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A RETIRADA DA LAGUNA - VISCONDE DE TAUNAY

Para entender a "Retirada da Laguna"

Com a Campanha da Tríplice Aliança cada vez mais acirrada, uma coluna expedicionária, em abril de 1865, partiu de Santos (SP), para apoio às tropas que se encontravam em Mato Grosso, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago. Novos soldados foram arregimentados pelo caminho, totalizando uma força de 3.000 homens. Recebendo ordens de seguir para Coxim (MS), a coluna lá ficou, ilhada pelas inundações, até junho de 1866. Durante esse tempo, foi reduzida a cerca de 2.000 soldados, atingida pela fome e enfermidades.

Ao morrer o comandante Drago, assumiu a chefia da tropa o coronel Carlos de Morais Camisão. A 11 de janeiro de 1866, iniciou-se o deslocamento para Nioaque (MS), localidade escolhida como base de operações. A coluna lá chegou com cerca de 1.300 homens. O coronel Camisão decidiu cruzar o rio Apa, adentrar o território paraguaio e conquistar a região de Bela Vista.

Orientada pelo guia José Francisco Lopes, a coluna seguiu avante. Mas, sem meios de transporte, foi-lhe muito difícil ultrapassar os rios e pântanos com os trens de combate e as peças de Artilharia.

As forças adversárias, obrigadas a recuar, destruíram tudo o que pudesse servir aos soldados brasileiros: nem comida, nem água, nem pousada havia para os combatentes. O coronel Camisão rumou para a Fazenda Laguna, a fim de conseguir mantimentos e proporcionar repouso à tropa.

Sob a perseguição furiosa do adversário, foi ordenada a retirada, sob as agruras da fome, da sede, da terra calcinada pelo fogo que era ateado aos campos, da fumaça que causava profundas irritações pulmonares, das tormentas que tornavam impossível a locomoção no território pantanoso. Não havia munição nem alimentos, e a coluna prosseguia com o cólera e outras enfermidades ceifando inúmeras vidas.

Sem meios para cuidar dos doentes e feridos, estes foram deixados no campo. Os sobreviventes marcharam, com dificuldade, até uma fazenda, onde foram encontradas laranjas para alimentação dos soldados. A duras penas, a coluna chegou a Laguna. Mas Camisão e o guia Lopes, vítimas dos sofrimentos causados pela árdua marcha, não chegaram a esse destino. Assim como quase a metade dos bravos que iniciaram a Retirada.


Índice

CAPÍTULO I - Formação de um corpo de exército destinado a atuar, pelo norte, sobre o Alto Paraguai. Distâncias e dificuldades de organização
CAPÍTULO II - Miranda. Partida da coluna. Marcha de Miranda a Nioac
CAPÍTULO III - Nioac. O coronel Carlos de Morais Camisão. O guia José Francisco Lopes
CAPÍTULO IV - Marcha sobre a fronteira paraguaia. Conselho de guerra.
CAPÍTULO V - Reconhecimento. Rebate falso. Regresso de cativos escapos ao inimigo. O guia Lopes e o filho. Avante!
CAPÍTULO VI - Em marcha. Formatura da coluna. À vista da fronteira
CAPÍTULO VII - Passagem do Apa. Primeiro embate. Ocupação da Machorra
CAPÍTULO VIII - Ocupação de Bela Vista. Devastações dos paraguaios em torno da coluna. Tentativa de negociações. Seu malogro. Tornam-se os víveres escassos. Marcha sobre Laguna.
CAPÍTULO IX - Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionário. O mascate italiano. O major José Tomás Gonçalves. Surpresa e tomada de acampamento paraguaio da Laguna
CAPÍTULO X - Retrocesso sobre o Apa-Mi. Escaramuças e combates com a cavalaria inimiga que envolve completamento a coluna
CAPÍTULO XI - Rebate falso. Últimas ilusões. O tenente Batista. Passagem do Apa. Volta ao território brasileiro.
CAPÍTULO XII - Ataque vigoroso do inimigo. Nós o repelimos, mas, com o fragor de combate, nosso gado se dispersa. Cenas do campo de batalha. A preta Ana. O ferido paraguaio. Vão os víveres faltar
CAPÍTULO XIII - Deliberação sobre o caminho a seguirmos. Primeiro incêndio no campo
CAPÍTULO XIV - Continua a marcha. Temo o inimigo à frente. Novo sacrifício de bagagens. Faltam os víveres. Incêndios e temporais. Escaramuças incessantes
CAPÍTULO XV - Incerteza do rumo. Novo incêndio e novo ataque dos paraguaios. Penúria da coluna. Acertamos novamente com o caminho. Passagem do rio das Cruzes. Recomeça a marcha. Nova travessia do rio. Fome. As mulheres da coluna
CAPÍTULO XVI - Lampejo de esperança que se desvanece logo. A cólera. Reaparece o inimigo. O incêndio sempre. Recrudesce a cólera. Um recurso: os palmitos. Terrível passagem de um pântano. O tenente Santos Sousa. Acampamento. Conseguimos acender fogo
CAPÍTULO XVII - Chegada às divisas das terras do guia Lopes. Passagem do Prata. O inimigo nos acompanha sempre, mas persegue-nos frouxamente. Devastações da cólera. Perplexidade do coronel Camisão. Abandonamos os enfermos. A separação. Ao tenente-coronel Juvêncio e ao coronel Camisão salteia a peste. Morte do filho de Lopes. Prossegue a marcha. Chegada à fazenda de Lopes; morre este ali de cólera. Seu túmulo.
CAPÍTULO XVIII - Chegada às margens do Miranda. Mantém-se o inimigo afastado para evitar o contágio da cólera. O Miranda não dá vau. Alguns homens o atravessam, entretanto, a nado, trazendo a boa notícia da existência de grande laranjal, coberto de pomos maduros. Os caçadores recebem a ordem de tentar, em corpo, a passagem e conseguem-no. Morte do tenente-coronel Juvêncio. Morte do coronel Camisão. Susbtitui-o, no comando, o major José Tomás Gonçalves. Instala-se um vaivém sobre o rio. Chegam abundantes as laranjas. Seu efeito benéfico sobre os esfaimados e coléricos.
CAPÍTULO XIX - Renasce a confiança. Restabelece-se a disciplina. Passagem do Miranda. Os canhões. Ainda o inimigo. Tomamos-lhe alguns bois que oferecem ótimo recurso. Marcha forçada. Vencemos sete léguas! Canindé
CAPÍTULO XX - Marcha sobre Nioac, que apenas dista duas léguas. O inimigo rodeia continuamente a coluna. O mascate italiano Saraco
CAPÍTULO XXI - Nioc. Decepção; encontramos a vila saqueada, incendiada e quase destruída pelos paraguaios. Infernal ardil de guerra. Desaparece o inimigo, definitivamente. Regresso pacífico do corpo de exército. Ordem do dia sobre esta campanha de trinta e cinco dias.

Prefácio da Décima Terceira Edição

Em seis anos divulgaram-se cerca de seis mil exemplares da Retirada da Laguna da última edição impressa.
Mostra tal fato quanto os leitores brasileiros se interessam pela história pungentíssima deste episódio da Guerra do Paraguai, que figura entre as mais belas e notáveis coisas da tradição de nosso pais.
Razão de sobra lhes assiste: não receia ele confronto com os mais elevados feitos dos anais militares das nações do Ocidente.
É que poucas tropas - com tamanha intrepidez e espírito de abnegação patriótica - sofreram o que suportaram os nossos soldados da Constância e do Valor.
A esta edição anexei três documentos honrosíssimos para o autor da Retirada da Laguna e sua obra (ver pág. 12). É o primeiro a carta pela qual Caxias lhe agradece a oferta de um exemplar da Retirada, manifestando-lhe o seu louvor ao livro e o apreço em que tinha o seu autor.
Assim, mais uma vez e mais largamente se divulga uma das vozes mais antigas de aplauso que a narrativa xenofôntica mereceu. De que prestígio se reveste este depoimento! Partiu do grande e invicto cabo-de-guerra, expressamente ao ofertante do livro quanto o seu relato vinha robustecer-lhe a convicção, de que as forças empenhadas na campanha de Mato Grosso e na Retirada da Laguna, parte do exército de que era generalíssimo, "cumprira sempre seu dever, sustentando sempre a gloria das Armas Brasileiras".
Assim de início teve a épica narrativa da campanha de maio de 1867 a consagração do aplauso do magno Pacificador, gênio tutelar da nossa unidade nacional, broquel do Brasil agredido exteriormente e ínclito patrono do Exército Brasileiro.
O segundo dos documentos veio a ser a mensagem por Taunay merecida de seus irmãos de armas, quando em 1885 e em virtude de circusntâncias políticas incômodas, se não desagradáveis de sua carreira de homem público e parlamentar, deixou o serviço do Exército.
Mais honrosas palavras de despedida seria impossível redigir do que as que encerraram esta manifestação subscrita por centenas de oficiais-generais, oficiais superiores e outros menos graduados, de toda a hierarquia militar da época, partindo de um marechal de exército e ajudante-general do exército aos simples alferes e cadetes.
Constituem estes apelidos um rol do mais alto significado. Nele surgem muitos dos mais glorioso nomes de servidores do Brasil, já então, aureolados pela reputação de seus feitos, e outros ainda no início de suas grandes carreiras.
O último dos três documentos refere-se à manifestação que várias centenas de oficiais-generais, superiores e outros pertencentes à guarnição do Rio de Janeiro, fizeram ao então major Taunay em testemunho de gratidão da classe à sua atuação de parlamentar, como membro que fora da Câmara dos Deputados em duas legislaturas. À sua iniciativa devia haverem-se incorporado à legislação do país medidas de alta benemerência como fossem: a imprescritibilidade dos direitos das viúvas dos militares ao meio soldo, o reajustamento das tabelas de soldos e etapas, a contagem em dobro do tempo de serviço em campanha, entre outras medidas de menor alcance.
Ofereceram-lhe os manifestantes, encabeçados por um dos mais ilustres e prestigiosos oficias daquele tempo, o heróico Antonio Tibúrcio Ferreira Sousa, magnífico retrato a óleo, de tamanho natural.
Em todo o Brasil provocou a passagem do primeiro centenário natalício do autor de Retirada da Laguna, a ocorrência de consideráveis demonstrações de apreço à memória do soldado escritor.
Partiram as primeiras do Exercito Nacional. Por intermedio de generosa ordem do dia, determinou o então Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, que todas as guarnições do pais festivamente celebrassem a efemérides de 22 de fevereiro de 1943 em altamente significativas cerimonias. Em largos artigos recordou a Imprensa Brasileira o que fora a vida e era a obra do militar, do escritor, do parlamentar, do nacionalista apaixonado, do administrador. E vários dos seus mais prestigiosos órgãos a tal fim consagraram largas colunas e paginas de suas edições como sobretudo o fizeram o "Jornal do Comercio" e "O Estado de São Paulo".
Magníficas cerimonias votivas realizaram-se no Rio de Janeiro, por parte do Exercito, do Instituto Histórico Brasileiro, da Irmandade de Santa Cruz dos Militares, de numerosas e prestigiosas associações militares, de numerosas e prestigiosas associações militares, literárias e Histórico de São Paulo e seus congêneres de diversos Estados, sobretudo no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, promoveneo sessões especiais as mais honrosas.
Em todo o Brasil, de extremo a extremo, pode-se afirma-lo, a memória do autor da Retirada envolveu uma onda de simpatia e apreço que aos filhos do reverenciado trouxe a mais grata emoção de despertou-lhes a mais reconhecida saudade.
Assumindo a Presidência da Republica, o Exmo. Sr. General Eurico Gaspar Dutra entendeu, ele e seu Ministro da Guerra, Exmo. Sr. General Canrobert Pereira da Costa, coroar as manifestações de 1943 do modo mais dignificante.
Para patrono do Batalhão-Escola de Engenharia escolheram o soldado historiador da Retirada da Laguna.
Assim, mais uma vez, quero, de publico, em nome próprio e no de meus irmãos, e de quantos pelo sangue se prendem a Alfredo D´Escrognolle Taunay, testemunhar aos dois eminentes oficiais-generais, autores de tão alta homenagem, quanto ela nos sensibilizou e desvaneceu.
Mais nobre, mais eloqüente formula não se poderia encontrar para, em perene rememoração, perante a nação, recordar os serviços de sangue e de paz prestados a Pátria Brasileira pelo historiador do inesquecível feito daqueles guerreiros seus irmãos de armas, de cujos sacrifícios foi comparte. Desses soldados da Constância e do Valor, que, acabrunhados por inexcedíveis privações, perseguidos por inimigo cruel e incomparavelmente mais forte, cercados pelo incêndio, dizimados pela cólera e os combates, exinanidos de forcas mas nunca de animo, salvaram as bandeiras e os canhões que o Brasil lhes confiara...
São Paulo, 25 de maio de 1952

 

Affonso de E. Taunay.

A Sua Majestade o Senhor Dom Pedro II Imperador do Brasil

Senhor,

Ao se render Uruguaiana, inaugurou Vossa Majestade, na América do Sul, a guerra humanitária, a que aos prisioneiros poupa e salva, trata feridos inimigos com os desvelos dispensados aos compatriotas, a que, considerando a efusão de sangue humano deplorável contingência, aos povos apenas impõe os sacrifícios indispensáveis ao solido estabelecimento da paz.
E principalmente sob este pontuo de vista que ouso achar-me autorizado a colocar sob o augusto patrocínio imperial a desataviada narrativa da Retirada da Laguna, obra de constância e da disciplina, em que os oficiais de Vossa Majestade, devendo defender, por entre obstáculos os mais diversos, as bandeiras e os canhões a eles confiados, jamais cessaram, quanto lhes foi possível, de conter o legitimo desforço de bizarros soldados, exasperados pelo furores do inimigo, e obstar à crueldade tradicional de auxiliares índios, vingativos como soem ser.
É este reflexo de um grande ato de iniciativa soberana, a mais bela recordação que jamais poderemos entre camaradas invocar; cabe-nos a honra de a Vossa Majestade dedicá-la.

De Vossa Majestade Imperial
Súdito e servidor, muito humilde e obediente,

Alfredo d`Escragnolle Taunay..

Prólogo

É o assunto deste volume a serie de provações por que passou a expedição brasileira, em operações ao Sul de Mato Grosso, no recuo efetuado desde a Laguna, a três e meia léguas do rio Apa, fronteira do Paraguai, ate o rio Aquidauana, em território brasileiro, trinta e nove léguas, ao todo, percorridas em trinta e cinco dias de dolorosa recordação.
Devo esta narrativa a todos os meus irmãos de sofrimento, aos mortos ainda mais do que aos vivos.
Em todos as épocas largo interesse se ligou às retiradas, não só por constituírem operações de guerra difíceis e perigosas, como nenhuma outra, mas ainda porque os que as executam, já sem entusiasmo nem esperanças, freqüentemente entregues ao desanimo, ao arrependimento de erros ou das conseqüências de erros, precisam arrancar ao espirito, assim preocupado, os meios de enfrentar a fortuna adversa, que a cada passo os ameaça, com todos os seus rigores. Em tais contingências requer-se o verdadeiro cabo de guerra: ali há de se lhe revelar o caracterisco essencial: a inabalável constância.
Vive a Retirada dos Dez Mil em todas as memórias. Colocou Xenofante na plana dos primeiros capitães. Nos tempos modernos vários ocorreram não menos notáveis: a de Altenheim, pelo marechal de Lorge, após a morte de Turenne, seu tio, e que ao grande Condé fez declarar que lha invejava; a de Praga, enaltecedora da nomeada do conde de Belle Isle: a de Plaffenhofen, por Moreau, tida como um dos mais belos jeitos d´armas, efetuados por Turenne; já em nossos dias: a de Talavera, que levou Lorde Wellington, triunfante, a Lisboa; a que honrou o funesto regresso de Moscou e em que o Príncipe Eugênio e o Marechal Ney rivalizaram, em heroísmo; a de Constantina pelo Marechal Clausel e outras menos célebres; mas que, no entanto, pela variedade dos perigos e das misérias, chamam a atenção da história.
Resta-nos solicitar a maior indulgência para esta narrativa cujo único mérito pretende ser o dos fatos expostos. Tiramo-los de um diário escrito em campanha.
Assim nela hão de abundar as incorreções, demasias e repetições; cremos dever deixá-las; são indícios da presença da verdade.

Alfredo D'Escragnolle Taunay.

Rio de Janeiro, outubro de 1868.