; que atrocidade a da coroa de espinhos; que escárnio o do manto que Lhe puseram em cima e a cana nas mãos como se não fosse rei e muito mais que isso; que penoso caminhar com a cruz, que nem pôde chegar com ela ao Calvário sem ajuda; que padecimento o dos cravos nas mãos e nos pés; que agonia medonha até à morte! Tudo isso Lhe foi feito, e como acabou Cristo? Pedindo ao Pai que perdoasse aos que tamanho mal Lhe haviam feito. Blasfemastes, vacilastes na vossa fé, revoltou-se contra Deus o vosso coração? Invejastes o alheio, encheu-vos a soberba pelo orgulho do que sois? Cedestes à gula sem que por isso outros passassem fome, ou venceu-vos a luxúria ainda que tenhais voto de castidade? Se estais arrependidos e com nenhum destes pecados provocastes escândalo público, confiai na misericórdia do Senhor. Mas se sois ladrões de bens ou de honra alheia? Se pedirdes a misericórdia de Deus para convosco, estareis a querer que Ele seja injusto para com aqueles que roubastes. Restituí primeiro a riqueza que não vos pertence, devolvei a honra difamada, e só então podereis confiar na misericórdia de Deus e, pedindo-a, ser ouvidos. E como pode um assassino esperar de Deus misericórdia? Se Deus lhe é misericordioso, não estará a ser injusto com o assassinado? Ah! e os juízes deste mundo! Quantas vezes julgam com tal rigor que mandam à forca quem não merecera mais que uns açoites, ou talvez nem isso! São mil vezes piores que o criminoso a quem a ira cegou por uns instantes! Não será pedir que Deus seja injusto ao esperar dele misericórdia para os seus crimes? Quantas vezes usam as leis para estar contra a Lei! Quantas vezes se valem do julgamento, para estar contra a Justiça! Quantas vezes se sentam no tribunal para calcar a verdade a seus pés! É com esta rigorosíssima medida que serão julgados! Eadem quippe mensura, qua mensito fueritis, remetietur vobis.

Estava Herodes no número daqueles por quem Jesus implorou: Pater, dimitti illis non enim sciunt quid faciem. Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem. Jesus não disse: perdoa alguns; disse: perdoa-lhes. (Dimitti illis.) A todos, cristãos. Mas lembrai-vos como foi impiedoso a julgar esse mesmo Herodes pelos seus outros crimes. E cuidareis que o maior de todos foi ter morto o Baptista, que era um santo. Pois eu vos digo: quando a ira vos dominar o coração, escolhei um santo para matar. Não seja o caso que, matando um pecador, lhe mates corpo e alma ao mesmo tempo. Pois que se o matas sem que possa arrepender-se e fazer penitência pelos seus pecados, a sua alma cairá no Inferno eternamente. E podes merecer o Céu, quando, por tua causa, haverá uma alma a penar para sempre? Esperar depois disto a misericórdia de Deus não será esperar também que seja injusto? Emendai-vos, corrigi a vossa vida, tornai-vos atentos à palavra do Senhor, para que não sejam tantos os vossos pecados até ao ponto de o mesmo Deus vos fechar o coração ao arrependimento, para não ser com uns injusto por ser convosco misericordioso.

 

Bem posso cuidar que pensais que não há diferença entre nenhuns pregadores, que todos pregam contra vós como se todos fôsseis incrédulos, luxuriosos, ladrões e assassinos. E eu acredito que é melhor pregar um só assunto, pois se muitos levanta o pregador muito se arrisca a confundir o auditório. E, se da variedade das flores fazem as abelhas um mel de uma só cor e um só sabor, e este melhor que outro que assim não fosse feito, à palavra do pregador se pede que seja exacta e metódica e clara; que não a torne confusa, nem dispersa, nem obscura. Mas não vos prego senão o pecado, o qual, sendo uma ofensa a Deus, é múltiplo e variado e distinto, já na forma, já na gravidade, já na intenção de O ofender. E não quero mais que exortar vossos ouvidos, e o entendimento da vossa alma, a estarem atentos à palavra de Deus, que é o único modo de vivermos em rectidão e santidade. E isto, cristãos, é um assunto só e não muitos. Mas soubera eu quem são os luxuriosos, e haveria de chamá-los a eles e pregar sobre a luxúria; e, se conhecesse os ladrões, tendo-os todos juntos lhes pregaria sobre o sétimo mandamento; e, se percebesse quem foram ou virão a ser os assassinos, haveria, a eles com mais ninguém mas com a graça de Deus, de persuadir à mansidão; e, se tivesse a certeza de quais são, de entre vós, os mais descrentes, indo a eles sem estar com outros, lhes diria um sermão sobre a Fé. E os mais, cada um segundo a sua condição e, a cada condição, sua pregação. Porém a muitos haveria de pregar várias vezes, pois os pecadores costumam ser de várias espécies de pecados e não de uma somente. Assim é nossa mesquinha frouxidão: que, caindo em uma falta uma vez, as outras caídas depois dela vão-se tornando mais fáceis de acontecer. E de tal modo que, se lhe custara ao Demónio muito trabalho nosso primeiro pecado, dia virá em que ele já nem trate connosco, porque fazemos o nosso e o trabalho dele. E não prego contra vós, prego em favor daqueles contra quem exerceis vossas culpas. Ainda que só pareça acusar-vos, é a esses que defendo; ainda que só seja desagradável a vossos ouvidos, é para esses que peço a vossa compaixão, que é Justiça; ainda que só vos comparara com o Diabo, seria em Deus que vos quisera confiantes; ainda que só vos assustara com o Inferno, seria o Céu que vos dera por esperança.

Mas o pior pecado do nosso tempo, o mais medonho e injusto e terrível; aquele que mais ofende a Deus e prejudica homens feitos à Sua imagem e semelhança; aquele que mais é contra a mesma natureza humana, não é outro senão o vergonhoso comércio dos escravos; não é outro senão que haja gente tratada como qualquer irracional. Porém nenhum homem é comparável ao boi que tira pela carroça ou pelo arado, nem ao cavalo de montaria, nem a nenhuma besta de carga. E dos escravos se faz tudo isso, e por eles e com eles se conseguem fortunas que afrontam a Deus e à inteligência humana. E bem diria eu se dissesse que este crime é pior que matar por ódio, por vingança ou por ira. Podeis cuidar que me engano, que se for dado a escolher a um desgraçado escravo se quer ser morto ou continuar escravo, sobre escolher a liberdade sem vida, ele há-de preferir a vida sem liberdade. Essa é a matéria do pecado, mas nem sempre a gravidade da acção depende da matéria dele senão da sua qualidade. E, se é grande e abominável crime encurtar os anos da vida de um homem contra a vontade de Deus, maior crime e mais abominável ainda é fazê-lo escravo e como tal o manter. Pois que a morte é o fim natural de todos os homens, enquanto pertence à sua natureza a liberdade. E é uma imagem feita à semelhança de Deus, que assim nos criou Ele, que reduzis a tão miserável servidão. Aos que entram neste iníquo comércio (invenção do Demónio, certamente, porque nem a pior das criaturas sem ser ele seria capaz de o ter imaginado), eu digo em nome de Deus: não tereis a vida eterna. Se vos atreveis a esperar o Céu, e tendes em casa ainda que seja o mais amado dos escravos, sois néscios.

Lá teria este padre de chegar a falar-nos dos escravos, estareis pensando. E eu vos lanço um desafio: suba um qualquer de vós a este púlpito, onde só deve ser pregada a palavra de Deus, que eu trocarei de lugar com ele. Venha um aqui, e cuide que é meu escravo e eu seu senhor, e com toda a liberdade diga o que entender que há-de ser dito. Com que justa dureza de palavras, com que exacta violência de impropérios, haveria esse, que a tal fosse capaz de atrever-se, de condenar-me! Pois nenhum homem é menor aos olhos de Deus, nem menos digno de ser homem que qualquer de vós. Muitos se desculpam que, de outro modo, os infelizes que são feitos escravos em África ou no Brasil não seriam tornados cristãos, e assim salvam suas almas. E eu vos digo que, pela misericórdia de Deus, diferentes caminhos haveria que os levassem até às portas do Céu. Ou cuidais que os homens são mais bondosos, na sua impiedade, que Deus, na Sua infinita misericórdia? Pois que se salvem eles por serem cativos, que bem o merecem. E sabeis o que há-de acontecer? Se cuidais que lhes garantis o Céu, hão-de eles ocupar vossos lugares. Ouvistes o que cantaram, no desespero do cativeiro da Babilónia, os filhos de Sião:

Si oblitus ero tui, Jerusalem,

oblivioni detur dextera mea!

Adhaereat lingua mea fancibus meis

si non meminero tui.

Que a minha dextra seque se me esqueço de ti, Jerusalém; que a língua me fique presa ao paladar, se não me lembrar de ti! E que terrível e justa ira, meus irmãos, com que o salmista termina!

Filia Babilonis vastatrix: beatus qui rependit tibi mala quae

intulisti nobis!

Beatus qui apprehendit et allidit

parvulos tuos ad petram!

Devastadora filha de Babilónia: feliz o que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz o que agarrar e esmagar os teus filhos pequeninos contra uma pedra!

Se o povo santo de Deus se revoltava a tal ponto com os seus opressores, cuidais que esses desgraçados cativos, que só à força muitas vezes e com grande ignorância são tornados cristãos, amam menos a sua pátria e a sua liberdade que aqueles? Não vos desculpa que o rei o consinta ou o mesmo papa o tolere. Pois que chegou a um tão lamentável estado a cristandade que não haveria fortunas, quais as que há em Portugal, se não fossem os escravos; e não seria de metade o número dos cristãos sacramentados se os senhores deles fossem todos excomungados como deveriam ser. Mas nenhum pecado, por mais repetido que seja, pode mudar a lei do Senhor. Dia virá em que este abominável comércio há-de acabar, ainda que tenha Deus de faltar à Sua palavra e mandar outro dilúvio, para que assim seja. Eu vos exorto, cristãos, a apressar o dia da misericórdia do Senhor, dando primeiro o exemplo de libertar vossos irmãos. Assim lhes consentis serem felizes nesta vida, por serem livres, e não sereis vós desgraçados na outra, por cativos do Demónio. Sabeis o que disse o apóstolo Jacob na sua epístola? Ecce merces operariorum qui messuerunt regiones vestras, quae fraudata est a vobis, clamat, et clamor eorum in aures Domini sabaoth intraivit. Defraudastes aqueles que ceifaram vossas searas, e o seu clamor chegou aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Isto diz o apóstolo a que chamamos Sant'Iago, e o diz de homens livres que não são retribuídos como lhes é devido. Isto o diz de ricos que contratam, mas recusam um salário justo, sabendo que quem contratam não tem aonde ir que mais receba. De que serve jejuar a quem não paga como deve? Porventura não será que mais valera ao injusto pagador comer e beber bem todos os dias, ainda que fosse Sexta-Feira da Paixão de Cristo, mas tendo os seus operários o que comer nos dias que não são de jejum nem abstinência, pois estes para eles o são o ano inteiro? Cuidais que não ter precisão de trabalhar é grande honra? Se Deus o deu por sentença aos homens, e se é sentença para cumprir nesta vida, e a não cumpris, quando havereis de a cumprir? Obrigais outros à parte que vos coubera de trabalho, e mais que isso lhes roubais o trabalho e a liberdade. Assim que pecais em dobro: por preguiça, que é pecado capital; e por furto, que é contrário à lei de Deus dada a Moisés. E tereis de multiplicar tantas vezes a segunda parte deste pecar quantos os homens a quem roubais o trabalho e a liberdade. Os que ajudam a manter o comércio dos escravos não o confessam certamente como pecado, assim como se não confessam de possuir casas e palácios e quintas e herdades e outras fazendas, tal se fosse tudo a mesma cousa. Mas se nenhum homem é uma cousa que outro homem deva possuir, ainda que bárbaro e gentio, muito menos o será alguém que já seja baptizado e se tenha feito cristão. Irmãos meus eclesiásticos: gravíssima é a nossa culpa se absolvemos esta espécie tão ruim de pecadores. Bem sabeis que, ao dizer ego te absolvo, não falamos em nosso nome mas no de Deus. Se absolveis nestas condições, ego não será na vossa boca palavra usada como se o mesmo Deus falasse; e te absolvo torna-se responsabilidade vossa. O Senhor não perdoará o pecador que absolvestes e, se ele cuida que está absolvido e perdoado, não está nem perdoado nem absolvido; e permanecem em sua alma seus pecados, com mais esse, muito grave, de uma hipócrita e falsa confissão. As suas culpas cairão sobre vós mesmos, de maneira que, se confessais e absolveis cem pecadores como esse, as culpas dos cem pecadores pesarão como terrível carga em vossas almas. E bem nos bastam as nossas culpas, para que ainda tenhamos de responder pelas alheias sem lhas tirarmos a eles. Nesta matéria, não vos canseis nunca de pregar, de exortar, de admoestar, de insistir sempre oportuna e inoportunamente, e de amaldiçoar até. Não vos deu Deus o dom da palavra? Usai o do exemplo, que é mais forte. E vós todos, meus irmãos, que aqui me ouvis: dais-vos acaso ao gosto de saborear açúcar do Brasil? Tal doçura é um veneno para vossas almas, porque não só quem escraviza peca, e sem perdão de Deus, mas todos aqueles que ajudam a que esse negócio de morte seja proveitoso. Se adoçais a boca com açúcar, não é doce o que tomais, mas é fel, e verdadeiro e humano; e se o tendes posto em alguma bebida, o que bebeis é sangue.

 

Ah! meu Deus e Senhor meu! Abri os ouvidos aos que me ouvem, ou tornai-me mudo para não sofrer a aflição de falar sem ser ouvido, pois eu prego a multidões que não me escutam. Aqui me vedes, vox clamantis in deserto, como se não houvesse nunca auditório, nunca ouvidos, nunca almas, senão deserto e surdos e pedras brutas. João bradava no deserto, e abrandava o coração dos pecadores; João pregava em Vosso nome santo, e muitos ouvidos se lhe abriam; João proclamava que o Vosso reino havia de chegar, e até as pedras convertia em filhos de Abraão. Eu brado a pecadores, eu prego em Vosso nome, eu proclamo que viestes já. E o deserto permanece árido, os surdos não ouvem, as pedras não se comovem. Se é minha a culpa, seja Vossa a redenção, se é minha a indignidade, seja Vosso o mérito; se é minha a ignorância, seja Vossa a razão. Nada peço para mim, senão para os mais desgraçados dos Vossos filhos. E os mais desgraçados de Vossos filhos são antes os que me ouvem e não os que sofrem as suas iniquidades. E bem mais me dói o futuro eterno e tenebroso daqueles, que o presente efémero e desgraçado destes. Mas uns têm culpa e consciência de, por seu alvedrio, serem o que querem ser, e os outros são obrigados à força a serem o que nunca quiseram nem deveriam ser. Que tão grandes pecadores não mereçam a Vossa misericórdia, eu Vos concedo, Senhor; mas, se os não converteis, não livrais de suas cadeias quem eles atormentam; se não lhes moveis o coração para Vós, não dareis sossego a tantas vidas inocentes; se não os fazeis Vossos, os que padecem por sua causa não Vos perceberão nunca como Senhor de misericórdia e de justiça. Quereis tão ruim fama entre os homens, Vós, Senhor meu, que sois justo e santo e misericordioso, e tudo isto em grau sem medida?

Sermões são palavras, que outra cousa não quer dizer sermão senão palavras. E se saís daqui, irmãos, já esquecidos delas, tereis perdido este pouco tempo vosso e talvez a vida toda. Não faz efeito o remédio que o doente, logo que o bebe, o devolve. Quisera eu ter a certeza de ter sido ouvido como se fosse o mesmo Cristo ou um Seu profeta, e vós todos Zaqueus e Madalenas. Ainda que eu seja indigno de ser profeta de Cristo, quanto mais a sua voz entre vós! Mas quem tem bons ouvidos para ouvir entende até o silêncio, que é de Deus mais que todas as palavras que há no Mundo. Pois talvez vos falte, cristãos, ter em silêncio a alma muitas vezes, porque os negócios e tentações deste mundo são o ruído infernal que vos distrai da Palavra de Deus e vos afasta do Verbo, que é Seu Filho feito homem.

In Nomine Domini, dixit.

 

Daniel de Sá, As Duas Cruzes do Império – Memórias da Inquisição, Lisboa, Salamandra, 1999, pp. 103-126.

 

(Apostila 10  de Barroco  - Literatura Portuguesa)