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Jerónimo Baía, ou Vaía (1620/30-1688) nasceu em Coimbra, tendo professado no convento de São Martinho de Tibães (Braga), da Ordem Beneditina, a 4 de Maio de 1643. Frequentou a Universidade de Coimbra, foi nomeado cronista da ordem e mais tarde pregador na corte do rei D. Afonso VI. Com a deposição do rei, terá sido obrigado a regressar ao convento. Celebrizou-se como poeta lírico, e sobretudo burlesco, o que lhe valeu o cognome de «Poeta Folgazão». Além das composições poéticas que vêm publicadas na Fénix Renascida, escreveu as obras Lampadário de Cristal e Tardes de Verão, esta última em prosa e que narra os principais acontecimentos históricos do seu tempo. É considerado um dos autores mais significativos da literatura barroca em Portugal.

 

LAMPADÁRIO DE CRISTAL
(extractos)

Lampadário de Cristal que mandou a Duquesa de Saboia à Real Majestade da Poderosíssima Rainha de Portugal sua irmã. Idílio Panegírico a suas Altezas Reais o Príncipe D. Pedro, e sua Augusta Consorte D. Maria Francisca Isabel de Saboia.

Alpe luzido, luminar nevado,
Pompa da Régia sala,
Tesouro no valor, brinco na gala,
Onde à matéria vasta a subtil arte,
Fazendo ilustre excesso,
O preço abate sublimando o preço:
Confusão, porém clara,
Da luzida no Céu, na terra escura
Ciência, que reparte
Fortuna a Vénus, e infortúnio a Marte;
Porque quando separa
Do cristalino Céu Céu estrelado,
Vosso puro cristal, vossa luz pura
Une, fazendo próprio o peregrino,
Com estrelado Céu Céu cristalino.
Lâmpada soberana,
Digníssima do templo de Diana,
Mas se nele tivera
Vossa luz sua esfera,
Com tal excesso brilha,
Brilha tão sem exemplo,
Que fora mais estranha maravilha
A lâmpada que o templo;
Que fora o templo, emulação do Pólo,
De Diana por si, por vós de Apolo.
Belo farol luzente,
Mais do que objecto, admiração da gente,
Digno da torre, não menor que Atlante,
Da torre que segundo
Milagre foi do Mundo,
Antes mais que da torre, do Gigante,
Que se vira tão lúcidos assombros
Em seus robustos estrelados ombros,
A todo o Céu tratara com desprezo,
Pois vós tendes mais luz, e o Céu mais peso.
Rica facha pomposa,
A cuja luz, mais que as estrelas clara,
Aquela ave famosa,
Não sei se verdadeira ou fabulosa,
Aquela ave do Sol e Sol das aves
De ser Fénix deixara
Só por ser borboleta,
E sendo borboleta a ser tornara
Outra vez ave do maior Planeta,
Pois Fénix entre incêndios tão suaves,
Borboleta entre tochas tão luzidas,
Com gostos imortais, perpétuas sortes,
Qual Fénix renovara inda mais vidas
Por lograr borboleta inda mais mortes.
Nocturno Sol fermoso,
A cuja luz, mais que à do Sol, quisera
Ícaro derreter vanglorioso,
Asas não só, mas corações de cera,
Porém, se os derretera
No fogo lisonjeiro,
Não chorara perdida
No salgado cristal a doce vida,
Que entre suaves mágoas
Lha tiraram primeiro
Os incêndios que as águas,
As luzes, que os incêndios,
E não seria só luz tão brilhante
Que deixa ao Sol estrela
Da vida juvenil Átropos bela,
Mas ainda seria
Parca gentil do artífice elegante,
Que com tantos dispêndios
Depois de Autor foi réu do labirinto,
Pois quando faz que a noite vença o dia,
Sendo ocaso da luz à luz de Cinto,
Tanto aos olhos namora
Que quem Dédalo foi, Ícaro fora.
Fermoso Sol nocturno,
Cuja luz tanto admira,
Que se a vira o varão, vira o mancebo
De Jápeto penhor, penhor de Febo,
Que tendo em larga idade escassa sorte
Não morre à vida por viver à morte:
Que tendo em Céu sereno escuro fado,
Com ser filho do Sol é desgraçado;
Um nunca encarcerado, e sempre preso,
Pois vê livre e sujeito
O monte aberto, como aberto o peito:
Outro mais frio quando mais aceso,
Pois chora extinto num outro elemento
De fogo a morte, de água o monumento;
Ou se a vira Faetonte,
Se Prometeu a vira,
Quando qual Sol e Aurora
Na cera quanto bela derretida,
Lagrimosa não menos que luzida,
Alegre como Sol, como Alva chora,
Nem Faetonte prezara,
Nem Prometeu roubara.
Fogo celestial, farol diurno,
Só por vós mais ousado
Fora seu furto e brio,
E se aquele no rio,
E se estoutro no monte,
Por tão lustroso crime
Ou fora preso ou fora sepultado,
Em virtude de causa tão sublime,
Por glória reputara
O primeiro, o segundo delinquente
A corrente, a corrente
Que aperta, que desata
O Cáucaso de ferro, o Pó de prata.
Claridade excessiva, antes imensa,
Em luzes rara porque em luzes densa,
Ilustre, singular, prenda admirada,
Que com digna de si Real grandeza,
Por mão de Embaixador excelso manda
À Majestade mor a mor Alteza,
Que manda... (Oh, se meu canto
Aqui subisse tanto,
Que pudesse passar da terra ao vento,
Do vento ao Céu, do Céu ao Firmamento,
E desde o Firmamento até ao Empírio!)
Que manda a rosa ao lírio,
Antes o brinco à jóia,
Antes ao Sol a estrela,
Antes a bela irmã à irmã mais bela,
Esta de Lísia, aquela de Saboia,
Que o ser irmão é mais nesta e naquela
Do que o ser fermosa, e mais fermosa.
(...)

 

OUTROS POEMAS

Ao rigor de Lísi

Mais dura, mais cruel, mais rigorosa
Sois, Lísi, que o cometa, rocha ou muro
Mais rigoroso, mais cruel, mais duro,
Que o Céu vê, cerca o mar, a terra goza.

Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa
Que a perla, rosa, Sol ou jasmim puro,
Pois por vós fica feio, pobre e escuro,
Sol em Céu, perla em mar, em jardim rosa.

Não viu tão doce, plácida e amena,
(Brame o mar, trema a terra, o Céu se agrave),
Luz o Céu, ave a terra, o mar sirena.

Vós triunfais de sirena', luz e ave,
Claro Sol, perla fina, rosa amena,
Mor cometa, árduo muro, rocha grave.

Sonhando que via a Márcia

Pintais, sono gentil, com belo ornato
Meu claro sol na vossa sombra escura,
Que posto que da morte sois retrato,
Retrato sabeis ser da fermosura.

Eu, vendo o grato rosto e peito ingrato,
Quando fermosa a sigo a temo dura;
Porém firme no amor, fácil no trato,
Me coroa a esperança, a fé me jura.

Cante pois por tal glória, por tal sorte,
Cante vosso louvor, minha Talia
No Ocaso, no Oriente, Sul e Borte;

Chame-vos clara luz, não sombra fria,
Causa da vida, não irmão da morte,
Filho da noite não, mas pai do dia.

A uma trança de cabelos negros

Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre de Sofala,
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores noite, na beleza dia.

Negra, porém de amor na monarquia
Reinais senhora, não servis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala;
Tristeza, mas venceis toda a alegria.

Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora
Negra, noite, tristeza, sombra, luto.

Porém na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?

A F., favorecendo com a boca
e desprezando com os olhos


Quando o Sol nasce e a sombra principia,
A doce abelha, a borboleta airosa
Procura luz ardente e fresca rosa,
Que faz a Terra céu e a noite dia.

Mas quando à flor se entrega, à luz se fia,
Uma fica infeliz, outra ditosa,
Pois vive a abelha e morre a mariposa
Na favorável rosa e chama impia.

Fílis, abelha sou, sou borboleta
Que com afecto igual, com igual sorte,
Busco em vós melhor luz, flor mais selecta,

Mas quando a flor é branda, a chama é forte,
Néctar acho na flor, na luz cometa,
A boca me dá vida, os olhos morte.

A um pé pequeno

Pues os jusgan las ansias del sentido
Instante de jasmin, concepto breve,
Atomo de açucena presumido,
Sospecha de crystal, susto de nieve;

No pié, mentira sois, pues, como aleve,
Ni verdad en un punto haveis cumplido.
Antes digo que escrupulo haveis sido,
Pues de ser o no ser la duda os mueve.

Como, si idea sois de ojos tan claros,
Hazeis la vista fé para creeros,
Y hazeis los ojos fé para miraros?

Yo me persuado en fin, que hede perderos,
Porque si el veros es imaginaros,
Siendo imaginacion, como hede veros?

Mandando El-Rei D. Pedro enterrar o coração do Marquez de Marialva ao pé do túmulo de El-Rei D. João IV

Ceda ó Jove na paz, Marte na guerra,
Pedro o primeiro, a Pedro sem segundo,
Pois este humano, aquele furibundo
Corações tira, mortos desenterra:

Adonde expira Inês Pedro se encerra,
Um medo ao Reino, o outro amor ao mundo,
Pois faz a um morto, a outro moribundo,
Grave este o fogo, leve aquele a terra.

Três corações, dous Janos, & um Mavorte,
Entregue ao Letes um, outro à memória,
Um coroa o amor, outro a consorte.

Mas ai com tanto excesso, alta vitória,
De Pedro a Pedro, o que da gloria à morte,
Ele é morte de dous, vós de um sois glória.

À morte do Conde de Castelo Melhor

O Castelo melhor, o melhor forte,
Glória do Minho, horror de Salvaterra,
Quando subiu ao Céu, caiu à terra;
Cato, ai triste caso! ai dura sorte!

Da maior fortaleza de Mavorte
Um jaspe só toda a ruína encerra.
O tempo fez o que não fez a guerra;
O que não pôde Marte, pôde a Morte.

Fosso lhe deu, serviu-lhe de estacada
Pio o Galego, o Castelhano exangue,
Com cadáveres um, outro com sangue.

E fora extinta, e fora aniquilada,
A ter mais duração ou mais estrela,
Deste Castelo só toda Castela.

Falando com Deus

Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.
 

Ao Menino-Deus nascido

Não choreis, belo Menino,
Se de amante vos prezais,
Porque amor que chora mais
É sempre amor menos fino:
Limpai o rosto divino,
A quem a minha alma adora,
Que se vossa Mãe vos chora,
Meu Deus, com tantos rigores,
É porque ao nascer das flores,
Costuma chorar a Aurora.

Madrigal a uma crueldade formosa

A minha bela ingrata
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos reluzentes
(Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito),
Celestial safiro;
Os beiços são rubins, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns a formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?

Ao menino deus em metáfora de doce

ROMANCE

– Quem quer fruta doce?
– Mostre lá! Que é isso?
– É doce coberto;
É manjar divino.

– Vejamos o doce,
E, depois que o virmos,
Compraremos todo,
Se for todo rico.

– Venha ao portal logo:
Verá que não minto,
Pois de várias sortes
É doce infinito.

Desculpa, minha alma.
– Mas ah! que diviso?
Envolto em mantilhas,
Um infante lindo!

– Pois de que se admira,
Quando este Menino
É doce coberto,
É manjar divino?

– Diga o como é doce,
Que ignoro o prodígio.
– Não sabe o mistério?
Ora vá ouvindo:

Muito antes de Santa Ana
Teve este doce princípio,
Porque já do Salvador
Se davam muitos indícios.

Mas na Anunciada dizem
Que houve mais expresso aviso,
E logo na Encarnação
Se entrou por modo divino.

Esteve pois na Esperança
Muitos tempos escondido.
Saiu da Madre de Deus,
Depois às Claras foi visto.

Fazem dele estimação
As freiras com tal capricho,
Que apuram para este doce
Todos os cinco sentidos.

Afirmam que no Calvário
Terá Seu termo finito,
Sendo que no Sacramento
Há-de ter novo artifício.

Que seja doce este Infante,
A razão o está pedindo,
Porque é certo que é morgado,
Sendo unigénito Filho!

Exposto ao rigor do tempo,
Quando tirita nuzinho,
Um caramelo parece
Pelo branco e pelo frio.

Tal doce é, que porque farte
Ao pecador mais faminto,
Será de pão com espécies,
Substancial doce divino.

É manjar tão soberano,
Regalo tão peregrino,
Que os espíritos levanta,
Tornando aos mortos vivos.

Tão delicioso bocado
Será de gosto infinito,
manjar real, verdadeiro,
Manjar branco parecido!

Que é manjar dos Anjos, dizem
Talentos mui fidedignos,
Por ser pão-de-ló, que aos Anjos
Foi em figura oferecido.

Retrato

Vi Fílis, a bela,
Lume dos meus olhos,
Olhos de minha alma,
Alma de meu corpo.
Vi-a, e logo amor.
Vi-a, e Febo logo
Quer que a pinte a cores,
Quer que a cante a coros.
Meti-me em debuxos,
E saí com tonos.
Quem me fora Apeles!
Quem me fora Apolo!
Seu rico cabelo,
Do mais precioso,
Mil troféus alcança
E logra mil louros.
Os raios enlaça,
Para mal dos olhos.
Todo ele é nós cegos,
E nós, cegos todos.
O campo da testa
Belo e belicoso,
Faz de neve fronte
A esquadrão de fogo.
Seus olhos rasgados
De avarentos noto,
Pois quanto mais ricos
Tanto estão mais rotos.
São mar de beleza
Que me tem absorto,
E suas meninas
São os seus cachopos.
Dormidos se mostram,
Mas sabem (que assombro!)
Mais eles dormidos
Que espertos os outros.
Altamente dormem,
Mas entre os seus sonhos,
Mais que de dormidos,
Roncam de formosos.
Feito de apanhia,
Mistura o seu rosto
Com o branco o tinto,
De neve entre copos.
O nariz e as faces
Têm câmbio cheiroso:
Elas flores dão,
Ele dá Favónios.
A boca parece,
Se mal a não apodo,
Pela cor, ferida,
Pelo breve, ponto.
De seus dentes, quando
Descobre o tesouro,
O aljôfar se mete
Nas conchas medroso.
Por ser tão tenrinho,
Tão de leite todo,
Seu colo podia
Andar inda ao colo.
É tão rica jóia,
Brinco tão formoso,
Que todos os dias
O traz ao pescoço.
Põe a mão galharda,
Por quem vivo e morro,
O papel de tinta,
A neve de lodo.
Tudo nela é branco;
Porém eu me assombro
De topar as setas
Onde o alvo topo.
São seus pés tão breves,
Que estes versos toscos
Com ser tão pequenos,
Lhe ficam mui longos.


Ao Santíssimo Sacramento, em tempo, que os castelhanos tinham de cerco a praça de Elvas

Ó Divino Pão do Céu,
A quem o Povo inclemente
Segou tão barbaramente,
Tão cruelmente moeu,

Livrai, livrai de perigos
Meus versos desalinhados,
Mas não temo vão errados,
Bem que vão por estes trigos.

Dai-me instrumento inaudito,
Voz sonora, e frase aceita,
Que certo adágio receita,
A bom bocado bom grito.

Dai-me graça nesta acção,
E não noteis esta traça,
Que eu sempre vos peço graça,
Como quem vos pede pão.

Em palhas fostes nascido,
Em terra virgem criado,
Se dos Judeus pão trilhado,
Dos fiéis pão escolhido.

Por alvo vos tem o Mundo,
Pão que o Mundo fazeis alvo,
Porém sendo pão tão alvo,
Não deixais de ser segundo.

Com ser de farinha pura,
Sem ter joio misturado,
Se sois no peito encerrado,
Deixais nele alimpadura.

Sois pão muito regalado,
Mas pareceis rigoroso,
Porque sendo tão mimoso,
Não podeis ser mastigado.

Sois pão de trigo de Egipto,
Pois tendes tal condição,
Que sendo um único grão,
Sempre sois pão infinito.

Mas é para admirar
Que sendo um pão tão mimoso,
O Hebreu cego aleivoso
Vos não possa inda tragar.

Não se vos dê disto nada,
Que o pão de trigo excelente
Não serve para esta gente,
Cujo comer é cevada.

Sois liberal com tal traça,
Pródigo com tal excesso,
Que sendo pão de mui preço,
Vos dais sempre mui de graça.

Em vós se vê pão sagrado,
Todo o algarismo perdido,
Pois quando sois repartido,
Então sois multiplicado.

Minha alma vos traz a rol,
Porque lhe dais muitos dias
Tão delgadas as fatias,
Que vê por elas o Sol.

Tendes tal propriedade,
Sendo pão de entendimento,

Que dais melhor nutrimento
A quem vos tem boa vontade.

Mas quando mais franco estais,
Sois como rico avarento,
Não vos dais por alimento,
Mas por relíquias vos dais.

Prometeis com larga mão,
Mas não vos dais à mão cheia,
Pois prometendo uma ceia,
Nos dais uma comunhão.

Nunca de vós nos fartamos,
Antes sempre fome temos,
Porque quanto mais comemos,
Tanto mais Anjos ficamos.

Sois pão do Céu, que a Trindade
Mandou para ser vendido
Na nossa terra, metido
No saco da humanidade.

Trigo, que a fome alivia,
Sois, e dizem, que do mar
Os que vos viram embarcar
Em a Nau Santa Maria.

Sois pão das almas amigo,
Mas por modo milagroso,
Quando sois todo amoroso,
Então não sois todo trigo.

Nossa Fé nos assegura
Que é este pão soberano,
Por ser divino, e humano,
O pão da melhor mistura.

E tem suavidade tanta
Este pão celeste, e santo
Junto com esforço tanto
Que os espíritos levanta.

Sois pão alvo como vemos,
Porém não vos enxergamos,
Pois quando vos comungamos,
Sempre às escuras comemos.

Em chamas de amor ardentes
Sois, meu pão, todo abrasado,
Que enfermo de namorado,
Sempre estais com acidentes.

Por Esposo vos procuram
Muitos, que por vós se abrasam,
Os bons convosco se casam,
Os maus somente vos juram.

Termos vejo encontrados
Nos amigos, que escolheis,
Pois tendes por mais fiéis
Os mais reconciliados.

Oh, notável estranheza
Nesta de amor doce calma,
Pois são os amigos da alma
Os mesmos que o são da mesa.

Estes são de vós amados,
Se bem quando vos recebem,
Então o sangue vos bebem,
Então vos comem a bocados.

Sois Rei, e Rei muito lhano,
Mas os Ministros amados
Andam mui endeusados,
Quando vós sois mais humano.

Tendes condição tão boa,
Tendes mãos tão liberais
Que o vosso poder lhes dais,
E lhes pondes a coroa.

Eles amantes requebram
Vossos divinos primores.
Mas não são aduladores,
Bem que sempre vos celebram.

Ser Rei dos pães é mui certo,
E assim vos peço esta vez
Que sejais Rei Português,
Pois que sois Rei encoberto.

Dai-nos paz, pois que vos praz
Ter à paz inclinação,
Mas que muito se sois pão,
Sejais amigo de paz?

Tenha Portugal sossego,
E veja nosso inimigo
Que sois do Alentejo trigo,
E não sois trigo Galego.

Item mais à Ordem minha
Dai, meu Senhor, vossa mão,
Para que com tão bom pão
Façamos boa farinha.

 

(Apostila 8  de Barroco  - Literatura Portuguesa)