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FONTOURA XAVIER, CARVALHO JR. E AUGUSTO DE LIMA

Fontoura Xavier

Flor da Decadência

Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!

Na tumular mudez dum povo que descansa,

As criações do Sonho, os fetos da Esperança

Repousam no meu seio o sono derradeiro.

 

De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:

É mais uma ilusão, um féretro que avança...

Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa

Depois um som cavado — a enxada do coveiro!

 

Minh'alma, como o monge à sombra das clausuras,

Passa na solidão do pó das sepulturas

A desfiar a dor no pranto da demência.

 

— E é de cogitar insano nessas cousas,

É da supuração medonha dessas lousas

Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!

Pomo do Mal

Dimanam do teu corpo as grandes digitales,

Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!

Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,

Tu és a encarnação da síntese dos males.

 

No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,

A transbordar de amor como o prazer de um cálix

Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!

— Morder-te o coração como se morde um fruto!

 

Então, se dentro dele um mal que à dor excite

Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,

Eu beberia a dor nos estos do delírio!...

 

E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,

Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,

O poema da carne a dobres de martírio!...

 

CARVALHO JÚNIOR

Profissão de Fé

Odeio as virgens pálidas, cloróticas,

Beleza de missal que o romantismo

Hidrófobo apregoa em peças góticas,

Escritas nuns acessos de histerismo.

 

Sofismas de mulher, ilusões óticas,

Raquíticos abortos de lirismo,

Sonhos de carne, compleições exóticas,

Desfazem-se perante o p realismo.

 

Não servem-me esses vagos ideais

Da fina transparência dos cristais,

Almas de santa e corpo de alfenim.

 

Prefiro a exuberância dos contornos,

As belezas da forma, seus adornos,

A saúde, a matéria, a vida enfim.

 

 

AUGUSTO DE LIMA

 

O CÉTICO

“Percorro da ciência o labirinto,
e em tudo encontro um eco duvidoso:
matéria vã, espírito enganoso,
mentis, tudo é mentira, eu só não minto.

 

Vejo, é verdade, a vida e a vida sinto,
o calórico, a luz, a dor e o gozo,
a natureza em flor, o sol formoso
e o céu das cores da Aliança tinto.

 

Mas quem, senão eu mesmo, vê tudo isto?
e quem pode afirmar-me que eu existo,
visões celestes, velhas nebulosas?”

 

E em seu crânio a razão desponta e morre,
como o santelmo fátuo, que discorre
na solidão das minas tenebrosas.

(Contemporâneas, 1887.)

 

FLOR CARNÍVORA

A Lucindo Filho.

Há uma flor de lindo aspecto
e colorido brilhante,
cujo perfume fragrante
atrai ao cálix o inseto.

 

As asas fechando e abrindo,
este o mel nectáreo bebe,
no entanto a flor o recebe,
as pétalas contraindo.

 

Contrai-se e se abotoa,
e tanto os nervos constringe
que a corola o suor tinge
da seiva fecunda e boa.

 

E na rescendente cela
o aventureiro encerrado,
depois de a flor ter sugado,
ei-lo sugado por ela.

 

Tal a sorte da alma louca,
que atraída pelo gozo,
o doce filtro amoroso
vai beber em tua boca.

 

Pois és a imagem exata
da bela flor assassina,
que melifica e fascina,
perfuma, seduz e mata.

(Contemporâneas, 1887.)

 

(Apostila 17  de Realismo - Literatura Brasileira)