ORFEU SPAM APOSTILAS

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Francisco de Vasconcelos (1665-1723) nasceu no Funchal, frequentou a Universidade de Coimbra entre 1686 e 1697 e foi nomeado ouvidor da Capitania do Funchal em 1697. É um dos mais importantes poetas da Fénix Renascida, estando representado no volume I e no volume II. Em 1729, já depois da sua morte, foram publicadas as obras "Feudo do Parnaso", um panegírico a D. João V em tercetos, e Hecatombe Métrico, obra composta por cem sonetos onde se narra a história da redenção do homem, desde o pecado de Adão até à paixão e morte de Cristo. David Mourão-Ferreira, no Hospital das Letras, afirmou que Francisco de Vasconcelos faz parte do elo indispensável que liga o lirismo camoniano ao pré-romantismo.

 

ALGUNS SONETOS

À fragilidade da vida humana

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em vesúvios incendido
Foi zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que é rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

À morte de F.

Esse jasmim, que arminhos desacata,
Essa aurora, que nácares aviva,
Essa fonte, que aljôfares deriva,
Essa rosa, que púrpuras desata;

Troca em cinza voraz lustrosa prata,
Brota em pranto cruel púrpura viva,
Profana em turvo pez prata nativa,
Muda em luto infeliz tersa escarlata.

Jasmim na alvura foi, na luz Aurora,
Fonte na graça, rosa no atributo,
Essa heróica deidade que em luz repousa.

Porém fora melhor que assim não fora,
Pois a ser cinza, pranto, barro e luto,
Nasceu jasmim, aurora, fonte, rosa.

A F., Agradecendo-lhe umas rosas

Estes mimos da luz, do campo alarde,
Mariposas do Sol, línguas da Aurora,
Sendo alinhos de Abril, troféus de Flora,
São galas na manhã, lutos na tarde.

Sem que do fado insano o Sol as guarde,
Marchita as flores, quando as enamora,
Pois cada rosa que com luzes dora
É borboleta que nas chamas arde.

Fílis, mais do que amante, andais ingrata,
Querendo dos rigores fazer moda,
Embuçando o favor na tirania,

Pois, no caduco ser desta escarlata,
Dais a um amor, que dura a vida toda,
Um galardão que apenas dura um dia.
 

Ao seu cuidado

No verdor da floresta deleitosa,
Quando de Abril a Aurora é mais serena,
Reclinado nos braços da açucena,
Vi o purpúreo carmim da mesma rosa.

Essa de âmbar fragante mariposa,
Vi bordar, de escarlata a selva amena.
E em quebros vi cantar a filomena,
Entre as ramas de Dafne mais frondosa.

De Flora o campo cheio de harmonias,
De aljôfar guarnecendo os verdes prados,
Essas de Tétis líquidas sangrias,

Tudo em fragrâncias concedia agrados...
Mas ai! que, entre tão doces melodias,
Somente me elevaram meus cuidados!

Ao mesmo assunto

Baixel de confusão em mares de ânsia,
Edifício caduco em vil terreno,
Rosa murchada já no campo ameno,
Berço trocado em tumba desda infância;

Fraqueza sustentada em arrogância,
Néctar suave em campo de veneno,
Escura noite em lúcido sereno,
Sereia alegre em triste consonância;

Viração lisonjeira em vento forte,
Riqueza falsa em venturosa mina,
Estrela errante em fementido norte;

Verdade que o engano contamina,
Triunfo no temor, troféu da morte
É nossa vida vã, nossa ruína.

A um rouxinol cantando

Ramalhete animado, flor do vento,
Que alegremente teus ciúmes choras
Tu, cantando teu mal, teu mal melhoras,
Eu, chorando meu mal, meu mal aumento.

Eu digo minha dor ao sofrimento
Tu cantas teu pesar a quem namoras,
Tu esperas o bem todas as horas,
Eu tenho qualquer mal tudo o momento.

Ambos agora estamos padecendo
Por decreto cruel do deus mínimo;
Mas eu padeço mais só porque entendo.

Que é tão duro e cruel o meu destino
Que tu choras o mal que estás sofrendo,
Tu choro o mal que sofro e que imagino.

[Qual sarça de Moisés que verde ardia]

Qual sarça de Moisés que verde ardia,
Carro de Elias que o esplendor cercava,
Nas chamas os verdores conservava,
Nas luzes sem estrago os céus corria;

Qual o forno que em chamas só luzia
E todo labaredas não queimava,
Jerusalém que a chama circundava
E de um muro de fogo se cingia,

Assim Maria, carro luminoso,
Furno brilhante, ardente sarça amena,
Jerusalém que em fogo ilustra o barro,

Sem risco, eclipse, horror penoso,
No ardor, na chama, no pavor, na pena,
É Jerusalém, forno, sarça e carro.

 

 

(Apostila 6  de Barroco  - Literatura Portuguesa)