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NESTOR VÍTOR

O Poeta Negro

Cruz e Sousa, negro sem mescla, foi uma cerebração de primitivo genial, foi como que a revivescência de um núbio contemporâneo de Davi ou ao menos de Salomão, senão já educado à luz franca dos princípios mazdianos, mas que houvesse renascido no Ocidente e se desenvolvesse num meio cuja civilização é toda de empréstimo, já capaz de inspirar grandes requintes a um artista, porém no fundo ainda por modo muito falseado e ingênuo.

A visão de Cruz e Sousa, no que ele oferece de mais característico, é sem medida, sem precisão, chega a ser muitas vezes desconforme, - é oriental, - entretanto que a língua por ele para si criada dentro do idioma português é dúctil, é musical como até então não fora, é colorida, e, - o que mais admira, - é matizada, é nuançada como ainda se não manifestara. Não há nisso, porém contradição, porque ela assim é principalmente no que afeta os cinco sentidos. Cruz e Sousa revela-se, como artista, sobretudo um sensual, na acepção lata da palavra, o que é tão lógico tratando-se de uma natureza de primitivo, ainda mais se africano.

 

Emiliano Perneta

Emiliano Perneta é verdadeiramente um extraordinário causer. Mas o que há de mais raro naquele talento de causerie, que lhe é próprio, é capacidade que ele tem de levantar momentaneamente à altura da atmosfera em que se libra seu espírito quem quer que o escute, a não ser um completo bolônio. E mais, é ele interessar - não importa quem - pelos objetos do seu interesse, dele, que é sempre um fino intelectual, curioso por todas as coisas, é certo, com uma visão segura como todos os grandes talentos possuem, mas incapaz de apartar-se dos pontos de vista que não são os seus, para falar de uma flor, como para discorrer sobre política, para queixar-se do frio que está fazendo ou do estado dos negócios no momento presente. O que nunca mais vi, sobretudo, foi outrem realizar o milagre que ele realiza, despertando, não importa em que natureza de qualquer dos seus interlocutores, as afinidades latentes que existam entre eles e a sua individualidade, dando-lhes com isso, não raro, pela primeira vez, o sentimento de uma superioridade que eles ignoravam existir em si, até de certa aristocracia intelectual, - mero reflexo, comumente, da que nele se revela, mas que, enquanto a ilusão não passa, soergue os mais modestos e despretensiosos dos seus companheiros de ocasião, nascendo desse fenômeno singular a simpatia única e inevitável que aquele homem infunde em quem quer que com ele assim se relacione. Não é apenas simpatia, mas também um sentimento de admiração que, como aquela, é capaz de resistir depois às provas e embates acaso opostos aos impulsos do começo.

 

Luís Delfino

Luís Delfino não é apenas um bom poeta; tem a grande lira. Ele já nos dá o êxtase. Ás vezes faz-nos a ilusão da própria Natureza a cantar; em sua voz, como nas rapsódias de Homero, entreouve-se Pã.

É um Lecomte de Liste tropicalizado, americanizado, abrasileirado, quer dizer monstruoso - disformado, inferiorizado em muitos pontos, como nós somos inferiores ao francês - mas, por outros aspectos, mais vasto, mais curioso, mais homem, superior, portanto, pelo cálido destas zonas, pela virgindade desta natureza, pelo tenro desta nossa civilização, pelo ainda incomensurável do nosso horizonte.

Ele oferece o flagrante da gestação do nosso gênio: é um pouco caos, é aurora um pouco, é feito de inconsciência em parte, e tem algo daquele alvoroço ingênuo de quem subitamente se surpreendesse a viver.

 

F. Nietzsche

Nietzsche é o sentimento da probidade intelectual levada à loucura. Depois de nos havermos encontrado com ele, qual de nós que não se sente mais ou menos cabotino?

Mas não é a cabotinagem, quer dizer, o sentimento verbal, o característico destes quatro últimos séculos da nossa civilização? Não é o irreligiosismo que teme reconhecer-se como tal, o decrescimento do entusiasmo organicamente vital, o caminhar lento, preguiçoco mas positivo para um niilismo a que aspiramos sem nele pensar, de um modo inteiramente instintivo, - não é isto que resume a história do mundo ocidental, da Renascença para cá?

(...)

O próprio Nietzsche o reconhece: ele próprio ri de si mesmo, “com as pernas para cima da cabeça”, e aconselha os outros a rirem-se assim. Apenas, nele este riso é convulsivo, é de louco: é justamente o que o separa do cabotino. O cabotino é um idiota que anda fazendo de louco; Nietzsche é um louco que às vezes quer fazer de idiota.

(...)

E essa necessidade do niil, que de cada vez mais se acentua que poder ser senão a súmula, a conseqüência geral dessa boêmia em que andam os nossos mais profundos sentimentos humanos?

(...)

Nietzsche, por outro lado, tem a consciência da grandeza humana; mas sistematicamente não quer lembrar-se da relatividade dessa grandeza, ou, pelo menos, do nada que ela representa em face do universo, ou se dela se lembra é pra que o sentimento disso ainda msi estimule o ardor, dando-lhe como que a volúpia do risco, levando-o a constituir-se o realizador do mais supremo heroísmo intelectual de que reze, talvez, a história até hoje.

 

Morte Póstuma
 

Et vraiment quand la mort viendra que reste-t-il?
P. Verlaine

D'esses nós vemos: lá se vão na vida,
Olhos vagos, sonâmbulos, calados;
O passo é a inconstância repetida,
E os sons que têm são como que emprestados.

 

— Dia de luz. – Respiração contida
Para encontrá-los despreocupados,
Aí vem a morte, estúpida e bandida,
Rangendo em seco os dentes descarnados.

 

Mas embalde ela chega, embalde os chama:
Ali não acha nem de longe aqueles
Grandes assombros que aonde vai derrama!

 

E abre espantada os cavos olhos tortos:
Vê que se eles têm os olhos vítreos, que eles...

Eles já estão há muito tempo mortos!
 

A Cruz e Sousa+

 

Não gemem na minh’alma árias langue de morte,

Antes vibram clarins e há alvoroços de guerra;

Somente, um tal tremor faz-me vibrar tão forte

Que sou, todo, um soluço a ansiar sobre a Terra!

 

Não! Os que, como tu, morrem sacramentados

Com a Estrema-Unção da glória, e andaram impolutos,

No casulo do Sonho, esperando, calados,

A Vida após a Morte, a Pompa Real nos Lutos,

 

Não nos fazem pensar na frialdade ao peito

De uma laje medonha, ao cair exausto:

Vê-se neles o gesto augusto de um Eleito...

Ouvem hosanas no ar, abrem-se céus em faustos!

(...)

 

(Apostila 10 de Simbolismo - Literatura Brasileira)