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Waly Salomão

Filho de pai sírio e mãe baiana, Waly Salomão nasceu em Jequié, na Bahia, e nos anos 60 aproximou-se de artistas que se identificaram com o movimento tropicalista, como Torquato Neto, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gil e Jards Macalé. No entanto, Salomão nunca se identificou como integrante do movimento estético tropicalista. Poeta e letrista — além de produtor cultural e diretor artístico —, é co-autor de músicas como "Mel" e "Talismã", ambas com Caetano e que viraram título dos discos de Maria Bethânia de 1979 (ultrapassando a marca de 1 milhão de cópias) e 1980, "Anjo Exterminado" (com Macalé, também título do disco de Bethânia de 72), "Mal Secreto" (com Macalé), "Assaltaram a Gramática" (com Lulu Santos, grande sucesso dos Paralamas), "Balada de um Vagabundo" (com Roberto Frejat, gravada por Cazuza), "Pista de Dança" (com Adriana Calcanhotto, gravada pela própria em "Marítimo") e "Vapor Barato" (com Jards Macalé), composta em 1968 e gravada por Gal Costa no disco "Fa-tal" em 1972, que voltou a fazer sucesso em 1995 na trilha sonora do filme "Terra Estrangeira". Ainda na década de 70 desenvolveu a "Morbeza (morbidez + beleza) Romântica", linha pela qual Jards Macalé lançou o disco "Aprender a Nadar". O espetáculo "Fa-tal", marco na carreira de Gal, foi dirigido por Waly. Lançou seu primeiro livro do poemas em 1971, "Me Segura que Eu Vou Dar um Troço", com textos escritos durante uma temporada passada na prisão, paginados e diagramados pelo artista plástico Hélio Oiticica, amigo de toda a vida e de quem escreveu a biografia, "Qual É o Parangolé". No ano seguinte participou da organização e edição de "Os Últimos Dias de Paupéria", coletânea de artigos do poeta e amigo Torquato Neto, morto em 1972. Junto com Torquato fez a revista "Navilouca", que só teve um número mas fez história. Nessa época, passou a assinar como Wally Sailormoon, pseudônimo que logo abandonou. Outros de seus livros foram "Gigolô de Bibelôs", "Surrupiador de Souvenirs", "Algaravias", "Lábia" e "Tarifa de Embarque", lançado em 2000.

 

A morte de Waly Salomão, poeta da Tropicália

O baiano, co-autor de Vapor Barato, tinha 59 anos e tratava-se de um câncer no Rio de Janeiro

Marco Antônio Barbosa

6/05/2003

"(...) Estou tão cansado / Mas não pra dizer / Que estou indo embora". Impossível não se recordar dos versos do clássico Vapor Barato ao se tomar conhecimento da morte, na manhã de ontem (dia 5), de Waly Salomão, poeta, letrista, ator e Secretário Nacional do Livro e da Leitura. Baiano, 58 anos, Salomão estava internado há 12 dias na Clínica São Vicente (RJ), tratando-se de um câncer no intestino. A causa mortis oficial foi a falência múltipla de órgãos, depois que a doença causou metástase para o fígado. Depois do velório, ocorrido na tarde de ontem, no Cemitério São João Baptista, também no Rio de Janeiro, o corpo de Waly será cremado na manhã de hoje (dia 6). À parte sua intensa atuação em vários meios de expressão artística ao longo de mais de três décadas, Waly também foi peça-chave - ainda que não uma figura de proa - no movimento tropicalista, e assinou versos em parceria com compositores como Caetano Veloso, Antônio Cicero, Lulu Santos, Jards Macalé e Adriana Calcanhoto.
Verborrágico, por vezes polêmico e até contraditório, Waly por mais de uma vez negou fazer parte de qualquer movimento - até mesmo da Tropicália, responsável por sua projeção inicial na mídia. Baiano (de Jequié, nascido em 3 de setembro de 1944) como o núcleo dos tropicalistas, sempre foi um homem de letras, escrevendo sob influência da geração concretista de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. A conexão com a turma de Gil, Gal, Caetano e Bethânia se deu através de Hélio Oiticica, cuja instalação Tropicália inspirou Caetano a compor a canção de título homônimo. Amigo e biógrafo de Oiticica (é autor de Qual É o Parangolé, sobre a vida do artista plástico), Waly aproximou-se dos tropicalistas e logo estava tendo poemas seus musicados pela turma.
Sua atuação junto aos tropicalistas foi sendo construída em dupla com sua carreira como escritor. Em 1971 assumiu posto-chave na trajetória de Gal Costa, dirigindo o clássico show Fa-Tal, que tinha como pontos altos duas de suas parcerias com Jards Macalé (Vapor Barato e Mal Secreto), além de Luz do Sol (composta com Carlos Pinto). O show virou disco ao vivo  e trilha sonora oficial do hippieismo pós-tropicalista. À essa altura, Waly já tinha uma recheada lista de canções compostas com Caetano, Torquato Neto e outros. No mesmo ano de 71, lançou seu primeiro livro de poesias, Me Segura que eu Vou Dar um Troço.
Nunca assumindo posição clara em relação à sua influência na Tropicália ("Não me sinto atrelado a qualquer movimento, como se fosse um figurino de época", disse ele certa vez), Waly Salomão atravessou os anos 70 fornecendo canções para os remanescentes da turma baiana. Os Doces Bárbaros (que reunia Caetano, Gil, Gal e Bethânia) gravaram sua Tarasca Guidon; solo, Bethânia transformou várias de suas parcerias com Caetano em sucessos (A Voz de uma Pessoa Vitoriosa, Mel, Talismã). A inquietação artística o levou a buscar desafios em pólos opostos. Também pode ser creditada à Salomão a revelação de Luiz Melodia - foi por sua sugestão que Gal lançou Pérola Negra, primeiro sucesso de Melodia como autor. Nos anos 80, podia tanto trabalhar com Lulu Santos (é deles Assaltaram a Gramática, gravada pelos Paralamas do Sucesso) quanto com Itamar Assumpção (Zé Pelintra), ou então escrever todo um disco, em parceria com Antonio Cícero, para João Bosco gravar (Zona de Fronteira  ).
Fechando um ciclo geracional, Salomão aproximou-se mais recentemente das vozes femininas dos anos 90. Trabalhou com Cássia Eller no show e disco Veneno Antimonotonia, como produtor. Adriana Calcanhoto musicou dois de seus poemas (Pista de Dança e A Fábrica do Poema). Desde janeiro deste ano, tinha nas mãos um novo desafio: a pedido do eterno amigo Gilberto Gil, hoje Ministro da Cultura, aceitou o cargo de Secretário Nacional do Livro e Leitura. Waly queria popularizar e baratear o hábito de leitura do brasileiro. Casado, pai de dois filhos, Salomão preparava-se para lançar em breve mais um volume de poesias.

(Fonte: Clic Music - http://cliquemusic.uol.com.br/br/Acontecendo/Acontecendo.asp?Nu_materia=3985)

Entrevista:

O poeta Waly Salomão, novo secretário nacional do livro, expõe suas metas de trabalho

 

Heloísa Buarque de Hollanda
Professora e editora

 

O poeta Waly Salomão é o novo secretário nacional do livro, integrando a nova equipe do Ministério da Cultura. Sem dúvida, essa equipe, que tomou posse cantando, pega-nos de surpresa e sugere uma gestão promissora pautada pela bandeira da ''Imaginação no poder''. Segundo o poeta, que inicia a nova missão com o espírito cheio de gás e otimismo, seu maior sonho é trabalhar para a divulgação da leitura no sentido da libertação - ''Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro mas sem estar oprimido pela leitura. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria'', falou em entrevista ao Jornal do Brasil. Aqui ele contou sua história desde as primeiras leituras, na casa dos pais, onde livros eram saboreados com entusiasmo e idealismo.

- Qual é o espaço da leitura na sua vida?

- Desde que me entendo por gente, o livro tem uma posição central, como se fosse um ícone dentro de casa. Lembro-me de minha mãe discutindo com meus irmãos e irmãs os dois volumes da velha edição da Editora Globo de Guerra e paz, de Tolstoi. Eles discutiam, com grande entusiasmo, como se estivessem discutindo uma novela mexicana. A personagem da Ana Karenina, por exemplo, era centro de conversa como se ela fosse uma personagem da Glória Perez. Minha tia Etelvina, mulher de Tio Bento, lia sem parar. E eu, que já freqüentava a Biblioteca Pública de Jequié, onde morávamos, tirei para ela a edição de D. Quixote numa tradução bem rococó, de Antônio Feliciano de Castilho. Adorava aquele português rebuscado, com palavras difíceis e decorava trechos enormes do texto. Quando saiu Gabriela Cravo e Canela, compramos logo três volumes, porque todo mundo queria ler e não dava tempo. Minha irmã tinha Os sertões em capa dura e me obrigou a ler. Eu lia tudo o que me caía nas mãos e me fundia com aquelas páginas que me faziam transcender a coisa tacanha, acanhada, da vida em cidade do interior.

- Como se insere o livro na luta pela diversidade cultural?

- No respeito a todos os falares, por exemplo. Não podemos ter um falar único regido por leis gramaticais rígidas. Na Bahia, muitas vezes eu parava e ficava ouvindo um camelô e uma mulher falarem na Ladeira de São Bento. Ficava horas absorvendo aquela verve. Eu detesto é salazarismo, galinha verde de Plínio Salgado, fascismo, generalíssimo Franco. É evidente que você pode ver percepções inusitadas em pessoas carentes da ''sabença'' oficial. Não perceber isso é agir como no leito de Procusto, onde ou você corta a cabeça ou corta o pé porque ele é curto, não cabe o corpo todo. Temos que fazer o corpo inteiro da cultura esplender.

- Vem daí a invenção de seu programa Fome de Livro?

- É claro. Estamos vivendo um momento fecundo com essa capacidade de liderança do Lula, de aglutinar as vontades de um povo na sua diversidade. Aí, com o Fome Zero, um programa justíssimo do Lula, fui percebendo que no Brasil, ao lado da música popular, do pagode, do futebol, que são responsáveis pela ascensão social de setores sem saída, o livro também pode ser, e tem sido, essa alavanca de modificação da posição subalterna das pessoas na sociedade. O Fome de Livro é um projeto complementar, que considera a leitura ferramenta social.

- Você já teve uma experiência com o trabalho em comunidades no Rio, não é mesmo?

- Tive. Sou diretor de Comunicação da ONG Vigário Geral, Afroreggae cultural há muitos anos. O Júnior e o Zé Renato, há quase 10 anos, me viram no Jô Soares uma vez e me procuraram. Vi aquilo como uma coisa muito forte, me integrei logo, sem hesitação. Gosto desses cruzamentos, dessas misturas, intercâmbios.

- Como tais experiências, aliadas à sua militância, relacionam-se com a paixão pela revolução do livro na Secretaria?

- Eu vi em grupos culturais como o Afroreggae de Vigário Geral garotos anêmicos ficando mais alimentados, estimulados, aprendendo coisas, ascendendo socialmente. É por isso que aprendi a ser otimista no meio de um país encalacrado como o Brasil. Por isso não tive medo. Preferi a esperança.

- Você nem hesitou quando o Gil te chamou?

- Nem hesitei. Fui chamado na realidade por João Santana, ligado ao Pallocci, que tinha visto meu desempenho administrativo em Salvador. Essas coisas ou você não topa. Tem de dar total dedicação. É sempre uma experiência enriquecedora.

- Como foi o primeiro dia de trabalho?

- Fui chegando com bastante cautela, precaução, visitando cada setor, tentando apagar até um lado público meu espalhafatoso. Eu obedeço fielmente à liturgia do poder. Ando de paletó, gravata, tudo. Como sou barroco sei que a vida é um teatro. Não adianta ir com a roupa errada, não fazer os usos de tratamento. Entrei querendo entender em minúcia aquele espaço, querendo distinguir quem é o servidor qualificado para formar equipe. Entrei procurando uma conjunção interministerial com os outros poderes.

- E tem muita briga por lá?

- Eu acho muita graça em ver tanta briga pelo Ministério da Cultura, um ministério paupérrimo. Por que será que mesmo assim pessoas brigam por cargos, tiram os tapetes, mandam flechas venenosas para todo lado? Para a chefia da Biblioteca Nacional foi uma guerra de foice como eu nunca tinha visto. De repente, um amigo me soprou o nome do Pedro Corrêa do Lago e essa indicação caiu pra mim como uma perfeição. A gente precisa ouvir muito. É assim que pretendo agir, de uma forma pausada e com o travesseiro me servindo de sibila. Se eu errar, sei que é apenas como parte do percurso para acertar. No caso da Biblioteca Nacional, quero garantir que aquele acervo, além de ser preservado e exposto, tenha a mesma acessibilidade de padrão internacional que você encontra, por exemplo, na Biblioteca do Congresso, em Washington. Pensar a Biblioteca Nacional não como espaço imperial, mas um espaço de utilidade pública, que possa servir à população .

- Você se formou em direito no calor dos anos 60. Nessa época, já era de esquerda? Conhecia os baianos que iam arrasar depois no Rio e em SP?

- Eu convivia com eles todos. O Gil eu conheci ainda no Colégio Central, no clássico. Uma colega de classe, Vânia Bastos, fez uma reunião na casa dela e apareceu um garoto gorducho, tocando violão. Era o Gilberto Gil. Isso era em 1961, 62. Éramos uma esquerda marxista-existencialista, porque líamos Marx, Camus, Sartre e Merleau Ponty, quer dizer, essa encruzilhada de paradoxos. Assisti aos primeiros shows deles, da Bethânia, do Tom Zé. Era uma época de grande fermentação na Bahia.

- E a militância mais diretamente política?

- Participei do CPC baiano, com Geraldo Sarno, Capinan, Tom Zé. A gente levava as peças ou na Concha Acústica do Teatro Castro Alves de Salvador, ou nas favelas nascentes da cidade, como no Nordeste de Amaralina. Eu dava aula sobre Feuerbach de Marx, fazia palestras na faculdade de Medicina. Organizei também um centro de estudos chamado Antônio Gramsci, bem antes de Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder traduzirem Gramsci na capital.

- E depois de 1964?

- Em 1964, o corte foi o mais abrupto possível. Mas foi também nessa época que li Tremor e temor, de Kiekergaard, genial protestante existencialista que contava de repetidos ângulos a história de Abrahão, incumbido por Deus de matar Isaac. Um livro de perspectiva cinética. Fiquei com isso na cabeça. Em volta, as pessoas andavam assombradas, amedrontadas, perdidas. Comecei a olhar outros caminhos. Na vida, se a via fica estreita, você tem de descobrir como seguir. Busquei uma sofrida vereda: a de ultrapassar a província.

- E qual vereda foi essa?

- Decidi vir para o Rio de Janeiro. Era a época em que Caetano já estava explodindo com Alegria alegria e a gente ficava conversando, lendo Clarice Lispector, discutindo Guimarães Rosa, Cinema Novo. Depois Dedé e Caetano me convidaram para ir a SP, e acabei indo morar com eles na Rua São Luiz. Era o auge do tropicalismo, e vivi lá até eles serem presos. Depois ficava entre Rio e SP. Eu escrevia coisas que eu mostrava a todo mundo, mas que ninguém lia. Teve até um texto escrito no Carandiru chamado Apontamentos do Pav 2, que parece um hip hop avant la lettre. Ali representou um momento de deflagração da aventura de escrever. Foi ali que eu me concentrei e me liberei como escritor. Mostrei esse texto para diferentes pessoas, mas ninguém dava retorno. Aí é que entra a figura do Hélio Oiticica, que levou o texto a sério e que, por conta própria, sentou na prancheta e fez uma diagramação especialíssima para o texto, que mais tarde foi apreendida pela polícia, na casa de Rogério Duarte.

- Bem, 40 anos depois de uma história enviesada, com direito a prisões, repressão, milagres brasileiros, e à onda neoliberal, essa mesma geração que você estava descrevendo toma o poder, cantando o sonho como se tivesse sido apenas casualmente interrompida por alguns minutos. Como você vê essa mágica?

- No dia da posse, senti que era a primeira vez no Brasil que acontecia um tipo de posse tão alegre e diversificada. Ali estavam diferentes ângulos, picadas, perspectivas, possibilidades fecundas da cultura brasileira. Nunca acreditei em ''the dream is over''. Sinto-me mais próximo da frase de Shakespeare: ''Somos feitos do mesmo material de que são feitos os sonhos.'' O sonho não pode acabar.

- O sonho é uma metodologia desejável para o bom administrador?

- Eu sou de Virgem. Então muitas vezes a cabeça está nas nuvens e os pés no chão. Quando fui nomeado diretor da Fundação Gregório de Matos, de Salvador, trabalhei pesado. Na minha gestão eu me pautei antes de tudo por um modo de pensar desconfiado da relação do artista com o poder. E em algum tempo minhas habilidades administrativas e de flexibilidade política foram reconhecidas e fui designado Coordenador do carnaval da Bahia. Minha luta foi toda em cima de defender o carnaval não como um fato turístico e pitoresco, mas fundamentalmente como um fato cultural. Nasci e briguei muito na Bahia naquele momento para dar valor aos blocos afros que estavam nascendo, como o afro de Itapuã, Male Debale - esse nome ajudei a dar que significava a Revolução Islâmica do século 19 em Salvador. Ajudei o Olodum, ajudei o Ilê Ayê. Sabia que estava ajudando a representação da maior cidade negra fora da Africa, que é Salvador. Eu digo que tenho experiência administrativa porque o carnaval demandava 7 mil pessoas trabalhando diretamente sob meu comando, e eu chegava mais cedo do que todo mundo, enfrentando os pelegos do carnaval, que me chamavam de estrangeiro, não baiano. Mas fui provando não só que era de Jequié, mas que tinha muito conhecimento da cultura baiana, das populações mais pobres, da população negro-mestiça, intimidade nas festas e nas agruras dos pescadores, das feiras, com o candomblé.

- A idéia da leitura é fundamental. Mas fazer livro no Brasil é muito caro. É aventura economicamente quase inviável. A secretaria vai ter algum projeto nesse sentido?

- Eu já fui um pequeno editor, junto a minha mulher Marta. Tivemos a Editora Pedra Que Ronca. Lançamos o primeiro livro do Caetano, Alegria alegria, e outro livro chamado Baticum de Sônia Lins, a irmã da Ligia Clark. Aí tivemos que fechar. Hoje estou vendo com muito gosto a multiplicação de boas pequenas e médias editoras. Vai chegar o momento em que esse quadro de dificuldades vai ser superado. Vou trabalhar para isso.

- Qual seria o grande gol de sua gestão na secretaria?

- Penso agir com muita dedicação, sonho e catimba, que é uma palavra que vem da África. Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro, mas sem estar oprimido pela leitura. Sonho com o Brasil, nesta gestão Lula, assumindo sua face original e diversificada perante o mundo. O livro pode ajudar nisso. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria.

 

[01/FEV/2003]

Fonte: Jornal de Poesia (http://secrel.com.br/jpoesia/wsalomao.html#heloisa)

 

Devenir, Devir

 

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te. 

Nova Cozinha Poética

Pegue uma fatia de Theodor Adorno 
Adicione uma posta de Paul Celan 
Limpe antes os laivos de forno crematório 
Até torná-la magra-enigmática 
Cozinhe em banho-maria 
Fogo bem baixo 
E depois leve ao Departamento de Letras
Para o douto Professor dourar.

Hoje

O que menos quero pro meu dia
polidez,boas maneiras.
Por certo,
               um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
                e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
                aleatória.

Hoje...

ARTE ANTI-HIPNÓTICA

Espia a flor da aurora que já vem raiando !
Mal a barra do dia rompia
saía pra rua
a caçar trabalho.
Lavrador desempregado
morador de casebre de pau-a-pique
3 cômodos
em Araçatuba
cumpre pena de prisão domiciliar
por furto de luz
do programa de energia rural
para a população de baixa-renda.
4 lâmpadas
sendo que duas queimadas
e uma geladeira imprestável.
Sem dinheiro para pagar a conta
teve o marcador de quilowatts arrancado.
Um compadre compadecido armou o "Gato".
70 anos incompletos.
Não compareceu ao fórum
pois só possuía chinelo
despossuía sapato e roupa decente.


Aqui firma e dá fé um Bertold Brecht de arrabalde:
o sumo do real extraído da notícia do jornal:
....................................................................a arte ilusória
..............................................................................idílica
..............................................................................hipnótica
..............................................................................do fait divers.
 

JARDIM DE ALÁ
 

EMBRIAGUEZ/cesto de caju/ claro de luna/ olor de jasmin/ teto de estrelas.
Recostado nas almofadas, ouve leitura da ata de reunião da célula

OUTROS  QUINHENTOS
 
Abr’olhos !
Apuro juízo e vista :
em matéria de previsão eu deixo furo
futuro, eu juro, é dimensão
que não consigo ver
nem sequer rever
isto porque no lusco-fusco
ora pitombas!
minha bola de cristal fica fosca
mando bala no escuro
acerto tiro na boca da mosca
outras tantas giro a terra toda às tontas
dobro o Cabo das Tormentas
rebatizo-o de Boa-Esperança
e nessa espécie de caça ao vento leviano
vou pegando pelo rabo
a lebre de vidro do acaso.
Por acaso,
em matéria de previsão só deixo furo
- o juízo e a vista apuro -
futuro, juro, d’imensidão q ignoro
abr’olhos
vejo bem no claro
turvo no escuro
minha vida afinal navega taliqual
caravela de Cabral
um marinheiro enfia a cara na escotilha
um grumete na gávea ziguezagueia e berra
sinal
        de terra, terra ignota à vista !
tanto faz Brasil, Índia Ocidental Índia Oriental,
 

ó sina, toucinho do céu e tormento,
ó fado, amo e odeio
o vira, a volta e o volteio
                                        da  sinuca
                                       da sempre mesma
                                                                               d
                                                                              a
                                                                             n
                                                                            ç
                                                                           a
                                                                           -
                                                                          l
                                                                         e
                                                                        s
                                                                       m
                                                                      a
                                      da sinuca-de-bico vital.
Açorda !
Vatapá !

VAPOR BARATO
( WALLY SALOMÃO / JARDS MACALÉ )

Oh Sim, Eu Estou Tão Cansado
Mas Não Pra Dizer Que Eu Não Acredito Mais Em Você
Com Minhas Calças Vermelhas, Meu Casaco De General
Cheio De Anéis, Eu Vou Descendo Por Todas As Ruas
Eu Vou Tomar Aquele Velho Navio
Eu Não Preciso De Muito Dinheiro
E Não Me Importa Honey
Baby, Baby, Honey Baby

Oh Sim, Eu Estou Tão Cansado
Mas Não Pra Dizer Que Estou Indo Embora
Talvez Eu Volte, Um Dia Eu Volto
Mas Eu Quero Esquecê-La, Eu Preciso
Oh! Minha Grande Oh! Minha Pequena
Oh! Minha Grande, Minha Pequena Obsessão
Eu Embora Naquele Velho Navio
E Não Me Importa, Honey
Baby, Baby, Honey Baby...