ORFEU SPAM APOSTILAS

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Arnaldo Antunes

(São Paulo SP 1960)

Cursou Linguística na Universidade de São Paulo - USP, mas não chegou a concluir a faculdade; em 1980 já fazia parte da banda Performática, com a qual lançaria um álbum em 1981. No ano seguinte passaria a integrar o grupo de rock Titãs, cujos sete álbuns ganhariam vários discos de ouro e platina. Em 1983 sairia seu álbum de poemas visuais Ou E; seguiram-se várias participações em exposições, como Poesiaevidência, na PUC/SP e  Palavra Imágica, no MAC/USP. Em 1992 lançou o  vídeo, livro e cd Nome, projeto multimídia com poesia, música e animação em computador. Em 1995 saiu o cd Ninguém; em 1996, foi a vez do cd O Silêncio, com participação de Carlinhos Brown e Chico Science. Dois anos depois, lançou o cd Um Som. Seu último livro, 40 Escritos (2000), é uma coletânea de  artigos, prefácios e releases de CDs.  A obra poética de Antunes, influenciada pelo concretismo de Haroldo e Augusto de Campos e pelos hai-kais de Paulo Leminsky,  explora sons, imagens, movimento, e questiona as convenções linguísticas ao utilizar a linguagem de novas mídias na construção de seus versos.

 

 

[Estou cego a todas as músicas,]

Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.

 

As Coisas

As coisas têm peso,
massa, volume, tama-
nho, tempo, forma, cor,
posição, textura, dura-
ção, densidade, cheiro,
valor, consistência, pro-
fundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço, desti-
no, idade, sentido. As
coisas não têm paz.

 

Dorme

PÁRA-RAIO, DORME
TEMPORAL, DORME

VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME

AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME

TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME

LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME

SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME

CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME

CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME

CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME

PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME

AMANHÃ, DORME

 

Imagem

 

palavra

 

paisagem

 

contempla

cinema

 

assiste

cena

 

cor

 

enxerga

corpo

 

observa

luz

 

vislumbra

vulto

 

avista

alvo

 

mira

céu

 

admira

célula

 

examina

detalhe

 

nota

imagem

 

fita

olho

 

olha

 

 

Lavar as Mãos

Uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma
Mão
Lava outra, lava uma
Mão
Lava outra, lava uma
Depois de brincar no chão de areia
a tarde inteira
Antes de comer, beber, lamber,
pegar na mamadeira
Lava uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma
A doença vai embora junto com a
sujeira
Verme, bactéria, manda embora
embaixo da torneira
Água uma
Água outra, água uma
Água outra, água uma
Na segunda, terça, quarta, quinta
e sexta-feira
Na beira da pia, tanque, bica,
bacia, banheira
Lava uma
Mão
Mão
Mão
Mão
Água uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma

 

O Macaco

o macaco se parece com o homem
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se parecem com outras
as macacas de auditório são meninas
as crianças parecem micos
os papagaios falam o que pessoas falam
mas não parecem pessoas
para os cegos os papagaios se parecem pessoas
o homem veio do macaco
mas antes o macaco veio do cavalo
e o cavalo veio do gato
então o homem veio do gato
o gato veio do coelho
que veio do sapo que veio do lagarto
então o homem veio do lagarto
o lagarto veio da borboleta
que veio do pássaro que veio do peixe
pessoas se parecem com peixes
quando nadam
pessoas se parecem com peixes
quando olham o vazio
pessoas se parecem com peixes
quando ainda não nasceram
pessoas se parecem com peixes
quando fazem bolas de chiclete
macacos desaparecem
peixes parecem peixes
micróbios não aparecem
todos se parecem
pois se diferem

 

Tudo

Todas as coisas
do mundo não
cabem numa
idéia. Mas tu-
do cabe numa
palavra, nesta
palavra tudo.

 

[Pensamento]

Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.