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Capinan

José Carlos Capinan

(Esplanada BA, 1941)

Iniciou os cursos de Direito e Artes Cênicas na Universidade Federal da Bahia, mas não chegou a conclui-los. Em 1962, trabalhava como jornalista no Jornal da Bahia, quando teve poemas publicados na antologia Violão de Rua, organizada pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Em 1965 ocorreu a apresentação, no Rio de Janeiro, de sua peça Pois É, com Torquato Neto e Caetano Veloso, interpretada por Gilberto Gil, Vinicius de Moraes e Maria Bethânia, no Teatro Opinião. No ano seguinte, sairia seu livro de poemas Inquisitorial. Em 1967 e 1968 integrou o movimento tropicalista, e compôs com Gilberto Gil a canção Soy Loco por Ti, América. Foi vencedor do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967, com a canção Ponteio, parceria com Edu Lobo. Poeta, compositor, roteirista, produtor, Capinan foi um dos criadores do Tropicalismo, e em sua obra estão presentes as preocupações sociais e políticas características do movimento.

 

 

Bandeira de Brasil

Terra
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.

Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.

Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.

Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.

 

Canção de Minha Descoberta

Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.

Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.

Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.

As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.

 

No Coração da Saideira

Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar

 

O Poeta

O poeta não mente. Dificulta.
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.

Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.

O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.

O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)

O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.

A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.

É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.

O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.

 

Ponteio

Era um, era dois, era cem
era o mundo chegando e ninguém
que soubesse que eu sou violeiro
que me desse amor ou dinheiro
era um, era dois, era cem
e vieram pra me perguntar
ô você de onde vai, de onde vem
diga logo o que tem pra contar
parado no meio do mundo
pensei chegar meu momento
olhei pro mundo e nem via
nem sombra, nem sol, nem vento
quem me dera agora
eu tivesse a viola pra cantar, ponteio

(refrão)

Era um dia, era claro, quase meio
era um canto calado, sem ponteio
violência, viola, violeiro
era noite em redor, mundo inteiro
era um que jurou me quebrar
mas não me lembro de dor ou receio
só sabia das ondas do mar
jogaram a viola no mundo
mas fui lá no fundo buscar
se tomo a viola eu ponteio
meu canto não posso parar, não

(refrão)

Era um, era dois, era cem
era um dia, era claro, quase meio
encerrar meu canto já convém
prometendo um novo ponteio
certo dia que sei por inteiro
eu espero não vai demorar
este dia estou certo que vem
digo logo que vim pra buscar
correndo no meio do mundo
não deixo a viola de lado
vou ver o tempo mudado
e um novo lugar pra cantar
(refrão)

 

Soy Loco Por Ti, America

Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira