ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

DA COSTA E SILVA

Antônio Francisco da Costa e Silva

(Amarante PI 1885 - Rio de Janeiro RJ 1950)

Começou a compor versos por volta de 1896, para procissões em Amarante (ainda cantados, com modificações, nas festas religiosas do Piauí). Em 1901 foram publicados seus primeiros poemas na Revista do Grêmio Literário Amarantino. Seu primeiro livro de poesia, Sangue, foi lançado em 1909. Nas décadas seguintes exerceu vários cargos como funcionário do Tesouro Nacional e colaborou nos periódicos Diário de Minas, Estado do Amazonas, Ilustração Brasileira e O Malho. Em 1927 ocorreu a publicação do livro Verônica, escrito sob o impacto da perda de sua mulher, Alice, em 1919. Em 1931 foi afastado do Tesouro Nacional; dois anos depois, foi indicado como candidato à Assembléia Nacional Constituinte pelo Partido Republicano Liberal do Piauí, mas não disputou eleições. Entre 1931 e 1945 esteve à disposição da Presidência da República, a pedido de Getúlio Vargas. Sua obra poética inclui os livros Zodíaco (1917), Pandora (1919), Antologia (1934) e os póstumos Poesias Completas (1950) e Saudades (1956). Da Costa e Silva foi poeta simbolista; segundo Alberto da Costa e Silva, seus poemas apresentam "fluente e rica musicalidade de uma linguagem em que existe exata correspondência entre som e sentido e em que cada palavra possui um preciso valor no cantar do verso.". 

 

 

Lady Macbeth

Não na posso entender, senhora, amante ou serva:

Amo-a; não sei dizer se ama, desdenha ou finge.

Embora! Meu amor todo a ela se reserva,

Porque meu nobre ideal só a ela se restringe.

 

Conto-lhe a minha dor, mas a voz não atinge

Seu coração pueril; e imóvel se conserva,

Na impassível mudez dolorosa de esfinge,

Nessa atitude real de estátua de Minera.

 

Fixo nos olhos seus os meus olhos de lince,

E um vago e estranho encanto o alvor das formas lhe unge

De uma graça imortal, que não há quem destrince...

 

Lembra Nossa Senhora aureolada num nicho;

E fulge em seu olhar, de um brilho que compunge,

Toda a revelação de um bizarro capricho...

 

As Horas

As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.

 

Madrigal de um Louco

L u a !
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !

 

O Carrossel Fantasma

Ganhei o dia a meditar na minha vida,
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!

Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...

Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...

O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...

— Upa! upa! meu pensamento!

 

O Sapo

Feio e fátuo a fingir de grande, gordo e guapo;
Hediondo e humilde a inchar de empáfia e ocioso orgulho,
Viscoso de vaidade, entronado no entulho,
Cisma na solidão, sorno e soturno, o sapo.

Os bugalhos em brasa, a palpitar o papo,
Acocorado, absorto, ao mínimo barulho
Que o sossego lhe suste, em súbito mergulho
Se atasca no atascal; e ei-lo escondido e escapo.

Patriarca do paul, pelo pântano parco
De água, a arfar e a imergir no lodo liso e imundo,
O batráquio bubuia, o corpo curvo em arco...

E sobe à superfície o rei das rãs, rotundo,
Glabro e inchado, a coaxar no lamaçal do charco,
Como o ser mais soberbo e singular do mundo.

 

Refrão do Trem Noturno

Corre o trem dentro do túnel estrelado da noite
tonto de velocidade
ávido de espaço
a arrastar uma rua ruidosa de carros
e lá vai
acelerando mais e mais as rodas rápidas
da máquina que marcha
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Andam, resfolegam, sopram, bufam
os cavalos-vapor a galopar invisíveis
nitrindo aflitos
silva a locomotiva
a pupila alucinada reverberando na treva
— compasso de relâmpago
tomando a distância
perdida na noite
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Em disparada o comboio foge trepidando
ao vaivém dos vagões entrechocados na carreira
como elefantes perseguidos no deserto

É um pesadelo sob o silêncio o trem que passa
o trem que desfila como um sonho rumoroso
o trem que leva oscilando na perspectiva fugidia
árvores
campos
montes
repentinamente em movimento
o trem que se lança no espaço como a vida no tempo
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

 

Hino do Piauí

(Letra: Antonio Francisco Da Costa e Silva/ Música: Firmina Sobreira Cardoso)

 

Salve! terra que aos céus arrebatas

Nossas almas nos dons que possuis:

A esperança nos verdes das matas,

A saudade nas serras azuis.

 

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação!

 

Desbravando-te os campos distantes

Na missão do trabalho e da paz,

A aventura de dois bandeirantes

A semente da Pátria nos traz.

 

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação

 

Sob o céu de imortal claridade,

Nosso sangue vertemos por ti,

Vendo a Pátria pedir liberdade,

O primeiro que luta é o Piauí.

 

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação

 

Possas tu, no trabalho fecundo

E com fé, fazer sempre melhor,

Para que, no concerto do mundo,

O Brasil seja ainda maior.

 

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação

 

Possas Tu, conservando a pureza

Do teu povo leal, progredir,

Envolvendo na mesma grandeza

O passado, o presente e o porvir.

 

 

 

(Apostila 4 de Simbolismo - Literatura Brasileira)