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MACHADO DE ASSIS - Poesias

 

ERRO

ERRO É TEU. Amei-te um dia

Com esse amor passageiro

Que nasce na fantasia

E não chega ao coração;

Não foi amor, foi apenas

Uma ligeira impressão;

Um querer indiferente,

Em tua presença, vivo,

Morto, se estavas ausente,

E se ora me vês esquivo

Se, como outrora, não vês

Meus incensos de poeta

Ir eu queimar a teus pés,

É que,—como obra de um dia,

Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras.

Tuas frívolas quimeras,

Teu vão amor de ti mesma,

Essa pêndula gelada

Que chamavas coração,

Eram bem fracos liames

Para que a alma enamorada

Me conseguissem prender;

Foram baldados tentames,

Saiu contra ti o azar,

E embora pouca, perdeste

A glória de me arrastar

Ao teu carro... Vãs quimeras!

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras...

ELEGIA

A bondade choremos inocente
Cortada em flor que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada dentre a gente.
CAMÕES


SE, COMO OUTRORA, nas florestas virgens,

Nos fosse dado—o esquife que te encerra

Erguer a um galho de árvore frondosa

Certo, não tinhas um melhor jazigo

Do que ali, ao ar livre, entre os perfumes

Da florente estação, imagem viva

De teus cortados dias, e mais perto

Do clarão das estrelas.

 

Sobre teus pobres e adorados restos,

Piedosa, a noite ali derramaria

De seus negros cabelos puro orvalho

À beira do teu último jazigo

Os alados cantores da floresta

Iriam sempre modular seus cantos

Nem letra, nem lavor de emblema humano,

Relembraria a mocidade morta;

Bastava só que ao coração materno,

Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,

Um aperto, uma dor, um pranto oculto,

Dissesse: —Dorme aqui, perto dos anjos,

A cinza de quem foi gentil transunto

De virtudes e graças.

 

Mal havia transposto da existência

Os dourados umbrais; a vida agora

Sorria-lhe toucada dessas flores

Que o amor, que o talento e a mocidade

À uma repartiam.

 

Tudo lhe era presságio alegre e doce;

Uma nuvem sequer não sombreava,

Em sua fronte, o íris da esperança;

Era, enfim, entre os seus a cópia viva

Dessa ventura que os mortais almejam,

E que raro a fortuna, avessa ao homem.

Deixa gozar na terra.

 

Mas eis que o anjo pálido da morte

A pressentiu feliz e bela e pura

E, abandonando a região do olvido,

Desceu à terra, e sob a asa negra

A fronte lhe escondeu; o frágil corpo

Não pôde resistir; a noite eterna

Veio fechar seus olhos

Enquanto a alma abrindo

 

As asas rutilantes pelo espaço.

Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,

Tal a assustada pomba, que na árvore

O ninho fabricou,—se a mão do homem

Ou a impulsão do vento um dia abate

No seio do infinito

O recatado asilo,—abrindo o vôo,

Deixa os inúteis restos

E, atravessando airosa os leves ares

Vai buscar noutra parte outra guarida.

 

Hoje, do que era inda lembrança resta

E que lembrança! Os olhos fatigados

Parecem ver passar a sombra dela

O atento ouvido inda lhe escuta os passos

E as teclas do piano, em que seus dedos

Tanta harmonia despertavam antes

Como que soltam essas doces notas

Que outrora ao seu contacto respondiam.

 

Ah! pesava-lhe este ar da terra impura

Faltava-lhe esse alento de outra esfera,

Onde, noiva dos anjos, a esperavam

As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flor da mocidade

Toda se esfolha sobre o chão da morte,

Senhor, em que firmar a segurança

Das venturas da terra? Tudo morre;

A sentença fatal nada se esquiva,

O que é fruto e o que é flor. O homem cego

Cuida haver levantado em chão de bronze

Um edifício resistente aos tempos

Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,

O castelo se abate,

Onde, doce ilusão, fechado havias

Tudo o que de melhor a alma do homem

Encerra de esperanças.

 

Dorme, dorme tranqüila

Em teu último asilo: e se eu não pude

Ir espargir também algumas flores

Sobre a lájea da tua sepultura;

Se não pude,—eu que há pouco te saudava

Em teu erguer, estrela,—os tristes olhos

Banhar nos melancólicos fulgores,

Na triste luz do teu recente ocaso,

Deixo-te ao menos nesses pobres versos

Um penhor de saudade , e lá na esfera

Aonde aprouve ao Senhor chamar-te cedo

Possas tu ler nas pálidas estrofes

A tristeza do amigo.

 

A LUZ

 

Eu sou a luz fecunda, alma da natureza;

Sou o vivo alimento à viva criação.

Deus lançou-me no espaço. A minha realeza

Vai até onde vai meu vívido clarão.

 

Mas, se derramo vida a Cibele fecunda,

Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor,

A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda.

Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.

 

AS ÁGUAS

 

Do lume da beleza o berço celebrado

Foi o mar; Vênus bela entre espumas nasceu.

Veio a idade de ferro, e o nume venerado

Do venerado altar baqueou: —pereceu.

 

Mas a beleza és tu. Como Vênus marinha

Tens a inefável graça e o inefável ardor.

Se paras, és um nume; andas, uma rainha.

E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor.

 

Chamam-te as águas, vem! tu irás sobre a vaga.

A vaga, a tua mãe que te abre os seios nus,

Buscar adorações de uma plaga a outra plaga.

E das regiões da névoa às regiões da luz!

 

AS SELVAS

 

Um silêncio de morte entrou no seio às selvas.

Já não pisa Diana este sagrado chão,

Nem já vem repousar no leito destas relvas

Aguardando saudosa o amor e Endimião.

 

Da grande caçadora a um solicito aceno

Já não vem, não acode o grupo jovial;

Nem o eco repete a flauta de Sileno,

Após o grande ruído a mudez sepulcral.

 

Mas Diana aparece. A floresta palpita,

Uma seiva melhor circula mais veloz;

É vida que renasce, é vida que se agita;

À luz do teu olhar, ao som da tua voz!

 

O POETA

 

Também eu, sonhador, que vi correr meus dias

Na solene mudez da grande solidão,

E soltei, enterrando as minhas utopias,

O último suspiro e a última oração;

 

Também eu junto à voz da natureza,

E soltando o meu hino ardente e triunfal,

Beijarei ajoelhado as plantas da beleza,

E banharei minh'alma em tua luz, — Ideal!

 

Ouviste a natureza? Às súplicas e às mágoas

Tua alma de mulher deve de palpitar;

Mas que te não seduza o cântico das águas,

Não procures, Corina, o caminho do mar!

 

ÚLTIMA FOLHA

 

MUSA, desce do alto da montanha

Onde aspiraste o aroma da poesia

E deixa ao eco dos sagrados ermos

A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam

 

Na amena tarde as virações perdidas,

Deixa cair ao chão as alvas rosas

E as alvas margaridas.

 

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio

Que nos esconde o céu. Inda no poente

Não quebra os raios pálidos e frios

O sol resplandecente.

 

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco

Abre-se, como um leito mortuário;

Espera-te o silêncio da planície,

Como um frio sudário.

 

Desce. Virá um dia em que mais bela.

Mais alegre, mais cheia de harmonias

Voltes a procurar a voz cadente

Dos teus primeiros dias.

 

Então coroarás a ingênua fronte

Das flores da manhã,—e ao monte agreste,

Como a noiva fantástica dos ermos

Irás, musa celeste!

 

Então, nas horas solenes

Em que o místico himeneu

Une em abraço divino

Verde a terra, azul o céu;

 

Quando, já finda a tormenta

Que a natureza enlutou,

Bafeja a brisa suave

Cedros que o vento abalo;

 

E o rio, a árvore e o campo,

A areia, a face do mar

Parecem, como um concerto

Palpitar, sorrir, orar;

 

Então, sim, alma de poeta,

Nos teus sonhos cantarás

A glória da natureza

A ventura, o amor e a paz!

 

 Ah! mas então será mais alto ainda;

Lá onde a alma do vate

Possa escutar os anjos,

E onde não chegue o vão rumor dos homens;

 

 Lá onde, abrindo as asas ambiciosas

Possa adejar no espaço luminoso,

Viver de luz mais viva e de ar mais puro

Fartar-se do infinito!

 

Musa, desce do alto da montanha

Onde aspiraste o aroma da poesia.

E deixa ao eco dos sagrados ermos

A última harmonia.

 

 

(Apostila 10 de Realismo - Literatura Brasileira)