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Tom Zé

(Irará BA, 1936)

Fez curso de Música na Universidade Federal da Bahia entre 1963 e 1967. Na época, já trabalhava como cronista dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Bahia, nos quais colaborou até 1988. Em 1965 participou como ator, compositor e cantor nas peças Arena Canta Bahia, com direção de Augusto Boal, no Teatro Arena (SP), e Rock Horror Show, dirigido por Rubens Correia, no Teatro da Praia (RJ). Entre 1967 e 1969 integrou o movimento Tropicalista, com Caetano Veloso, Torquato Neto, Gilberto Gil e Gal Costa, entre outros. Em 1968 ganhou o Prêmio Viola de Ouro no Festival de Música da TV Record,  com a canção “São São Paulo, Meu Amor”, e o quarto lugar com a canção “2001”, parceria com Rita Lee. Nos anos seguintes dedicou-se à intensa produção cultural, lançando álbuns e realizando shows pelo país. Em 1993 fez os shows de abertura do Festival Internacional de Teatro de Londres (Inglaterra) e da exposição de Hélio Oiticica no Walker Art Centers de Minneapolis (EUA), além de show no Museu de Arte Moderna de Nova York (EUA), onde foi convidado do evento Artistas Século XX. O cancionista Tom Zé absorveu em sua obra influências da Literatura de Cordel e do Movimento Concretista; participante do Tropicalismo, criou uma das obras mais originais da canção popular brasileira.

 

IDENTIFICAÇÃO
     (Tom Zé) Ed. Irara (Trama)
    Produzido por Tom Zé
    Gravado ao Vivo no Campus da USP - 2003

Identificação
Identificação
RG 1231232 São Paulo
CIC 743748747-00
ISS 1231558-06
INPS 452749-748
Ordem dos Músicos do Brasil 0840 Bahia
CGC 958.74210000-001
Títulos protestados, 7
Impulsos de medo, 1.106
Sintomas neuróticos, 36
Horas semanais de catequização pela TV, 16
Ôô, 16, êê, 16, ôô, 16, êê, 16
Impulsos de amor, de amor, 3
Propaganda consumida, 1.106
Alegrias, alegriazinhas espontâneas, 2
Idas ao banheiro para atividades diversas, 36
Ôô, 36, êê, 36, êê, 36, êê, 36
Tempo de vida previsto para o cidadão
Tempo de vida previsto para o cidadão
600 mil horas de vida, de vida, de vida
Abatimento pelo consumo de alimentos envenenados
Refrigerantes, remédios e enlatados, 1.125 horas
Abatimento pelo desgosto que se padece
Naquela filado INPS, 1.125 horas
Abatimento por ficar só no desejo
Daquela mulher bonita que aparece na propaganda
de cigarro, 1.125 horas
Pelo medo de doenças incuráveis
Como cólera, câncer e meningite, ê ê ê
1.125 horas
Abate aqui
Abate ali
Abate isto
Abate aquilo
E jaz pela cidade
Um zumbi sem sepultura
Classificado, numerado
É o cidadão bem-comportado

 

A BRIGA DO EDIFÍCIO ITÁLIA E DO HILTON HOTEL
(TOM ZÉ)

O Edifício Itália
era o rei da Avenida Ipiranga:
alto, majestoso e belo,
ninguém chegava perto
da sua grandeza.
Mas apareceu agora
o prédio do Hilton Hotel
gracioso, moderno e charmoso
roubando as atenções pra sua beleza.

O Edifício Itália ficou enciumado
e declarou a reportagem de amiga:
que o Hilton, pra ficar todo branquinho
toma chá de pó-de-arroz.
Só anda na moda, se veste direitinho
e se ele subir de branco pela Consolação
até no cemitério vai fazer assombração
o Hilton logo logo respondeu em cima:
a mania de grandeza não te dá vantagem
veja só, posso até ser requintado
mas não dou o que falar
Contigo é diferente,
porque na vizinhança
apesar da tua pose de rapina
já andam te chamando
Zé-Boboca da esquina

E o Hilton sorridente
disse que o Edifício Itália
tem um jeito de Sansão descabelado
e ainda mais, só pensa em dinheiro
não sabe o que é amor
tem corpo de aço,
alma de robô,
porque coração ele não tem pra mostrar
Pois o que bate no seu peito
é máquina de somar.

O Edifício Itália sapateou de raiva
rogou praga e
até insinuou que o Hilton
tinha nascido redondo
pra chamar a atenção
abusava das curvas
pra fazer sensação
e até parecia uma menina louca
Ou a torre de Pisa
vestida de noiva

 

A CHEGADA DE RAUL SEIXAS E LAMPIÃO NO FMI  
 (Tom Zé)
Gênero: baiãolenda
ARRASTÃO DE CANÇÃO FOLCLÓRICA E DO ESTILO TROVADOR NORDESTINO
Ed. Irará (Trama) 70274730

É Raul, Raul, Raul,
É Raul Seixas, é Lampião
Chegaram no FMI
Que nem tentou resistir

É Raú, Raú, Raú,
Lampião não anda só
Trouxe Deus e o diabo
Raul, a terra do sol

Lampião com o clavinote
Raul trouxe o Ylê Ai Ê
Tiraram os colhões do rock
Enrabaram o iê-iê-iê.

Chegaram na Casa Branca
Os dois de carro-de-boi
Tio Sam fugiu de tamanca
Ninguém viu para onde foi

Wall Street fechou
E a ONU não deixou pista
O presidente jurou
Que sempre foi comunista

Mano Brown disse a Raul
O dinheiro a gente investe
No Banco Carandiru
Xingu, favela e Nordeste

Todo-poderoso e rico
O grande senhor dali
Cagou-se, pediu pinico
Aflito, fora de si

Pois o FMI
Viu que não tinha mais jeito
E entregou todo o dinheiro
Para o pobre dividir

E o mundo se viu diante
De grande felicidade:
Trabalho pra todo o dia
Comida pra toda a tarde

Mas entre os países pobres
Não houve fazer acordo
Para dividir os cobres
E a guerra pegou fogo

TRECHOS DE LETRA INCOMPLETA: SUGESTÃO PARCERIA

Mas chegou Renato Russo
De Belém trouxe Fafá
E ela só trouxe um busto
Pra Ásia toda mamar

Nesse dia moribundo
O FMI se fechou
E o povo inteiro do mundo
Sofrido comemorou

 

AUGUSTA, ANGÉLICA E CONSOLAÇÃO 
     

Augusta, graças a Deus,

graças a Deus,

entre você e a Angélica

eu encontrei a Consolação

que veio olhar por mim

e me deu a mão.

Augusta, que saudade,

você era vaidosa,

que saudade,

e gastava o meu dinheiro,

que saudade,

com roupas importadas

e outras bobagens.

Angélica, que maldade,

você sempre me deu bolo,

que maldade,

e até andava com a roupa,

que maldade,

cheirando a consultório médico,

Angélica.

Quando eu vi

que o Largo dos Aflitos

não era bastante largo

ora caber minha aflição,

eu fui morar na Estação da Luz,

porque estava tudo escuro

dentro do meu coração.

 

BOTARAM TANTA FUMAÇA  
     

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

Botaram tanto lixo

por baixo da consciência da cidade,

que a cidade

tá, tá tá tá tá

com a consciência podre,

com a consciência podre.

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

Botaram tanta fumaça

por cima dos olhos dessa cidade,

que essa cidade

tá, tá tá tá tá

está com os olhos ardendo,

está com os olhos ardendo.

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

botaram tanto metrô e minhocão

nos ombros da cidade,

que a cidade

tá, tá tá tá ta.

Está cansada,

sufocada,

está doente,

tá gemendo

de dor de cabeça,

de tuberculose,

tá com o pé doendo,

está de bronquite,

de laringite,

de hepatite,

de faringite,

de sinusite,

de meningite.

Está, se...

ta tá tá tá tá

com a consciência podre.

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

botaram tanta preocupação

nos miolos da cidade

que a cidade

tá, tá tá tá tá

está de cuca quente.

 

Marcha Partido  
(TOM ZÉ)   

Com um beijo na vanguarda
e uma palmada na retaguarda
do bebê bumbum de anjo
e a política 
petife patifo patifa patifa patifafafá

E o PMDB padece patifa patifa fafá
no colo do PDS patifa patifa fafafá
o PTB percebeu patifa patifa fafafá
mas o PDT quer deter
se apetece ao PT ter poder
pode ser, pode não ser

Segura o pé, neném 
porque na política do amor
só tem sufrágio direto
aqui também quem decide a eleição
é o voto do analfabeto.

 

Catecismo, Creme Dental e Eu
      (Tom Zé)   


Vou morrer nos braços da asa branca,
No lampejo do trovão
De um lado ladainha,
Sem soluço e solução.

Nasci no dia do medo
Na hora de ter coragem
Fui lançado no degredo
Diplomado em malandragem

Caminho, luz e risco,
Aflito,
Xingo, minto, arrisco, tisco,
E por onde andei
Eu encontrei o bendito fruto em vosso dente,
Catecismo de fuzil
E creme dental em toda a frente.

Pois um anjo do cinema
Já revelou que o futuro
Da família brasileira
Será um hálito puro.

Nasci no dia do medo, etc. etc.

Pinta -la - inha
Da cana vintinha
Mandei dizer pro meu amor
Faça a cama na varanda
E não esqueça o cobertor

Não quero ser cantador
Só fazer valentia
Também gasto heroísmo
Nos braços de uma Maria.
Nos braços de uma Maria.

 

Classe Operária   
(TOM ZÉ)       

Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,

que vai defender a classe operária,

salvar a classe operária

e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado

não há nenhum operário no palco

talvez nem mesmo na platéia,

mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,

que procurem seu lugar, com sua ignorância,

porque Tom Zé e seus amigos

estão falando do dia que virá

e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,

todos os operários vão ser demitidos,

talvez até presos,

porque ficam atrapalhando

Tom Zé e o seu público, que estão cuidando

do paraíso da classe operária.

Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas,

mesmo que elas não entendam seus desígnios.

E assim,, depois de determinar

qual é a política conveniente para a classe operária,

Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes

e com o sentimento de culpa aliviado.

 

 

Fliperama
     (by Tom Zé )

Flip, flip, flip
Filip, flip, filip, filip, flip
Flipé - pépé - pépé - pépé

Rará - rará - rará - rará
Rará - rará - rará - rá
Râ - mamá - mâma - mamá - mamá
Fliperama

 

O louco comandante Flip 
com a sua moedinha
quer fazer uma guerra na Terra

Oferece um caminhão e o seu cinturão
Que para a batalha não falha.
E no quarto faz com ela
A terceira arruela 
Do amor que tem a violência,
Com o pirulito da ciência - á - á - á 
Com o pirulito da ciência - á - á
Pelo pirulito da ciência - â - â 
Pelo pirulito da ciência - â
Apelo.

 

Jimmy, Renda-se

Guta me look mi look love me

Tac sutaque destaque tac she

Tique butique que tique te gamou

Toque-se rock se rock rock me

Bob Dica, diga,

Jimi renda-se!

Cai cigano, cai, camóni bói

Jarrangil century fox

Galve me a cigarrete

Billy Halley Roleiflex

Jâni chope chope chope chope

Ô Jâni chope chope

Ie relê reiê relê

 

LÍNGUA BRASILEIRA
     (Tom Zé) Ed. lrara (Trama)
     Produzido por Jair Oliveira

Quando me sorris,
Visigoda e celta,
Dama culta e bela,
Língua de Aviz...

Fado de punhais,
Inês e desventuras,
Lá onde costuras,
Multidão de ais.

Mel e amargura,
Fatias de medo,
Vinho muito azedo,
Tudo com fartura.

 

Cravos da paixão,
Com dores me serves,
Com riso me pedes
Vida e coração,
Vida e coração.

Babel das línguas em pleno cio,
Seduz a África, cede ao gentio,
Substantivos, verbos, alfaias de ouro,
Os seus olhares conquistam do mouro.

Mares-algarismos,
Onde um seu piloto
Rouba do ignoto
Almas e abismos.

Verbo das correntes
Com seu candeeiro
Todo marinheiro
Caça continentes.

E o gajeiro real,
Ao cantar matinas,
Acha três meninas
Sob um laranjal.

Última das filhas,
Ventre onde os mapas
Bordam suas cartas
Linhas Tordesilhas,
Linhas Tordesilhas.

Em nossas terras continentais
A cartomante abre o baralho,
Abismada vê, entre o sim e o não,
Nosso destino ou um samba-canção.

 

O ABACAXI DE IRARÁ
(RIBEIRO -TOM ZÉ - PERNA)

Minha terra é boa,
plantando dá
o famoso abacaxi de Irará.
Minha terra é boa,
plantando dá
o famoso abacaxi de Irará.

Moça emperrada namora
e o noivo não quer casar
se apega ao bom Santo Antônio
e o noivo este ano ainda vai pensar...

Falou véio
dá um chá de abacaxi
de Irará
que é pro noivo se animar.

Minha terra é boa
plantando dá
o famoso abacaxi de Irará.

Véio viúvo com setenta anos
ainda quer casar
Pergunto pra ele o segredo
e peço pra me contar.

Falou o veio:
Vá comendo abacaxi
de Irará
que você vai se animar.

 

Parque Industrial 
      (Tom Zé)  

Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação.

Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção.

Tem garota-propaganda
Aeromoça e ternura no cartaz,
Basta olhar na parede,
Minha alegria
Num instante se refaz

Pois temos o sorriso engarrafado
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil.
Porque é made, made, made, made in Brazil.

Retocai o céu de anil, ... ... ... etc.

A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar.

É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado,
É somente folhear e usar,
É somente folhear e usar.

 

São São Paulo
     (Tom Zé)  

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

São oito milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Correndo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Gaseados a prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo o centro da cidade
Armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
O palavrão reprimido
Um pregador que condena
Um festival por quinzena
porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Santo Antonio foi demitido
E os ministros de Cupido
Armados da eletrônica
Casam pela tevê
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor.