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A Confederação dos Tamoios (trechos) - Gonçalves de Magalhães

Canto Primeiro

"(...) quero primeiro
Que em torno destas pedras assentados
Me contes se em combate, ou de que modo
O bravo Comorim perdeu a vida."

"Ai! exclama o Cacique, nenhum homem
Morreu ainda por mais nobre causa!
Era meu filho!... E como morreria
Senão lutando tão audaz guerreiro!

"Apenas há três sóis que uns Emboabas,
Dos que talvez na Bertioga habitam,
Naquela praia embaixo apareceram.
Comorim e Iguaçu também andavam
Nesse dia fatal por lá caçando.
Quem podia prever um mal tão grande?
Enquanto num momento, não cuidoso,
Pelo bosque meu filho se entranhara,
Após um caititu que lhe fugia,
Sua irmã, que aqui vês, linda e garbosa,
Que vence o saixé na gentileza,
E excede o sabiá no meigo canto,
Cantando andava só toda entretida
A colher uns ingás pela restinga.
(...)
Aqueles maus a viram, tão sozinha,
E assim que a viram, cobiçando-a logo,
Quiseram agarrá-la. Ela, gritando,
Coitada, como a rola perseguida,
No mato se internou. Após correram,
Cercando-a, quais jaguaras esfaimadas;
Mas ela, pelo irmão chamando sempre,
Rompendo as bastas, enleadas ramas,
Mais ligeira do que eles lhes fugia.
Um mais audaz já quase a segurava,
Quando o meu Comorim aparecendo,
Já com o arco entesado, e a flecha no alvo,
Com pronta morte atravessou-lhe o peito.
Outro, que vinha após, co'o braço alçado
Para lhe disparar troante bala,
Varado o braço, ali caiu bramando.
Era a última flecha; e já meu filho
Daquele inútil braço ia arrancá-la,
E mandá-la de novo a outro ousado,
Que vira mais além por entre os ramos,
Que dous por detrás o aferraram,
E seus punhais nas costas lhe embeberam.
Comorim, mesmo assim preso e ferido,
Curvou-se um pouco, e súbito saltando,
O corpo sacudiu, e os rijos braços,
E por terra atirou os dois contrários:
Como ligeiro e forte era meu filho!
E agarrando-os depois pelos cabelos,
Deu co'a cabeça de um contra a do outro,
Que batendo quebraram-se estalando,
Como estalam batendo as sapucaias!
Nenhum mais se mostrou, os mais fugiram.
Entretanto Iguaçu vinha gritando,
Até que ao longe viu alguns Tamoios,
Que a seus gritos pungentes acudiram,
E sabendo do caso, sem demora
Seguindo-a, foram dar pronto socorro
Ao seu valente irmão. Porém, oh mágoa!
Já longe do lugar da feroz luta
O acharam quase exangue e semimorto.
(...)

Canto Segundo

Bravos são os Tamoios, e descendem

Da nação dos Tupis, que em tribos várias

Todo este imenso litoral brasílio

Numerosa povoa. Eles não erram

Sem tabas, nos sertões, como os terríveis,

Ferozes Aimorés, raça Tapuia.

Natural, inspirada poesia

De todos os distingue, e os enobrece,

E tratáveis os torna, inda que altivos,

Crêem eles que esse dom, e as doces vozes,

Às puras águas devem do Carioca.

Vasta extensão ocupam do terreno

Que banha a Guanabara. As suas tribos

Se estendem desde as longas serranias

Que um órgão fingem, donde o nome tiram,

Até o Cairuçu, terror dos nautas

Tabas formando, que entre si traficam,

Um Deus adoram, que dispara o raio,

E que pelo trovão aos homens fala;

Tupã se ele nomeia; os seus ministros

São os Pajés, que solitários vivem,

E crêem que acima de Tupã, primeiro

E único, Monam tudo criara.

Leis escritas não têm; mas lhes não faltam

Herdadas de seus pais. O mais valente

É na guerra por chefe respeitado,

E um conselho de anciãos na paz os rege.

Já todos os guerreiros se apercebem

De tacapes e maças de pau-ferro,

Arcos robustos, lisos, e lustrados

Pelas lixosas folhas de embaíba;

Carcases cheios de emplumadas flechas

De ligeiras ubás, tendo por pontas

Dentes de tubarões, e ossos buídos,

Seguros como tucum, de icica untado

Que mais o fio aperta, e seca o esmalta.

 

 

Canto Terceiro

 

Terminado o conselho: guerra, guerra,

Os Tamoios uníssonos bradaram,

Como se todos eles não formassem

Senão um homem só, uma só boca.

 

Já dos escuros bosques e altos montes

Projetavam-se as sombras no oriente;

E a doce viração embalsamada,

Que da tarde os ardores refrigera,

Por entre os verdes ramos sussurrando,

Vinhas suaves sopros espargindo.

Brilhavam no ocidente argênteas nuvens

Sobre as ondas de ouro e purpurinas faixas,

Como um campo de opalas cambiantes,

E as aves renovavam seus gorjeios

Em despedida ao Sol, que transmontava.

 

Era o tempo em que o bejo cajueiro,

Cujos ramos o chão frondosos tocam,

Se ia tornando avaro de seus frutos,

Que ostentam do carmim e do ouro as mesclas,

E de verdes castanhas se coroam.

Chorava o tronco seu lágrimas de âmbar,

Que umas sobre outras em cristais pendiam,

Desta resina o pó n’água solvido

É para os índios grata medicina

De balsâmico odor; dos pingues frutos,

Que sucosos a sede refrigeram,

Fabricam destros precioso néctar;

E quem mais talhas tem deste áureo vinho,

Mais rico se reputa entre os selvagens.

 

 

Canto Quarto

[Canto de Iguaçu]

(...)

Um ai do peito a mísera soltando,
A maviosa voz destarte exala:

"Só, eis-me aqui no cimo da montanha,
Dos meus abandonada; como um tronco
Despido, inútil no alto da colina,
A que os ramos quebrou Tupã co'a frecha.

"Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,
Ausente do querido bem-amado,
Como viúva, solitária rola
Em deserto areal seu mal carpindo!

"Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;
Ainda hoje o amante eu vi!... Fugiram ambos,
Velozes como os cervos da floresta:
Já fui feliz; mas hoje desgraçada!"

E os ecos responderam — desgraçada!

"Desgraçada!... E ainda vivo? Antes à guerra
O pai e o bravo amante acompanhasse;
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo,
Acabar a seu lado melhor fora."

E os ecos responderam — melhor fora!

"Gênios, que as grotas povoais e os vales,
Gênios, que repetis os meus acentos,
Ide, e do amado murmurai no ouvido
Que a amante sua de saudades morre."

E os ecos responderam — morre... morre!

Morre... morre! soou por longo tempo.
O canto cala um pouco a triste moça,
Murmurando dos ecos o estribilho,
Como se algum presságio concebesse.
Os negros olhos de chorar cansados
Co'as mãos ele os enxuga; mas de novo
Desses doridos olhos as estanques
Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram,
Como goteja em bagas abundantes
Da fendida taboca a pura linfa.

(...)

"Sim, morrerei..."
E mais dizer não pôde;
Em meio de um gemido a voz faltou-lhe.
Os lábios lhe tremiam convulsivos,
Como flores batidas pelos ventos.
Cruza os braços no colo, os olhos cerra,
Pende a fronte, e no peito o queixo apóia,
As derretidas perlas entornando:
Tal num jardim a pálida açucena,
De matutino orvalho o cálix cheio,
Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina,
Puros cristais em lágrimas vertendo.
Não sei se dorme, ou se respira ainda;
Mas parece entre pedras bela estátua,
Que do abandono o desalento exprime!
O sol, que ao ressurgir a viu chorosa,
Nesse mesmo lugar chorosa a deixa.

(...)

Canto VI

[S.Sebastião falando a Jagoanharo]

Índio! Se amas a terra em que nasceste,

E se podes amar o seu futuro,

A verdade da Cruz aceita e adora.

Que importa quem a traz ser inimigo,

Se o bem fica, e supera os males todos!

Bons e maus, tudo serve à Providência!

Como de um fruto pútrido, lançado

Sobre a terra, a semente germinando,

Nova árvore produz, e novos frutos;

Assim desses cruéis, corruptos homens,

Que vos flagelam hoje, um santo germe

Aqui produzirá filhos melhores.

Invencível poder tem a verdade,

Que o Cristo do Senhor, na cruz morrendo,

Legou aos homens todos - que se amassem!

Amor é igualdade, paz, justiça,

Fraternal união, e caridade:

Estas são as lições que a cruz nos dita.

 

Canto VIII

(...)

Ali, aos pés do altar, co’os companheiros,

Humilde estava Anchieta, que pregando

Nesse dia dissera: -“Quando ouvirdes

Nesta noite fatal, entre lampejos,

Horrenda arrebentar a tempestade,

Que a cólera do céu sobre nós manda;

Vós, mulheres, crianças indefesas,

Vinde, vinde, correi à santa Igreja,

Pedir por vossos pais, por vossos filhos,

E por vossos maridos e parentes.

São gratas ao Senhor as flébeis vozes

Dos pobres inocentes, misturadas

Co’as súplicas das mães que o pranto afoga.

 

Canto X

(...)

Cantava Anchieta; e que ao fazer podia,

Que mais grato ao céu fosse em tal soidade,

Em horas tais que o vulgo ócio entrega?

A própria Natureza tão formosa,

Com quem simpatizava essa bela alma

Mais o dispunha a difundir-se em hinos.

 

Mas quem ali seus cantos entendia?

O céu puro, o puro céu a quem cantava;

Esse céu que o inspirava; e após, mais tarde,

Bíblicos salmos inspirou a Caldas,

E a São Carlos os cantos numerosos

Da sidérea Assunção da Sacra Virgem:

Esse céu, onde os Anjos já sabiam

Os nomes de Durão, dos Alvarengas,

De Basílio, e de Cláudio, e de outros vates,

Que em séculos futuros assomando,

A terra do Cruzeiro honrar deviam.

Inspire-me esse céu, que viu-me infante,

Nos braços maternais, beber co’a vida

Este amor da harmonia que afagou-me;

E possa ouvir meu canto derradeiro

E o meu suspiro extremo, nessas terras

Do saudoso Carioca, onde descansam

Os ossos de meus pais. E Deus conceda

Que junto aos ossos seus meus osso

jazam.