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Augusto de Campos

(São Paulo SP, 1931)

Formou-se em Direito na Universidade de São Paulo, em 1953 , mesmo ano em que compôs a série de poemas em cores Poetamenos, primeira manifestação da poesia concreta brasileira. Na época, ele já integrava o Grupo Noigandres, do qual fora fundador, com Décio Pignatari e Haroldo de Campos.  Em 1956 e 1957, participaria do lançamento oficial da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ; em 1958, publicaria o Plano-Piloto para Poesia Concreta, em co-autoria com Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Nos anos seguintes, publicou estudos críticos e teóricos, além de traduções e poesia. Em 1984, iniciou sua produção de poemas em computador e novos meios tecnológicos. Suas obras poéticas mais recentes são Despoesia e Poema Avulso (1994). Poeta fundador do movimento concretista, Augusto de Campos utiliza recursos visuais, acústicos, de movimento e de disposição espacial dos versos em diferentes suportes de leitura para propor uma nova sintaxe estrutural para a poesia.

 

 

Diálogo a Dois

 “A Angústia, Augusto, esse leão de areia”

Décio Pignatari

  

A Angústia, Augusto, esse leão de areia 
Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos 
E que desdenha a fronte que lhe ofertas 
(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos) 
E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, 
É o Morto que se fecha em tua pele? 
O Expulso do teu corpo no teu corpo? 
A Pedra que se rompe dos teus pulsos? 
A Areia areia apenas mais o vento? 

A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, 
Esse leão de areia digo este leão 
(Ah! O longo olhar sereno em que nos empenhamos, 
Que é como se eu me estrangulasse com os olhos) 
De sangue: 
Eu mesmo, além do espelho. 

 

 

O Vivo

Não queiras ser mais vivo do que és morto. 
As sempre-vivas morrem diariamente 
Pisadas por teus pés enquanto nasces. 
Não queiras ser mais morto do que és vivo. 
As mortas-vivas rompem as mortalhas 
Miram-se umas nas outras e retornam 
(Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) 
Para amassar o pão da própria carne. 
Ó vivo-morto que escarnecem as paredes, 
Queres ouvir e falas. 
Queres morrer e dormes. 
Há muito que as espadas 
Te atravessando lentamente lado a lado 
Partiram tua voz. Sorris. 
Queres morrer e morres.  

 

Pós Tudo

 

 

Sim

 

sim

poeta

infin

itesi

(tmese)

mal

(em tese)

existe

e se mani-

(ainda)

festa

nesta

ani

(triste)

mal

espécie

que lhe é

funesta

 

se

tem

fome

come

fama

como

cama

leão

come

ar

 

al

moço

antes

doce

do

intes

tino

fino

ao

gr

osso

 

mais

baixo

que

o

lixeiro

que

cheira

a

lixo

mas

ao

menos

tem 

cheiro

o

poeta

lagartixa

no

escuro

bicho

inodoro

e

solitário

em

seu

labor

atório

sem

sol

ou

sal

ário 

 

 

poesia concreta: um manifesto

- a poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras com meros veículos indiferentes, sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabu com que a convenção insiste em sepultar a idéia.

- o poeta concreto não volta a face às palavras, não lhes lança olhares oblíquos: vai direto ao seu centro, para viver e vivificar a sua facticidade.

- o poeta concreto vê a palavra em si mesma - campo magnético de possibilidades - como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coraação: viva.

- longe de procurar evadir-se da realidade ou iludí-la, pretende a poesia concreta, contra a introspecção autodebilitante e contra o realismo simplista e simplório, situar-se de frente para as coisas, aberta, em posição de realismo absoluto.

- o velho alicerce formal e silogístico-discursivo, fortemente abalado no começo do século, voltou a servir de escora às ruínas de uma poética comprometida, híbrido anacrônico de coração atômico e couraça medieval.

- contra a organização sintática perspectivista, onde as palavras vêm sentar-se como "cadáveres em banquete", a poesia concreta opõe um novo sentido de estrutura, capaz de, no momento histórico, captar, sem desgaste ou regressão, o cerne da experiência humana poetizável.

- mallarmé (un coup de dés-1897), joyce (finnegans wake), pound (cantos-ideograma), cummings e, num segundo plano, apollinaire (calligrammes) e as tentativas experimentais futuristasdadaistas estão na raíz do novo procedimento poético, que tende a imporse à organização convencional cuja unidade formal é o verso (livre inclusive).

- o poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de funções.

o núcleo poético é posto em evidencia não mais pelo encadeamento sucessivo e linear de versos, mas por um sistema de relações e equilíbrios entre quaisquer parses do poema.

- funções-relações gráfico-fonéticas ("fatores de proximidade e semelhança") e o uso substantivo do espaço como elemento de composição entretêm uma dialética simultânea de olho e fôlego, que, aliada à síntese ideogrâmica do significado, cria uma totalidade sensível "verbivocovisual", de modo a justapor palavras e experiência num estreito colamento fenomenológico, antes impossível.

- POESIA-CONCRETA: TENSÃO DE PALAVRAS-COISAS NO ESPAÇO-TEMPO.

(publicado originalmente na revista ad - arquitetura e decoração, são paulo, novembro/dezembro de 1956, n° 20)

 

Poemóbiles, "Abre" (acima) e "Incomunicable" (abaixo)

Morituro

Código

Greve, página inferior.

Pop Olho

Pó do Cosmos

Psiu

Reflete

Tensão

Tudo está dito