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Emiliano Perneta

(Curitiba PR 1866 - idem 1921)

Publicou seus primeiros poemas em O Dilúculo, de Curitiba PR, em 1883. Mudou-se para São Paulo SP em 1885, onde fundou a Folha Literária, com Afonso de Carvalho, Carvalho Mourão e Edmundo Lins, em 1888. No mesmo ano publicou as obras poéticas Músicas, de versos parnasianos, e Carta à Condessa d'Eu. Foi também  diretor da Vida Semanária, com Olavo Bilac, e  colaborador do Diário Popular e da Gazeta de São Paulo. Formou-se bacharel em Direito em 1889, e mudou-se para o Rio de Janeiro no ano seguinte. Lá, colaborou em vários periódicos e, em 1891, foi secretário da Folha Popular, na qual foram publicadas as manifestações iniciais do movimento simbolista, assinadas pelos poetas B. Lopes, Cruz e Sousa e Oscar Rosas. De volta ao Paraná, criou a revista simbolista Victrix, em 1902. Em 1913 publicou o poema-livreto Papilio Innocentia, para a ópera do compositor suíço Léo Kessler, sobre o romance Inocência, de Visconde de Taunay. Sua obra poética inclui Ilusão (1911), no qual se faz presente a estética simbolista, Pena de Talião (1914) e os póstumos Setembro (1934) e Poesias Completas (1945). A poesia de Emiliano Perneta costuma ser vinculada ao Simbolismo. Segundo o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, "Emiliano Perneta, dentro de sua corrente literária, tem personalidade e merecimento, podendo figurar, sem favor, entre os nosso mais típicos e notáveis poetas decadentes e simbolistas".

 

Vencidos

Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

 

Corre Mais Que Uma Vela...

 

Corre mais que uma vela, mais depressa,

Ainda mais depressa do que o vento,

Corre como se fosse a treva espessa

Do tenebroso véu do esquecimento.

 

Eu não sei de corrida igual a essa:

São anos e parece que é um momento;

Corre, não cessa de correr, não cessa,

Corre mais do que a luz e o pensamento...

 

É uma corrida doida essa corrida,

Mais furiosa do que a própria vida,

Mais veloz que as notícias infernais...

 

Corre mais fatalmente do que a sorte,

Corre para a desgraça e para a morte...

Mas que queria que corresse mais!

 

Borboleta

Ao José Gelbcke.

Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...

 

Canção

Pára um negro cavaleiro
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.

Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.

— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."

— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —

Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?

— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?

"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.

 

Canção do Diabo

 

Aqui, um dia, neste quarto

Estava eu a ruminar,

Mas como um ruminante farto,

O tédio amargo, o atroz pesar...

 

O vento fora pela noite,

Demônio que blasfema em vão,

Cortava rijo como o açoite,

Uivava como um cão.

 

Eu meditava quanto a vida

Me foi cruel, me foi cruel:

Supus que fosse uma bebida

Doce, mas foi veneno e fel!

 

E, sobretudo, que ato breve

Dessa tragédia para rir...

Quando de leve, pois, de leve,

Senti a porta se entreabrir...

 

O quarto todo iluminou-se,

Mas de uma claridade tal,

Como se fosse dia, e fosse

Dia de festa nupcial.

 

E um vulto, bem como um segredo,

Mais belo do que uma mulher,

Sorriu-me assim: “Não tenhas medo,

Eu sou o arcanjo Lúcifer.

 

Trêmulo de um pavor covarde,

Fugiste-me sempre, porém

Sabia eu que, cedo ou tarde,

Serias meu, de mais ninguém.

 

Que, ó meu querido, e pobre artista,

Todo a fazer teu próprio mel,

Tu sempre foste um diabolista,

Um anjo mau, anjo revel.

Ora, fugiu-te a primavera,

E os derradeiros sonhos teus:

O céu, a mais banal quimera,

Teu próprio Deus, teu próprio Deus.

 

A sorte, mesmo, a prostituta,

Inda mais nua que Lais,

Funambulesco ser, escuta,

Quis todo o mundo; e a ti não quis.

 

O seio abriu, que tanto exala,

Ao proxeneta, e ao ladrão;

A ti, porém, indo beijá-la,

A fêmea torpe riu-se: não!

 

Teu coração, alma ansiada,

Teu coração, como um Romeu.

De tanto se bater por nada,

Não sei como inda não morreu.

 

Teu coração, um cata-vento,

De cá pra lá sempre a bater,

Só encontrou o enervamento,

E a máscara do falso prazer.

 

 

As damas, bem como um cavalo,

Sobre esse coração d’abril,

Passaram, quase sem olhá-lo,

Nem abraçá-lo, poeta sutil.

 

Ninguém te amou, nem pode amar-te,

Nem te entendeu, ser infeliz,

Mas eu, ó triste lírio d’arte,

Sempre te amei, sempre te quis.

O teu furor pela beleza,

Indiferente ao bem e ao mal,

Desoladora guerra acesa,

E, sobretudo, ódio infernal;

 

A tua esfaimação de oiro,

A sede de subir, subir,

Além daquele sorvedoiro

D’astros e pérolas d’Ofir;

 

O orgulho teu, furioso grito,

Luxuriosamente cruel,

Crescendo para o infinito,

Como uma torre de Babel.

 

Orgulho infindo, orgulho santo,

E diabólico, bem sei,

Que tanto horror tem feito, tanto,

Ah! Eu somente o escutei.

 

E disse: aquele é meu, aquelas

Mágoas cruéis são minhas, eu

Vou levantá-lo até as estrelas,

Até a luz, até o céu...

 

Vou lhe mostrar reinos de opalas,

Tantas cidades ideais,

Que há de querer talvez contá-las,

Sem as poder contar jamais.

 

Vou lhe mostrar torres tão grandes,

Torres de ouro e de marfim,

Cem vezes mais altas que os Andes,

Tantas, tantas que não têm fim.

 

E toda a glória minha, toda,

A ele, cuja imaginação

Inda é mais rica e inda é mais douda

Do que a do próprio Salomão.

 

Vendo-o descer a encosta rude

Dos anos maus, o elixir

Eu lhe darei da juventude,

Que o faça rir, que o faça rir...

 

Que é só bebê-lo, e embora exausto,

Embora quase morto já,

O triste e magro doutor Fausto

Reflorirá, reflorirá!

 

E há de subir comigo, um dia,

Há de subir comigo, a pé,

Por essa longa escadaria,

Que sobem só os que têm fé.

 

E eu, o flagelo, eu, o açoite,

Eu, o morcego, o diabo, cruz!

Estranho príncipe da noite,

Hei de inundá-lo só de luz!

 

Hei de lhe dar uma tão rara

Virtude, que baste ele olhar,

Basta querer somente, para

Que o vento acalme e a voz do mar.

 

E hei de fazê-lo de tal modo,

De tal fluidez, que ele por fim,

O ser humano, o limo, o lodo,

Se torne bem igual a mim.

 

E tudo só para ofuscá-lo,

Para encantá-lo, tenho, e lhe dou:

A minha espada e o meu cavalo,

A minha glória... E aqui estou.”

 

Olhei. Brilhava-lhe na fronte

A estrela d’oiro da manhã,

Como num límpido horizonte:

-Eu serei teu irmão, Satã!

 

Esse Perfume

Esse perfume — sândalo e verbenas —
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas é perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
— E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei — as minhas mãos nas tuas —
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!

 

Metamorfoses

A Mme. Georgine Mongruel.

Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.

Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.

Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...

Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!

 

Mors

Nesse risonho lar,
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala...
Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálido rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!

 

Ovídio

O exílio foi cruel e aspérrimo, de fome.
Foi o tédio brutal, a miséria. Curtiste
Toda a espécie de fel, o horror que não tem nome,
E ninguém acabou mais feio nem mais triste.

Homem algum jamais sentiu, como sentiste,
Ovídio, ó coração que a cólera consome,
Quão perigoso enfim é ter esse renome,
A glória, que é a ilusão mais louca que inda existe.

Mas, que importa afinal! A mocidade toda,
Quando entravas no Circo, ó Mestre, quase douda,
Recitava de cor a tua arte de amor...

E o orgulho de beijar, que nem o exílio doma,
O corpo mais gentil do lupanar de Roma,
Júlia, e basta, Nazão, filha do Imperador!...

 

 (Apostila 6 de Simbolismo - Literatura Brasileira)