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Jayro Luna

(1960)

O webdesigner destas apostilas e páginas de Internet. Ouso me colocar aqui, entre tantos e grandes poetas e escritores. Afinal de contas, a página é minha e se a gente não se dá o valor, quem dará?

Formei-me em Letras pela PUC-SP em 1986. Fiz mestrado em literatura brasileira (FFLCH/USP, 1997) com a dissertação Retórica da Poesia Épica Brasileira: De Bento Teixeira à Sousândrade, e o doutoramento em literatura portuguesa (FFLCH/USP, 2002) com a tese José de Almada Negreiros, poeta: Do Futurismo e do Sensacionismo à Poética da Ingenuidade. Como poeta, na década de 80 publiquei fanzines e plaquettes de poesia marginal. Mais recentemente os livros de poesia Infernália Tropicalis (1999), Florilégio de Alfarrábio (2001) e Manual Secreto de Rapsodomancia (no prelo, 2005). Como estudioso e crítico de literatura, os livros de ensaios Monografias de Literatura, Teatro, Comunicação e Semiótica (1998), Participação e Forma (2001) e Caderno de Anotações (no prelo, 2005). Fui duas vezes vencedor do concurso Projeto Nascente/Cadê o seu talento? (USP/Abril, 1991 e 1992) na categoria livro de poesia. Minha poesia chafurda nas águas das vanguardas poéticas do século XX (Futurismo, Cubismo, Surrealismo, Dadaísmo, Concretismo) e na reinvenção de formas da tradição (soneto, baladas, odes). A intertextualidade se desenvolve por meio de paródias, paráfrases, alusões, citações. A contracultura e a beat generation compõem o panorama final.

 

 

A Obra de Arte Na Época de suas Técnicas de

Reprodução (Hipótese Estética).

Para Walter Benjamim e Antero de Quental

 

Já não sei quanto vale a nova arte

Quando a vejo nas galerias rifadas,

Turva de aspecto, à luz fotografada,

Como chocante pós-tudo encarte...

 

Sonolento meu olhar se esvai destarte,

Respira fumo e logo embriagada

A artista de alma vasta e agitada

Desfaz-se dos últimos baluartes...

 

Nossa era irritada e virulenta

Chama à glossolalia experimento,

Verbo ao ruído de fragmentos e caos...

 

Mas a Arte é no mundo insustentável,

Num céu volátil de ordem fractável...

Tu, sentimento, não és mar, és nau... 9;

 

Farenheit 451

 

Fogo! Fire! Queimarão todos os livros!

Ardem nas ruas as odes, albas, liras!

Quando o saber é subversivo, a ira

Louca em trevas lança a alma dos vivos!

 

O inferno de Dante, o Uivo, a Ilíada!

Bombeiros incendiando uma Odisséia;

A magia dos Tiranos: sua panacéia!

Sopra Adamastor as letras lusíadas!

 

Cante Menestrel! Pé na estrada, Hippie!

Guarde uma estória ulisseida leitor,

Pois se amanhã calar-te o ditador,

 

Às ocultas, numa das últimas trips

De segunda, foges para a floresta,

Qual Montag, cante sua canção de gesta!

 

Gotham City

 

Mas é preciso ser batman em gotham city,

É preciso ler gibi antigo e desfolhado,

Sendo morcego, não ser vampiro, ser beat,

Besouro caindo nos ouvidos deflorados.

 

Mas é preciso ser batman em gotham city,

Roncando o motor turbinado do bat-carro,

Gostar de Liszt, saber tudo e tudo cite!

Tomar copos de leite e não fumar cigarro!

 

Sendo o batman enfrento o coringa e o pingouin,

A sensual mulher gato que me arranha as pernas

E o peito e declara estranha paixão por mim!

 

Ter sempre ao meu lado um Robbin longe a tavernas;

É preciso ser batman em gothan city enfim,

Pra a luta ao som do rock, morar em caverna!

 

Body Modification

 

Tatto tribal nas costas: Poeta Maldito!

A ferro e fogo marca-se a pele em dor!

Suportar a dor e o medo, soltar o grito!

Ser diferente, ser estranho, ser senhor

De mim mesmo, de meus signos e de meus sonhos...

Body piercing na língua, no verbo, na voz...

Se à hipertrofia do lóbulo me imponho,

É para marcar o que ouço na alma veloz...

Pocketing fulgurante marca-me os braços

Chifres implantados na testa a profanar

As visões do paraíso e dos anjos sem traços!

Jóias, alargadores, barbells, tudo usar

Para dizer ao Mundo quem eu sou e o que penso

Que se encontra em mim um amor em ira imenso!

 

Poema Concreto Pau-Brasil

9; A Oswald, Macunaíma, Ronald, Blaise, Tarsila e Pagu.

“porque o mundo namorado / he lá, senhor, outro mundo / que esta além do Brasil” Gil Vicente.

“Nem o canhão ribomba, que assinale / Que este Dia ao Brasil é consagrado. / Só o escritor ressoa / de turbulento povo, indiferente / Da Pátria minha à glória.” Gonçalves de Magalhães.

“Festa na mesa do horizonte / eis a paisagem que eu fitava: / pontas de estrela, arcos e flora / postos na terra, entre as estátuas.” Ledo Ivo.

 

v e r d e a m a r e

l o v e r d e a m a

r e l o v e r d e a

m a r e l o v e r d

e a m a r e l o v e

r d e a m a r e l o

v e r d e a m a r e

l o v e r d e a m a

r e l o v e r d e a

m a r e l o v e r d

e a m a r e l o v e

Catetinho, Brasília, 07/09/2000.

 

 

O Capitão Crunch Contra O Gigante dos Portões

9; A Wosniak, Bill Gates, Linus Torvalds

I

Salve! Salve!

O Capitão Crunch

Vem voando pelos céus

Entre torres e fios de telefone,

Lá vem o herói ao léu

Com sua caixa azul

Que emite sons dissonantes

E de Norte a Sul

Nos traz informações intrigantes!

Salve! Salve!

O Capitão Crunch

Vem chegando para nos dizer

Do que sua caixa azul

É capaz de fazer!

II

Seu infiel escudeiro,

Ozzy já aprendeu

A construir sua própria caixinha

E agora também

Segue o herói

Pela terra inteirinha

Pousando como andorinha

Nos fios de telefone...

III

Mas eis que o herói

É chamado a viajar

Até ao sistema solar de Altair

E lá vai o herói

Buscando entender

Como Altair é diferente

De tudo que ele

Já havia visto pela frente!

IV

Mas no Clube Homebrew,

Os fazedores de cerveja

Estão brindando agora, veja,

Ao novo brinquedinho

Que inventaram...

Os amigos do clube descobriram

Que não é preciso bat-caverna

Nem ser agente da Uncle

Ou James Bond

Para poder ter um computador

E ficam a inventar joguinhos

Em seus pcs!

Juntaram isto à caixa azul do Ozzy

E agora pelos fios de telefone

Sem descanso e insones

Correm idéias

Que giram mais que disco no gramophone!

V

O Gigante dos Portões do Inferno

Insatisfeito com essa bonança

Destituído de temperança

Resolve, depois dum último gole no falerno,

Cercar o clube e atacar os amigos do Herói...

Até o quatro-olhos do Mitnick

Que brincava de inventar senhas

E sonhava voar num sputinik

Foi ver o Sol nascer quadrado

Foi levar lenha

Foi engavetado!

Cerceados da liberdade que constrói

Tanto como a criatividade, os caubóis

Chamam a ajuda de Altair

Para livrar o clube prestes a ruir!

VI

Lá vem o Capitão Crunch

Com sua caixa azul

Lançando raios dissonantes

Buscando um novo tom

Buscando num rompante

Derrubar o temível Gigante!

Numa feroz batalha virtual

A terra treme e é um sinal

Que se chega à luta final

Luta entre o bem relativo

E o transparente mal...

VII

Depois daquela lida feroz

Num épico ao estilo homérico,

Mas Homero era cego

E acho que ele nem existiu,

Depois daquele instante histérico,

Dos lances mais feéricos,

Que um novo mundo surgiu

Não, não nego,

E agora todos podem

Voar pelos céus,

Navegar pelos mares,

Pousar nos fios ao léu,

Viajar pelo mundo

Sem sair dos lares!

VIII

Mas o Gigante dos Portões do Inferno

Derrotado, humilhado

Pelo grande herói, Capitão Crunch

Preparou sua revanche

E trancado às margens do Cocito,

Olhando para a luz de uma vela,

Tem a feliz idéia

De inventar uma máquina

Cheia de janelas,

E como a Máquina do Mundo de Tétis

Leva todo mundo ao Letes,

A botar a cara nas janelas

Para ver que tudo cabe numa cela!

 

 

 

Notas: Os tipos que compõem este poema foram xerocopiados a partir das seguintes obras:

1) – Homero. Ilíada, tradução de Manuel Odorico Mendes, p. 275, Clássicos Jackson, vol. 21.Rio de Janeiro, W.M. Jackson Editores inc., Rio de Janeiro, 1952.

2) – James Joyce. Ulisses, trad. Antônio Houaiss, p. 683. São Paulo, Abril, 1983.

3) – Carlos Drummond de Andrade. Obra Completa, org. Afrânio Coutinho, p. 135. Rio de Janeiro, Aguilar editora, 1967.

4) – Revista Portugal Futurista, capa. Lisboa, Novembro, 1917.

5) – Luís de Camões. Os Lusíadas, 1.ª edição, capa, 1572.

6) – Revista Klaxon, capa. São Paulo, Brasil.

7) – Homero. Odisséia, trad. Manuel Odorico Mendes, p. 219, Biblioteca clássica, vol. 34, 2.ª ed. São Paulo, Atena, 1957.

8) – Décio Pignatari. Poesia Pois É Poesia, poema "Organismo". São Paulo, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1977.

9) – Goethe. Fausto, trad. Jenny Klabin Segall, p. 43. Belo Horizonte, Itatiaia, 1981.

10) – Umberto Eco. O Nome da Rosa, trad. Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, 11.ª edição. São Paulo, Nova Fronteira, 1983.

11) - Mário Faustino. Poesia Completa, p. 305. São Paulo, Max Limonad, 1985 (trata-se da tradução do poema de Bertolt Brecht, "Na Die Nachgeborenen", p. 304, op. Cit.)

12) - Raul Bopp. Cobra Norato e Outros Poemas, coleção Vera Cruz, vol. 168, p. 40. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 12.ª edição, 1978.

13) - Gonçalves Dias. Coleção Nossos Clássicos, p. 36, v. 18, poema "I – Juca Pirama". Rio de Janeiro, Agir, 13.ª edição, 1989.

14) – Paulo Leminski. Distraídos Veceremos, p. 87. São Paulo, Brasiliense, 1984.

15) – Homero. Ilíada, ibidem, p. 277.

16) – Gregório de Matos. Poemas Escolhidos, org. José Miguel Wisnik, p. 58. São Paulo, Cultrix, s.d.

17) – João Cabral de Melo Neto. Antologia Poética, p. 9. Rio de Janeiro, José Olympio, 1979.

18) – Augusto de Campos. Viva Vaia, poema "Rever". São Paulo, Duas Cidades, 1979 (a letra "v" a seguir é do mesmo poema).

19) – Poesia Russa Moderna. Vários Autores, trad. Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, poema de Vassili Kamienski, p. 65, 2.ª edição. São Paulo, Brasiliense, 1985. (Veja também a letra "p" invertida, retirada do mesmo poema).

Demais letras do poema são da separata "Um Coup de Dés Jamais N’Abolira le Hasard". Stéphane Mallarmé. Col. Signos, vol. 2, Mallarmé, trad. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. São Paulo, Perspectiva, 1974.