ORFEU SPAM APOSTILAS

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António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) formou-se em Direito. Depois de exercer funções de magistratura em Castelo de Vide e Elvas, foi nomeado desembargador da Relação do Rio de Janeiro, aí permanecendo entre 1776 e 1789. Voltou ao Brasil em 1890 para julgar os implicados na revolução de Tiradentes, na qual estava implicado o poeta Tomás Gonzaga. Foi um dos fundadores da Arcádia Lusitana em 1756, adoptando o pseudónimo de Elpino Nonacriense. Além de poemas várias, escreveu o Hissope, poema heróico-cómico.

 

 

O HISSOPE

CANTO V

O bom Lara, que havia longo tempo
que nesta santa casa não entrava,
aturdido ficou, quando a seus olhos,
na cerca entrando juntos, se oferecem
as areadas ruas, as estátuas,
os buxos, os craveiros, as latadas
de mil flores cobertas, que de em torno
o virente jardim adereçavam.
E não bem quatro passos tinha dado,
quando, fitando curioso a lente
na estátua que primeira ali se encontra.
pergunta ao jubilado: – «Quem é este
Monsieur Paris, segundo diz a letra,
que por baixo, na base, tem aberta?
Se se houver de julgar pela aparência,
o nome, a catadura, o penteado
dizendo-nos estão que este bilhostre
foi francês e talvez cabeleireiro.
inventor do topete que o enfeita».

– «Páris e não Paris diz o letreiro
(circunspecto lhe volve o padre-mestre).
Nem francês, como crê, cabeleireiro.
a personagem foi que representa,
mas em Tróia nasceu, de estirpe régia».
– «Pois se francês não foi (replica o Lara)
como Monsieur lhe chamam?» C'um sorriso
lhe torna o padre-mestre: – «Não se admire.
que isto está sucedendo a cada passo
ao pé de cada esquina, hoje, sem pejo,
se tratam de monsieurs os Portugueses.
Isto, senhor. é moda; e, como é moda.
a quisemos seguir; e sobretudo
mostrar ao mundo que francês sabemos».

– «De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
ó, padre jubilado, por ventura,
o saber o francês, que disso alarde
fazer quisessem vossas reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
não podiam salvar-se e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
que o francês, para mim, o mesmo monta
que a língua dos selvagens boticudos»

– «Não diga, senhor, tal; que neste tempo,
oh tempos! oh costumes! (diz o padre)
o saber francês é saber tudo.
É pasmar ver, senhor, como um pascácio
de francês com dois dedos, se abalança,
perante os homens doutos e sisudos,
a falar nas ciências mais profundas,
sem que lhe escape a santa teologia,
alta ciência aos claustros reservada.

 

Desta audácia, senhor, deste descoco
que entre nós, sem limite, vai lavrando,
quem mais sente as terríveis consequências
é a nossa português casta linguagem,
que em tantas traduções anda envasada
(traduções que merecem ser queimadas!)
em mil termos e frases galicanas.
Ah! se as marmóreas campas levantando,
saíssem dos sepulcros, onde jazem
suas honradas cinzas, os antigos,
lusitanos varões, que com a pena
ou com a espada e lança a pátria ornaram,
os novos idiotismos escutando.

a mesclada dicção, bastardos termos,
com que enfeitar intentam seus escritos
estes novos ridículos autores,
(como se a bela e fértil língua nossa,
primogénita filha da latina,
precisasse de estranhos atavios!)
súbito certamente pensariam
que nos serões estavam de Caconda.
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
até que, já por fim desenganados
que eram em Portugal, que Portugueses
eram também os que costumes, língua,
por tão estranhos modos afrontavam,
segunda vez de pejo morreriam».
(...)

 

 

SONETO


Corre, já entre serras escarpadas,
Já sobre largos campos, murmurando.
o Tieté, e, as águas engrossando,
soberbo alaga as margens levantadas.

Penedos, pontes, árvores copada:
quanto topa, de cólera escumando,
com fragor espantoso vai rolando
nos vórtices das ondas empoladas.

Mas quando mais caudal, mais orgulhoso,
as margens rompe, cai precipitado,
atroando ao redor toda a campina.

O próprio retrato é dum poderoso,
pois quanto mais sublime é seu estado
mais estrondosa é a sua ruína.

Soneto

Que aziago que foi, que dia infausto

Aquele, em que vi tua formosura!

Em que cheio de amor e de ternura

Esta alma te ofertei em holocausto!

 

Teus olhos m'o fizeram ter por fausto,

Teus belos olhos cheios de doçura,

Mas logo me fez ver minha loucura

Teu peito de rigores nunca exausto.

 

Ai! e quão mesquinho é, quão desgraçado

Aquele, que como as mostras vão se engana

De um angélico rosto sossegado!

 

Pois mil vezes encobre a vista humana

Qual áspide cruel florido prado,

Um coração uma alma desumana.

(Apostila 2 de Arcadismo - Literatura Portuguesa)