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Chacal

Ricardo de Carvalho Duarte

(Rio de Janeiro RJ 1951)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Muito Prazer, Ricardo, em 1971. No ano seguinte colaborou na revista Navilouca e publicou seu livro/envelope Preço da Passagem. Passou a integrar, em 1975, a coleção literária Vida de Artista, com Cacaso, Eudoro Augusto, Francisco Alvim, entre outros; ainda em 1975 foi lançado seu livro América. De 1976 a 1977 foi integrante do grupo Nuvem Cigana, com Bernardo Vilhena e Ronaldo Bastos, entre outros poetas. Formou-se bacharel em Comunicação pela UFRJ em 1977. Entre 1978 e 1983 foi co-autor das peças teatrais Aquela Coisa Toda, com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone e Recordações do Futuro, com o grupo Manhas & Manias. Na década de 1980 trabalhou como cronista do Correio Brasiliense e da Folha de S. Paulo, além de roteirista da TV Globo. Nos anos de 1990 foi produtor do Centro de Experimentação Poética - CEP 20000, da Rioarte, coordenador de oficinas de poesia na UERJ e no Parque Lage e editor da revista O Carioca. Sua obra poética inclui Nariz Aniz (1979), Boca Roxa (1979), Comício de Tudo (1986) e Letra Elétrika (1994). O poeta Paulo Leminski afirmou sobre a obra de Chacal, que é de tendência contemporânea: "A palavra 'lúdico' é a chave para a poesia de Chacal". Leminski também via nos poemas de Chacal a presença  "da Poesia Concreta, das letras de música popular, do mundo industrial e urbano que se abateu, irremediavelmente, sobre nós."

 

 

Papo de Índio

Veiu uns ômi di saia preta

cheiu di caixinha e pó branco

qui eles disserum qui chamava açucri

aí eles falarum e nós fechamu a cara

depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo

aí eles insistirum e nós comemu eles.

 

Reclame

se o mundo não vai bem

a seus olhos, use lentes

... ou transforme o mundo.

ótica olho vivo

agradece a preferência

 

20 anos recolhidos

chegou a hora de amar desesperadamente

apaixonadamente

descontroladamente

chegou a hora de mudar o estilo

de mudar o vestido

chegou atrasada como um trem atrasado

mas que chega

 

Ai de mim, aipim.

ai de mim, aipim.

ô inhame, a batata é uma puta barata. deixa

ela pro nabo nababo que baba de bobo. transa

uma com a cebola.

aquele hálito? que hábito! me faz chorar.

então procura uma cenoura.

coradinha, mas muito enrustida.

a abóbora tá aí mesmo.

como eu gosto de abóbora.

então namora uma.

falô. vou pegar meu gorrinho e sair poraí pra

procurar uma abóbora maneira

té mais, aipim

té mais, inhame

 

Na porta lá de casa

Na porta lá de casa

tem dizendo lar romi lar

uma bandeira de papel

na porta lá de casa

as crianças passam

e se atiram no chão

e se olham por dentro

das bocas das palavras

na falta de qualquer espelho

na porta lá de casa

passa o amor o calor

de cada um que passa

na porta lá de casa.

 

Ponto de bala

os mortos tecem considerações

os tortos cozem quietos

as crianças brincam

e bordam desconsiderações

 

Prezado Cidadão

Colabore com a Lei

Colabore com a Light

mantenha luz própria.

 

Primeiro eu quero falar de amor

meu amor se esparrama na grama

Meu amor se esparrama na cama

meu amor se espreguiça

meu amor deita e rola no planeta.

 

Rápido e Rasteiro

Vai ter uma festa

que eu vou dançar

até o sapato pedir pra parar.

aí eu paro

tiro o sapato

e danço o resto da vida.

 

Verão

Revoada

cabeleiras cambalache

andarilha

na trilha do sol.

 

Bermuda Larga

muitos lutam por uma causa justa
eu prefiro uma bermuda larga
só quero o que não me encha o saco
luto pelas pedras fora do sapato

 

Caleidoscópio Cinemascope

a vida é um cristal
que se reflete em pedaços
a vida como ela é
é a coleção dos cacos

vi um filme que Aladim
da lâmpada tirava um gênio
ele era James Dean
que tinha a cabeça a prêmio

eu parti do Irajá
passando por Paraty
eu ainda chego lá
até onde quero ir

vi um filme que Fellini
fez num ensaio de orquestra
tinha tiro de canhão
e acabava numa festa

se no mato me perdi
nesse mato me acharei
entre mais de mil picadas
numa delas sou o rei

eu vi Deus e o diabo
dançando na terra do sol
Glauber Rocha era o máximo
tão bom quanto rock-and-roll

minha estrada é um filme
cheio de amor e ódio
pra onde quer que me vire
cinemascope caleidoscópio

 

Espere, Baby

espere baby não desespere
não me venha com propostas tão fora de propósito
não acene com planos mirabolantes mas tão distantes

espere baby não desespere
vamos tomar mais um e falar sobre o mistério da lua vaga
dylan na vitrola dedo nas teclas
canto invento enquanto o vento marasma

espere baby não desespere
temos um quarto uma eletrola uma cartola
vamos puxar um coelho um baralho e um castelo de cartas
vamos viver o tempo esquecido do mago merlin
vamos montar o espelho partido da vida como ela é

espere baby não desespere
a lagoa há de secar
e nós não ficaremos mais a ver navios
e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida
e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim

espere baby não desespere
porque nesse dia soprará o vento da ventura
porque nesse dia chegará a roda da fortuna
porque nesse dia se ouvirá o canto do amor
e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite
com estampidos perdidos.

 

Fogo-Fátuo

ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel

se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia

ela pensa que eu sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se estouro sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia.

 

Vamp

a rua escura deserta
acelera o desejo
eu piso fundo no mundo
com o farol aceso

uma sirene: polícia
no retrovisor
não sei se é paranóia
ou se sou infrator

em cada curva fechada
espero pelo pior
estranho cheiro de sangue
ninguém ao redor

no carro, o rádio anuncia
mais um assassinato
vejo seu corpo na esquina
paro o carro e salto

como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim

um dia seu nome é Ana
no outro dia Janette
o tempo todo na cama
afiando a gilete

só sai na rua se for
em busca de uma brisa
e quando o dia começa
você corre da polícia

a vida inteira agitou
e hoje vive no vício
um vai e vem, entra e sai
na porta do edifício

seu veneno é cruel
seu olhar, assassina
me queimo no seu calor
seu coração de heroína

como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim

você só quer aplicar
você não quer nem saber
você só sabe iludir
você espalha o terror

 

Ginga Genipapo

 

aquela guitarrinha ranheta

debochada disbocada

my generation

satisfaction

 

aquela mina felina

cuba sarro cocaína

do you wanna dance

don’t let me down

 

aquela ginga genipapo

elástica solta rasteira

i’m free

like a rolling stone

 

aquela ginga genipapo

cheiro de porrada no ar

street fighting man

jumping jack flash

 

aquele som de fuder

orelhas pra que ti quero

who knows

straight ahead