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Jorge Mautner

Henrique George Mautner, o Jorge Mautner, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 17 de Janeiro de 1941. Filho de pai judeu vienense, foi descoberto em 1958 pelo poeta Paulo Bonfim e o filósofo Vicente Ferreira da Silva, que publicaram um texto seu na revista Diálogo.

Mautner é multimídia. Além de conhecido compositor e cantor, com sucessos gravados por vários nomes da MPB, entre eles: ("O Vampiro" com Caetano Veloso); ("Maracatu Atômico" com Gilberto Gil); ("Filho Predileto de Xangô" com Celson Sim); ("Lágrimas Negras" com Gal Costa); ("Samba dos Animas" com Lulu Santos); ("Rock Comendo Cereja" e "Samba Jambo" com Jongê); ("Orquídia Negra" com Zé Ramalho), Jorge Mautner é interprete, tendo participações em songsbooks e shows em homenagem a Ismael Silva, Wilson Batista e Noel Rosa.

Como se não bastasse, Jorge Mautner é também conhecido e conceituado escritor, tendo recebido o prêmio Jabuti de literatura na ocasião de seu primeiro livro, chamado "Deus da Chuva e da Morte".

O Jorge não fica só aqui, ele também é diretor de cinema, como no filme, longa metragem, "O Demiurgo" de 1970.

 

Tarado
Caetano Veloso / Jorge Mautner

Gosto de ficar na praia deitado
Com a cabeça no travesseiro de areia
Olhando coxas gostosas por todo lado
Das mais lindas garotas, também das mais feias
Porque são todas gostosas e sereias
Pro meu olhar de supremo tarado
Tarado.

 

Maracatú Atômico
Nelson Jacobina / Jorge Mautner

Atrás do arranha-céu, tem o céu, tem o céu
E depois tem outro céu sem estrelas
Em cima do guarda-chuva , tem a chuva, tem a chuva
Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

No meio da couve-flor, tem a flor, tem a flor
Que além de ser uma flor tem sabor
Dentro do porta-luva, tem a luva, tem a luva
Que alguém de unhas negras e tão afiadas esqueceu de pôr

No fundo do para-raio, tem o raio, tem o raio
Caiu da nuvem negra do temporal
Todo quadro-negro, é todo negro, é todo negro
E eu escrevo o seu nome nele só pra demonstrar o meu apego

O bico do beija-flor, beija a flor, beija a flor
E toda a fauna a flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte, tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico, maracatu atômico

O bico do beija-flor, beija a flor, beija a flor
E toda a fauna a flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte, tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico, maracatu atômico

 

Urge Dracon
Jorge Mautner

Urge dracon
Ave cesar
Urge dracon
Ave cesar

Magnificus, supremus, augustus
Divinus, superbus, vitalicius
Professor, diktator, imperator
Professor, diktator, imperator
Evoé colofé

Salve o nosso guia
Pro que der e o que vier
Salve o nosso guia
Jorge mautner

 

Ou o mundo se brasilifica
Ou vira nazista
Jesus de nazaré
E os tambores do candomblé

 

Homem Bomba
Jorge Mautner / Caetano veloso

Lá vem o homem bomba
Que não tem medo algum
Porque daqui a pouco
Vai virar egun

Lá vem o homem bomba
Que não tem medo algum
Porque daqui a pouco
Vai virar egun

Mas até lá, mata um, mata dois
Mata mais de um milhão
Não vai deixar sobrar nenhum
Mas eu sou contra essa ideologia da agonia
Sou a favor do investimento
Pra acabar com a pobreza
Sou pelo estudo e o trabalho em harmonia
O amor e o cristo redentor
Poesia na democracia

 

Conde Drácula (Blue Chinês)

(Jorge Mautner)

Na noite mais sombria

Das sombras da lua morna

Saio do castelo na hora mais tardia

E vagueio no meio do som de veludo

Do conteúdo sem forma

No buraco negro da noite mais escura

Se esconde sem mácula

A figura da criatura do Conde Drácula

Sou um rei que canta no meu retiro

Tenho cabelos ruivos da cor do fogo mais insano

Por isso sei, sou vampiro

E canto feito lobo bo.....bo

Porque aaaa...moooo

 

Encantador de Serpentes

(Jorge Mautner)

Sobe cobra, a cobra tem que subir

Sobe cobra, mas ela não quer subir

Lá na Índia todo mundo sabe é mandinga do faquir

Saber tocar a flauta e fazer a cobra subir

Por isso eu toco essa guitarra e tento conseguir

Um jeito, uma manobra de fazer subir a cobra

Um jeito, uma manobra de ver subir a cobra

 

O Relógio Quebrou

(Jorge Mautner)

O relógio quebrou

E o ponteiro parou

Em cima da meia-noite, em cima do meio-dia

Tanto faz porque depois de um vem dois, e vem três e vem quatro

E eu fico olhando o rato

Saindo do buraco do meu quarto

E você de bonezinho caiu de lado

Fazendo cena de cinema, cena de teatro

Com seu charme de Wanderléa (Gal Costa, Greta Garbo)

Seu jeitinho de Babyvit

Sacou o meu recado?

 

Samba dos Animais

(Jorge Mautner)

O homem antigamente falava com a cobra, o jabuti e o leão

Olha o macaco na selva. Aonde? Alí, no coqueiro

Não é macaco baby! É o meu irmão!

Porém durou pouquíssimo tempo esta incrível curtição

Pois o homem rei do planeta logo fez sua careta

E começou a sua civilização. Agora já é tarde

Ninguém nunca volta jamais, o jeito é tomar esse foguete

É comer desse banquete para obter a paz-aquela paz

Que a gente tinha quando falava com os animais

Quém, Quém, Quém, que a gente tinha quando falava com os animais

Oinc, oinc, oinc, que a gente tinha quando falava com os animais

Miau, miau, miau, que a gente tinha quando falava com os animais

Mu, mu, mu, que a gente tinha quando falava com os animais

 

Vampiro

(Jorge Mautner)

Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder

E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr

E eu sinto aquela coisa no meu peito

Eu sinto aquela grande confusão

Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando porque é que eu faço as coisas assim

E a noite de verão ela vai passando, com aquele seu cheiro louco de jasmim

E eu fico embriagado de você

Eu fico embriagado de paixão

No meu corpo o sangue não corre, não, corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canação cantando todo o amor que eu sinto por você

Você ficava escutando impassível e eu cantando do teu lado a morrer

E ainda teve a cara de pau

De dizer naquele tom tão educado

"Oh! pero que letra más hermosa, que habla de un corazón apasionado"

Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto

E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro

Por isso é bom não se aproximar

Muito perto dos meus olhos

Senão eu te dou uma mordida que deixa na sua carne aquela ferida

Na minha boca eu sinto a saliva que já secou

De tanto esperar aquele beijo, ai, aquele beijo que nunca chegou

Você é uma loucura em minha vida

Você é uma navalha para os meus olhos

Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia

 

Prosa:

(trechos de livros)

Fundamentos do Kaos
"Kaos = tensão dramática, enlouquecedora, purificadora, da existência. Tensão que aumenta sempre, tensão contraditória com estados de alma os mais opostos e diversos, convergindo sempre para uma tensão maior e para uma ampliação maior dos opostos em intensidade e fúria, aumentando assim a intensidade da tensão. Sado-masoquismo, depois um supra sado-masoquismo, e depois um supra-supra sado-masoquismo, e assim por diante, cosciência-intuição, razão-irracional, triste-alegre, luz-escuridão, Yang-yin, tudo aumentando sem cessar, em intensidade e fúria, aumentando assim a tensão que une os opostos em crescimento contínuo, crescimento que inclui recuos, mortes, não-crescimentos, assassinatos."

 

Miséria Dourada
"Sim, desde 1958, ano que estreei como escritor e compositor, poeta e pensador, nesta terra de Pindorama, que as lágrimas me vêm aos olhos, e quase me afogam e só param de rolar da minha face quando, como agora, consigo comunicar este escândalo de sofrimento e proclamá-lo aos quatro cantos do universo, para que alguém me ouça, quem sabe outros seres humanos que comigo e conosco decidam modificar para sempre este horror."

 

Fragmentos de Sabonete e Outros Fragmentos
"Quem não presta são as desilusões do tédio sem remédio! O resto, nem tem bosta nem resposta! Você gosta? De levitar? Ou apenas zanzar em Zanzibar? Vieram aqui de mil lugares e a triste-tristeza uivou e urrou! Despedaçam-se os lares. Milenares e totais. Eu sou o teu ardor. De tardes e alardes de alardeador! A liberdade completa é um eterno curtir nas centrais do coração. É preciso ter coragem para realizar e perceber que em Persépolis e em Bagdá a torre de Babel era o papai-noel do pobres."

 

Mitologia do Kaos - Obras Completas (comentário acerca da obra)
Obra literária completa de Jorge Mautner. Não é à toa que o autor, desde seu primeiro livro, em 1962, afirmava que só uma leitura global da obra possibilitaria sua correta compreensão. Ao contrario de escritores cujos livros são independentes, Jorge mautner pertence à gama de autores que, na recorrência e dissonância, na síntese e no paradoxo, criam uma obra contínua, una e interligada. mais que proteus, o deus capaz de se transformar em qualquer forma, a quem é recorrentemente comparado pela sua capacidade e facilidade de uso de diversas mídias, jorge assemelha-se ao carvalho de Heidegger, permanecendo em suas transformações. Essas obras completas são um documento no sentido mais rico do termo. Não só pelo seu valor poético e artístico, mas pelo valor histórico, de relato pessoal de momentos e personagens marcantes destes últimos 50 anos, feitos por um artista sempre atento e perspicaz.