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FAGUNDES VARELA

Luís Nicolau Fagundes Varela

(Nossa Senhora da Piedade [Rio Claro] RJ 1841 - Niterói RJ 1875)

 Publicou seu primeiro livro de poesia, Noturnas, em 1861. Na época, já havia publicado artigos e poemas na Revista Dramática e Revista da Associação Recreio Instrutivo, de São Paulo SP. Em 1961 também publicou os folhetins As Ruínas da Glória e A Guarida de Pedra, e de poemas em homenagem aos atores Furtado Coelho, Eugênia Câmara e João Caetano, no Correio Paulistano. Entre 1862 e 1866 cursou Direito em São Paulo e em Recife PE, mas não chegou a concluir a faculdade. Sua obra poética inclui os livros O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1869), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta; ou, O Evangelho nas Selvas (1875), e os póstumos Cantos Religiosos (1878) e O Diário de Lázaro (1880). Em 1882 foram publicadas suas Obras Completas, e em 1857 suas Poesias Completas. Fagundes Varela é um dos nomes mais importantes do Romantismo brasileiro. Segundo o crítico Edgard Cavalheiro, "sua poesia, pelo menos a mais expressiva, aquela que mais alto o eleva, focaliza, com uma constância digna de nota num temperamento tão versátil, a luta entre a cidade e o campo, entre a solidão e o convívio social. Nesse dualismo Fagundes Varela se debateu, numa luta que assume, por vezes, aspectos de intensa dramaticidade.".

 

A Flor do Maracujá

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas do sereno
Nas folhas de gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-d'água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová!
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela!
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo esse emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em — a —
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!

 

A S. Paulo

Terra da liberdade!
Pátria de heróis e berço de guerreiros,
Tu és o louro mais brilhante e puro,
O mais belo florão dos Brasileiros!

Foi no teu solo, em borbotões de sangue
Que a fronte ergueram destemidos bravos,
Gritando altivos ao quebrar dos ferros:
Antes a morte que um viver de escravos!

Foi nos teus campos de mimosas flores,
À voz das aves, ao soprar do norte,
Que um rei potente às multidões curvadas
Bradou soberbo — Independência ou morte!

Foi de teu seio que surgiu, sublime,
Trindade eterna de heroísmo e glória,
Cujas estátuas, — cada vez mais belas,
Dormem nos templos da Brasília história!

Eu te saúdo, óh! majestosa plaga,
Filha dileta, — estrela da nação,
Que em brios santos carregaste os cílios
À voz cruenta de feroz Bretão!

Pejaste os ares de sagrados cantos,
Ergueste os braços e sorriste à guerra,
Mostrando ousada ao murmurar das turbas
Bandeira imensa da Cabrália terra!

Eia! — Caminha, o Partenon da glória
Te guarda o louro que premia os bravos!
Voa ao combate repetindo a lenda:
— Morrer mil vezes que viver escravos!

 

Ideal

Não és tu quem eu amo, não és!
Nem Teresa também, nem Ciprina;
Nem Mercedes a loira, nem mesmo
A travessa e gentil Valentina.

Quem eu amo te digo, está longe;
Lá nas terras do império chinês,
Num palácio de louça vermelha
Sobre um trono de azul japonês.

Tem a cútis mais fina e brilhante
Que as bandejas de cobre luzido;
Uns olhinhos de amêndoa, voltados,
Um nariz pequenino e torcido.

Tem uns pés... oh! que pés, Santo Deus!
Mais mimosos que uns pés de criança,
Uma trança de seda e tão longa
Que a barriga das pernas alcança.

Não és tu quem eu amo, nem Laura,
Nem Mercedes, nem Lúcia, já vês;
A mulher que minh'alma idolatra
É princesa do império chinês.

 

Juvenília I

Lembras-te, Iná, dessas noites
Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?

Quando as estrelas sorriam,
Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas,
Ao langor daquele céu?

Lembras-te, Iná? Belo e mago,
Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.

Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão relvoso cobria
Das flores das trepadeiras.

Lembras-te, Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.

Teu seio era como a lira
Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.

(...)
Que é feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!

Onde foste, ó pomba errante?
Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?

Ah! Iná! por toda parte
Que teu espírito esteja,
Minh'alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!

Irei às nuvens serenas,
Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberbo mergulhador!

Irei à pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;

Se depois de imensas dores,
No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!

 

Mauro, o Escravo

(Fragmentos de um poema)

A Sentença
(...)

XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.

(...)

XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.

(...)

XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!

XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:

XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?

XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!

XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!

XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.

XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.

XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.

 

O General Juarez

(...)
Juarez! Juarez! sempre teu nome
Da liberdade ao lado!
Sempre teus brados ao passar dos ventos!
Sempre a lembrança tua
A cada marulhar de humanas vagas!
Em que fonte sagrada
Bebeste esse valor e essa firmeza
Que os reveses não quebram?

(...)
Quão enganada marcha a tirania!
Quão cego o despotismo
Paira e volteia nessas virgens plagas!
Há no seio da América
Um mundo novo a descobrir-se ainda:
Senhores de além-mar,
Quereis saber onde esse mundo existe?
Quereis saber seu nome?
Sondai o peito à raça americana,
E nesse mar sem fundo,
Inda aquecido pelo mar primeiro,
Vereis a liberdade!

Tu a encaraste, Juarez, de perto!
No mais fundo das matas
Onde a mãe natureza te mostrava
Um código mais puro
Do que os preceitos da infernal ciência
Cujas letras malditas
Queimam do pergaminho a lisa face,
Aprendeste o segredo
Que desde a hora prima do universo
As torrentes murmuram!
E contemplando o ermo, o céu, as águas,
Choraste por ser homem!

Mas dos vulcões sorvendo o fumo espesso,
Transpondo os areais,
Buscando asilo nas florestas amplas,
Arrostando as tormentas
Entre um pugilo de guerreiros bravos,
Pejaste de legendas
Todo o deserto que teus pés tocaram!
E as solidões sorriam,
Os abutres saíam de seus antros,
As turbas dos selvagens
Vinham surpresas se postar nos montes
Para ver-te passar!

O espírito de um povo nunca morre.
Não, não foram os homens
Que sobre o globo prolongando a vista,
Regiões escolheram,
E formaram nações, usos e crenças;
Não, uma oculta lei
Disse: — Ao Árabe as terras arenosas,
Aos Germanos a neve;
Aqui o fogo, a luz, ali neblinas;
Nesta calmos pastores,
Ali fortes guerreiros; sonhos, crenças,
Lhes servem de defesa.

(...)

Cântico do Calvário

À MEMÓRIA DE MEU FILHO
Morto a 11 de dezembro de 1863

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O povir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, — caíste! — Crença, já não vives!

Correi, correi, ó lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! Um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer, — gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! — Sede benditas!
Ó filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente,
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante
 

 


(...)
Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, — sinto o aroma
Do incenso das igrejas, — ouço os cantos
Dos ministros de Deus que mem repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde!...

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela.
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.

 

Ira de Saul

FRAGMENTO

A noite desce. Os furacões de Assur
Passam dobrando os galhos à videira,
Todos os plainos de Salisa e Sur
Perdem-se ao longe em nuvens de poeira.

Minh'alma se exacerba. O fel d'Arábia
Coalha-se todo neste peito agora.
Oh! nenhum mago da Caldeia sábia
A dor abrandará que me devora!

Nenhum! — Não vem da terra, não tem nome,
Só eu conheço tão profundo mal,
Que lavra como a chama e que consome
A alma e o corpo no calor fatal!

Maldição! Maldição! Ei-lo que vem!
Oh! mais não posso! A ira me quebranta!...
Toma tu'harpa, filho de Belám,
Toma tu'harpa sonorosa e canta!

Canta, louro mancebo! O som que acordas
É doce como as auras do Cedron,
Lembra-me o arroio de florentes bordas
Junto à minha romeira de Magron.

Lembra-me a vista do Carmelo, — as tendas
Brancas sobre as encostas de Efraim,
E pouco a pouco apagam-se as tremendas
Fúrias do gênio que me oprime assim!

 

[A Cruz]

***

                   Estrelas

                   Singelas,

                   Luzeiros

                   Fagueiros,

Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!

Desertos e mares, - florestas vivazes!

Montanhas audazes que o céu topetais!

                    Abismos

     Profundos!

     Cavernas

     E t e r nas!

     Extensos,

     Imensos

     Espaços

     A z u i s!

Altares e tronos,

Humildes e sábios, soberbos e grandes!

Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!

Só ela nos mostra da glória o caminho,

Só ela nos fala das leis de - Jesus!

 

ANCHIETA OU O EVANGELHO NAS SELVAS

CANTO IV

[Episódio de Salomé]

XII

Os primores da Europa, o luxo d’Ásia,

O fausto desta, a profusão daquela

De Herodes o palácio aformoseiam.

Mil candieiros, transparentes tochas,

Argênteos lampadários, iluminam

As vastas arcarias, machetadas

Dos mais lindos mosaicos do Oriente,

E as colunas de mármore, as pilastras,

Cobertas de lavores, e as paredes

Ornamentadas de brasões pomposos.

Os gratos sons das harpas e doçainas,

Dos citulos e frautas repercutem

Fora na larga praça, onde confusa

Cochicha a multidão maravilhada.

Celebra o rei vaidoso e dissoluto

Seu dia natalício. As salas todas

Estão cheias de amigos e convivas:

Ricos Hebreus, Latinos cavaleiros,

Senhores do Ocidente e do Levante.

As mais belas Romanas da soberba,

Mas depravada corte do tirano,

As mais airosas filhas da Circássia,

E as ninfas mais gentis das ilhas gregas

A lauta mesa reclinadas ouvem

Os torpes, desonestos galanteios

Dos escravos de César. Petulante,

De louro coroado, e verde mirto,

Do amor emblema, e símbolo da glória,

Em macia camilha repimpado,

Excita à ebriedade o rei da festa

Seus libertinos, cínicos parceiros.

Bela, apesar do vício, a fronte esbelta

Aos joelhos do amante repousando,

Herodias sorri. De espaço a espaço,

Gracioso escanção, ágil travesso,

Demônio de malícia em tenra idade,

As taças de ouro que a seus pés reluzem

De excitante falerno enche, dizendo

Imodestos gracejos. Nenhum pajem

Do mais devasso camarim do império

O vencera em audácia e desvergonha!

Entretanto, meu Deus! É uma menina,

No albor da adolescência, rósea, loira,

Olhos azuis brilhantes, lábios de anjo!

E esta menina é filha de Herodias!...

XIII

Mas, pouco e pouco, se entibia e passa.

O ardor da saturnal. Ébrios e fartos,

Estiram-se e bocejam sonolentos

Os heróis do festim: a vil preguiça

Vence a voraz e crassa intemperança...

Então, como entendendo os pensamentos

Que da mãe tediosa a fronte nublam,

Corre a menina astuta, a sala deixa,

Deixa os vestidos leves que trajava,

Cinge de rosas a gentil cabeça,

Desnuda os seios, a cintura enfeita

De perfumadas e vistosas faixas.

Toma um ebúrneo tamboril, coberto

Dos mais finos e artísticos lavores,

E, do espelho fiel se despedindo,

Volta faceira à sala do banquete.

XIV

Os tangedores, avisados, rompem

Nas mais doces e ternas harmonias;

Os convivas levantam-se surpresos:

Derramam servos nos braseiros ricos

Perfumes sem iguais. Senta-se Herodes,

Estremece Herodias. Entretanto,

Escrava da cadência, mas senhora

Dos requebrados, lânguidos meneios,

Sobre as flores dos séricos tapetes,

Mais ligeira que a leve borboleta,

Mais bela que os espíritos errantes

Que à noite brincam nos rosais cheirosos,

Ela volteia, a doida bailadeira!

Na dança figurada, aos ágeis passos

Mistura os garridos movimentos,

Os gestos mais lascivos. Arquejante,

Às vezes para do salão no centro,

Suspira e cerra os olhos... vai e, quem sabe?

Sucumbir de cansaço! Mas engano!

Reanima-se, ri, levanta os braços,

Flexível como a serpe encurva o corpo,

E num rápido giro se aproxima

Do fascinado Herodes, sacudindo

Sobre seus pés as rosas da grinalda,

Entre os aplausos mil dos assistentes.

Depois, qual passarinho caprichoso,

Que das nuvens descendo, em tarde estiva,

Modera o vôo, quando a terra avista,

Ela os passos afrouxa, e segue a medo

Os mais lento tanger dos instrumentos.

Imita a corça, quando alegre salta,

Quando corre veloz; é viva abelha

Sobre os lírios dos vales adejando...

Mimoso colibri, quando descansa,

Tão leve, que não dobra das alfombras

A mais delgada flor! Por largo tempo

Assim deleita a vista dos convivas;

Ofegante por fim, extenuada,

Faz um último esforço, e mansamente

Cai, pétala de rosa, aos pés de Herodes.

XV

-Oh!... Pede-me o que quiseres, não vaciles!

Inda que sejam meu governo e o erário,

Juro que t’os darei! Grita enlevado

O romano senhor; eia, responde!

Então do ódio escuro e escuro gênio

Aos ouvidos murmura de Herodias:

-Lembra-te do Batista! Estranho lume

Da régia libertina inflama os olhos,

Vivo rubor lhe sobe ao lindo rosto,

Chama a filha imprudente, ao colo a estreita,

E um conselho cruel lhe dá baixinho.

XVI

-Ó rei! Diz a volúvel dançarina,

Se a promessa que parte de teus lábios

Um gracejo não fosse... - Pelos deuses,

E deusas imortais! Herodes brada,

Seja eu ludíbrio do plebeu mais rude

Se alguma coisa te negar! -Desculpa,

Se duvidei de ti; pois bem, atende:

Sabes quantas afrontas recebemos

Do protervo Batista, diz a moça;

Que punição lhe deste? Descuidoso

Nos terrados de vasta fortaleza,

Em risonha colina levantada

Escarnece de ti!... Agora escuta,

E cumpre, como um rei, o que juraste:

-Dá-me a cabeça do Batista! Herodes

Treme, os olhos abaixa, e não responde

-Hesitas?... E da mesa do banquete

A filha de Herodias se aproxima,

Lança mão de uma salva primorosa

Que ao tirano apresenta: -Nesta salva

Quero a cabeça do Batista. O bárbaro

Chama o chefe da guarda que o servia:

-Escutaste? -Escutei. -Parte, e obedece!

Eis meu anel, te servirá de senha.

O sinistro emissário a sala deixa.

 

 

Canto VIII

[Episódio da Última Ceia]

V

Iluminada estava a bela sala,

A sala do festim; servida a mesa:

Adornadas de palmas as pilastras,

Quando Jesus chegou. Mágico efeito

Produzia o clarão dos brancos círios

Sobre as ricas alfaias e cortinas

Das mais vistosas sedas, que mudavam

As vivas cores sob a luz imprópria.

Suave aroma de resinas brandas

Embalsamava o ar; vago mistério,

Secreto encanto que os altares cerca,

E banha os santuários, quando mudos

No silêncio da noite refletimos

No templo do Senhor, e nosso espírito

Julga presente Aquele que invocamos;

Os eflúvios, talvez, de um outro mundo,

O claro espaço enchiam, consagrado

Da liberdade aos últimos momentos,

Da caridade às práticas sublimes,

E da esperança às vívidas promessas!

Convidando os humildes companheiros,

Sentou-se à mesa o Salvador; à destra

Tomou lugar o cândido discípulo,

Filho de Zebedeu, à esquerda... Judas!

Ocuparam os mais ambos os lados.

Como não fosse o gosto dos banquetes,

Nem a paixão das finas iguarias

Que os reunira ali, mas o respeito

Das priscas tradições e os atrativos

Da fraterna união, passava o tempo,

E os felizes consócios discorriam

Sobre as divinas leis. Silencioso

Até então Jesus se conservava;

Mas, elevando a voz, grave e solene

Deste modo falou: -Ó meus amigos!

Desejei, com afã, entre vós outros

A páscoa celebrar antes da morte;

E crede, vos afirmo, doravante

Nenhum sustento levarei à boca

Até que ela se cumpra gloriosa

No reino de meu Pai! Houve uma pausa

De curta duração; o amado Mestre

Tomou então um cálice de prata,

Em cujas faces primoroso artista

Esculpira o sublime sacrifício

Do pio e manso Isaac, e lentamente

O encheu de rubro e generoso vinho.

-Bebei, disse, entregando-o aos companheiros,

Que não mais provarei da vide o fruto,

Enquanto não vier o Reino eterno!

Depois ergueu-se e se afastou da mesa,

Despiu as vestiduras, e cingiu-se

De alva toalha do mais fino linho,

Tomo uma bacia, encheu-a d’água,

Pôs-se a lavar os pés a seus discípulos.

Esta insólita e nova cerimônia

Lançou a confusão nas almas simples

Dos simples aldeões: surpreendidos

Olhavam para Cristo e não ousavam

Um gesto aventurar; porém tranqüilo

Prosseguia Jesus: nas finas dobras

Da macia toalha os pés molhados

Enxugava ao penúltimo. Entretanto,

O velho Pedro esquivo se escondera,

E, chegando-lhe a vez, o grande Mestre

Chamava-o com instância. -Em tal não penses,

O lhano galileu, gritou medroso;

Lavar-me os pés, Senhor, a mim, teu servo,

Tu, meu Mestre, meu Pai, meu Deus! Não quero

Nem o deves querer! -Se te recusas,

Responde o Salvador, não és comigo;

Da santa comunhão não fazes parte!

-Não! Não me negarei, atalha Pedro,

Lava-me os pés, Senhor, as mãos... o rosto,

Lava-me o coração! Torna-me puro

Como a luz, como o céu, como a verdade!

-Porém, disse Jesus, o que está limpo

Só deve os pés lavar, os pés somente,

E vós outros sois limpos.. ah! Não todos!...

Se os sócios do Senhor não conhecessem

A índole de Judas, bastaria

Para entender a dúbia referência

Olhar para o traidor! Tinha no rosto,

Na fealdade horrenda de um demônio,

A sinistra expressão de um condenado.

Findo o humilde servo, o Mestre exímio

Pôs de lado a toalha, e satisfeito,

Tomando as investiduras, assentou-se

No lugar que deixara junto à mesa,

E assim continuou: -Pobres amigos!

Senhor e Mestre me chamais, é certo

Que sou Mestre e Senhor, os pés vos lavo,

O que deveis fazer? Seguir-me o exemplo,

Lavar os pés também, mas uns aos outros.

Então, tomou o pão, lançou-lhe a benção

E nome de seu pai, e, erguendo o rosto

Nesse momento esplêndido de graças,

 

Distribuiu aos mansos companheiros

O sagrado alimento. -Eis o meu corpo,

Dado por vosso amor... Depois, enchendo

O cálice de vinho, apresentou-lhes:

-Eis o meu sangue, o sangue da inocência,

O da Nova Aliança ardente sangue,

Que por vossa intenção será vertido...

Comei, pois, e bebei!... entre os convivas

Deste festim divino, entre os eleitos

Que o maná verdadeiro, a hóstia santa,

O vinho milagroso recebiam,

Achava-se o precito que vendera

A carne e o sangue do celeste amigo!...

Cristo suspirou baixando os olhos,

Depois assim falou: -Sombrio arcano!

Desgraça inevitável! No futuro,

Sem que a suprema lei domine os atos

Da liberdade humana, eu vejo claro

O que há de suceder! Mesquinhos seres!

Sentados junto a mim, tratais-me agora

Com respeitoso amor, vossas palavras

São da fidelidade a viva cópia...

E, contudo, um de vós, há de trair-me!

E, contudo, um de vós, pérfido, ingrato,

Há de entregar-me aos bárbaros verdugos

Que meu sangue reclamam, como a herança

De seus perversos pais! -Senhor, que dizes!

- Serei eu?... Serei eu?... logo perguntam

Os pobres aterrados. -Ora, vede,

Prossegue o Redentor, dos que me cercam,

O que a meu prato leva a mão comigo,

Aquele a quem eu der o pão molhado,

É ele o delator. Junto de Cristo,

À destra, estava João, o mais discreto,

O mais moço também e o mais formoso

Da caridosa grei; entristecido

Ao ouvir estas lúgubres palavras,

Escondera a cabeça graciosa

No seio de Jesus; e as loiras ondas

Dos lustrosos cabelos anelados,

Como um véu de áureos fios, lhe ocultavam

As abundantes lágrimas. Bem cedo

Cumpira-se o mistério: várias vezes,

Por simples distração ou grosseria,

No prato do Senhor tocara o ímpio,

Mais claro ainda o caso ia tornar-se;

Já ninguém conversava: então o mestre

Cortou o pão, molhou-o, e deu a Judas!

-Senhor! Senhor, que fazes!... Porventura

Me julgas o traidor? - Tu o disseste,

Tu o disseste, Judas! Lhe responde

Cristo magoado. O que receias?

Vai, as horas escoam-se ligeiras,

E o que tens a fazer, faze-o depressa!

Um momento depois em vão buscavam

Na sala do banquete o fementido:

Ele os tinha deixado, e estava longe.