ORFEU SPAM APOSTILAS

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Nicolau Tolentino de Almeida (1741-1811) nasceu em Lisboa. Estudou em Coimbra e, regressando a Lisboa, torna-se professor de retórica. Ensinou durante quinze anos, conseguindo então um lugar de oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Foi autor de sonetos, odes, cartas e sátiras, que foram publicados em 1801 no volume Obras Poéticas. Foi um dissidente da Arcádia Lusitana. A edição das suas obras de 1861, organizada por José Torres, inclui algumas gravuras da autoria de Nogueira da Silva.

 

A GUERRA

«Vejo a Europa em armas; ouço o flagelo da guerra ao redor os confins da minha pátria; e parece-me que não desaprovaria esta sátira aquele ministro hábil que, debaixo da direcção dos seus soberanos. intenta manter uma paz profunda no meio dos fogos das nações armadas». (da dedicatória do autor ao visconde de Vila Nova de Cerveira).

Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Horácio e de Juvenal,

Agora os verás queimar,
já que em vão os fecho e os sumo;
e leve o volúvel ar,
de envolta como turvo fumo,
o teu furor de rimar.

Se tu de ferir não cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa dá-las ao vento,
se podem achar cabeças?

Tendo as sátiras por boas,
do Parnaso nos dois cumes
em hora negra revoas;
tu dás golpes nos costumes,
e cuidam que é nas pessoas.

Deixa esquipar Inglaterra
cem naus de alterosa popa,
deixa regar sangue a terra.
Que te importa que na Europa
haja paz ou haja guerra?

Deixa que os bons e a gentalha
brigar ao Casaca vão,
e que, enquanto a turba ralha,
vá recebendo o balcão
os despojos da batalha.

Que tens tu que ornada história
diga que peitos ferinos,
em sanguinosa vitória,
inumanos, assassinos,
são do mundo a honra e a glória?

As guerras precisas são,
nelas a paz se assegura:
não metas em tudo a mão,
musa louca; por ventura
encomendam-te o sermão?

Deixa que o roto taful,
a quem na pátria foi mal,
vá cruzar de norte a sul;
cubram-lhe o corpo venal
três palmos de pano azul.

Deixa que em tarimba estreita
o desperte a aurora ingrata;
que o duro cabo, que o espreita,
o faça, ao som da chibata,
virar à esquerda e à direita.

Deixa-lhe em sangue envolver
duro pão, que lhe dá Marte;
e, para poder viver,
deixa-lhe aprender esta arte
de matar e de morrer.

Vá junto à queimada zona
arvorar em rotos muros
o estandarte de Belona;
calejem-se os ombros duros
as correias da patrona.

Voe-lhe aos ares um pé;
sobre o outro, com valor,
a Plutão cem mortos dê;
arda de raiva e furor
sem nunca saber porquê.

Sem causa, entre dentes trazes
a grande arte das batalhas;
murmuras de seus sequazes;
e, quando da guerra ralhas,
outra com a língua fazes.

Dizes que uma guerra acesa
é teatro de impiedade;
chamas-lhe crua fereza,
flagelo da Humanidade,
triste horror da natureza.

Pintas um bravo guerreiro,
e a meus olhos vens mostrá-lo,
para ferir mais ligeiro,
metendo o ardente cavalo
sobre o exangue companheiro.

A um lado e a outro lado
a morte mandando vai
co sanguinoso traçado,
até que ele mesmo cai
de um pelouro atravessado.

Co'as cabeças abatidas,
vão de ferro vil marcados,
maldizendo as tristes vidas,
mil cativos manietados,
vertendo sangue as feridas.

Entre horrorosos troféus,
o general desumano
manda falso incenso aos céus,
e de espalhar sangue humano
vai dando louvor a Deus.

Dizes que se compra quina,
porque altas febres desterra;
e que em colégios se ensina,
em uma aula, a arfe da guerra,
em outra, a da Medicina.

Que no frio, vasto norte,
cem Boerhaves eloquentes
enchem de oiro o cofre forte,
porque perdidos doentes
arrancam das mãos da morte.

Que ali mesmo grosso fruto
colhe Saxe entre os soldados,
porque em minado reduto
tez voar, despedaçados,
dez mil homens num minuto.

Tirando então consequências,
zombar dos homens procuras
e das suas vãs ciências:
sempre cheios de loucuras
e cheios de incoerências.

Se a paz, em dias felizes,
à cara pátria os conduz,
dizes que estes infelizes
mostram, rindo, os peitos nus,
cortados de cicatrizes;

Que este reconta aos parentes
como em perigoso passo,
zunindo balas ardentes,
uma lhe quebrou um braço;
outra lhe levou os dentes;

Que outro, da perna cortada
abençoa a horrível chaga,
porque ao peito, pendurada,
trará algum dia, em paga,
inútil fita encarnada.

Dizes que entre os animais
proíbe guerras o instinto;
e que, surdo a tristes ais,
vês com horror o homem tinto
no sangue dos seus iguais.

Musa, não discorres bem:
pois se uns com os outros cabem,
e juntos a um pasto vêm,
é só porque ainda não sabem
a virtude que o ouro tem.

Por preciosos metais
não põem peitos a bravos mares;
traze exemplos mais iguais:
sábios homens não compares
com os brutos animais.

Trazem focinho no chão,
e nós sempre ao alto olhamos;
temos em dote a razão
e por isso levantamos
uns contra os outros a mão.

Se os homens se não matassem
e impunemente crescessem,
pode ser que não achassem
nem fontes de que bebessem
nem campos que semeassem.

Em vão febres inimigas
os mirrados corpos gastam:
tornam as forças antigas,
e está visto que não bastam
nem malignas nem bexigas.

Travem-se cruas batalhas,
arrasem batidos muros
os soldados de quem ralhas;
adornem-lhes os membros duros
grossas, tresdobradas malhas.

Sabe que mil males faz
a mole tranquilidade
e que em seu seio nos traz

brando luxo e ociosidade,
danosos filhos da paz,

Que nos causa ocultos danos,
fingindo rosto inocente;
que a guerra de largos anos
conservou antigamente
a inocência dos Romanos;

Que, enquanto ao duro exercício
eram seus corpos afeitos,
e da paz não houve indício,
não lavrava nos seus peitos
mortal peçonha do vício;

Não havia mãos profanas,
eram suas almas sãs;
e nas símplices cabanas
fiavam grosseiras lãs
as castas moças romanas.

Fez jano os povos amigos,
inerte ócio os peitos toma;
cos combates, cos perigos
foram-se, ó austera Roma,
os teus costumes antigos.

Entre as nações sossegadas
sabe que o ócio arraigado
e as paixões em paz criadas
fazem mais sangue no Estado
que os gumes das espadas.

Deixa pois haver queixumes:
metam-se armadas no fundo,
acenda a guerra os seus lumes,
que assim tornará ao mundo
a inocência dos costumes.

A intacta fé, a verdade
venham com as baterias;
desça do céu a amizade;
e torne a doirar os dias
de Saturno a antiga idade.

Musa vã, que em ti não cabes,
os guerreiros arraiais
nem vituperes, nem gabes;
e não te metas jamais
a falar no que não sabes.

Haja bloqueio, haja assédio;
o sangue humano espalhado
nem sempre te cause tédio;
que em boa dose tomado,
té o veneno é remédio.

Deixa ir o mundo seu passo,
e contra si mesmo armado
corte c'um braço o outro braço.
Põe na boca um cadeado,
faze o que eu mil vezes faço.

Emprega melhor teu canto;
e, pois queres que te louvem,
mão das sátiras levanto;
poesias que os homens ouvem
um com riso e cem com pranto.

De bons anos na função
leva a Fílis fria glosa;
beija-lhe a nevada mão;
chama-lhe Vénus formosa,
inda que seja um dragão.

Églogas também dão fama;
fala em surrão e em curral;
e do vulgo os olhos chama
nas paredes do Arsenal,
cheia de aplauso e de lama.

De galegos rodeada,
aos Aristarcos escapa;
té que das tendas chamada,
sejas protectora capa
de manteiga e marmelada.

 

SONETOS

1

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
– «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»

– «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...

2

Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».

3
Em curto josezinho rebuçado,
Loiro peralta a rua passeava;
Seus votos pela adufa lhe aceitava
Com brando riso um rosto delicado;

O pai da moça, que era ginja honrado,
E o caso havia dias espreitava,
De membrudo caixeiro se escoltava,
Com bengala na mão, chambre traçado:

Fugira o moço, qual ligeira pela,
Se as fivelas, de marca agigantada,
Deixassem navegar a nau à vela;

Mas viu uma entre esquinas encalhada;
E, se ninguém comprou maior fivela,
Também ninguém levou maior maçada.

 

Soneto

Em escura botica encantoados,
Ao som de grossa chuva que caía,
Passavam de janeiro um triste dia
Dois ginjas no gamão encarniçados;

"Corra, vizinho, corra-me esses dados,"
Gritava um deles que nem bóia via;
De sangue frio o outro lhe dizia
Mil anexins naquele jogo usados;

Dez vezes falha o mísero antiquário;
E ardendo em fúria o trémulo velhinho,
Atira cuma tábula ao contrário,

O mal seguro golpe erra o caminho;
Quebra a melhor garrafa ao boticário,
Que foi só quem perdeu no tal joguinho.
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

 

AUTOBIOGRAFIA

Entre faixas de pobreza
meu tristes pais me envolveram.
Desde então, em crua empresa,
contra mim as mãos se deram
a fortuna e a natureza.

Da terna mãe abraçado,
fui em silêncio profundo
com triste pranto banhado:
já antevia que o mundo
tinha mais um desgraçado.

Meu bom pai debalde quis
enxugar-lhe o pranto ardente.
que ela, alçando-me, me diz:
– «Vem, ó vítima inocente
dum amor casto e infeliz!

Toma os tristes cabedais
em que teu fado te lança;
toma pranto e inúteis ais;
entra na funesta herança
de teus desgraçados pais!»

Depois que plano caminho
já meu pé trilhando vai,
pobre alfaiate vizinho
de um capote de meu pai
me engendrou um capotinho.

Talhando a obra, maldiz
a empresa que lhe incumbiram;
fez nigromâncias com giz;
sete vezes lhe caíram
os óculos do nariz.

Sua obra se consagre
no portal das Barraquinhas
com grossas letras de almagre:
tapou jeiras, passou linhas:
fez um capote e um milagre.

Colchete no cabeção,
saí novo Adónis belo,
figa no cós do calção,
carrapito no cabelo
e um biscoitinho na mão.

Sobre sisudo galego,
que vara barril fiado,
já aos trabalhos me entrego:
e, em triste pranto lavado.
à porta dum mestre chego.

Debalde o bom mariola
dourava razões pequenas :
minha dor não se consola,
presságio talvez das penas
doutro tempo e doutra escola.

 

Entre medos e violência.
entrar no latim já passo.
e jurei obediência
a um clérigo, que era um poço
de tabaco e de ciência.

Dentre o sórdido roupão,
com a pitada entre os dedos
e o Madureira na mão,
revelava altos segredos
do advérbio e conjunção.

Era em gramática abismo;
honrava o século nosso;
porém de tal rigorismo,
que pôs na rua o seu moço,
por lhe ouvir um solecismo!

Entre o jota e o I romano
que diferença se achasse
trabalhava havia um ano;
obra que, se ele a acabasse...
... feliz do género humano!

Enquanto a minha alma emprego
nestas cansadas doutrinas,
à dourada idade chego
de ir ver as vastas campinas
que banha o claro Mondego.

Coas cabeças mal compostas,
vejo entre gostos e medos
mãe e irmãs à adufa postas;
choviam cruzes e credos
sobre as minhas bentas costas.

Já em rápidas carreiras
calcava a real estrada,
sem chapéu, sem estribeiras:
já a catana emprestada
cortava o vento e as piteiras.

Curta, embrulhada quantia.
que ao despedir me foi dada,
expirou no mesmo dia,
e fui fazendo a jornada
quase com carta de guia.

Mas já vejo a branca fronte
da alta Coimbra. fundada
nos ombros de erguido monte;
já sobre a areia dourada
vejo an longe a antiga ponte.

Povo revoltoso e ingrato
dentro em seus muros encerra;
em vão de adoçá-lo trato:
é um título de guerra
a chegada dum novato.

Pão amassado com fel,
e envolto em pranto, comia:
levei vida tão cruel,
que pior a não teria
se fosse estudar a Argel.

Sofri contínua tortura;
sofri injúrias e acintes;
lancei tudo em escritura,
e nos novatos seguintes
fiquei pago e com usura...

Da bolsa os bofes lhe arranco
no fresco pátio de Celas,
pedindo com génio franco
doces, gratuitas tigelas
do famoso manjar branco.

Sete anos de verde idade
fui metendo a destra mão
em multas desta entidade;
chamou-se boa feição.
mas era necessidade.

Achava-me sempre o dia
no tecto os olhos pregados:
a sagaz economia.
revoando nos telhados.
ao conselho presidia.

Gemer em segredo pude.
que o bom pai, falto de meios
quanto cheio de virtude.
só mandava nos correios
novas da sua saúde...

Quis de tais ondas sair
e algum bom porto aferrar;
quis o público servir,
e mandaram-me ensinar
as regras de persuadir.

Triste, enganosa ciência!
Dão-lhe louvores, mas falsos;
dizem que pode a eloquência
ir tirar dos cadafalsos
a perseguida inocência;

que chega do peito ao fim;
que arranca forçado pranto;
mas. senhor, não é assim:
esta arte, que louvam tanto.
só me faz chorar a mim.

Pende da hora oportuna;
sem ela, verá rasgadas
as soltas velas que enfuna:
arrasta vestes douradas
e é escrava da fortuna.

Não a vejo em mim frustrada,
só porque pouca me coube;
de si mesma é mal fadada:
a língua que mais a soube
foi em Roma retalhada!

 

 

 

 

 

(Apostila 8 de Arcadismo - Literatura Portuguesa)