ORFEU SPAM APOSTILAS

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Domingos José Gonçalves de Magalhães

(Rio de Janeiro RJ 1811 - Roma Itália 1882)

Formou-se médico em 1832, no Rio de Janeiro, mesmo ano em que publicou Poesias. Ainda em 1832 estudou Filosofia com Monte Alverne, no Seminário Episcopal de São José, Rio de Janeiro RJ. No ano seguinte viajou para a Europa, onde fez o curso de Filosofia de Jouffroy, em Paris, França. Ingressou, em 1834, como sócio-correspondente do Instituto Histórico de França. Em 1936 fundou, em Paris,  Niterói - Revista Brasiliense, com Torres-Homem e Porto Alegre, e publicou Suspiros Poéticos e Saudades, marco inicial do Romantismo no Brasil. Nas décadas seguintes publicou ensaios filosóficos, históricos e literários e dedicou-se ao teatro, traduzindo e produzindo peças. De volta ao Brasil, foi professor de Filosofia no Colégio Pedro II, entre 1838 e 1841, no Rio de Janeiro RJ. Em 1838 tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Fundou, em 1843, a Revista Minerva Brasiliense. Ligado a D. Pedro II, ocupou vários cargos políticos, entre os quais o de deputado geral pelo Rio Grande do Sul, em 1846. Nos anos seguintes foi  cônsul na Itália, ministro-residente na Áustria e enviado extraordinário e ministro plenipotenciário do Brasil nos Estados Unidos e na Argentina. Autor de A Confederação dos Tamoios, poema épico editado por D. Pedro II, Gonçalves de Magalhães é um dos principais nomes do Romantismo no Brasil.

 

SUSPIROS POÉTICOS E SAUDADES

(Prefácio)

lede

Pede o uso que se dê um prólogo ao livro, como um pórtico ao edifício; e como este deve indicar por sua construção a que Divindade se consagra o templo, assim deve aquele designar o caráter da obra. Santo uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este livro se elevem em alguns espíritos apoucados.

É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares; ora assentados entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos impérios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gótica catedral, admirando a grandeza de Deus, e os prodígios do Cristianismo; ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre túmulos; ora enfim refletindo sobre a sorte da Pátria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as cenas da Natureza, diversas como as fases da vida, mas que se harmonizam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anéis de uma cadeia; poesias d'alma e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.

Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silêncio da noite, cansado de fadiga, elevou até a Deus uma alma piedosa, e verteu lágrimas amargas sobre a instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na história da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas ações; esse achará um eco de sua alma nestas folhas que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonize com o seu suspiro.

Para bem se avaliar esta obra, três cousas revela notar: o fim, o gênero, e a forma.

O fim deste livro ao menos aquele a que nos propusemos, que ignoramos se o atingimos, é o de elevar a Poesia à sublime fonte donde ela emana, como o eflúvio d'água, que da rocha se precipita, e ao seu cume se remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanas do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

A Poesia, este aroma d'alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da inteligência deve santificar as virtudes, e amaldiçoar os vícios. O poeta, empunhando a lira da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Santo, do Justo, e do Belo.

Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos líricos, tão cheio de saber, e que pudera ter sido o reformador da nossa Poesia nos seus primores d'arte, nem sempre se apoderou desta idéia. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traduções; e quando ele é original causa mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferência ao homem civilizado, como se aquele a este superasse, como se a civilização não fosse obra de Deus, a que era o homem chamado pela força da inteligência, com que a Providência dos mais seres o distinguira!

Outros apenas curaram de falar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decência!

Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua beleza, embalado pelos prazeres; no cárcere, como no palácio; na paz, como sobre o campo de batalha; se ele é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encontrar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas asas da harmonia até às idéias arquétipas.

O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos aí procuram aplacar a sede.

Ora, nossa religião, nossa moral é aquela que nos ensinou o Filho de Deus, aquela que civilizou o mundo moderno, aquela que ilumina a Europa , e a América: e só este bálsamo sagrado devem verter os cânticos dos poetas brasileiros.

Uma vez determinado e conhecido o fim, o gênero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspiração, e artificial o entusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração se a Mitologia podia, ou não, influir sobre nós. Contanto que dissessem que as Musas do Hélicon os inspirava, que o Febo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras tais e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinham feito, e que como Homero emparelhavam; como se pudesse perceber belo quem achasse algum velho manto grego, e com ele se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguém honram.

Quanto à forma, isto é, a construção, por assim dizer, material das estrofes, e de cada cântico em particular, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéias como elas se apresentaram, para não destruir o acento da inspiração; além de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rimas, e a simetria das estâncias produz uma tal monotonia, e dá certa feição de concertado artifício que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orquestra só com sons doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem própria, seus sons imitativos, e períodos explicativos.

Quando em outro tempo publicamos um volume das Poesias da nossa infância, não tínhamos ainda assaz refletido sobre estes pontos, e em quase todas estas faltas incorremos; hoje porém cuidamos ter conseguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, se não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.

Algumas palavras acharão neste livro que nos dicionários portugueses se não encontram; mas as línguas vivas se enriquecem com o progresso da civilização, e das ciências e uma nova idéia pede um novo termo.

Eis as necessárias explicações para aqueles que lêem de boa fé e se aprazem de colher uma pérola no meio das ondas; para aqueles, porém que com olhos de prisma tudo decompõem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o néctar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?... Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escárnio.

Este livro é uma tentativa, é um ensaio; se ele merecer o público acolhimento, cobraremos ânimo, e continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aqueles que fazer poderemos com o tempo.

É um novo tributo que pagamos à Pátria, enquanto lhe não oferecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a atenção descansa, fatigada pela seriedade da ciência.

Tu vais, ó livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Pátria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os nossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, exceto o egoísmo; tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos de inverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.

Vai; nos te enviamos, cheio de amor pela Pátria, de entusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em Deus, e no futuro.

ADEUS!

Paris, junho de 1836.

 

Napoleão em Waterloo

Tout n’a manqué que quand tou avait

Réussi

Napoleão em S. Helena (memorial).

 

Eis aqui o lugar onde eclipsou-se

O Meteoro fatal às régias frontes!

E nessa hora em que a glória se obumbrava,

Além o sol em treva se envolvia!

Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!

Dois astros ao ocaso caminhavam;

Tocado ao seu zênite haviam ambos;

Ambos iguais no brilho; ambos na queda

Tão grandes como em horas de triunfo!

 

Waterloo!... Waterloo!... Lição sublime

Este nome revela à Humanidade!

Um Oceano de pó, de fogo, e fumo

Aqui varre o exército invencível,

Como a explosão outrora do Vesúvio

Até seus tetos inundou Pompéia.

 

O pastor que apascenta seu rebanho;

O corvo que sangüíneo pasto busca,

Sobre o leão de granito esvoaçando;

O eco da floresta, e o peregrino

Que indagador visita estes lugares:

Waterloo!... Waterloo!... dizendo, passam.

 

Aqui morreram de Marengo os bravos!

Entretanto esse Herói de mil batalhas,

Que o destino dos Reis nas mãos continha;

Esse Herói, que co’a ponta de seu gládio

No mapa das Nações traçava as raias,

Entre seus Marechais ordens ditava!

O hálito inflamado de seu peito

Sufocava as falanges inimigas,

E a coragem nas suas acendia.

 

Sim, aqui estava o Gênio das vitórias,

Medindo o campo com seus olhos de águia!

O infernal retintim do embate de armas,

Os trovões dos canhões que ribombavam,

O sibilo das balas que gemiam,

O horror, a confusão, gritos, suspiros,

Eram como uma orquestra a seus ouvidos!

Nada o turbava! -Abóbadas de balas,

 

Pelo inimigo aos centos disparadas,

A seus pés se curvavam respeitosas,

Quais submissos leões; e nem ousando

Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

 

Oh! Por que não venceu? - Fácil lhe fora!

Foi destino, ou traição? - A Águia sublime

Que devassava o céu com vôo altivo

Desde as margens do Sena até ao Nilo,

Assombrando as Nações co’as largas asas,

Por que se nivelou aqui co’os homens?

 

Oh! Por que não venceu? - O Anjo da glória

O hino da vitória ouviu três vezes;

E três vezes bradou: - É cedo ainda!

A espada lhe gemia na bainha,

E inquieto relichava o audaz ginete,

Que soía escutar o horror da guerra,

E o fumo respirar de mil bombardas.

Na pugna os esquadrões se encarniçavam;

Roncavam pelos ares os pelouros;

Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;

Encruzadas espadas, e as baionetas,

E as lanças faiscavam retinindo.

 

Ele só impassível como a rocha,

Ou de ferro fundido estátua eqüestre,

Que invisível poder mágico anima,

Via seus batalhões cair feridos,

Como muros de bronze, por cem raios;

E no céu seu destino decifrava.

 

Pela última vez co’a espada em punho,

Rutilante na pugna se arremessa;

Seu braço é tempestade, a espada é raio!...

Mas invencível mão lhe toca o peito!

É a mão do Senhor! Barreira ingente;

Basta, guerreiro! Tua glória é minha;

Tua força em mim está. Tens completado

Tua augusta missão. - És homem; - pára.

 

Eram poucos, é certo; mas que importa?

Que importa que Grouchy; surdo às trombetas,

Surdo aos trovões da guerra que bradavam:

Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;

O teu Imperador aqui te aguarda.

Ah! Não deixes teus bravos companheiros

Contra a enchente lutar, que mal vencida

Uma após outra em turbilhões se eleva,

Como vagas do Oceano encapelado,

Que furibundas se alçam, lutam, batem

Contra o penedo, e como em pó recuam,

E de novo no peito se arremessam.

 

Eram poucos, é certo; e contra os poucos

Armadas as Nações aqui pugnavam!

Mas esses poucos vencedores foram

Em Iena, em Montmirail, em Asterlitz.

Antes o Tabor, e os Alpes curvos

Viram passar as águias vencedoras!

E o Reno, e o Manzana, e o Adige, e o Eufrates

Embalde à sua marcha se opuseram.

 

Eram os poucos que jamais vencidos

Os dias seus contavam por batalhas,

E de cãs se cobriram nos combates;

O sol do Egito ardente assoberbaram,

A peste em Jafa, a sede nos desertos,

A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;

Poucos que se não rendem; - mas que morrem!

 

Oh! Que para vencer bastantes eram!

A terra em vão contra eles pleiteara,

Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

 

Dia fatal, de opróbio aos vencedores!

Vergonha eterna à geração que insulta

O Leão que magnânimo se entrega.

 

Ei-lo sentado em cima do rochedo,

Ouvindo o eco fúnebre das ondas,

Que murmuravam seu cântico de morte:

Braços cruzados sobre o largo peito,

Qual náufrago escapado da tormenta,

Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;

Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.

 

Que grande idéia o ocupa, e turbilhona

Naquela alma tão grande como o mundo?

 

Ele vê esses Reis, que levantara

Da linha de seus bravos, o traírem.

 

Ao longe mil pigmeus rivais divisa,

Que mutilam sua obra gigantesca;

Como do Macedônio outrora Império

Entre si repartiram vis escravos.

Então um riso de ira, e de despeito

Lhe salpica o semblante de piedade.

 

O grito ainda inocente de seu filho

Soa em seu coração, e de seus olhos

A lágrima primeira se desliza.

E de tantas coroas que ajuntara

Para dotar seu filho, só lhe resta

Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!

 

Ah! Tudo ele perdeu! A esposa, o filho,

A pátria, o mundo e seus fiéis soldados.

Mas firme era sua alma como o mármor,

Onde o raio batia, e recuava!

 

Jamais, jamais mortal subiu tão alto!

Ele foi o primeiro sobre a terra.

Só, ele brilha sobranceiro a tudo,

Como sobre a coluna de Vendôme

Sua estátua de bronze ao céu se eleva.

Acima d’ele Deus, - Deus tão somente!

 

Da Liberdade foi o mensageiro.

Sua espada, cometa dos tiranos,

Foi o sol, que guiou a Humanidade.

Nós um bem lhe devemos, que gozemos;

E a geração futura agradecida:

Napoleão, dirá, cheia de assombro.

 

Waterloo, 18 de Junho de 1836.

Soneto à Vista dos Belos Quadros do Sr. Manuel de Araújo Porto-Alegre

 

Que mágico pincel, mimo de Apolo,
Com muda locução, com vivas cores,
Faz da Pátria passar os Defensores
Desde o pólo do Sul do Norte ao pólo?

Quem tanto esmalta o Brasileiro solo?
Estes belos painéis, tão faladores
Mais encantos possuem que os Amores
Quando da terna mãe se erguem do colo.

Rafael do Brasil, eu te saúdo.
Tu serás entre nós das Belas Artes
Um novo vingador, um forte escudo.

Honra à Pátria não dão feroces Martes,
Mas Artistas quais tu! Elmano, eis tudo
Porque atroam do mundo as quatro partes.

Publicado no livro Poesias (1832).

 

O Dia 7 de Setembro, em Paris

 

Longe do belo céu da Pátria minha,
Que a mente me acendia,
Em tempo mais feliz, em qu'eu cantava
Das palmeiras à sombra os pátrios feitos;
Sem mais ouvir o vago som dos bosques,
Nem o bramido fúnebre das ondas,
Que n'alma me excitavam
Altos, sublimes turbilhões de idéias;
Com que cântico novo
O Dia saudarei da Liberdade?

Ausente do saudoso, pátrio ninho,
Em regiões tão mortas,
Para mim sem encantos, e atrativos,
Gela-se o estro ao peregrino vate.
Tu também, que nos trópicos te ostentas
Fulgurante de luz, e rei dos astros,
Tu, oh sol, neste céu teu brilho perdes.

(...)

Dia da Liberdade!
Tu só dissipas hoje esta tristeza
Que a vida me angustia.
Tu só me acordas hoje do letargo
Em que esta alma se abisma,
De resistir cansada a tantas dores.
Ah! talvez que de ti poucos se lembrem
Neste estranho país, onde tu passas
Sem culto, sem fulgor, como em deserto
Caminha o viajor silencioso.

Mas rápidos os dias se devolvem;
E tu, oh sol, que pálido me aclaras
Nestas longínquas plagas,
Brilhante ainda raiarás na Pátria,
E ouvirás meus hinos
Em honra deste Dia, não magoados
Co'os fúnebres acentos da saudade.

 

Ode à Despedida de Mr. J. B. Debret Regressando para França

 

Pela Pátria, e por mim a voz desprendo
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça

Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.

De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.

Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.

Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.

Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?

Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.

Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.

Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.

Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.

(...)

Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.

(...)

Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.

Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.

Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.

 

Apólogo: O Carro e o Burro

 

Um touro, não amestrado
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.

Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.

Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.

Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.

— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —

"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."

Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.

Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.

Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.

Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.

O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.

Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.

Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?

 

Entr'ato

(...)

"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.

"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.

"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício

"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.

(...)

"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!

(...)

 

O Anagrama

 

Dos vates a antiga usança
Quis respeitoso seguir,
Ensaiando em anagrama
Teu doce nome exprimir;
Mas a mente em vão se cansa,
No desejo que me inflama
Nada me vem acudir.

Não desistindo da idéia,
Volto a ela sem cessar;
Diversos nomes invento,
Sem nenhum poder achar,
Que seja nome de idéia,
E se preste ao meu intento,
Sem o teu muito ocultar.

Vendo alfim que não podia
Teu anagrama fazer;
Que quantos eu inventava
Nada queriam dizer;
Uma idéia à fantasia,
Quando já nada esperava,
Me veio enfim socorrer.

Foi idéia luminosa,
Direi quase inspiração,
Pois que senti de repente
Palpitar-me o coração.
Sua força imperiosa
Foi tal, qu'eu obediente
Dei-lhe pronta execução.

De papel em uma fita
Teu lindo nome escrevi;
Pondo as letras separadas,
Co'a tesoura as dividi.
Cada solta letra escrita
Enrolei, e baralhadas,
Numa caixinha as meti.

Tudo ao acaso deixando,
Da sorte o cofre agitei;
E tirando-as de uma em uma,
Uma após outra as tracei.
Oh prodígio! Oh pasmo! Quando
Esta maravilha suma
De um mero acaso esperei?

Já Urânia — escrito estava!
Foi Amor quem o escreveu!
Não, não foi obra do acaso;
Teu nome veio do céu!
Aquele — já — me ordenava
Que da Urânia do Parnaso
Fosse o nome agora teu.

Que para mim renascida
A Musa Urânia serás.
Que ao céu e a Deus minha mente
Tu sempre levantarás.
Musa real, não fingida,
Unida a mim ternamente,
Celeste amor me terás.