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PÉTHION DE VILLAR

Pethion de Villar, pseudônimo de Egas Moniz Barreto de Aragão, nascido a 4 de Setembro de 1870, no Solar de seus pais e antepassados, no Largo S.Pedro Velho 36 (Hoje Avenida  Sete 64).Filho de Francisco Moniz Barreto de Aragão ( 1846-1922 ) e Ana de Lacerda Moniz de Aragão (1850 - 1946). Faleceu no mesmo Solar em 18 de Novembro de 1924. No ano de 1895 doutoro-se na mais antiga escola superior do Brasil., a celebre Faculdade De Medicina da Bahia, hoje integrada à UFBA, defendendo a Tese  Síntese da Medicina. Passou a vida lecionando e clinicando e acima de tudo sendo Poeta. Foi um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia, ocupando a Cadeira numero 13 tendo como patrono Francisco Moniz Barreto, repentista baiano do inicio do Século XIX .Deixou extensa bibliografia cientifica, literária e filosófica, hoje relacionada num livro “Breve Introdução Sobre Pethion de Villar” editado pelo neto João Augusto Didier, Juiz Federal, já falecido. Entretanto de referência a ars poetica, em vida publicou apenas um folheto com 39 páginas sob o titulo “Suprema Epopéia”.

 

 

A Radiofonia

(aos bons amigos da SPE, Praia-Vermelha)

 

Salve! Bem mereceis os versos que irradia

O Broadcasting ideal da eterna Poesia,

Dessa que se não dobra às modas nem às leis

E pelo coração, só, pode ser sintonizada...

Salve! Patrícios meus, denodados pioneiros

Da Radiofonia,

Salve! Bem mereceis, amigos meus, bem mereceis,

Pela vossa tarefa abençoada,

Os aplausos e a gratidão de tantos Brasileiros!

 

Alô! Alô! Alô! Praia-Vermelha

Que, só pelo poder de uma centelha

Elétrica, através do céu profundo,

Vais levando, a trezentos mil quilômetros,

Todas as vibrações da voz humana.

A orquestração de toda a natureza!

 

Que formidável força soberana,

Que inaudita grandeza

Não encerra

Essa onda hertziana,

Noite e dia a espalhar mais veloz do que o vento,

De alma em alma, de lar em lar, de terra em terra,

A semente ideal do Pensamento!

 

É o símbolo real da Liberdade:

Nada lhe impede as triunfais viagens...

Zomba da tempestade,

As cerrações mais negras desafia,

E entre duas voragens,

-A voragem dos céus e a voragem dos mares, -

E quanto mais sombria

Desdobra o manto, quanto mais

O tempo se enfarrusca, o céu se irrita,

A vaga desembesta,

E mais rugem no espaço os vendavais,

Estupenda, a vibrar na abóbada infinita,

Possante tanto mais se manifesta

A onda paradoxal, filha do raio,

Irmã gêmea da Luz!

 

O gênio de Hertz, Branly, Marconi, celebrai-o

Poetas do Universo,

Celebrai-o no verso que traduz,

Muito melhor do que a rasteira prosa,

Do nosso coração a voz misteriosa,

As irradiações supremas de nossa alma!

Da paz na quadra harmoniosa e calma,

Na escuridão mais trágica da guerra,

No vale, na montanha,

Na mata, no deserto, em pleno mar,

No remanso do lar, essa onda fiel nos acompanha,

-Inefável viático do amor!-

E sentimos, então,

Que outros corações repetem, solidários

Na alegria e na dor,

O mesmo palpitar do nosso coração,

Na aspérrima subida,

A subida perpétua aos perpétuos calvários

Da vida!...

 

Salve! Bem mereceis os versos que irradia

O Broadcasting ideal da eterna Poesia

Dessa que não se dobra às modas nem às leis

E pelo coração, só, pode ser sintonizada...

Salve! Patrícios meus, denotados pioneiros

Da Radiofonia,

Salve! Bem mereceis, amigos meus, bem mereceis,

Pela vossa tarefa abençoada,

O aplauso e a gratidão de tantos brasileiros!

 

Soneto Para o Século XX

 

Dizem que a arte de Goethe é uma arte anacrônica

Coeva do mamute e das larvas primárias;

Que Homero não passou de uma abantesma trágica

Vislumbrada através de névoas milenárias;

 

Dizem que todos nós lembramos uns ridículos

Idólatras senis de coisas funerárias,

E andamos a colher - incuráveis maníacos -

Em cinzas hibernais, flores imaginárias;

 

Dizem que a Poesia há muito está cadáver;

Que a Rima faz cismar num guiso de funâmbulo

Monótono, a tinir no trampolim do Verso...

 

Que importa? Se a bendita, essa loucura mística

Entorna em nossa Mágoa o leite do papáver

E abre à nossa volúpia o azul de outro Universo?

 

A Eterna Incógnita

 
Donde venho? Quem sou?  Que faço aqui no mundo? 
Por que vivo na Terra e não em Sírio ou Marte? 
Talvez sou de algum deus a monstruosa parte? 
Ou o Antropóide vil, filho do lodo imundo? 

 

Sei tudo e nada sei; vazio o Céu profundo! 
- “Ama”;  - pede Jesus; - “Pensa, ” manda Descarte 
Do formidável X tentando ver o fundo, 
Noite e dia a Ciência às descobertas parte!... 

 

Interrogo ansioso à Natureza inteira 
E indiferente e má, cala-se a Natureza... 
Nem um raio de luz dentro desta caveira!... 

 

Existência fatal que me abate e me eleva, 
Não passar de uma torva e estúpida surpresa, 
E da Treva sair para voltar à Treva!... 

 

Homenagem

Ao talento musical da jovem e eximia 

pianista, a Exma Sra. Dona MARIA 

ROMANA MONIZ DE ARAGÃO. 

IMPROVISO 

 
Tocas - vibra em o piano uma alma, fala e pensa! 
Tocas - quanta expressão, meu Deus!...que sentimento 
Palpita em cada nota !...o mágico instrumento 
Soluça - voz de poeta a gaguejar imensa 

 

Tocas - como um casal de garças que, fugindo, 
Das plumas soltas a voar mil pérolas.....assim 
Ruflam-te as alvas mãos no lago de marfim, 
Pe’o teclado em fóra - acordes sacudindo. 

 

Tocas - mochos revoam, espalham-se assustados, 
Da harmonia ao açoite, os meus negros cuidados!... 
Tocas - brilha o luar, desfaz-se a escuridão 

 

Que a vida......................... 
                 Oh!... toca mais !...ouvindo-te suave 
Esqueço-me do mundo, ergo-me, torno-me ave, 
Abro as asas e, vôo bem longe...na amplidão... 

 

Um laço de Fita 


Preso em negra madeixas perfumosa, 
Provocante mimoso , ontem eu via, 
Refreando do cacho a rebeldia 
Um lacinho de fita cor de rosa 

 

A lirial criança que o trazia 
Valsando, cair deixa-o descuidadosa; 
Apanhei-o veloz - Coisa espantosa ! - 
Laçou-me o laço a alma ! ... quem o diria ! 

 

Laçou-me o coração e já o elo queima... 
Em vão partí-lo tento; a minha teima 
Mais aperta a laçada. Coitadinho ! 

 

Desde então, réu de amor, vivo amarrado 
Sem vontade sem forças condenado 
A ser galé perpétuo de um lacinho ! 

 

A Alma Verde

 

Às vezes, alta noite, à boca da floresta 
Cheia de uivos de amor e de berros ferozes, 
Como a voz do oceano aterradora e mesta, 
Levanta-se uma voz feita de cem mil vozes; 

 

E essa voz que amedronta o coração mais forte 
E como harpas de ouro ao mesmo tempo enleva, 
De galho em galho vai, como um grito de morte, 
Espalhando o terror atávico da Terra !... 

 

Desembesta o tapir que o pânico escorraça; 
Enrosca-se a jibóia, o jaguar sente medo, 
Na escuridão da loca o Índio acuado espia... 

 

Tudo se encolhe, treme, espera, silencia, 
 Da pluma dos bambus à aresta do rochedo... 
É a alma da floresta - a Alma Verde que passa ! 

 

No Reverso de um Cromo

.

A UMA SENHORA 

Em dia de aniversário 

 

Fosse meu verso aroma e a frase fosse flor, 
Tivesse o verso meu mil formas peregrinas, 
E a minha tosca rima o brilho, a tinta, o odor 
Das rosas, dos jasmins dos cravos, das boninas; 

 

Então Senhora, então formosa, um ramo cheio 
De essências tropicais, de um gosto transcendente,. 
Com a devida vênia e sem nenhum receio, 
Eu vos daria hoje, ufano e alegremente. 

 

Mas como do poeta as vozes langorosas, 
Não podem transforma-se em flores, em perfumes 
E a rima não possui o trescalar das rosas, 
E a estrofe não contém da natureza os lumes; 

 

Aceitai entretanto estas linhas sem cor, 
Tal como esse buquê de violetas...Cai-me 
Do lábio um riso - é pobre o mimo e sem valor, - 
Mas é de coração, Senhora ! Desculpai-me 

 

Bilhete Postal 

( A ELA ) 

Tudo trai a paixão quando se ama... 
E tu não me amas, sim! Posso-o jurar ! 
Não, a santa loucura não te inflama. 
Não, tu não sabes o que seja amar. 

 

Tu não me tens amor, pra que o negar ? 
Em vão teu lábio fala - não exclama ; 
Falas-me, e não radia o teu olhar 
O fogo interno que o amor derrama. 

 

Por que me foges ? dize-me , não sentes 
Pulsar-te um coração ? mas  que receio 
Assim te faz gestos indiferentes ? 

 

És bela, vem eu morro de desejos, 
Por que negar-me o ninho de teu seio ? 
Por que fechar-me a porta de teus beijos ? 

 

Ilusões Perdidas 

IMPROVISO 

Ao Dr. Cruz Abreu 


Eu sonhava ! eu sonhava ! Assim como falenas 
Que o sopro da tormenta espanta em revoadas 
As minhas ilusões tão puras, tão serenas. 
Fugiram-me uma a uma, à toa dispersadas... 

 

Eu sonhava ! eu sonhava ! Adeus risos doirados 
Devaneios de amor, suaves pensamentos !... 
Adeus ! no meu passado eu vejo-vos tombados, 
Murchos como os rosais dos fortes ventos !.. 

 

Ilusões ! Ilusões ! oh ! borboletas da alma ! 
Voltai de novo ! Sim ! trazei-me a calma 
De meus sonhos!...Tornai oh ! loucas peregrinas !... 

 

Mas não ! É tarde ! Adeus...Na minha fonte pensa 
Cai-me um crepe sombrio, essa tristeza imensa 
De um amor que se esb’roa em lúgubres ruínas ! 

Os Conquistadores 

(EM VERSOS BRASILEIROS) 

 

Sobre o dorso indomável dos vagalhões titânicos, 
Ao rugir das borrascas que o vendaval assanha, 
As velhas naus bojudas vão, de quilhas sonâmbulas, 
Arrastadas na treva por uma força estranha 

 

Ao glauco reverbero do vasto mar dos trópicos 
Homens vestidos de aço que a vitoria acompanha, 
Se debruçam na amura, serenos e nostálgicos, 
Do horizonte, sem medo, sondando a verde entranha. 

 

Desce a noite funérea : longínquas vozes épicas 
Ouvem eles, cantando, seguindo na ardentia 
Das treze caravelas perdidas e fantásticas... 

 

Dentro do grande sonho dos loucos e dos místicos, 
Que lhes importa a Morte; de rota noite e dia 
Para o Desconhecido que além dorme nas tênebras ?! 

 

A Floresta 

 

Paira em roda, o terror, do abismo de folhagem, 
Que do monte ultrapassa a majestosa espalda. 
Onde ronca o tapir como um trovão selvagem 
E dorme o beija-flor lhamado de esmeralda; 

 

As verdes catedrais das espargem 
Um cheiro agreste e bom, que os corações  escalda, 
Canta-lhe dentro à orquestra invisível d’aragem, 
Anda-lhe dentro a luz que assombros mil sofralda. 

 

Falenas douro e ônix, catadupas de flores, 
Serpentes colossais, asas versicolores... 
Que mistérios sem conta a mata não encobre ! 

 

Homens rudes e nus, de pele cor de cobre, 
De olhar mal assombrado e de pemas na testa, 
Lento, saindo vão da boca da floresta. 

 

O Autóctone 

“Pa xé tan tan ajuca atupave !” 

( Língua tupi ) 

 

Mata virgem. O sol, teimoso e ardente, em balde, 
Como um gavião de fogo, as ramagens belisca; 
Num pau d’arco por entre as flores cor de jalde 
O caboclo vislumbra alva araponga arisca. 

 

Como um topázio vivo um beija-flor corisca, 
Muito embora a “cauã” bravia asas desfralde ; 
E um casal de “sofrês” beijos num falho arrisca, 
Sem que dest’almo idílio o bom selvagem malde... 

 

Súbito o Índio bem perto ouve espantosa bulha ; 
Da capoeira , a rugir, salta enorme onça negra, 
De pelo de cetim, com manchas d’ouro  fosco. 

 

Do brasileiro o sangue indômito borbulha : 
Encara a fera, e a rir, - tão bela presa o alegra - 
Rapidamente verga o arco emplumado e tosco 

 

O Último Pajé 

 

Cheio de angústia e de rancor, calado, 
Solene só, a fronte carrancuda, 
Morre o velho Pajé crucificado 
Na sua dor tragicamente muda. 

 

Vê-se-lhe aos pés, disperso e profanado, 
O troféu dos avós : a flecha aguda, 
O terrível tacape ensangüentado, 
Que outrora erguia aquela mão sanhuda. 

 

Vencida a sua raça tão valente, 
Errante, perseguida cruelmente, 
Ao estertor das matas derrubadas ! 

 

“Tupã mentiu” e erguendo as mãos sagradas, 
Dobra o joelho e a calva sobranceira 
Para beijar a terra brasileira. 

 

O Paraguaçu

 

Ao Pacheco de Miranda Filho

Depois de ínvios sertões, broncos atravessar, 
Refletindo , fugaz, paisagens encantadas, 
Duas pérolas, vem, murmurando, beijar, 
Perto de sua foz face a face cravadas. 

 

Ora deixa cobrir as costas alentadas 
Com púrpuras  de sol e caminhos de luar; 
Negro como o ciúme, ora à voz das lufadas, 
Assanha vagalhões como se fosse um mar... 

 

Faz lembrar este rio, entre verdes fileiras 
De bambuais sem fim, de altíssimos palmares 
Solenes farfalhando os trêmulos cocares, 

 

Cacique triunfal das tribos brasileiras, 
Que entre caboclos vai com as mãos de troféus plenas, 
Rojando um manto real de conchas e de penas. 

 

 Feitiço 

 

Dizem que há rezas pr’as feitiçarias, 
Que em roda viva põem os corações 
Raminhos d’alecrim, cruzes, figões, 
E outras e outras muitas bruxarias... 

 

Ensinou-me uma velha que deitado, 
Alta noite, na estrada, eu me benzesse 
Treze vezes, remédio estúpido esse 
Que me expõe por maluco a ser pegado ! 

 

O Mal existe, existe o tal feitiço, 
Porque bem claro em mim o sinto vivo; 
O que não acho é quem me livre disso, 

 

Toda ciência pra salvar-me é pouca... 
Só conheço um remédio decisivo : 
Um beijo ! um beijo só de sua boca ! 

 

Lebewohl 

 

Noct. Fis. Moll . Opus 48 

CHOPIN 

 

Riu-me, e no entanto a dor me abrolha a alma 
Pulsa-me o coração e sinto o corpo exangue : 
Há gritos de agonia em minha voz tão calma  ; 
Em meu olhar tão puro há lágrimas de sangue. 

 

Venho dizer-te adeus ! Como me olhas serena !... 
Sempre a mesma ! Tranqüila, indiferente e fria !... 
Vai findar-se a comédia , é a última cena ... 
Mas antes de partir , ouve bem ! Se algum dia, 

 

Domar-te enfim o amor num veemente anseio 
Quebrando aos pés de um homem o teu busto heril de aço 
Pede a Deus que ele te ame e também de abra o seio . 

 

Tu que fostes pr’a mim,  tão cruel, pede a Deus 
Que nunca junto a ele , apoiada a seu braço, 
Sofras o que sofro ao dizer-te este adeus ! 

 

Lira Moderna - Diário de Notícias 

COVAS 

 

Morreu meu coração !... Dobram finados 
As Rimas e a Quimera e a Poesia, 
Lenços batem nos olhos ensopados, 
De uma enorme saudade na Agonia... 

 

Coitado ! era tão bom, tão meigo !...e o pranto 
Dos Versos cresce, o Poema se debruça 
Sobre o leve caixão e abraça-o, enquanto 
A Musa ajoelhada ora e soluça. 

 

Lá sai o enterro... a um canto do teu rosto, 
Naquela cova desce ; foi seu gosto 
Repousar onde achara a perdição. 

 

Ri agora baixinho ! o riso acorda 
Os mortos e o teu riso me recorda 
Que ali dorme meu pobre coração... 

 

Lira Moderna 2 - Diário de Notícias 

RESPOSTA 

 

Não te conheço, sim, mas, no entretanto, 
Há um pressentimento que me diz 
Que és aquela Mulher por quem eu tanto 
Chamei outrora para ser feliz... 

 

Feliz ...Ah ! que ironia ! Se soubesses 
Toda a história fatal de minha vida : 
É tarde ! a soluçar talvez dissesses, 
Minha doce e gentil desconhecida ! 

 

Vê se me esqueces pois ! As infernais, 
Mágoas que vela a custo o meu segredo 
Quando as souberes hão de te afastar. 

 

Oh ! eu já amei e já sofri demais ! 
De sofrer ainda mais não tenho medo, 
Mas tenho medo de outra vez amar 
 

 

 

(Apostila 13 de Simbolismo - Literatura Brasileira)