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O Choque das Raças ou O Presidente Negro - Monteiro Lobato - (resumo)

O Choque das Raças ou O Presidente Negro foi publicado em 1926 em folhetins no jornal carioca A Manhã. Este livro tinha o subtítulo “romance americano do ano 2228”.

A história é narrada por Ayrton, funcionário da firma paulista Sá, Pato & Cia., que depois de um acidente de carro, é iniciado na revelação do futuro por Jane, filha do professor Benson, cuja invenção - o porviroscópio - lhe permite devassar o futuro. Jane, numa série de sessões domingueiras, revela ao espantado mas entusiasta Ayrton os episódios que envolvem a eleição do 88.° presidente norte-americano. Três candidatos disputam os votos: o negro Jim Roy, a feminista Evelyn Astor e o presidente Kerlog, candidato à reeleição. A cisão da sociedade branca em partido masculino e feminino possibilita a eleição do candidato negro. Perante o fato consumado, a raça branca engendra uma típica “solução final”: a esterilização dos indivíduos de raça negra, camuflada num processo de alisamento de cabelos.

Paralelamente a esta narração, o romance focaliza o amor de Ayrton por Jane, e a missão literária do moço: escrever um romance daquilo que lhe narrava.

 

Trecho:

XII - A Simbiose Desmascarada

(...)

Do outro lado o senhor Kerlog, presidente em exercício e candidato à reeleição, só via possibilidade de êxito se obtivesse o concurso de Jim, como sucedera no pleito anterior.

As melhores estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de votos, ao Partido Feminino 51 e meio e à Associação Negra, contados os votantes de ambos os sexos, 54 milhões. A próxima eleição dependeria pois exclusivamente da atitude do grande negro.

-Mis Evelyn Astor! - exclamei. - Lindo nome. Já me estou simpatizando por essa criatura, que talvez esteja no meu próprio calcanhar. Havia de ser linda, não?

-De fato, nessa criatura habilíssima, rica de todos os dotes da inteligência, da cultura e da maquiavélica sagacidade feminina, se juntava um elemento perturbador, novo no jogo político presidencial: a sua rara beleza física.

Embora, graças á vitória de eugenia, fosse regra a beleza, em vez de exceção como hoje, mesmo assim a formosura de Miss Evelyn Astor se destacava de modo obsedante. Ninguém a defrontava sem sentir-se envolvido por uma aura de harmonia transfeita em força de dominação.

Em todas as épocas as mulheres dotadas de beleza sempre dominaram, atrás dos tronos como favoritas, na sociedade como cortesãs, no lar como boas deusas humanas, mas sempre por intermédio do homem - o désposta, o amante, o marido, detentores em sua qualidade de machos de todas as prerrogativas sociais. No futuro a dominação da beleza feminina não se fará mais por intermédio do macho. Era da Harmonia, a beleza se tornará uma força pura, como pura expressão que é da harmonia.

Nesse ano de 2228 já a mulher vencera o seu estágio de inferioridade política e cultural, conseqüência menos duma pretensa inferioridade do cérebro, como dizia Miss Elvin...

-Mis Elvin?

-Esperre. Menos de uma pretensa inferioridade de cérebro do que de uma organização cerebral diversa da do homem e, portanto, inapta a produzir o mesmo rendimento quando submetida ao mesmo regime de educação. Miss Elvin... Como está assanhado o senhor Ayrton! Não se contentou com a mulher futura que já lhe dei, Mis Astor, e que outra?

Que ilusão a de Miss Jane! Eu queria apenas, de todas as mulheres passadas, presentes e futuras, uma só - a que me falava naquele momento, tão alheia às emoções burbulhantes em meu coração...

 

(Apostila 13 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)