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MARANHÃO SOBRINHO

 

Mártir

Das cinco chagas de pesar, que exangue,

Trago no triste coração magoado,

Descem rosários de rubi de sangue

Como do corpo do Crucificado...

 

Pende-me a fronte sobre o peito, langue,

De infinitas Traições alanceado...

E, na noite da Mágoa, expiro exangue

Na Cruz de Pedra da Paixão pregado...

 

Subi, de joelhos, expirando, o adusto

Desfiladeiro enorme do Calvário...

Sob o madeiro da Saudade, a custo!

 

Sem consumar meus sonhos adorados,

Oiço, no meio do Martírio vário,

O chocalhar sacrílego dos Dados...

 

Satã

Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,

cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,

vê-se o imenso solar sonolento e medonho

do dragão infernal das Princesas espúrias...

 

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho

desse antigo solar, de malditas luxúrias,

em que fulge o brasão heráldico do sonho

não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

 

Sobre o mármore azul das colunas austeras,

que, em noivados de luz, o luar engrinalda

brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

 

Velam desse dragão o oriental tesoiro,

sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,

dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...

 

Interlunar

Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,

rubro como, de sangue, um hoplita messênio

o Sol, vencido, desce o planalto de urânio

do ocaso, na mudez de uni recolhido essênio...

 

Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,

tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio

da tarde, que me evoca os olhos de Estefânio

Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

 

O ônix das sombras cresce ao trágico declínio

do dia em que, a lembrar piratas do mar Jônio,

põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio...

 

Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,

vara o estranho solar da Morte e do Demônio

com as torres medievais as sombras do Interlúnio...

 

Tela do Norte

No estirão, percutindo os chifres, a boiada

monótona desliza; ondulando, a poeira,

em fulvas espirais, cobre toda a chapada

em cujos poentes o sol põe uns tons de fogueira.

 

Baba de sede e muge a leva; triturada

sob as patas dos bois a relva toda cheira!

Boiando, corta o ar a mórbida toada

do guia que, de pé, palmilha à cabeceira...

 

Nos flancos da boiada, aos recurvos galões

das éguas, vão tocando a reses fugitivas

o vaqueiros, com o sol nas pontas dos ferrões...

 

E, do gado o tropel, com as asas derreadas

quase riscando o chão, que o sol calcina, esquivas,

arrancam coleando as emas assustadas...

 

Equatorial

Bóiam verdes lodões no lago quieto em frissos

de topázio. Flechando as ralas talagarças

dos ramos vibram, no ar, os vírides caniços

dos juncos. Funde a luz as nuvens de oiro esgarças.

 

Sobre o lodo escorrega o musgo a renda. Em viços

soberbos, o esplendor das aquáticas sarças

beira o líquido espelho em que, de espantadiços

olhos, banham-se, ao sol, as branquicentas garças.

 

Trapejam no horizonte uns trêmulos farrapos

de púrpura. Banando, entre os juncos, disformes

de luxúria, a coaxar, pulam, glabros, os sapos.

 

E, na lama, que a lesma azul meandra de rugas,

rojando-se em espirais de gelatina, enormes

arrastam-se, pulsando, as moles sanguessugas...

 

 

 

 

(Apostila 9 de Simbolismo - Literatura Brasileira)