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Moacy Cirne

Moacy Cirne, poeta e cangaceiro, nasceu em Jardim do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, em 1943. Tendo se mudado para Caicó, cidade vizinha, em 1945, aprendeu a ler com O Tico-Tico e a se interessar por literatura através da Edição Maravilhosa, da EBAL. Torcedor do Fluminense (RJ) e do ABC (RN), morou em Natal e hoje reside no Rio de janeiro, fevereiro e março. Publicou seu primeiro livro em 1970: "A explosão criativa dos quadrinhos".

Antes, em 1967, participara da fundação do poema/processo. Ingressou na Universidade Federal Fluminense, no Departamento de Comunicação Social, em 1971. Entre seus livros de poesia,"Objetos verbais" (1979), "Cinema Pax" (1983), "Docemente experimental" (1988), "Continua na próxima" (1994) e "Rio Vermelho" (1998). Edita a "folha porreta" Balaio desde 1986.

 

 

A PRAÇA

 

joão da paraíba oferece a alguém,
com
muito
amor
e carinho,
"lábios que beijei", na voz de orlando silva

 

NÃO BEBA

ESTE POEMA

você
pode
virar
um

VAMPIRO

 

RECOMEÇO

Sei do sonho:

procuro tua sombra na

penumbra

da memória líquida

e nada encontro.

A lua não é vermelha

não é violeta

não é verdecoisa

mas

os loucos da madrugada

anunciam as primeiras águas da manhã.

Sei do sonho?

Tua sombra pagã

é um corpo que me foge

das mãos cansadas de espantos

e abismos.

A árvore sonolenta

anoitece os meus delírios.

Não te vejo na claridade

do silêncio.

O sol é um pássaro ferido

na solidão

de meus gestos de meus gritos

e a hora cruviana

é uma graviola

grávida

de aromas e carnes

pronta para ser saboreada.

Sei.

Não foi um sonho.

Como encontrar,

então,

na

arquitetura fluvial

de meus quereres,

as linhas

e curvas

de teu corpo barrento-canela?

Ah, não! Ah, sim!

Existe

um

grande sertão

nas veredas da minha paixão.

E eu sei do sonho.

Procuro tua sombra líquida

e nada encontro.

A lua não é verdeluã

mas

tua sombra pagã

anoitece os meus delírios.

Como encontrar,

sol e solidão,

a arquitetura colonial

de teu corpo fluvial?

Como encontrar,

no silêncio de meus gritos,

tua sombra teus aromas tuas carnes?

Sim,

não.

 

 

Tua memória vermelha

é uma sombra grávida

de morenezas e reentrâncias

azuis.

Docemente azuis.

Barrentas e azuis.


POEMA FINAL

o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.
olha para o fim do mundo

e nada vê.
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados,

o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.

será
que os sinos
dobrarão por ele?