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Quincas Borba - Machado de Assis - resumo

A História gira em torno da vida de Rubião, amigo e enfermeiro particular do filósofo Quincas Borba (personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas -1881). Quincas Borba vivia em Barbacena e era muito rico, e ao morrer deixa ao amigo toda a sua fortuna herdada de seu último parente.Trocando a pacata vida provinciana pela agitação da corte, Rubião muda-se para o Rio de Janeiro, após a morte de seu amigo, causado por infecção pulmonar.Leva consigo o cão, também chamado de Quincas Borba, que pertencera ao filósofo e do qual deveria cuidar sob a pena de perder a herança.

Durante a viagem de trem para o Rio de Janeiro, Rubião conhece o casal Sofia e Cristiano Palha, que logo percebem estar diante de um rico e ingênuo provinciano.Atraído pela amabilidade do casal e, sobretudo, pela beleza de Sofia, Rubião passa freqüentar a casa deles, confiando cegamente no novo amigo.

O casal acaba envolvendo Rubião, este apaixona-se por Sofia. Cristiano Palha ao saber da corte de Rubião à mulher, sente-se dividido entre dois sentimentos: o ciúme que tem da mulher que chega a fazê-lo pensar em atitudes radicais, e, por outro lado, sua dependência econômica de Rubião. Sofia astuciosamente consegue manter intactos, tanto o interesse de Rubião, quanto a fidelidade conjugal.

Cristiano Palha se destaca como um esperto comerciante e administra a fortuna de Rubião, tirando parte de seus lucros.

Por outro lado, a ingenuidade de Rubião torna-o presa fácil de várias outras pessoas interessadas e oportunistas, que se aproximam dele para explorá-lo financeiramente.

Aos poucos, acompanhando a trajetória de Rubião, percebe-se como funciona a engrenagem social da época. Como ocorre a disputa entre as pessoas, as lutas pelo poder político e pela ascensão econômica da época, dessa maneira, o romance projeta um quadro também bastante crítico das relações sociais da época. A Corte era a capital, o Rio de Janeiro, cuja a moda era ditada pela tendência Francesa.

Depois de algum tempo, Rubião começa a manifestar sintomas de loucura, que o levará à morte, a mesma loucura de que fora vítima o seu amigo, o filósofo Quincas Borba, de quem herdara a fortuna.

Arruinado, Rubião deixa de ser útil e é abandonado pela roda de parasitas que o cercava. Rubião acredita ser Napoleão III, num dado momento pede a um barbeiro que faça sua barba para que fique parecido com o busto de Napoleão III que tem na sua sala. Fantasia a realidade, fala sozinho na rua e, pouco a pouco, perde toda sua fortuna e também a razão. Palha e Sofia afastam-se cada vez mais e ele acaba sendo internado num asilo de onde foge para voltar à Minas, Barbacena. Morre lá em pleno delírio de grandeza, acompanhado de seu cão Quincas Borba e repetindo a máxima do humanitismo. O relacionamento de Rubião com o cachorro Quincas Borba é ambíguo, ás vezes, o cão aparece para ele como a encarnação do próprio filósofo, outras vezes, simboliza a vida simples da qual Rubião se afastara cada vez mais em sua nova situação social. Por outro lado, a variedade de tratamento a que Rubião submete o animal - do carinho ao aborrecimento - é também um símbolo da ambigüidade com que Rubião se move no mundo urbano.

Louco e explorado até ficar reduzido à miséria, o destino trágico de Rubião exemplifica a tese do Humanitismo. Seguindo a trajetória do Humanitismo, a filosofia inventada por Quincas Borba, de que a vida é um campo de batalha onde só os mais fortes sobrevivem. Os fracos e ingênuos, como Rubião, são manipulados e aniquilados pelos mais fortes e mais espertos, como Palha e Sofia, que no final, estão vivos e ricos, tal como dizia a teoria do Humanitismo. Esse Principio de Quincas Borba: nunca há morte, há encontro de duas expansões, ou expansão de duas formas.

"Ao vencedor às Batatas!", principio este, que marcou e é o enfoque principal do enredo.

- "Supõe-se em um campo e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentam somente uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutri-se suficientemente e morrerão de inanição. A paz, neste caso, é a destruição; a guerra, é a esperança. Uma das tribos extermina a outra recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se.

Ao vencido, o ódio ou compaixão... Ao vencedor, as batatas !"

 

 

 

ESTRUTURA NARRATIVA:

         Romance constituído de 201 capítulos curtos que apresenta a trajetória geográfica, econômica e social de RUBIÃO,  o ingênuo professor de meninos de Barbacena (MG) que passa a capitalista na Corte (RJ).

 

PONTO DE VISTA:

         O romance é narrado em 3a. pessoa por um narrador onisciente que a si próprio se identifica como sendo o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, isto é, o próprio Machado de Assis.

 

TEMPO E ESPAÇO:

         As ações  iniciam em Barbacena a partir de 1867, deslocam-se logo para o Rio de Janeiro e se encerram alguns anos depois no mesmo local em que se haviam iniciado.

PERSONAGENS:

RUBIÃO:

         É o personagem central, apesar do título. Rubião é um produto do acaso, do que resultam seu caráter indefinido e obscuro e sua perplexidade diante da realidade. Não tendo noção exata de como funciona o mundo, age por impulsos e sem coordenação, deixando-se levar pelos acontecimentos. Sua passagem fulminante de professor de mínimos em Barbacena a capitalista, como ele próprio se denomina, termina tragicamente, pois não tem as mínimas condições necessárias para enfrentar o salto social tornado possível pela riqueza inesperada. Sua ingenuidade ,adequada em Barbacena, transforma-se em algo como pretensão descabida na Corte, sendo então envolvido e, finalmente, destruído pelo mundo que o cerca.

         A incapacidade básica de Rubião entender o mundo transparece muito claramente no fato de nem chegar a perceber exatamente o sentido do aforismo de seu mestre- “Ao vencedor, as batatas; ao vencido, ódio  ou compaixão”- e na sua tendência de sonhar com coisas inatingíveis, do que a paixão por Sofia é o melhor exemplo.

QUINCAS BORBA:(Joaquim Borba dos Santos)

         Quincas Borba é o filósofo que ocupa reduzido espaço na narrativa, mas sua sombra se projeta continuamente sobre todo o romance. Personagem que oscila entre a grandeza e o ridículo, não é afetado, talvez por já ser rico, é claro, pelo desejo de ascensão social e procura explicar o mundo através de sua filosofia, baseada no princípio da Humanitas, levando-a ao extremo, a ponto de tratar seu cachorro como se fosse uma pessoa e dar-lhe seu próprio nome. Quem recebe a herança é o cachorro e não Rubião, seu depositário. Diante da morte, não entra em pânico, aceitando-a naturalmente, e diante da incapacidade de Rubião compreender suas teorias, também não se aflige, comportando-se como se sua verdade lhe bastasse.

SOFIA

         Vista às vezes como uma mulher de grande maldade, capaz de manobrar Rubião e demais pessoas que a cercam, no conjunto da obra Sofia aparece antes como personagem frágil, contraditória e incapaz de manter um comportamento coerente que não seja o de nova rica ansiosa por aparecer socialmente. A idealização de que é alvo por parte de Rubião não tem nada a ver com seu caráter arrivista deslumbrada, ansiosa pelo reconhecimento da opinião pública e pelo prestígio daí decorrente. Rubião sonha com ela, que, por sua vez, sonha com Carlos Maria. Conhecendo instintivamente as leis sociais, contudo, aceita ser guiada por Palha e, renunciando a qualquer comportamento verdadeiramente autônomo em termos pessoais, chega a liderar a “Comissão das Alagoas”, na qual, como “anjo de consolação” ao lado de “estrelas de primeira grandeza”, atinge o ápice de sua trajetória social.

PALHA

         É o perfeito homem de negócios. Administra seus bens com inteligência, nunca esquecendo que manter as aparências também é fundamental. Um pequeno capital inicial, um casamento socialmente bem-sucedido e relações influentes são a base a partir da qual opera com sucesso seus negócios mais ou menos honestos. A rigor, não chega a enganar diretamente Rubião. A ingenuidade e a total falta de controle deste é que favorecem inesperadamente seus planos de ascensão social, permitindo que sejam executados muito rapidamente. Um dos traços mais curiosos de seu caráter é o prazer que sente em exibir sua mulher publicamente, talvez como prova de posse, talvez como sinal de um desvio de comportamento sexual, sutil mas claramente insinuado pelo narrador.

CAMACHO

         O mais notável dos parasitas que cercam Rubião, cujas ilusões políticas alimenta, explorando-o sem qualquer disfarce e sem piedade. Encarna, como jornalista e aproveitador sem escrúpulos, o papel manipulador da imprensa da época, que aparece no romance como um veículo privilegiado de promoção pessoal de parasitas habilidosos.

CARLOS MARIA

         Protótipo do tipo urbano que já sedimentou ao longo das gerações sua posição social, faz de seu pedantismo e afetação armas que lhe conquistam admiração e prestígio. Sem uma personalidade forte, guia-se pelo que é correto socialmente e jamais comete erros, como bem o demonstra seu comportamento em relação a Sofia.

O CACHORRO

         Possivelmente o animal mais famoso de toda a ficção brasileira, Quincas Borba está presente ao longo de toda a obra. Para Rubião, ele representa uma espécie de encarnação do filósofo falecido, o que torna sua presença incômoda. Por outro lado, o animal parece representar os valores que os personagens humanos já perderam: a fidelidade e a constância. Do que é prova sua morte, poucos dias após o falecimento de Rubião.

 

ENREDO:

         Debruçado a uma janela de sua casa no bairro do Botafogo no Rio de Janeiro, Rubião medita sobre, que de simples professor em Barbacena, Minas Gerais, elevara-o  a capitalista. Uma série de acontecimentos mais ou menos fortuitos preenchera o espaço entre estes dois pontos fundamentais de sua vida.

         Quando ainda em Barbacena, Rubião, então professor de uma escola de meninos, possuía uma irmã, Maria da Piedade. Em determinado momento chega à cidade Joaquim Borba dos Santos, mais conhecido como Quincas Borba, estranha figura de “mendigo, herdeiro inopinado e inventor de uma filosofia”. Imediatamente, apaixona-se pela irmã de Rubião mas, apesar do completo apoio deste, é recusado pela viúva, que em seguida morre. Rubião torna-se, então, o único amigo de Quincas Borba,  que no passado tivera muitos parentes na cidade, entre os quais um tio, o qual ao morrer deixara-lhe todos os bens. Quando Quincas Borba adoece, seu amigo fecha a escola de meninos para tornar-se seu enfermeiro.

         Enquanto cuida do enfermo e ouve deste a exposição dos princípios gerais que norteiam a filosofia da Humanitas, na mente de Rubião vai se insinuando aos poucos a idéias de uma possível herança. Na verdade havia

motivos para tal esperança, já que Quincas Borba possuía, além de Rubião, como único amigo um cachorro, ao qual fora dado o mesmo nome do dono.

         A tensão de Rubião aumenta progressivamente a partir do momento em que, depois de fazer seu testamento, sem revelar-lhe o conteúdo, Quincas Borba decide viajar para o RJ, onde finalmente morre na casa de seu amigo Brás Cubas. Aberto o testamento, Rubião aparece como o herdeiro universal dos bens do falecido, sob uma única condição: a de cuidar do cachorro. Como não vê qualquer dificuldade em cumprir a exigência, Rubião empolga-se com a herança e, sentindo-se seguro e rico, escolhe para lema de sua vida a frase “Ao vencedor, as batatas”.  Esta frase de seu amigo falecido, que a usava como fecho de uma parábola que, para ele, continha o resumo de todos os princípios básicos da filosofia da Humanitas. Na parábola, duas tribos lutam pôr um campo de batatas, que significa a sobrevivência de quem o ocupar. E Rubião vê na herança recebida o correspondente às batatas da tribo vencedora.

         Assim, também vencedor, parte de trem para o RJ, levando em companhia Quincas Borba, o cachorro. Na estação de Vassouras sobem ao mesmo vagão Cristiano de Almeida Palha e sua mulher Sofia, com os quais Rubião imediatamente trava conhecimento. Já instalado no RJ, Palha começa sutilmente a insinuar-se  na vida de Rubião e este passa a sentir-se atraído por Sofia, o que o levaria ao desastre final.

         No momento, contudo, debruçado à janela de sua casa no Bairro do Botafogo, Rubião deixa de meditar sobre os estranhos caminhos de seu destino e vai ver como está Quincas Borba, ao qual, cumprindo rigorosamente o testamento, dedica cuidados especiais. Isto não impede, contudo que, certa ocasião, prenunciando o descaso a que relegaria aos poucos lhe aplique um pontapé, atitude que é símbolo das transformações que começam a afetar o protagonista.

         De fato, à medida que o tempo passa, a cidade vai  tecendo em volta do ingênuo professor(ex) a teia da qual não poderá mais livrar-se e que o levará à destruição.

         Os abalos que atingem Rubião procedem, especialmente, de dois lados: o amor, personificado na bela Sofia e o poder, representado pôr Camacho.

         A atração que Sofia lhe despertara no primeiro encontro, em Vassouras, permanece gravada em sua alma. A tal ponto que, por ocasião de uma festa na casa de Palha, Rubião, sem medir conseqüências, vai com ela para o jardim e, sob o luar da noite, declara-lhe seu amor. Sofia adota uma posição ambígua diante do fato inesperado. De um lado fica satisfeita e, de outro, assusta-se, uma vez que pretende manter intacta a imagem de fidelidade ao marido. Logo que pode conta ao marido o acontecido e propõe o rompimento de relações com Rubião - mas sem muita convicção Palha é invadido por sensações contraditórias. Contudo, seus interesses econômicos acabam prevalecendo. Aos poucos, marido e mulher tornam-se cúmplices com o objetivo comum de explorar Rubião.

         Agindo por impulsos, sem qualquer racionalidade, Rubião não tem condições de administrar a grande fortuna que herdara por obra do acaso. Sua casa torna-se um antro de parasitas, entre os quais desponta Camacho, um político fracassado, que edita o jornal Atalaia, veículo de promoção pessoal e manipulação da opinião pública. Rubião se deslumbra e começa a sonhar com o poder. Camacho, habilmente, usa tal deslumbramento para obter vantagens e consegue fazer de Rubião um dos sócios de seu jornal.

         O amor e o poder tornam-se miragens que estreitam Rubião à margem de um precipício. Sofia apaixona-se por  Carlos Maria, figura típica de galanteador, e Rubião passa a ver nele seu rival. Os sonhos de ascensão política com que acenava Camacho terminam obviamente em nada e Palha, depois de aproveitar-se do dinheiro de Rubião, desfaz a sociedade que com ele montara. Enquanto a fortuna herdada de Quincas Borba se evapora e a insanidade começa a tomar conta da mente do protagonista, em torno deste a vida segue seu ritmo. Indiferente à tragédia, Carlos Maria acaba casando com Maria Benedita, uma prima de Sofia. Tonica, a eterna solteirona, que uma vez tentara aproximar-se de Rubião, consegue encontrar um noivo, mas este morreu três dias antes do casamento. Os negócios de Palha progridem a olhos vistos, e ele passa a formar, com Sofia, um casal rico e  elegante, em cuja casa reúne-se a melhor sociedade da época. E os ministérios sobem e caem, alimentando e fraudando sonhos políticos. O mundo segue o seu curso.

         Paralelamente, os delírios de Rubião tornam-se cada vez mais graves e prolongados. Certa ocasião, manda vir da França os bustos de Napoleão I e III, passando a identificar-se com o último. Diante da notoriedade adquirida pela loucura do ex-sócio. Palha vê-se obrigado a arranjar-lhe uma casa junto ao mar, na qual Rubião passa a morar em companhia do cachorro e de um empregado. O cachorro - no qual um dia pensara encontrar-se a alma do outro Quincas Borba, o falecido filósofo que legara a herança - permanecera a seu lado, apesar do descaso a que aos poucos fora relegado.

         Depois de algum tempo, Rubião é recolhido a uma casa de saúde. Certo dia, manda chamar Palha e lhe comunica, num momento de extrema lucidez, que resolvera deixar o local. Em seguida desaparece, reaparecendo

em Barbacena, acompanhado do cachorro e repetindo incansavelmente: “Ao vencedor, as batatas”. Faminto e febril, é recolhido, juntamente com o cachorro, por uma sua comadre, em cuja casa vem a falecer. Antes, porém, durante  a agonia, “pegou em nada, levantou nada e cingiu nada”, para coroar-se imperador e repetir ao meio o aforismo de seu mestre: “Ao vencedor.....”.  Logo a seguir o cachorro adoece também e três dias depois amanhece morto no rua.

         Enquanto isto, no alto dos céus, as estrelas continuavam indiferentes ao destino dos homens.

 

COMENTÁRIO CRÍTICO

         Unanimamente considerado como uma das obras-primas da ficção brasileira e colocado em destaque entre as cinco principais obras de M. A. ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e O alienista - Quincas Borba nunca deixou de estar em evidência ao longo de quase um século de sua publicação, enfrentando, assim, as vicissitudes críticas comuns à obra machadiana.

         Diante da inegável importância da ficção de M.A. e de sua fluidez, que recusa qualificativos e teorias e, não raro, monta armadilhas para análises  que pretendem ser totalizantes, a crítica, ao longo do tempo, reagiu das mais variadas formas. Alguns censuravam em M.Assis a falta de um compromisso mais direto com a realidade, posição que, de pernas para o ar, acabou na visão, muito em voga até recentemente, segundo a qual sua obra possuía tal universalidade que tornava impossível referi-la a um contexto histórico. Outros, numa posição que também fez fortuna, destacaram na obra machadiana a atmosfera do humour, nascido de uma fusão de tristeza e enfado diante da vida. Este seria o Machado de Assis filósofo.

         A visão biografista, aplicada a outros romancistas da época, também atingiu o autor de Quincas Borba. Ao tentar explicar a obra a partir da vida do autor, o biografismo, no caso de M.A., chegou ao extremo de considerar seu humour, o  já citado desencanto diante da vida que transparece em suas obras, como resultado de sua recusa em assumir a condição de mulato. Neste sentido, a visão de mundo presente na obra machadiana seria o produto de um desejo intenso, frustrado em virtude da barreira representada pela consciência da própria cor, de arianização social e branqueamento ideológico. Como em todos os casos, tal interpretação biografista não vai além de uma observação sobre o autor - que pode até ser verdadeira,  mas que é sempre dispensável - e nada diz especificamente sobre a obra.

         Nas últimas décadas, a crítica machadiana tendeu a tomar outra direção, orientando-se decididamente no sentido de uma análise profunda da obra em si e dando especial atenção aos elementos históricos e sociais nela contidos. E então não foi difícil perceber que, ao contrário do que faziam supor muitas posições críticas até ali sustentadas, M. A. apresenta com extrema profundidade e de maneira bastante explícita a sociedade carioca das últimas décadas do século XIX, expondo claramente sua estrutura de classes e seus mecanismos de poder.

            Nos últimos anos, esta visão histórica da obra Machadiana, acentuou-se ainda mais. Assim, nesta perspectiva, a incapacidade de ação, o pessimismo existencial, a crise de identidade e mesmo a loucura que caracterizam os personagens mais importantes do mundo ficcional de M.A. seriam o símbolo de um país econômica e culturalmente dependente e dirigido por uma elite colonizada e sem perspectivas históricas diante da maré montante do liberalismo industrial/capitalista europeu, que minara, ao longo da segunda metade do século, a última das grandes formações sociais escravistas do planeta.

         Como se pode observar, a própria diversidade das interpretações dá bem a medida daquela que talvez possa ser considerada a mais importante das características do mundo ficcional de M.A. e da galeria de seus grandes personagens: o caráter esquivo e ambíguo que parece exigir e, ao mesmo tempo, repelir todos os enquadramentos teóricos.

         No que diz respeito a Quincas Borba, as análises mais recentes tendem a centrar sua atenção sobre a trajetória social do personagem central sua atenção sobre a trajetória social do personagem central. Rubião, o que possibilita valorizar adequadamente a minuciosa e profunda, se bem que sutil, descrição que M.A. faz da sociedade brasileira do II Império e, de forma mais específica, da sociedade do RJ da segunda metade do século XIX. Deixando de lado ou reduzindo em importância questões que haviam se tornado verdadeiros lugares-comuns em qualquer discussão sobre o romance - como, por exemplo, o pessimismo do autor/narrador, os princípios filosóficos de Quincas Borba e a maldade de Sofia - modernamente procura-se mostrar que a valorização exacerbada de certos elementos extraídos do contexto geral da obra leva a verdadeiras armadilhas teóricas que se estendem indefinidamente, não dão resultados concretos e, pior, desviam a atenção dos temas verdadeiramente essenciais.

         Nesta perspectiva, a descrição da sociedade brasileira - isto é, o RJ - do II Império e a exposição de certos mecanismos que a faziam funcionar não são menos importantes que a história pessoal do protagonista. Pelo contrário, á até possível dizer que a trajetória de Rubião, o professor que, pôr um golpe de sorte, tornara-se capitalista, é uma espécie de argumento utilizado por M.A. para justificar a necessidade de expor o todo social. De fato, a ingenuidade e o despreparo de Rubião se revelam a partir do momento em que, rico por obra do acaso, decide viver na Corte e tornar-se socialmente tão importante quanto era economicamente. Neste confronto, Rubião é destruído pelos mais hábeis, numa comprovação das teorias de seu grande mestre-filósofo, Joaquim Borba dos Santos. Inversamente, contudo, o protagonista pode ser visto como um vencedor à revelia, pois sua loucura e morte desvelam as leis fundamentais que regem a sociedade que o destrói: a mentira e o parasitismo social e econômico. Leis, aliás, das quais ele próprio é produto e possui certa consciência, pois no momento em que se sabe provável herdeiro de uma grande fortuna mostra-se disposto até a trapacear para não perdê-la.

         Como na parábola de seu mestre a respeito das tribos em luta pelo campo de batatas, ele é, simplesmente, o menos hábil. Daí resulta sua destruição.

 

(Apostila 11 de Realismo - Literatura Brasileira)