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Haroldo de Campos

(São Paulo SP, 1929 - idem 2003)

Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1952, mesmo ano em que fundava, com Augusto de Campos e Décio Pignatari, o Grupo Noigandres, de poesia concretista. Em 1956 e 1957 participou do lançamento oficial da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ. Em 1958, publicaria  o Plano-Piloto Para Poesia Concreta, com Augusto de Campos e Décio Pignatari. Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, crítico e teórico literário, além de Professor Titular do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Literatura na PUC/SP. Em 1992 foi laureado com o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano; em 1999 o Prêmio Jabuti de Poesia foi conferido para seu livro Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um (1998). Considerado o "mais barroco" dos concretistas, Haroldo de Campos tem sua obra poética intimamente ligada ao movimento. A crença em uma “crise no verso” o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.

 

HIERÓGLIFO PARA MÁRIO SCHENBERG

 

o olhar transfinito do mário

nos ensina

a ponderar melhor a indecifrada

equação cósmica

 

cinzazul

semicerrando verdes

esse olhar

nos incita a tomar o sereno

pulso das coisas

a auscultar

o ritmo micro -

macrológico da matéria

a aceitar

o spavento della materia (ungaretti)

onde kant viu a cintilante lei das estrelas

projetar-se no céu interno da ética

 

na estante de mário

física e poesia coexistem

como asas de um pássaro -

espaço curvo -

colhidas pela têmpera absoluta de volpi

 

seu marxismo zen

é dialético

e dialógico

 

e deixa ver que a sabedoria

pode ser tocável como uma planta

que cresce das raízes e deita folhas

e viça

e logo se resolve numa flor de lótus

de onde

- só visível quando damos conta -

um bodisatva nos dirige seu olhar transfinito.

 

***

céu: pistilos

faíscas do sagrado
sob um ponteiro de diamante

escrever no vidro
sentenças de vidro

in
visíveis

 

Transideração

Ungaretti Conversa com Leopardi 

 

 

Um leão: ruivando arde — 

na voz do leão — Leopardi 

(céu noturno em Recanati) 

virando constelação: 

Odi, Melisso... E o leão 

resgata a um fausto de estrelas 

caídas, a lua jamais cadente 

e a Ursa, magas centelhas. 

Depois, o leão (a Leopardi 

tendo dado o que lhe cabe) 

passa a medir o infinito 

ou desmedi-lo: ao longe 

daquela estrela (tão longe) 

ao longe daquela estrela. 

 

Fragmento de Galáxias:

isto não é um livro de viagem pois a viagem não é um livro de viagem pois um livro de viagem quando muito advirto é um baedeker de epifanias quando pouco solerto é uma epifania em baedeker pois zimbórios de ouro duma ortodoxia igreja russobizantina encravada em genebra na descida da route de malagnout demandando o centro da cidade através entrevista visão de cidadevelha e canais se pode casar porquenão com os leões chineses que alguém que padrefrade viajor de volta de que viagem peregrinagem a orientes missões ensinou a esculpir na entrada esplanada do convento de são francisco paraíba do oirte na entrada empedrada refluindo de oito bocas de portasportais em contidos logo espraiados degraus estendais de pedra e joão pessoa sob a chuva de verão não era uma ilha de gauguin morenando nos longes paz paraísea num jambo de sedas e cabelos ao vento pluma plúmea no verão bochorno e sentado num café

 

 

 

circuladô de fulô

 

 

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

soando como um shamisen e feito apenas com um arame
tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no
pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na
palma espalma da mão coração exposto como um nervo
tenso retenso um renegro prego cego durando na palma
polpa da mão ao sol circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol  circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu

 

Provença : Motz e L. Son

 

contra uma luz 

sem falha 

 

o olho 

se esmeralda 

 

 

o olho 

(contra uma luz 

sem falha) 

se esmigalha 

 

o olho de esmeralda 

à luz: migalha 

 

(que esmigalha) 

 

e concrescia a luz 

som de cigarra

Rima Petrosa - 1

uma bruteza

límpida

que em nada se detém

 

uma crueza

lâmina

que se apaga em ninguém

 

uma lindeza

nítida

que a si mesma sustém

 

uma ingênua fereza

feita só de desdém

 

uma dura candura

que nem loba que nem

 

uma beleza absurda

sem porquê nem porém

 

um negar-se tão rente

que soa um shamisen

 

uma causa perdida

um não vem que não tem

 

 

âmago do ômega

no 
        
             â     mago   do   ô     mega 
                                 um olho 
                                 um ouro                                                  
                                 um osso 
sob 
           essa     pe(  vide de vácuo) nsil 
           pétala  p a r p a d e a n d o   cilios 
                        pálpebra 
            amêndoa         do vazio pecíolo: a coisa 
              
da coisa 
            da coisa 
 

                                   um duro 
                            tão oco 
                            um osso 
                            tão centro 

                                                    um corpo 
                                cristalino         a corpo 
                                 fechado em seu alvor     

Z

ero 
     ao 
ênit

                                 nitescendo ex-nihilo