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O Noviço - Martins Pena

Peripécias em uma comédia de costumes

Considerado o iniciador da Comédia Brasileira de Costumes, Martins Pena (1815-1848) focaliza os costumes do Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. Mostra a vida na província ou na capital, fixa as relações familiares e as formas como são providenciados os casamentos, ou entabulados os namoros, não lhe escapando os conflitos de gerações ou a denúncia de uma série de aspectos sociais. Da mesma forma, retrata com leveza e desprendimento certos tipos humanos, preferindo os inescrupulosos, os espertalhões, os trapaceiros ou aqueles que, por serem despretensiosos e humildes, carregam um dinamismo todo especial para dentro das cenas rápidas e cheias de qüiproqüós. O Noviço não escapa dessa forma de encarar o teatro do mais importante comediógrafo que o Romantismo nos legou. Peça em três atos, composta de várias cenas rápidas, foi encenada pela primeira vez em 15 de julho de 1845, no Teatro de São Pedro. Florência, influenciada pelo segundo marido, o vilão Ambrósio, segue a sugestão do finório de mandar filha (Emília) e sobrinho (Carlos) para o seminário. Não que houvesse vocação por parte de um ou de outro, mas tudo estava sendo planejado pelo inescrupuloso marido, que arquitetava planos para herdar sozinho toda a fortuna de Florência. Ele acreditava que os legítimos herdeiros ficariam longe da partilha se estivessem no seminário. No entanto, Carlos não se conformava, pois, além de estar apaixonado por Emília, não tinha uma gota de vocação. Suas peripécias são inúmeras, a ponto de descobrir a primeira esposa de Ambrósio, que revelará a todos a verdade sobre o caráter do bígamo. As ações de rápido desenvolvimento focalizam os personagens em situações muitas vezes constrangedoras ou incômodas, e, justamente por isso, hilariantes. Não faltam cenas em que homens aparecem travestidos de mulher e personagens ficam escondidos debaixo da cama ou no interior de armários, disfarces dos mais comuns na obra do autor. São esses recursos que tornam os equívocos o centro das cenas e deixam a platéia acompanhar admirada as peripécias dos envolvidos na trama.

O noviço  traz basicamente a história de Carlos, rapaz endiabrado, que é enviado a um convento por decisão de sua tia e tutora. Não tendo vocação para a vida religiosa, Carlos foge do convento e dedica-se a desmascarar o ambicioso Ambrósio, segundo marido de sua tia.  A seguir organiza-se a seqüência de ações que desenvolvem  a essência dessa narrativa.

A peça inicia-se  com Ambrósio Nunes em uma sala ricamente decorada.  Preparando-se para ir à  igreja com sua mulher Florência,  o personagem afirma em tom cínico que mudara  sua  vida de homem pobre em oito anos. Fora miserável, mas valendo-se de determinação, perspicácia e destituído de qualquer escrúpulo tornara-se rico, condição que lhe conferia poder e lhe garantia  plena impunidade.  É interrompido por Florência que lhe apressa, dizendo que é necessário chegar cedo para sentarem-se nos primeiros bancos e, assim, poderem assistir confortavelmente à missa de Ramos. Ambrósio, com delicadeza de fala e gestos, pergunta à esposa como anda o projeto de encaminhar a enteada Emília para o convento e satisfaz-se com a notícia de que tudo corre como ele desejaria. Com muita habilidade, Ambrósio enfatiza  a idéia de que a herança deixada pelo primeiro marido de Florência nunca o atraiu, revela que sua paixão  sempre foi espontânea e pura e, de certo modo, lhe é até um tanto penoso administrar a fortuna do  nobre falecido, no entanto, cabe ao marido zelar pela esposa amada. Desse modo, toma para si a incumbência de cuidar do dinheiro.

Florência cede  às propostas aparentemente sinceras do marido e concorda em encaminhar não somente a filha para o claustro, mas também incentivar seu filho Juca de nove anos para ser frade, acreditando que dessa maneira estaria proporcionando aos dois uma vida virtuosa  e verdadeiramente feliz. Ambrósio, com a intenção deliberada de controlar toda a situação familiar, mostra-se preocupado com a possibilidade de Carlos, sobrinho tutelado de Florência, vir a se revoltar  contra o noviciado que lhe fora  imposto há  seis meses e causar aborrecimentos ao casal. Encerra-se a conversa. Ambrósio retira-se para acabar de vestir-se. Florência está a agradecer a Deus o marido que tem, quando Emília entra na sala. A mãe aproveita o momento para expor à filha as vantagens que a vida de freira proporciona, Emília chora e, contrariada, declara não ter inclinação para o claustro. A mãe, insensível à dor da filha, abandona a sala  e sobe ao sótão para aprontar-se para a missa.

Inesperadamente, Carlos, vestido de frade, entra afobado e conta à Emília que havia fugido do convento, após discussão que acabara com uma barrigada no Abade Mestre.  Irado, manifesta o desejo de ser militar, de envolver-se em lutas com espadas e não se submeter a jejuns prolongados e a coros e rezas infindáveis. A moça, comovida, ouve o relato dos  martírios sofridos pelo noviço rebelde e lhe conta que também ela deverá entrar para um convento. Carlos revolta-se e declara o seu amor pela prima, acusa severamente Ambrósio de estar conspirando contra todos. Promete que não descansará enquanto não vingar-se  do velhaco Ambrósio. Em meio a conversa, o garoto Juca, desajeitado em um hábito de frade,  corre para o colo de Carlos, que percebe claramente o plano do marido da tia: filhos e enteados dedicados à vida religiosa seriam obrigados a fazer votos de pobreza, o que garantiria a posse de todos os bens por parte de Ambrósio. Emília e Juquinha saem da sala.

Batem à porta. Rosa entra na sala e com  muita reverência dirige-se a Carlos, imaginando ser ele um frade. Conta-lhe que está à procura de seu  marido Ambrósio Nunes, que há seis anos a abandonara em Maranguape, de posse de sua fortuna, a pretexto de investimentos lucrativos em Montevidéu. Sem notícias, ela chegou a pensar que ele tivesse morrido, mas uma pessoa informara-lhe de que estava o fujão na corte, e estava ela ali, no momento, após longa  viagem e andanças pelo Rio de Janeiro. Carlos aproveita-se do engano da mulher e, fingindo ser bom capuchinho, investiga detalhes da história e recebe, como prova da veracidade dos fatos relatados, uma cópia da certidão de casamento de Rosa e Ambrósio. Promete ajudá-la e pede-lhe que aguarde alguns momentos em um quarto da casa. Florência, o marido e a filha, prontos para saírem, deparam-se com Carlos. Ambrósio cobra de Carlos obediência. O moço ironicamente desafia o marido da tia por meio de frases ambíguas, dando a entender que conhecia a história pregressa de Ambrósio. Este se enfurece e passa a fazer-lhe exigências. Carlos o toma  pelo braço, abre a porta do quarto e mostra-lhe Rosa. O tio desorganiza-se, corre e arrasta violentamente para fora da casa mulher e enteada.

Carlos diverte-se com a aflição do cínico tio e expõe à Rosa a atual condição de Ambrósio. A mulher traída não resiste. Desmaia. Cria-se um alvoroço. Juquinha é chamado a ajudar; apanha um galheteiro, Carlos a faz cheirar vinagre, azeite, tentado-lhe restituir os sentidos. Em meio a intensa agitação, ouvem-se meirinhos aproximarem-se. Dirigem-se eles a casa para efetuarem a prisão do travesso noviço. Carlos faz a mulher acreditar que Ambrósio é poderoso e que os oficiais batiam à porta  para prendê-la. Propõe a ela que trocassem vestimentas. Rosa vestiria seu hábito de religioso, e ele, suas vestes de mulher. Desse modo, estaria ela a salvo da fúria dos meirinhos e ele seria preso em seu lugar. Rosa ingenuamente aceita a proposta. Juca a encaminha  para um quarto. Carlos, travestido de mulher, recebe dissimuladamente o Mestre de Noviços e os meirinhos. Faz-se passar por tia do noviço endiabrado, aponta o esconderijo e orienta a maneira segura de surpreender e prender o sobrinho. Os oficiais entram no quarto, capturam o falso noviço e o levam para o convento.

Carlos  diverte-se imaginando a confusão que aconteceria  quando o Abade percebesse que uma mulher fora presa em seu lugar. Pede a Juca que  ficasse à janela e o avisasse da chegada  do padrasto.

Ambrósio, perturbado, invade a sala. Havia deixado Florência e Emília na igreja.  A sua agitação é tamanha que se dirige a Carlos, pensando ser ele Rosa. O sobrinho aproveita-se do engano e diverte-se, respondendo às perguntas de Ambrósio como sendo sua primeira esposa. Chega inclusive a atirar-se aos pés de Ambrósio em pranto exagerado. Nesse instante, o tratante Ambrósio percebe o equívoco. Irrita-se com o descaramento do sobrinho, que imediatamente lhe contém a fúria, mostrando a certidão que estava em seu poder. O tom da cena inverte-se: Ambrósio humilha-se, implora a Carlos que nada revele à Florência. Dono da situação, o rapaz faz algumas exigências:  abandonará o noviciado, receberá a herança deixada pelo pai; Emília não será freira, e  ele terá o consentimento para casar-se com a prima.   Ambrósio, de joelhos, aceita as imposições e suplica piedade de Carlos.

Subitamente,  Florência e Emília entram na sala e há novo equívoco: Florência acredita ter flagrado o marido em traição. Sente-se desgraçada e num assombro se dá conta de que é o sobrinho que subjuga Ambrósio. Pede explicações para aquela patifaria  e, cinicamente, Carlos afirma que estavam encenando uma comédia para o sábado de Aleluia. A tia, atônita, ouve ainda o rapaz trapalhão declarar o acordo que fizera com Ambrósio. Este vai interrompendo a fala de Carlos com argumentos incontestáveis. Diz à mulher que fora um erro encaminhá-lo ao convento, pois não se pode impedir que os jovens possam realizar o amor tão genuíno que sentem. Carlos acrescenta que como prova de agradecimento cederá metade de seus bens em favor do tio bondoso e lhe entrega a certidão de casamento como se entregasse o termo de cessão de parte da fortuna. Ambrósio rasga o papel, dissimulando total desinteresse pela doação. Florência sente-se abençoada por ter casado com um homem tão honrado e chega a vangloriar-se da própria capacidade de distinguir o amante sincero entre tantos pretendentes que tivera logo após a viuvez. Elogia as qualidades do marido, que insiste não ser merecedor de tanta reverência.

Felizes, Emília e Carlos acertam o casamento para dali a quinze dias. Nem bem confirmam o enlace matrimonial, o Mestre dos Noviços surge para efetuar a prisão do noviço fujão.  O religioso  declara enraivecido o constrangimento que passara diante do Abade ao cair novamente em uma cilada de Carlos, quando levou ao convento uma mulher. Diante das declarações do Mestre,  Ambrósio perturba-se e tenta saber do paradeiro da tal mulher. Florência desconfia das intenções do marido. A confusão está armada: o Mestre arrasta o noviço para fora da casa; a tia não consegue impedir a prisão do sobrinho, mesmo dizendo que Carlos abandonaria a vida religiosa e que ela mesma diria isso ao Abade.

O clima na casa é de confusão. Ambrósio mostra-se atordoado, Florência pede explicações para ter sido levada apressadamente para a igreja e ter sido lá deixada. Ambrósio rapidamente dissimula a própria aflição. Tenta abraçar a esposa que se revela arredia, exigindo que se esclareça a identidade da mulher que fora presa em lugar do sobrinho. Acuado, Ambrósio inventa ser a tal mulher uma antiga namorada, que não se conformara com o fato de ter ele se casado. Confessa o erro  cometido ao envolver-se na juventude com aquela moça. Diz-lhe, no entanto, que a causa da separação fora o amor incontido que sentiu desde o primeiro momento que viu Florência. O discurso amoroso de Ambrósio é interrompido por Rosa, vestida de frade. Esta, entregando a certidão a Ambrósio, interpõe-se ao casal, gritando que aquele homem lhe pertencia. Ambrósio corre pela casa, tentando escapar. Nesse momento, ouve-se a ordem de prisão ao bígamo. Enquanto isso se passa, Florência, estarrecida, lê  a certidão de casamento de Rosa Lemos e Ambrósio Nunes.

Muda-se o cenário. Florência, recolhida no quarto de Carlos, para evitar contato com o ambiente em que vivera momentos felizes ao lado do marido farsante, chora convulsivamente e é confortada pela filha. Está assim prostrada há oito dias. Nada a anima, nem mesmo os remédios receitados por um médico da família. Emília afirma ser necessário que a mãe reaja e, desse modo, vingue-se de tanta traição. Florência diz que seu procurador está encaminhando um mandado de prisão e que quer enviar uma carta ao Abade, explicando-lhe os fatos e pedindo-lhe o favor de mandar um representante do convento para que ela se justificasse pessoalmente pelos transtornos causados. Decide, então, que o criado José fosse o portador da carta.

Nova surpresa:  Carlos mais uma vez havia fugido do claustro. Apressado, invade os fundos da casa, com o hábito roto e sujo, as mãos esfoladas, joelhos machucados. Entra em seu antigo quarto. Ouve a voz do padre-mestre, esconde-se embaixo da cama em que está deitada a tia.  Emília acompanha o padre até os aposentos onde está Florência, que acorda meio atordoada. Estava ele incumbido novamente de efetuar a prisão do noviço indomável. Florência e Emília surpreendem-se com a notícia de que Carlos tivesse escapado novamente das grades do convento. Enquanto Florência expõe a sua decisão de livrar Carlos do noviciado, Emília percebe a presença do amado embaixo da cama. O padre-mestre retira-se da casa, aliviado por não ter mais que se haver com as diabruras de Carlos.

Florência lamenta-se da tragédia que lhe acometera. Emília se mostra comovida e comporta-se como se não soubesse o paradeiro do primo, mesmo este lhe puxando as saias e fazendo-lhes cócegas nas pernas. Chega a casa Ambrósio, trajando-se como um frade, seguindo o criado José até o quarto de Florência. Há novo equívoco. Florência imagina ser o frade o representante que requisitara ao Abade e passa a lhe contar a trama de que fora vítima.  Ambrósio, não suportando ouvir tantas acusações, denuncia-se, retirando o capuz, revelando, assim, a sua real identidade. Revela à mulher que as portas da casa estão trancadas e que ninguém poderá lhe socorrer os gritos. Impõe que lhe entregue dinheiro e jóias, enfim, tudo que ela possuísse; caso contrário, só restaria a alternativa de matá-la. Nesse momento, se esclarece mais um mal-entendido: José, fiel a Ambrósio, não tinha enviado a carta ao Abade, na verdade, tinha facilitado os planos de seu patrão.

Florência corre aos gritos pela casa, esconde-se em um canto coberta por uma colcha. Ambrósio, na correria, encontra Carlos, puxa-lhe pelo hábito, pensando tratar-se das saias de Florência. Carlos revida com uma bofetada. A tia permanece imóvel, coberta por uma colcha. Em seguida, entram quatro homens armados e o vizinho Jorge que vinha em socorro aos gritos que da rua se ouviam.  Florência diz que um ladrão travestido de frade tinha invadido a casa, mas já havia fugido. Os homens vasculham a casa e acabam dando com Carlos, que aos berros, sai debaixo da cama, e, tentando  proteger-se das agressões, mete-se atrás de um armário e o atira ao chão. O vizinho, ferido na perna, grita à Florência que o ladrão se escondia no quarto e havia escapulido por uma porta. Emília desvencilha-se do vizinho, agradece a ajuda e mando-o embora.  Insiste com a mãe que o frade era Carlos. A mãe retruca, afirmando que era o padrasto.

A tensão aumenta com a chegada de Rosa, que é recebida com certa amabilidade por Florência. As duas conversam a sós. Lamentam-se da inocência com que se entregaram ao vilão Ambrósio. Rosa apresenta à Florência a ordem de prisão contra o bígamo e queixa-se ao saber que Ambrósio há instantes escapara daquela casa.   De modo inesperado, arrebenta-se uma tábua do armário e Ambrósio, quase asfixiado, põe a cabeça de fora. Ambas mulheres atacam-no aos socos e pauladas. O farsante, aos gritos, suplica compaixão às duas esposas.

Entra no quarto Carlos, preso por Jorge e os soldados. Florência  desfaz o engano, dizendo que era seu sobrinho o que tomavam por ladrão.   Ambrósio esconde-se novamente no armário. Rosa, acompanhada de oficiais de justiça, entrega o mandado lavrado de prisão. O bígamo é retirado do armário e recebe a sentença de prisão. O Mestre de Noviços retorna a casa com a permissão de livrar Carlos do convento.  Antes de retirar-se, o religioso abençoa a futura união de Emília e Carlos. Ambrósio sai lamentando-se da punição recebida.