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Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá - resumo - Lima Barreto

Em Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, o narrador Augusto Machado propõe-se a traçar um esboço de biografia de seu dileto amigo Gonzaga de Sá, um velho já bastante grisalho, bacharel em letras pelo Imperial Colégio Dom Pedro II, solteirão e voltariano, religioso sem deixar de ser cético, antimonástico e maníaco por balões.

Em sua narrativa, porém, vai alternando o relato biográfico com suas próprias reflexões sobre a vida e os homens. O tom é reminiscente e cheio de ternura pelo amigo Gonzaga, morto quando se abaixava para colher uma flor, numa tarde em que ele e o narrador se encontraram no Passeio e se distraíram pela cidade.

Entre os papéis do amigo falecido, Augusto Matraga encontra, numa página perdida de papel almaço, o que considera ser a teoria filosófica de Gonzaga de Sá, ou seja: a idéia de que só o acaso decide sobre a sorte das coisas. O exemplo do texto de Gonzaga é o do inventor de uma máquina de voar que passa anos e anos montando minuciosamente o seu engenho e que se decepciona no momento de fazer o aparelho subir, pois um mero lance do acaso retém a máquina no chão.

Gonzaga afinal era, ele mesmo, um homem sem ilusões, frio e espirituoso. Despreocupado da notoriedade, evitou doutorar-se, para fugir à hipocrisia das solenidades de praxe. Contentou-se em não passar de mero funcionário da Secretaria dos Cultos, para que assim lhe sobrasse mais para estudar. Tinha de fato uma verdadeira febre de conhecimento procurando manter-se sempre atualizado. Através de árduas pesquisas, cultivava uma visão crítica de seu tempo, lendo tudo o que lhe caía nas mãos. Para que pudesse ler e estudar, evitou o casamento e manteve-se propositalmente distante do êxito profissional, afastando-se, assim, das obrigações mundanas.

Augusto Machado vai recolhendo as impressões críticas desse sábio anônimo das ruas do Rio de Janeiro e, através de seu esboço de biografia ficamos sabendo que, para Gonzaga, havia muitas coisas erradas na nossa terra. Desde algumas mais simples, como a nossa insuficiência nas artes do desenho, até as mais graves, como “a nossa estúpida mania da aristocracia”m o preconceito com relação aos negros, o elitismo e, sobretudo, a injustificada idolatria pelo “doutor”.

Gonzaga fazia questão de fugir daquilo que ele chamava “essa gente de Petrópolis”, e orgulhava-se de ser parte integrante do povo mais humilde que se formou na nossa terra: “eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafusos e seus ‘galegos’ também.”

Por isso, talvez, passava os momentos de folga andando no meio do povo, perambulando pelos bairros populares. Havia nele, é certo, alguma nostalgia do passado, uma espécie de busca do espaço perdido da infância e dos tempos felizes de moço, mas Gonzaga é o primeiro a apontar a causa social na modernização arquitetônica do Rio de Janeiro. Sente, já no começo do século, o isolamento entre os bairros, “a falta de penetração mútua” entre os pobres e os ricos.

Sob esse aspecto, é um cético que se apieda e se enternece pelos indivíduos tomados em sua sorte isolada. Um cético que tem opiniões bem práticas acerca do barão do Rio Branco, que, segundo ele, havia transformado o Rio de Janeiro em sua chácara particular, distribuindo o dinheiro do Tesouro como bem entendia.

Através das reminiscências de Augusto Machado, ficamos sabendo também que Gonzaga de Sá deplorava a comercialização da cultura, a linguagem descuidada dos jornais e os falsos intelectuais reformadores que só sabiam mostrar o radicalismo de suas convicções nas mesas dos cafés.

No fundo, Gonzaga era o intelectual que tinha consciência de seus privilégios: longe de confortá-lo, a educação que recebera marcava-o como um estigma, fazendo-o sofrer, fabricando desejos que se frustravam.

Essa consciência se agravava diante da miséria e do analfabetismo daqueles que eram explorados e “viviam sob o aguilhão dos deveres”, a ponto muitas vezes de torná-lo cínico e indiferente em face das soluções possíveis. Gradativamente, vai se resignando, encolhendo-se diante da opressão e da injustiça. Aos poucos, começa a achar que a única saída para os oprimidos estava na morte. “A morte tem sido útil.. toda civilização resultou da morte”, dizia, cultivando a partir daí a idéia de que o intelectual não deve, com suas teses, conspurcar a pureza dos ingênuos.

Já então admitia abertamente que só o sofrimento engrandecia o homem, transferindo para o nível da conjetura utópica a plena realização de um entendimento concreto entre as pessoas.

Antônio Arnoni Prado

 

(Apostila 12  de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)