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Leila Miccolis

(Rio de Janeiro RJ 1947)

Formou-se bacharel em Direito no Rio de Janeiro RJ, em 1969. Na época, já havia publicado os livros de poesia Gaveta da Solidão (1965) e Trovas que a Vida Rimou (1967). Nas décadas seguintes, produziu poemas, romances, ensaios, comédias e roteiros para televisão. Entre 1975 e 1993 teve poemas publicados em várias antologias, entre as quais 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda. Participou de atividades com grupos feministas e homossexuais, através dos jornais Lampião e Auê, entre 1979 e 1981. Fundou, nas décadas de 1980 e 1990, as editoras Trote e Blocos. Em 1997 publicou o livro de haicais Estalos, em co-autoria com Urhacy Faustino, e Sangue Cenográfico, este sendo a neunião de todos seus livros até 1997 exceto o De 4 (1990), com prefácios de Ignácio Loyola Brandão, Heloisa Buarque de Hollanda, Gilberto Mendonça Teles e Nélida Piñon. Ignácio, no prefácio diz: "Nenhum poeta brasileiro me toca tanto, me reserva uma emoção, uma agressão, me apunhala, me deixa com vergonha das coisas que os homens fazem. Tem vezes que seus textos me lembram a crueldade com que Dalton Trevisan, na prosa, trata seus personagens". Sua obra poética inclui os livros Mercado de Escravas (1984), Só Se For a Dois (1990) e Sob o Céu de Maricá (1999), entre outros. A poesia de Leila Míccolis é de tendência contemporânea e tematiza, com freqüência, a condição feminina.

 

 

A Seco

Tem coisas que a gente só diz de porre,
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez,
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose afetiva.

 

Arte Marajoara (II)

Salgado por chorar há tanto tempo
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.

 

De Volta Para o Presente

(Parte única - soneto indivisível...)

Hipólita, Antíope ou simples colona,
temíveis perigos, feliz, desafio,
mostrando a potência do meu poderio,
dos campos, senhora, dos píncaros, dona,

pois sou tua eterna e soberba Amazona,
com arco e com flecha, inclusive no cio,
num louco galope, em fatal desvario,
por ínvios caminhos que surgem à tona...

Aquiles, Teseu, o que queres que sejas,
em mim acharás o que tanto desejas:
um misto de gozo, ternura e esplendor,

por ser a Amazona das tuas florestas,
libertas, profundas, reais, manifestas,
sem fim cavalgando os sertões deste amor.

 

Em Órbita

(Para o show de Tereza Tinoco)

Com você
quero todas as intimidades
de um amor escandalosamente carnudo,
sobretudo imperfeito,
que seja capaz de fazer
eles morderem a boca de despeito
e nós lambermos os beiços de prazer.
Com você
quero um amor que não precisem devassar
porque é claro e transparente;
daí ameaçar a tanta gente
pesada,
que não sabe flutuar
nem libertar-se da seriedade.
Com você
quero um amor tão à vontade
que muito mais leve que o ar
possa desafiar a lei da gravidade...

 

Janela Tridimensional

Quem é vivo sempre aparece;
mas dependendo do morto
ocorre o mesmo processo:
os poetas que eu mais amo
entram sempre em minha casa
pela porta dos seus versos.

Aos independentes ausentes: Torquato Neto, Henrique do
Valle, Violeta Formiga, Geraldo Alverga, Barrozo Filho,
Paulo Veras, Ana Cristina, Batista Jorge, Tony Pereira,
Touchê, Cleide Veronesi, Cacaso, Leminski, João Carneiro,
Severino do Ramo, Francisco Igreja.

 

Plano de Vôo

Deixar de encarar nossos sentimentos
como fraquezas,
cheios de defesas e sigilos,
incomodados e culpados por senti-los,
para que nossos planos emocionais
aflorem em níveis
cada vez mais pessoais
... e transferíveis.

 

Vã filosofia...

Falas muito de Marx,
de divisão de tarefas,
de trabalho de base,
mas quando te levantas
nem a cama fazes...

 

Prós e contras

Defendemos a ecologia.
Mas engolimos sapos
todo dia.

 

Confissão

Dizem que o amor é cego,
não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelas e as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...

 

NOVA INQUISIÇÃO

Minha fama é negra,
sou mau elemento;
censurarão meus versos
pra servir de exemplo?

 

PESSOAL E INTRANSFERÍVEL

Chegou a “Pequena Notável”,
de bolso, sou descartável;
mas não se deixe enganar
com o que eu posso aparentar:
se nos frascos pequeninos
há os perfumes mais finos,
é também neles que vemos
os mais terríveis venenos...
Não tenho nenhum complexo,
transo tudo, até em sexo,
eu gosto de ser assim,
ninguém esquece de mim...
Gasto pouco com feijão,
com roupa, e na condução,
— se o trocador não bronqueia —,
eu às vezes pago meia...
Por fim, tenho outra vantagem:
eu caibo em qualquer bagagem.
E quem se atreve e se enleva
vê que sou leve e me leva...
Assim, por mais que eu ande,
com minha miudez eu venho sempre a aprender
que ninguém precisa ser gente grande.
Precisa é SER!

 

SEREIA, JANAÍNA, IEMANJÁ

Vem meu veleiro navegar-me lendas
que abro oceanos nunca desbravados,
as portas líquidas dos meus reinados,
e armo de pérolas as nossas tendas...

 

Vê-me a nudez – afasta as alvas rendas,
que encontrarás tesouros afundados;
só que talvez, pra teres tais agrados,
ao mar pra sempre tua vida prendas.

 

Se mesmo assim o novo lar não temes,
se não recuas, e se ainda gemes,
por meu amor, sedento de paixão,

 

cheia de luzes, colorida amante,
eu verde, azul, e em brilhos deslumbrantes,
refratarei-me em tuas redes-mãos.