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Guerras do Alecrim e da Manjerona, de Antônio José da Silva

(trechos) 

 

(Comédia em duas partes)

 

Ópera Joco-Séria, que se representou no Teatro do Bairro Alto de Lisboa, no carnaval de 1737.

 

Interlocutores:

Dom Gilvaz

Dom Fuas

Dom Tiburcio

Dom Lancelote, velho

Dona Clóris, Sobrinha de Dom Lancerote.

Dona Niza, Sobrinha de Dom Lancerote.

Sevadilha, Graciosa, Criada.

Fagundes, Velha, Criada.

Semicúpio, Gracioso, Criado de Dom Gilvaz.

 

 

Primeira Parte

 

Cena I

 

 

Prado, com casario no fim. Entram Dona Clóris, Dona Nize, e Sevadilha, com os rostos cobertos; e Dom Fuas, Dom Gilvaz, e Semicúpio, seguindo-as.

 

Dom Gilvaz: Diana destes bosques, cessem os acelerados desvios desse rigor, pois quando rêmora me suspendeis, sois ímã, que me traís.  (Para D. Clóris).

Dom Fuas: Flora destes prados, suspendei a fatigada porfia de vosso desdém, que essa discorde fuga com que me desenganais, é harmoniosa atração de meus carinhos; pois nos passos desses retiros forma compasso o meu amor. (Para D.Nize).

 

Semicúpio: E tu, que vem atrás, serás o seringa destas brenhas; e para o seres com mais propriedade, deixa-te ficar mais atrás, pois apesar doa esguichos de teu rigor, hei de ser conglutinado rabo-leva das tuas costas. (Para Sevadilha).

 

Dona Clóris: Cavalheiro, se é que o sois, peço-vos, me não sigais, que mal sabeis o perigo a que me expõe a vossa porfia. (Para D. G.)

 

Dom Gilvaz: Galhardo impossível, em cujas nubladas esferas ardem ocultos dos sóis, e se abrasa patente um coração, permiti, que esta vez seja fineza a desobediência; porque seria agravo de vossos reflexos negar-lhe o inteiro culto na visualidade desse esplendor; porque assim, formosa Ninfa, ou hei ver-nos, ou seguir-vos, porque conheça, já que não o sol desse oriente, ao menos o oriente desse sol.

 

Dona Clóris: (à parte): Que será de mim, se este homem me seguir?

 

Dona Nize: Já parece teima essa porfia; vede, senhor, que se me seguis, que impossibilitais o meio para ver-me outra vez.

 

Dom Fuas: Para que são, belíssimo encanto, esses avaros melindres do repúdio? Se já comecei a querer-vos, como posso deixar de seguir-vos? Pois até não saber, ou quem sois, ou aonde habitais, serei eterno girassol de vossas luzes.

 

Sevadilha: Ora basta já de porfia, senão vou revirando. (Para Semicúpio).

 

Semicúpio: Tem não, Sargeta encantadora, que com embiocadas denguices, feita papão das almas, encobres olho e meio, para matares gene de meio olho; são escusados esses esconderelos, pois pela unha desse melindre conheço o leão desta cara.

 

Dona Clóris: Isso já parece teima.

 

Dom Gilvaz: Isto é querer-vos.

 

Dona Nize: Isso é porfia.

 

Dom Fuas: É adorar-vos.

 

Sevadilha: Isto é empurração.

 

Semicúpio: Agora, isto bichancrear, pouco mais ou menos.

 

Dom Gilvaz: Senhoras, para que nos cansamos? Ainda que pareça grosseria não obedecer, entendei que a nossa curiosidade e amor não permitirá que vos ausenteis sem ao menos com a certeza de vos tornarmos a ver, dando-nos também o seguro de onde morais, para que possa o nosso amor multiplicar os votos na peregrinação desses animados templos da formosura.

 

Dom Fuas: Eis aí, senhora, o que queremos.

 

Sevadilha: Em termos, sem tirar nem pôr.

 

Dona Clóris: Pois, senhor, se só por isso esperais, bastará que esse criado nos siga; porque de outra sorte destruís o mesmo que edificais.

 

Dom Gilvaz: E admitireis a minha fineza?

 

Dona Clóris: Sendo verdadeira, por que não?

 

Dom Fuas: Admitireis os repetidos sacrifícios de meu amor?

 

Dona Nize: Sim, se dita me abona?

 

Dom Gilvaz e Dom Fuas: Que essa dita me abona?

 

Dona Nize: Este ramo de Manjerona.

 

Dom Fuas: Na minha alma o disporei, para que sempre em virentes pompas se ostente troféu da Primavera.

 

 Dom Gilvaz: Mereça eu igual favor para segurança da vossa palavra.

 

Dona Clóris: Este ramo de Alecrim, que tem as raízes no meu coração, seja o fiador que me abone.

 

Dom Gilvaz: Por único na minha estimação será este Alecrim o Fênix das plantas, que abrasando-se nos incêndios de meu peito, se eternizará no seu mesmo ardor.

 

Semicúpio: Isso é bom, segurar o barco; mas a tácita hipoteca não me cheira muito, digam o que quiserem os jardineiros.

 

Dona Clóris: Cada uma de nós estima tanto qualquer dessa plantas, que mais fácil será perder a vida, do que elas percam o crédito de verdadeiras. 

 

Semicúpio: Ai! Basta, basta, já aqui não está quem falou: vossa mercês perdoem, que eu não sabia que eram do rancho do Alecrim e Manjerona: resta-me também que tu, cozinheirazinha, vivas arranchada com alguma ervinha, que me dês por prenda, pois também me quero segurar.

 

Sevadilha: Eis, aí tem esse malmequer, que este é o meu rancho; estime-o bem, não o deixe murchar.

 

Semicúpio: Ditoso seria eu, se o teu malmequer se murchasse.

 

Dona Clóris: Pois, senhor, como estais satisfeito, desejarei estimásseis esse ramo não tanto como prenda minha, mas por ser de Alecrim.

 

Dona Nize: O mesmo vos recomendo da Manjerona.

 

Dona Clóris: Advertindo que aquele que mais extremos fizer a nosso respeito, coroará de triunfos a Manjerona, ou Alecrim, para que se veja qual destas duas plantas tem mais poderosos influxos para vencer impossíveis.

 

Dona Nize: Desejara que triunfasse a Manjerona. (Vai-se).

 

Dona Clóris: E eu o Alecrim. (Vai-se).

 

Semicúpio: Cuidado no bem-me-quer.

(...) 

Soneto

Primas, que na guitarra da constância

Tão iguais retinis no contraponto,

Que não há contraprima nesse ponto,

Nem nos porpontos noto dissonância.

 

Oh, falsas não sejais nesta jactância;

Pois quando atento os números vos conto,

Nessa beleza harmônica remonto

Ao plecto da Felina consonância:

 

Já que primas me sois, sede terceiras

De meu amor, por mais que vos agaste

Ouvir de um cavalete as frioleiras;

 

Se encordoais de ouvir-me, ó primas, baste

De dar à escaravelha em tais asneiras,

Que enfim isto de amor é um lindo traste.

 

Dom Lancerote: Também sois Poeta, meu sobrinho?

 

Dom Tibúrcio: Também temos nosso entusiasmo, senhor tio, isto cá é veia capilar e natural.

 

Dom Lancerote: Oh! Quanto me pesa que sejais Poeta, pois por força haveis de ser pobre.

 

Dom Tibúrcio: Agora, senhor, eu sou um rico Poeta. Pois, primas, que dizeis da minha eloqüência? Não me respondeis?

 

Dona Clóris: Os Anjos lhe respondam.

(...) 

Canta Semicúpio a seguinte

Ária

Oráculo de amor

Propício me responde

Nas ânsias deste ardor

Bem me queres, mal me queres

Bem me queres, disse a flor.

Ai de mim, que me quer mal

Teu ingrato malmequer1

     Acabou-se o meu cuidado,

Que mais tenho que esperara?

Vou-me agora regalar,

Levar boa vida, comer, e beber.

(...)  

Cantam Dom Lancerote e Sevadilha: a seguinte

Ária a duo

Dom Lancerote:

Moça tonta, descuidada,

Sevadilha:

Há mulher mais desgraçada

Neste mundo? Não, não há.

Dom Lancerote:

Se não dás o meu capote,

Tua capa hei de rasgar.

Sevadilha:

Não me rasgue a minha capa.

Dom Lancerote:

Dá-me, moça o meu capote.

Sevadilha:

Minha capa.

Dom Lancerote:

Meu capote.

Ambos:

Trata logo de o pagar.

Dom Lancerote:

Meu capote assim furtado!

Sevadilha:

Meu adorno assim rasgado!

Ambos:

Que desgraça!

Dom Lancerote:

Contra a moça.

Sevadilha:

Contra o velho.

Ambos:

A justiça hei de chamar:

Meu capote donde está? (vão-se).  

 

 

 

Cena III

Praça: no fim haverá uma janela. Entra Dom Gilvaz embuçado.

 

Dom Gilvaz: disse a Semicúpio que aqui o esperava; mas tarda tanto que entendo o apanharam na empresa. Mas, se será aquele, que ali vem? Não é Semicúpio que ele não tem capote. Quem será?

 

(Entra Semicúpio embuçado em um capote).

 

Semicúpio: Lá está um vulto embuçado no meio do caminho; queira Deus não me chegue ao vulto; não sei se torne para trás, mas pior é mostrar covardia; eu faço das tripas coração; vou chegando, mas sempre de longe.

 

Dom Gilvaz: Ele se vem chegando, e eu confesso que não estou todo trigo.

 

Semicúpio: Este homem não está aqui para bom fim; eu finjo-me valente: afaste-se lá, deixe-me passar, aliás o passarei.

Dom Gilvaz: Vossa mercê pode passar.

 

Semicúpio: ai, que é D. Gil! Pois agora farei com que me tenha por valoroso. Quem está ai? Fale, quando não despeça-se desta vida que o mando para a outra.

 

Dom Gilvaz: Primeiro perderá a sua, quem me intenta reconhecer.

 

Semicúpio: Tenha mão, Senhor Dom Gilvaz, que sou Semicúpio.

 

Dom Gilvaz: Se não falas, talvez que a graça te saísse cara.

 

Semicúpio: Igual vossa mercê, que se o não conheço pela voz, sem dúvida, Senhor Dom Gilvaz, lhe prego como o seu nome na cara.

 

Dom Gilvaz: Deixemos isso, dá-me novas de Dona Clóris; dize, pudeste dar-lhe o recado?

 

Semicúpio: Não sabe que sou o César dos alcoviteiros? Fui, vi e venci.

 

Dom Gilvaz: Dá-me um abraço, meu Semicúpio.

 

Semicúpio: Não quero abraços, venham as alvíssaras, senão emudeci como Oráculo.

 

Dom Gilvaz: Em casa t’as darei; conta-me primeiro, que fazia Dona Clóris?

 

Semicúpio: Isso são contos largos, estava toda rodeada de braseiros de Alecrim, com um grande molho dele no peito, cheirando a Rainha de Hungria, mascando Alecrim como quem masca tabaco de fumo; e como acabava de jantar, vinha palitando com um palito de Alecrim e, finalmente, senhor, com o Alecrim anda toda tão verde como se tivera tirícia.

 

Dom Gilvaz: E do mais que passaste?

 

Semicúpio: Isso é para mais de vagar, basta que saiba por ora que apenas lancei o anzol no mar da simplicidade de Dona Clóris, picando logo na minhoca do engano, ficou engasgalhada com o engodo d Emil patranhas que lhe encaixei à mão tente.

 

Dom Gilvaz: Incríveis são as tuas habilidades: e que capote é esse?

 

Semicúpio: Este é o despojo do meu triunfo; joguei com o velho os centos, e ganhai-lhe este capote; e se vossa mercê soubera a virtude que ele tem, pasmaria.

 

Dom Gilvaz: Que virtude tem?

 

Semicúpio: É um grande remédio para sarar acidentes de gora coral.

(...) 

Minueto

Já que a fortuna

Hoje me abona, a Manjerona,

Quero exaltar.

 

No seu triunfo

Que a fama entoa,

Palma, e coroa

Há de levar.

 

Há de por certo,

Que a sua rama

Na voz da fama

 

Sempre andará.

 

Cena IV

     

(Entra Dona Nize)

 

Dona Nize: Que ruído é este, Fagundes?

 

Dom Fuas: Sinto, Senhora Dona Nize, que a primeira vez que me facilitais esta fortuna, me  hospedeis com zelos.

 

Dona Nize: Nos sei que motivo haja para os haver.

 

Dom Fuas: Es senhor embuçado que aqui me vem seguindo, e diz que procura o mesmo que eu busco.

 

Dona Nize: Sabe ele porventura o que vós procurais?

 

Dom Fuas: Ele que diz que sim, certo é que o sabe.

 

Dona Nize: Senhor, vós acaso vindes aqui a meu respeito? (Para D.Gil).

 

Dom Gilvaz: (À parte) Nada hei de responder.

 

Dom Fuas: Quem cala consente: não averigüemos mais, Senhora Dona Nize, só sinto que a sua Manjerona admita enxertos de outras plantas.

 

Dona Nize: Esse é o pago que me dais, de admitir a vossa correspondência, de obrar este excesso a vosso respeito, e de me expor a este perigo por vossa causa?

 

Dom Fuas: Melhor fora desenganar-me que essa era a melhor fineza que vos podia merecer.

 

Dona Nize: Pois eu digo-vos que estou inocente, que não conheço este homem; e me parece que basta dize-lo, para me acreditares.

 

Dom Fuas: E bastava ver eu o contrário, para não acreditar essas desculpas.

 

Dona Nize: Pois visto isso, fiquemos como dantes.

 

Dom Fuas: De que sorte?

 

Dona Nize: Desta sorte.

 

Canta Dona Nize a seguinte

Ária

Suponha, senhor,

Que nunca me viu,

E que é o seu amor

Assim como a flor,

Que apenas nasceu,

E logo murchou.

 

Pois tanto me dá

De seu pretender,

Que firme suponho

Seria algum sonho,

Que pouco durou. (Vai-se).

 

Dom Fuas: Nize cruel, isto ainda é maior tirania; escutam-me. (Vai-se).

 

Fagundes: Vá lá dar-lhe satisfações que ela é bonita para essas graças. E vossa mercê, senhor rebuçado, a que sim quis profanar o sagrado desta casa?

 

Dom Gilvaz: a ver o bem que adoro.

 

Fagundes: Vossa mercê está zombando? Aqui não há quem possa ser amante de vossa mercê; pois bem vê o recato e honra desta casa.

 

Dom Gilvaz: Eu bem vejo o recato e honra desta casa. Que? Aquilo de subir um homem por uma anela, e ir-se para dentro atrás de uma mulher, não é nada?

 

Fagundes: Aquele homem é primo carnal da Senhora Dona Nize.

 

Dom Gilvaz: Pois eu também quero ser muito conjunto da Senhora Dona Clóris: ora faça-me o favor de a ir chamar.

 

Fagundes: Que diz? A Senhora Dona Clóris? Olha tu lá, Dona Clóris não te enganes; sim, a outra, que anda coberta de cilícios, jejuando a pão e água; tire daí o sentido, meu senhor.

 

Dom Gilvaz: Se a não dores chamar, a irei eu buscar.

 

Fagundes: Ai, senhor, vossa mercê tem alguma legião de diabos no corpo? E que remédio tenho senão chamá-la, antes que o homem faça alguma asneira, que ele tem cara de arremeter. (Vai-se).

 

Dom Gilvaz: Venha logo, que eu não posso esperar muito tempo. A velha queria corretagem: basta que lh’a dê Dom Fuas.

 

 

 

Soneto

Tanto te quero, ó Clóris, tanto, tanto;

E tenho neste tanto tanto tanto,

Que me cuidar que te perco, me espavento,

E em cuidar que me deixas, me ataranto.

 

Se não sabes (ai, Clóris) o quanto o quanto

Te idolatra rendido o pensamento,

Digam-te os meus suspiros cento a cento.

Soletra-o nos meus olhos pranto a pranto.

 

O quem pudera agora encarecer-te

Os esquisitos modos de adorar-te

Que o amor soube inventar para quere-te!

 

Ouve, Clóris; mas não, que hei de assustar-te;

Porque é tal o meu incêndio, que ao dizer-te

Ficaras no perigo de abrasarte.

 

 

 

Segunda Parte

Ária A 3

Dom Gilvaz:

Se não fora por não sei que,

Te matara mesmo aqui.

 

Dom Fuas:

Se não fora o velho ali

Te fizera um não sei que.

 

Dona Clóris:

De mansinho, pouca bulha,

Calte gralha , calte grulha,

Porque o velho há de acordar.

 

Dom Gilvaz:

Pois aqui mui mansamente

Matarei este insolente.

 

Dom Fuas:

Também eu pela calada

Meterei a minha espada.

 

Dona Clóris:

Devagar, não dêem de rijo,

Porque o velho há de acordar.

 

Todos:

Quem pudera em tanta luta

Sua dor desabafar!

 

Dom Fuas e Dom Gilvaz:

Se não gritão neste caso,

Sou capaz de rebentar.

 

Dona Clóris:

Mais que estalem, e arrebentem,

Não se há de aqui falar.

 

Todos:

Não se pode isto aturar! (Vão-se).

 

(Entra Semicúpio pela mão de Sevadilha)

 

Semicúpio: Donde me levas, Sevadilha?

 

Sevadilha: Ande, não me faça perguntas.

 

Semicúpio: Não há uma candeia nesta casa que se me meta na mão, que estou morrendo por te ver?

 

Sevadilha: Melhor fineza é amar por fé.

 

Semicúpio: Como, se eu não dou fé de ti?

 

Sevadilha: Ande, que o amor se pinta cego.

 

Semicúpio: Muito vai do vivo ao pintado.

 

Sevadilha: Assim estamos mais à nossa vontade. 

 

Semicúpio: Andar, supondo que tenho o meu amor na Noruega; mas ainda assim isto de estar às escuras, não é grande coisa para um homem dizer à sua Dama quatro hipérboles, pois se não vejo, como poderei dizer-te que és estatua de alabastro sobre plintos de jaspe neve vivente, e racional sorvete, mas só carapinha, pois negra te considero nesta

 

Etiópia: oh, negregada ocasião em que por falta de uma candeia não sai à luz a tua formosura!

 

Sevadilha: Pois o fogo de teu amor não basta para alumiar esta casa?

 

Semicúpio: Se a luz excessiva faz cegar, também a minha chama por excessiva não alumia; mas com tudo isto não nos metamos no escuro; falemos claro: como estamos nós daquilo, que chamamos amor?

 

Sevadilha: E como estamos nós do malmequer, que esse é o ponto?

 

Semicúpio: Cada vez está mais viçoso com a copiosa inundação de meu pranto.

 

Sevadilha: E teu amo com o alecrim?

 

Semicúpio: Isso são contos largos, o homem anda doido; tudo quanto vê lhe parece que é Alecrim; est’outro dia estava teimoso, em que havia de cear salada de Alecrim, mais que o levasse o diabo. Olha, para contar-te as loucuras que faz, assentemo-nos, que isto se não pode levar de pé. 

Cena III (...)

Canta Dom Gilvaz a seguinte

Ária

Borboleta namorada,

Que nas luzes abrasada,

Quando expira nos incêndios.

Solicita o mesmo ardor. 

    Tal, ó Clóris, me magino,

Pois parece, que o destino

Quer, por mais que tu me mates,

Que apeteça o teu rigor.

 

Cena IV

 

Praça. Entram Dom Gilvaz e Semicúpio.

 

Dom Gilvaz: Uma e muitas vezes te considero, Semicúpio, prodigioso artífice de meu amor, pois com as tuas máquinas vais erigindo o retorcido tálamo que há de ser trono do mais ditoso Himeneu.

 

Semicúpio: Já disse a vossa mercê que mais obras e menos palavras. Semicúpio, senhor, já se acha mui cansado, tomara que me aposentasse com meio soldo, que este oficio de alcova é mui perigoso; que suposto tenha asas para fugir, também as asas têm penas para sentir.

 

Dom Gilvaz: Semicúpio, já o pior é passado: acabemos de deitar esta nau ao mar, que então teremos enchentes.

 

Semicúpio: E no cabo de tantas enchentes tudo nada.

 

Dom Gilvaz: Anda, não desmaies, que hoje havemos mostrar ao Mundo os triunfos do Alecrim.

 

Semicúpio: E a Manjerona todavia não menos viçosa com os borrifos de Fagundes.

 

Dom Gilvaz: Mas a galanteria é que todas as suas idéias redundam em nosso proveito.

 

Semicúpio: Aí é que está a filigrana do jogo, Fagundes a semear e nós a colher.

 

(Entra Sevadilha com mantilha)

 

Dom Gilvaz: Aquela que lá vem, não é Sevadilha?

Semicúpio: Pelo cheiro assim me parece.

 

Dom Gilvaz: Que novidade é essa, Sevadilha? Tu só, por aqui?

 

Sevadilha: Que há de ser? A maior desgraça do mundo.

 

Dom Gilvaz: Que? Morreu o velho!

 

Sevadilha: Isso então seria fortuna.

 

Dom Gilvaz: Pois que foi?

 

Sevadilha: Foi, que Dom Tibúrcio com a pena de se ver acometido de três mulheres, como vossa mercê sabe, à vista das noivas e do sogro, tomou tal paixão, que lhe deu esta noite uma cólica e está quase indo-se por um fio; e, assim, eu por uma parte, Fagundes e o Galego por ambas, vamos a chamar o Médico. Adeus, que me não posso deter.

 

Dom Gilvaz: Espera.

 

Sevadilha: Não posso, que Dom Tibúrcio está morrendo por instantes.

 

Semicúpio: Não te canses que já o achas morto; ande cá, tenha feição, e faça palestra com os amigos.

 

Dom Gilvaz: Que faz Dona Clóris?

 

Sevadilha: Não me detenha, adeus.

 

Semicúpio: Dize-me primeiro que tal te pareci em trajes de mulher?

 

Sevadilha: Não estou par isso, deixe-me ir, que estou com pressa.

 

Semicúpio: Há tal pressa! Como se estivera alguém para morrer!

 

Sevadilha: Não vês que vou acudir a esta grande necessidade.

 

Semicúpio: Vai-te, filha, vai-te, não te sofras.

(...) 

Soneto

Um dia para Siques quis amor

Uma grinalda bela fabricar,

E por mais que buscou, não pôde achar

Flor do seu gosto entre tanta flor.

 

Desprezou do jasmim o seu candor,

E a rosa não quis por se espinhar,

Ao girassol mostrou não se inclinar,

E ao jacinto deixou na sua dor.

 

Mas tanto que chegou Cupido a ver

Entre virentes pompas o Alecrim,

Num verde ramo pretendeu colher;

 

Tu só me agradas, disse, pois enfim

Por ti desprezo, só por te querer,

Jacinto, girassol, rosa e jasmim.

 

Dona Clóris: Viva o Senhor Doutor, eu quero as fumaças do Alecrim.

 

Dom Tibúrcio: E morra o Senhor doente; ai minha barriga!

 

Dom Fuas: Se versos podem servir de textos, escute uns de um Antagonista desse Autor a favor da Manjerona pelos mesmos consoantes.

 

 

Soneto

 

 

Para vencer as flores quis amor

Setas de Manjerona fabricar:

Foi discreta eleição, pois soube achar

Quem soubesse vencer a toda a flor.

 

O jasmim desmaiou no seu candor,

A rosa começou-se a espinhar,

No girassol foi culto o inclinar,

Ais o Jacinto deu de inveja e dor.

 

Entre as vencidas flores pode ver

Retirar-se fugido o Alecrim,

Que amor para vingar-se o quis colher;

 

Cantou das flores o triunfo, enfim,

Nem os despojos quis, por não querer,

Jacinto, girassol, rosa e jasmim.

 

Dona Nize: Viva o Senhor Doutor, eu quero o remédio da Manjerona.

 

Dom Lancerote: Não cuide que a Manjerona e alecrim tinham tais virtudes. Vejamos agora o que diz o Senhor Doutor.

 

Dom Tibúrcio: Que tenho eu com isso? Senhores, vossas mercês me vieram curar a mim, ou às raparigas? Ai, minhas barrigas!

 

Semicúpio: Calado estive ouvindo a estes senhores da Escola Moderna, encarecendo a Manjerona e Alecrim. Não há dúvida que pro utraque parte há mui nervosos argumentos, em que os Doutores Alecrinistas e Manjeronistas se fundam; e tratando Dioscórides do Manjeronismo e Alecrinismo, assenta de pedra e cal, que para o mal Cupidista são remédios inanes; porque tratando Ovídio do remédio amoris, não achou outro mais genuíno contra o mal Cupidista que o Malmequer, por virtude simpática, magnética, diaforetica, e diurética, com a qual curatur amorem. Repetirei as palavras do mesmo Ovídio.

 

 

 

Soneto 

 

 

Essa, que em cacos velhos se produz

Manjerona misérrima sem flor,

Esse pobre Alecrim, que em seu ardor

Todo se abrasa por sair à luz.

 

Ainda que se vejam hoje a fluz

Desbancar nas baralhas do amor,

Cuido, que elas o bobo hão de repor,

Se não negro seja eu como uma lapus.

 

O Malmequer, senhores, isso sim,

Que é flor, que desengana, sem fazer

No verde da esperança amor sem fim.

 

Deixem correr o tempo, e quem viver

Verá que a Manjerona e o Alecrim,

As plantas beijarão de malmequer.

 

(....) 

Recitado

Dona Nize:

Mas que vejo? (Ai de mim!) quem arrogante,

Da Manjerona usurpa o ser fragrante?

 

Dom Gilvaz:

Quem, ó Nize, escondido amante espera

O Sol que adoro nesta verde esfera? (Sai).

 

Dom Fuas:

Pois, traidor, como assim tirano intentas,

Roubar-me a Nize, que meu peito adora? (Sai).

E tu, falsa inimiga. Mas ai triste,

Que mal a tanta pena a dor resiste!

 

Dona Clóris:

E tu, falso Dom Gilvaz, que em torpe insulto

Buscas a Manjerona amante oculto,

Deixa-me, fementido...

 

Dom Gilvaz:

Atende, ó Clóris,

Que sem causa fulminas teus rigores,

Quando em puros ardores

Nas chamas do Alecrim feliz me abraço.

 

Dona Nize:

Sem motivo, Dom Fuas, me criminas; porque eu firme...

 

Dom Gilvaz:

 E eu constante....

 

Dom Gilvaz e Dona Nize:      

Fiel te adoro, e te busco amante.

 

 

Ária A 4

 

 

Dom Gilvaz:

Atende, ó Clóris, atende

Verdades de quem sabe

Ser firme em te adorar.

 

Dona Clóris:

Suspende, infiel, suspende

Injurias de quem sabe

Jamais te acreditar.

 

Dom Fuas:

Nize ingrata, infiel amigo,

Cesse a bárbara indecência,

Que a evidencia

Não se pode equivocar.

 

Dom Gilvaz e Dona Nize:

Pois tu só querida prenda.

 

Dom Fuas e Dona Clóris:

Já não creio os teus enganos.

Dom Gilvaz e Dona Nize:

Nas purezas de meu peito

Felizmente viverás.

 

Dom Fuas e Dona Clóris:

Nos rigores de meu peito

Teu castigo encontrarás.

 

Todos:

Mas, ó cego amor tirano,

Como posso em tanto dano

Teu estrago idolatrar?

 

(Entra Fagundes)

 

Fagundes: Já acabaram de cantar? Pois agora entrem a chorar.

 

Dona Clóris: Por que, Fagundes?

 

Fagundes: Porque o senhor seu tio diz que logo vem ao quintal, afirmando que há ladrões em casa, e diz que se não há de deitar esta noite ainda que faça rosa divina.

 

Dom Gilvaz: Aonde estará Semicúpio?

 

Fagundes: Não aparece; senhores, escondam-se e não digam ao depois, que duro foi, e mal se cozeu.

 

Dona Nize: Metam-se nesta capoeira entretanto.  

 

Dom Gilvaz: E que remédio, já que Semicúpio não aparece?

 

Dom Fuas: A necessidade sabe unir a quem se deseja separar. Nize cruel, eu me escondo na capoeira, que só o lugar das penas é o centro de um amante infeliz. (Mete-se na capoeira).

 

Dom Gilvaz: Quem serve a Cupido, às vezes é leão, às vezes galinha. (Mete-se na capoeira).

 

Fagundes: Ah, senhores, não me esmaguem os ovos de uma galinha que aí está de choco.

 

(Entram Dom Tibúrcio e Sevadilha)

 

Sevadilha: Senhor, não me persiga: olhem o diabo do homem!

 

Dom Tibúrcio: Aí no quintal te quero. Mas aqui está Clóris, e Nize, remediarei o negócio. Esta moço faz zombaria de mim; deixa-me tu casar, que eu te porei a caminho.

 

Dona Clóris: Que é isso, Primo? Como, estando doente, e tão perigoso, vem a estas horas as sereno?

 

Dom Tibúrcio: Que há de ser, se vocês não sabem ensinar esta rapariga, pois nada lhe digo que não faça às avessas? De sorte que me fez vestir e sair atrás dela, como desesperado das perrices que me faz.

 

Dona Nize: Tu não queres, Sevadilha, senão ser descortês a meu Primo?

 

Fagundes: Vossas mercês não querem crer que se há de fazer desta moça a peste, fome e guerra.

 

Sevadilha: Para que estamos com arcas encoiradas? O Senhor Dom Tibúrcio anda-me ao sucário, e não me deixa uma hora, nem instante.

 

Dom Tibúrcio: Cale-te, mentirosa.

 

Fagundes: Isso tem ela que levanta um testemunho como quem levanta uma palha.

 

Dona Clóris: Não nos importa essa averiguação; só digo, Senhor Dom Tibúrcio, que parece muito mal estar vossa mercê aqui conosco a estas horas, e que pode vir meu Tio e achar-nos com vossa mercê; que suposto seja primo e com tentações de noivo, sempre o recato e decência se deve conservar, e assim lhe pedimos em cortesia se vá para o seu quarto.

 

Sevadilha: Ande, vá despejando o beco.

 

(...) 

Coro

Dona Nize e Dom Fuas

Viva a Manjerona

Perpétua no durar.

 

Dona Clóris e Dom Gilvaz:

Viva o Alecrim

Feliz no florescer.

 

Todos:

Viva a Manjerona

Viva o Alecrim

Pois que um soube vencer,

E a outra triunfar.

 

Dona Nize e Dom Fuas:

No tempo do Cupido

Troféu de amor será.

 

Dona Clóris  e Dom Gilvaz:

Nas aras da fineza

Em chamas arderá.

 

Todos:

Viva a Manjerona

Viva o Alecrim

Pois que um soube vencer,

E a outra triunfar.

 

 

 

FIM

 (Apostila 1 de Barroco - Literatura Portuguesa)