ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Mário Chamie

(Cajobi SP, 1933)

Fez o curso de Direito entre 1952 e 1956. Seu primeiro livro de poesia, Espaço Inaugural, foi lançado em 1955. Seguiram-se O Lugar (1957) e Os Rodízios (1958). Em 1962, publicou Lavra Lavra, que instaurou o "poema-praxis"; o livro recebeu o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. No mesmo ano, fundou a revista Praxis. Realizou, em 1963, conferências sobre a nova literatura brasileira na Itália, Alemanha, Suíça, Líbano, Egito e Síria. Também fez palestras sobre problemas da vanguarda artística nas universidades de Nova York, Colúmbia, Harvard, Princeton, Wisconsin e Califórnia, nos Estados Unidos, em 1964. Recebeu, em 1977, o Prêmio de Poesia, pelo livro Objeto Selvagem, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Entre 1979 e 1983 foi Secretário Municipal de Cultura de São Paulo SP, atuando na criação da Pinacoteca Municipal, do Museu da Cidade de São Paulo e do Centro Cultural São Paulo. Sua obra poética inclui os livros Now Tomorrow Mau (1963), Planoplenário (1974), Objeto Selvagem (1977), Natureza da Coisa (1993) e Caravana Contrária (1998), entre outros. Mário Chamie é um dos principais nomes da tendência de vanguarda surgida no final dos anos de 1950, como dissidência do Concretismo: a poesia-práxis. Para a crítica Nelly Novaes Coelho, "altamente consciente da revolução da linguagem que se vinha operando na poesia brasileira desde as conquistas de 22, Chamie assume-a como 'revolução do conhecimento' e como 'consciência política'.".

 

O OPERÁRIO

3.

— Sobre os meus ombros
     recebo a carga
     e chego à fábrica.
     Com minha farda,
     limpa de graxa,
     eu movimento
     o descompasso
     da vossa estrada.
     Agito a máquina,
     registro a marca
     de meu trabalho.
     Sobre os meus ombros
     nada desaba.
     Produzo o tempo,
     produzo o uso
     dos meus comparsas.
     Não danço,
     embora mexa meu corpo
     que vai e volta.
     Mexo meus braços,
     seguro a mola
     que me assalta
     atrás da porta
     da vossa tática.

 

OS DARDOS DA PALAVRA

 

Os boiardos

não são

os goliardos,

mas usam

as mesmas

armas do seu passado:

uns atacam

com as armas

dos seus dardos,

outros com o dardo

de suas palavras

de enfado.

 

Frente a frente,

boiardos e goliardos

não são clementes

com os seus

dardos trocados.

Nem rangem

os dentes

se se cruzam

em seus caminhos

outros cruzados

e suas armas

para cima e para os lados.

 

Apenas,

perto ou distantes,

com seus exércitos

montados,

boiardos e goliardos

são os cossacos

constantes

de nossos futuros passados.

 

Nobreza de Hermógenes

Hermógenes guardava selos,
estranhas marcas do seu passado.
Erguia contra a luz
finos prefis do sobressalto.

No sono,
sua efígie ficava entre o soluço
e o susto.
Sua heráldica de brasões
e moedas cunhadas dormia
entre os achados que já perdia.

Hermógenes colava selos
no álbum da memória.
(Mesmo os de vagos palácios
e castelos, seus fantasmas).

Um dia perdeu-se a estampa
de sua estirpe em sua Casa.
No sonho,
um guia de capa e espada
abriu as portas de sua morada:
- nenhuma pista, nenhum vestígio
por entre urnas, colchões
rasgados, arcas sob as escadas.

Hermógenes guardava selos.
Hoje só guarda a casaca
de aristocrata
entre a estampa do seu sigilo
e os portões do seu asilo
sem cão de guarda.

 

Forca na força

1.

a palavra na boca

na boca a palavra: força

a força da palavra força

a palavra rolha fofa

 

a rolha fofa sem força

a palavra em folha solta

 

a força da palavra forca

a palavra de boca em boca

 

na boca a palavra forca

a palavra e sua força